JOSÉ Augusto Moita!

Quando um mesmo corpo ocupa dois lugares ao mesmo tempo no espaço

 

ACONTECEU comigo. Vou explicar.

Foi no tempo em que fazia jornada dupla, como bancário e bodegueiro.

Vítima que fora nos anos noventa da política neoliberal dos tucanos, que praticaram a política de arrocho salarial mais nefasta que esse país de mãe preta e pai joão já viu, tive que me virar. Meu salário de empregado concursado de uma empresa pública desapareceu num passe de mágica, de repente passei a ganhar menos da metade do que ganhava, coisa de louco.

Então vendi o carro e compramos uma kombi; vendi o apartamento da praia, compramos um ponto comercial, e fomos nos aventurar pelas trilhas sombrias do capitalismo no velho ramo dos secos e molhados.


Daí o tirinete era o seguinte: acordava às três da madrugada para ir à Ceasa e voltava antes de abrir a loja às sete a fim de deixar tudo mais ou menos em ordem, e pegar no expediente da CEF às dez. Aí seriam seis horas na bateria de caixa , como caixa executivo, com intervalo de uma hora para o almoço. Depois, às dezessete, voltava ao comércio para só fechá-lo às dezenove.


Nessa época eu utilizava o meu intervalo do almoço na empresa para tirar o intervalo do almoço do empregado que trabalhava no caixa do nosso mercado de frutas, verduras e cereais. Por sorte que ficava a uns trezentos metros da agência, na mesma avenida, e rapidinho eu chegava lá. Aí ele saía para o sagrado direito dele de repouso e alimentação (mesmo vilipendiado por mim em alguns minutos), e eu ficava o substituindo no caixa, quando entre o atendimento de um freguês ou outro, comia um sanduíche ou uma fruta e me dava por devidamente almoçado e descansado, pronto para retornar ao restante do meu expediente (na Caixa).


Pois bem, numa dessas transmutações entre empresas diferentes e funções iguais, acabei de atender a uma mulher jovem na CEF antes da minha hora de almoço, coloquei a plaquinha de “encerrado” e corri para substituir nosso funcionário. Lá chegando, ele saiu, e passei a fazer o serviço dele.


Chega uma freguesa, pede uma carteira de cigarros, registro a compra, ela me paga, passo-lhe o troco. Então ela fica de boca aberta me olhando completamente lívida.


— O que houve , senhora, algum problema no seu troco? Indago eu.


— Não, não… Disse ela com aquele ar de quem viu uma alma.


— Então o que está havendo? A senhora não se sente bem?


— Não, não…num é nada não, é que o senhor é a cara do caixa do banco. Nunca vi uma coisa dessa! Quer ver, vá lá dar uma olhada.  O homem é a sua cara, é nessa agência aqui da Caixa… — apontando para o caminho pelo qual nós dois tínhamos vindo em velocidades distintas.

 

O AUTOR e principal personagem do caso acima é José Augusto Moita, um ex-colega de farda que, por essas peças que a vida prega nos viventes, acabou por seguir outro caminho. Continue lendo

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WALTER Valentim Moreira!

WALTER Moreira e eu 1990

Fotografia histórica. Aqui ao meu lado em companhia de nossa sobrinha Stéphanie

 

CREIO que todos nós, tendo mais de um irmão, tenhamos maior afinidade com um deles em especial. Não se trata de desmerecer os demais, por evidente. É óbvio que estimamos a todos, aos quais só desejamos o bem.

Mas vamos ao meu caso.

Somos cinco irmãos, dos quais eu vim por primeiro a este mundo. Em seguida chegou o Walter e mais tarde nossa única irmã, a Antônia. Depois mais dois garotos: o Manoel Júnior e o Levy, o caçula da família.

Com certeza por termos convivido por mais tempo, tenho maior identificação com o Walter, que é apenas dois anos e meio mais jovem que eu. Nossa convivência foi mais estreita justamente em razão das idades próximas.

É exatamente esse irmão querido que nesta data especial completa mais um ano de vida. São agora 55 aninhos bem vividos.

WALTER Moreira

Nossa convivência, apesar de ter se restringido ao período da infância foi muito saudável. E é por esse detalhe, além das múltiplas qualidades pessoais de que meu irmão é possuidor, que eu estimo de maneira especial o meu amigo, irmão e companheiro Walter Valentim Moreira.

Walter é um sujeito alegre, divertido e brincalhão. Indivíduo responsável, além de bom filho e excelente pai e esposo. Geralmente quem possui tantas qualidades, certamente também é um profissional exemplar, além de contar com tantos amigos leais, porque as virtudes se estendem a todos os ambientes e situações e as verdadeiras amizades são naturais.

Aquela época, década de 1970, na nossa infância de meninos pobres, com certeza foi o melhor período de nossas vidas. Acredito que o nosso mais marcante período de convivência tenha sido exatamente quando, por ordem paterna, viajávamos para o interior do Pará. Nosso pai era agricultor e seu ofício principal se constituía em cultivar mandioca a fim de produzir a saborosa farinha de mandioca, ingrediente indispensável na culinária paraense. Diante disso, obedientes íamos ajudá-lo nas tarefas diárias, de onde o senhor Manoel Valentim Moreira tirava o nosso sustento.

Pode parecer ironia, mas, ao contrário da maioria dos outros garotos, exatamente no período de férias escolares íamos nós, já que nosso pai contava com mais dois braços (ainda que braços infantis) para as tarefas rotineiras, que eram plantar, colher, transportar o produto em lombo de cavalo, e mais tarde ajudar no preparo.

Enfim, uma trabalheira danada.

Apesar disso, nós não nos importávamos. Ao contrário, nós nos divertíamos, porque aquilo tudo para nós era um lazer, uma quebra de rotina. Naquele contato salutar com a natureza, andávamos a cavalo — com alguns coices e quedas –, tomávamos banho de igarapé (pelados, porque não tínhamos a maldade de adultos). Ao final do dia e início da noite, íamos à casa de nosso avô para que o velho contasse a todos seus divertidíssimos causos e aí dávamos boas gargalhadas. Éramos felizes.

Oh vida boa, meu Deus!

Ainda hoje relembramos as brincadeiras de infância dentre os episódios que marcaram a nossa infância, e minha mente não me deixa esquecer do Cabo Velho, da velha Idália e também do folclórico velho Damião, o matador de onças.

Quen, quen, quen… Quem disse que pinguim não sabe voar?!”

 

Walter e família

Aqui ao lado de Lídia, sua esposa, e suas belas filhas Vanessa e Valéria

 

Essa era uma delas, expressões inocentes que fazíamos com os braços imitando o andar de um pinguim enquanto falávamos. Era uma alusão ao vilão do Batman, dos anos 60 e 70, seriado de tevê que não perdíamos.

Coisas de garotos na melhor época da nossa vida.

Mas, como diz o velho adágio popular, tudo que é bom dura pouco. E essa felicidade para mim findou quando, já adolescente, tive que migrar para Guaratinguetá, a fim de ser incluído na Aeronáutica. Walter ficou, em companhia de minha mãe e de meus irmãos.

Aliás, ainda outro dia parei para pensar no seguinte: Walter foi o único que jamais se separou de nossa mãe, hoje com seus quase oitenta aninhos de idade. Sim. Além de mim, minha irmã Antônia, ainda que por período curto, morou por certo período na Inglaterra; meu irmão Manoel Jr., também por obrigações laborais, obrigou-se a morar em Marabá por algum tempo; e Levy, seguindo a minha carreira profissional, veio a ingressar na Marinha do Brasil, permanecendo afastado por isso longos anos da casa materna.

É a vida, com suas vicissitudes, que acaba por nos separar, levando a cada um de nós a trilhar seu caminho em busca do ganha-pão.

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Outra rara fotografia em que todos os irmãos estão reunidos ao lado da matriarca da família. Da esquerda para a direita: Walter, Júnior, dona Maria, Antonia, eu e Levy

 

Parabéns, meu irmão. Deus te abençoe abundantemente e em igual à tua família, continua sendo esse amigão e companheiro de sempre.

Mãe e filhos

Júnior, dona Maria, Antônia e Walter

 

Nós te esperamos aqui no Paraná dezembro próximo, querendo o bom Deus.

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Ao lado da matriarca, dona Maria, de quem jamais se apartou

 

Obrigado por ser esse grande irmão e amigo.

L.s.N.S.J.C.! 

MARINA Colasanti!

Eu sei mas não devia

MARINA Colasanti1

 

Marina Colasanti (fonte: Internet)

 

EU SEI que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. Continue lendo

FUNÇÕES gratificantes!

DURANTE minha carreira na Força Aérea Brasileira conquistei algumas vitórias.

Não, não vou aqui aludi a comendas, elogios e tapinhas nas costas. As vitórias maiúsculas que conquistei foram as realizações gratificantes quando, no exercício de minhas funções, conseguia ajudar as pessoas que procuravam nossos serviços e assessoramento.

Nutria um carinho todo especial pelos meus auxiliares, desde a época em que era sargento novinho.

Graduei-me sargento especialista com apenas dezoito anos. Logo que cheguei a Anápolis, tive a honra de assumir o cargo de chefe da Seção de Alterações (chefe era apenas uma denominação pomposa, na realidade). Lá de imediato, ficaram sob minha supervisão um cabo, quatro S1 e outros tantos S2. Era um matraquear infernal de máquinas de escrever.

Desde então foi assim, com raras exceções. Tratava a todos com urbanidade e em troca obtinha deles a colaboração espontânea e efetiva, com o respeito que não era o imposto pelas frias letras do regulamento disciplinar. O respeito era recíproco, como deve ser na vida.

Ainda como sargento, como prêmio pelos bons serviços prestados, contemplava a quem fizesse por merecer com alguns dias a mais nas férias, conforme na minha escala de valores considerasse merecedor de recompensa. Fazia isso por minha conta sem que os chefes e comandante interferissem ou mesmo disso tivessem conhecimento. Se alguma coisa desse errado, era a minha cabeça que estava ali sob a espada.

Mantive a mesma conduta como oficial na Base Aérea de Belém. Infelizmente, pelo pouco tempo em que lá passei e por outras razões alheias à minha vontade, não pude proceder da mesma forma no 2º Cindacta (Curitiba, PR).

SOUTO sargento

Segundo-sargento Souto e sua filha (fonte: Facebook)

 

Despachava alguns documentos nessa tarde, já passados alguns minutos do final do expediente, quando chegou à bandeja de entrada uma mensagem-rádio. Trabalhava nessa época como interino no cargo de comandante do EP (Recursos Humanos, na terminologia atual) e o documento referia-se ao cabo Marcelo Souto. O Cb Souto havia sido meu auxiliar no período em que passei no Controle Interno da OM, comportando-se como elemento trabalhador, daqueles que raramente saia depois da formatura de verificação de presença da tarde, qualidade que sempre apreciei, além de, é óbvio, outras virtudes apresentadas no período em que esteve sob a minha chefia.

Peguei o telefone e, falando em tom grave, o chamei imediatamente à sala que eu ocupava então. Veio correndo, preocupado com o que seria. Não pedi que se sentasse na cadeira. “Leia esse documento, cabo”, tratei-o com formalidade militar. Souto leu o radiograma e então, quase às lágrimas, não conseguia falar de tanto embaraço emocional.

Tratava o documento de sua convocação para o curso de sargento especialista. A mensagem dava-lhe as instruções e o prazo para se apresentar na Escola de Especialistas de Aeronáutica, em Guaratinguetá, São Paulo.

E eis que o tempo passa e, a meu exemplo, também ele encaminha uma de suas filhas para a mesma carreira.

Passaram-se os dias, meses e anos, e o atual sargento Souto não esqueceu do episódio. E isso para mim é deveras gratificante. Parabéns, segundo-sargento Marcelo Souto do Amaral.

Vitória! Vitórias!!

L.s.N.S.J.C.! 

DÉLIO Gonçalves Rocha!

DÉLIO hoje

 

Délio hoje (fonte: Blogue do Valentim)

 

COM a massificação do computador pessoal vieram também as redes sociais, que permitem a todos participarem mais diretamente dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos do país, emitindo suas opiniões e ideias. É pelas redes sociais que, igualmente, todos nós passamos a conhecer um pouco de cada um, na medida em que, emitindo suas opiniões, ideias e conceitos, acabam por revelar um pouco de si mesmos. O álcool revela o caráter, já dizia Chaplin. As redes sociais, de certa forma, também o fazem.

Esse novo comportamento social nos permite saber, ao menos fazer ideia, da personalidade do indivíduo, porquanto sabemos — e a Psicologia bem pode explicar — que, por trás da aparente anonimidade de uma tela de computador, busca-se o seu igual (em ideias e opiniões), ao mesmo tempo em que se procura levar as suas ideias de forma a que estas busquem outras pessoas que pensem igual ao emissor. Busca-se igualmente influenciar a terceiros para que se convençam de que nossas ideias são as certas. Buscamos, pois, os que pensam igual a nós, para que, sendo muitos, venham a modificar o pensamento de outrem.

Imunes, porém, a tais interferências, acabamos por traçar um perfil do internauta. Conforme suas postagens e compartilhamentos, sabemos de sua personalidade. Existe aquele que quer, por força, impor suas ideias do campo político partidário; há quem queira disseminar suas crenças e valores religiosos; existe também o indivíduo que almeja exaltar seu clube de futebol, não sem denegrir seus adversários. Circulam também os que preferem a sátira ou mesmo o escárnio.

Isso provoca polêmicas, contendas e conflitos. Amizades se perdem por conta dessa questão.

Muito ainda teríamos a falar a tal respeito, no entanto não é esse exatamente o ponto a que buscamos chegar.

Todavia, há o campo oposto. Existem os que fazem o bom uso das redes sociais.

DÉLIO G Rocha - aluno

 

Na Escola de Especialistas, 1977 a 1979 (fonte: Arquivo pessoal)

 

E é esse o caso a que buscamos exaltar aqui.

Dentre tantos amigos virtuais de hoje e de antes, queremos nesta página destacar um: Délio Gonçalves Rocha.

Convivemos com o Délio com mais proximidade no período compreendido entre agosto de 1978 e julho de 1979. Nesse interregno, participamos do mesmo ambiente escolar, que foi o período do ensino especializado da Escola de Especialistas de Aeronáutica, época que aqui fizemos referência na postagem “A Fina Flor da Juventude Brasileira“.  Foi um tempo bom em que pudemos conhecer um pouco mais do ser humano cuja convivência ali compartilhávamos, nós, aqueles vinte jovens de várias origens e distintas culturas.

Depois da Escola, nunca mais nos vimos. Nestes últimos anos por obra do uso, do bom uso, das redes sociais, no entanto, voltamos a travar convivência, embora virtual.

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Foto para a Revista de formatura (fonte: O Especialista em Revista)

 

Deixamos claro que não se trata esta postagem de uma homenagem por alguma data especial. Não é seu aniversário, nem outro qualquer evento significativo de sua vida que mereça festas, abraços e tapinhas nas costas. Nada disso. Trata-se aqui de se fazer justiça, de se reconhecer as virtudes do homem, independente de calendário. É muito fácil atacar, tecer comentários demeritórios ou mesmo ignorar a outrem; o comportamento oposto também deveria ser usual.

Sendo assim, de forma espontânea, sem nenhuma motivação particular ou interesse, postamos aqui nestas páginas o nosso reconhecimento público por essa figura singular.

Trata-se pois de um lorde, um cavalheiro na melhor acepção que tais palavras expressem. Uma vez formado pela Escola, Délio, como todos nós, seguiu sua vida profissional, familiar e acadêmica. Possuidor de uma intelectualidade acima da média, concluiu seu curso universitário de Odontologia, por meio do qual mais tarde galgou o oficialato, passando nessa função por todos os postos até chegar ao nível de oficial superior da Aeronáutica. No meio acadêmico não estagnou com a graduação, buscando o conhecimento científico nos seus graus mais elevados.

É o que sabemos dele por meio das redes sociais.

O conhecimento do jovem do final da década de 1970, aliado ao conteúdo expresso por ele nas redes sociais, permite-nos pois traçar um perfil, a revelarmos uma faceta positiva e humana de sua figura.

Ao contrário de tantos, nosso amigo não se deixa levar pelas polêmicas. Com sua intelectualidade, aliada aos modos de autêntico cavalheiro e cristão, sabe muito que bem que as polêmicas — como já dissemos antes — levam às contendas, estas aos conflitos, culminando na inimizade gratuita. Assim, em vez de as redes sociais cumprirem seu papel de unir, acabam por conduzir à cizânia, afastando-nos uns dos outros. Contrariamente a essa tendência nefasta, Délio a utiliza para trazer-nos mensagens positivas, tais como o amor à natureza, edificantes palavras de amor cristão, propostas de ensinamento da língua pátria, profícuas noções de outros idiomas e outras postagens afirmativas.

Pouco ou nada sabemos de sua vida pessoal, porquanto a vida particular é assunto de foro íntimo. Mas se decidisse compartilhar seus sentimentos mais recônditos, nada lhe teríamos a censurar. É possível que, como a maioria dos brasileiros, tenha um time de futebol de simpatia, mas nada revela. Com certeza possui as suas ideias e convicções no campo político-partidário, no entanto é lícito nada postar a respeito até porque é ciente das paixões estéreis. Pratica sua crença religiosa, no entanto suas postagens a respeito são edificadoras, respeitosas, ecumênicas, nada tendo a divergir das pessoas quem pensam diferente.

Délio, portanto, limita-se às mensagens de amor cristão que levem a utilidade, passando ao largo de assuntos perniciosos. Trata-se de um construtor de pontes e demolidor de muros.

Semelhantes observações nos permitem supor que o nosso amigo, não tivesse trilhado os caminhos que a vida lhe ofereceu, certamente faria o seu melhor em qualquer outra área de exercício humano.  Fosse um juiz de direito, haveria de praticar a boa justiça com equanimidade em que não separaria preceitos jurídicos da bondade para com a sociedade e indivíduos; fosse um parlamentar ou dirigente público, não deixaria de zelar pelas necessidades populares com a probidade e seriedade que as coisas públicas exigem; fosse um jogador de futebol, brindaria o público executando perfeitamente todos os fundamentos com a maestria de um Pelé, Messi ou outro grande astro do esporte bretão; fosse ele um profissional menos valorizado pela sociedade, exerceria sua profissão com dignidade e dedicação.

Receba, meu amigo Délio, os cumprimentos deste amigo, pois sabemos que os títulos e dignidades nada significam para o homem se não vierem acompanhados da bondade, do amor e do respeito pelo semelhante. São essas as qualidades que reconhecemos no amigo.

Paz e bem!

L.s.N.S.J.C.! 

PAULO Leminski!

Por falar em tortura

PAULO Leminski

Paulo Leminski (Fonte: Internet)

 

HÁ MUITOS modos de se torturar uma criança. Pode-se, por exemplo, fazer uma fogueira com todos os seus brinquedos, e obrigá-la a assistir a cena. Esse era o método favorito entre os mongóis, que entendiam de tortura infantil como poucos. Um outro modo muito eficiente também é chegar, de repente, e dizer para a criança: “Tua mãe morreu”. Salvo casos raros, como o do imperador Nero, essa técnica dá resultados lancinantes. Os russos preferem métodos mais sutis. Para torturar uma criança, eles enchem um quarto escuro com as obras completas de Marx, Engels, Lenin e Stalin e deixam a criança lá dentro por 24 horas. Os americanos, mais pragmáticos, preferem levar a criança até um parque de diversões e dizer: “Titio vai comprar pipoca”. E nunca mais aparecer. Soube-se de casos em que pais ou responsáveis deixaram seus filhos ouvindo Frank Zappa, a todo volume, por horas a fio, tortura preferida pelos pais contraculturais dos anos 60. Continue lendo

O LEÃO e a hiena!

 

UMA DAS diversões da minha infância era assistir pela televisão aquelas séries de desenhos animados, inesquecíveis para um quase cinquentão como eu. Um de meus preferidos era um leão e uma hiena. Lippy era o leão, e Hardy, a hiena. Detalhe: Hardy era uma hiena que nunca ria, uma hiena pessimista. Viviam na cidade, sempre famintos. Lippy e Hardy, como é normal nos desenhos animados, desde as fábulas de Jean De La Fontaine, eram animais antropomórficos, ou seja, andavam como gente, falavam como gente, enfim agiam como gente. E, igual a maioria (dos humanos), viviam na cidade, para onde migraram, naturalmente expulsos pelo homem de seu habitat: a selva.

Os bichos personificavam o comportamento humano, sendo no fundo uma crítica à sociedade humana, principalmente a americana e seu ‘American Way of Life’, que copiamos por aqui no hemisfério sul. Lippy, um eterno otimista; Hardy, sempre pessimista – ou realista, conforme a ótica de cada um. Seu bordão predileto era assim: ‘oh dia, oh vida, oh azar’, ou então ‘nunca sairemos daqui com vida’, ou ainda ‘morreremos de fome’. Ao passo que Lippy sempre tentava confortá-lo, dizendo: ‘sossegue, Hardy, logo encontraremos comida’. Às vezes completava: ‘nem que tenhamos de fazer uma coisa horrível: trabalhar’.

Há no contexto outras facetas, somente visíveis a olhos adultos, mais experimentados, o que não era o nosso caso, que somente estávamos à procura de diversão ingênua, indiferentes aos problemas dos adultos. No seu íntimo, os autores, ainda que inconscientemente, queriam mostrar uma questão, que naquela época sequer era mencionada: a ecologia. Ecologia, naquela década, já distante, uma coisa impensável – não era moda –, quando o assunto maior era a guerra do Vietnã, e ainda os movimentos pacifistas ‘paz e amor’ dos hippies. Claro, a ideia reinante de progresso era derrubar árvores e construir estradas e prédios. Campos e selvas eram coisas inesgotáveis, para que se preocupar com isso?

Pela moral da série de desenho animado, com a invasão das matas pelo predador bicho-homem, os bichos (presas) tinham de buscar comida, já tão escassa, e com isso acabavam por invadir as cidades, arriscando-se, e o resultado era uma série interminável de perseguições e situações difíceis, vivenciadas pelos nossos heróis, Lippy, o leão, e Hardy, a hiena, que ao final sempre sobreviviam. E hoje ainda é comum nas estradas vermos raposas, tatus ou camaleões esmagados pelas rodas dos caminhões e automóveis.

Emblemática, e igualmente invisível aos nossos olhos infantis, era a simbologia ali embutida naqueles dois animais. De um lado, um leão, forte, imponente – ainda que, por estar como um peixe fora d’água, vivesse em condição humilhante na cidade –, significando comportamentos positivos como a força, a temperança, a altivez, a persistência, virtudes louvadas no ser humano. Em contraponto, a hiena, animal necrófago, repugnante, covarde, aproveitador que se alimenta dos restos deixados pelo leão e outros animais selvagens. Na sociedade ocorre a mesma coisa, convivendo pessoas dos mais diversos tipos de conduta, vícios e virtudes. A hiena evidenciando a fraqueza moral, incluindo aí a apatia e o pessimismo, comportamentos tão comuns no bicho-homem. Na selva de pedra, a exemplo da hiena, o homem, em significativa parcela, de certa forma também se alimenta de restos, restos que ele mesmo produz. Aproveita-se da força de trabalho alheia, explorando maquiavelicamente o seu semelhante. Alguma dúvida até aqui? O que dizer da criança pedindo esmola nos semáforos, cena degradante tão comum nas cidades grandes? O que dizer da prostituição infantil e das propagandas de bebidas, que mostram sorrisos e rostos e corpos bonitos? De certa forma, a sociedade acaba sobrevivendo dos restos. Continue lendo