CLÁSSICOS do Valentim

Chico Buarque: Minha História

 

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente

Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido cada dia mais curto

Quando enfim eu nasci minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se fosse assim uma espécie de santo
E por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré

Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor

Minha história é esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome Menino Jesus

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LIMA Barreto!

O Homem que Sabia Javanês

LIMA Barreto

EM UMA CONFEITARIA, certa vez, ao meu amigo Castro contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.

O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!

— Só assim se pode viver… Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado!

— Cansa-se; mas não é isso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.

— Qual! Aqui mesmo, meu Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês?

— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:

— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte:

“Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc”.

Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir, mas entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi.

Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.

A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.

Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu “a-b-c” malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

— Breve… Espere um pouco… Tenha paciência… Vou ser nomeado professor de javanês, e… Por aí o homem interrompeu-me:

— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem.

— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

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MACHADO de Assis!

Maria Cora

machado

(Continuação da postagem de 30nov2017)

CAPÍTULO IV

NÃO importa dizer o tempo que despendi nos inícios da minha paixão, mas não foi grande. A paixão cresceu rápida e forte. Afinal senti-me tão tomado dela que não pude mais guardá-la comigo, e resolvi declarar-lha uma noite; mas a tia, que usava cochilar desde as nove horas (acordava às quatro), daquela vez não pregou olho, e, ainda que o fizesse, é provável que eu não alcançasse falar; tinha a voz presa e na rua senti uma vertigem igual à que me deu a primeira paixão da minha vida.

— Sr. Correia, não vá cair, disse a tia quando eu passei à varanda, despedindo-me.

— Deixe estar, não caio.

Passei mal a noite; não pude dormir mais de duas horas, aos pedaços, e antes das cinco estava em pé.

— É preciso acabar com isto! exclamei.

De fato, não parecia achar em Maria Cora mais que benevolência e perdão, mas era isso mesmo que a tornava apetecível. Todos os amores da minha vida tinham sido fáceis; em nenhum encontrei resistência, a nenhuma deixei com dor; alguma pena, é possível, e um pouco de recordação. Desta vez sentia-me tomado por ganchos de ferro. Maria Cora era toda vida; parece que, ao pé dela, as próprias cadeiras andavam e as figuras do tapete moviam os olhos. Põe nisso uma forte dose de meiguice e graça; finalmente, a ternura da tia fazia daquela criatura um anjo. É banal a comparação, mas não tenho outra Continue lendo

FELIZ aniversário, Bebezinho!

Alice Maria completa hoje seu terceiro aniversário

1-17-Alice Bagunça

HÁ três anos numa manhã de segunda-feira chegou ao Planeta nossa princesa real Alice Maria. Desde então foram festas e arte — bastante arte — em nosso lar. Muita alegria, pela qual só agradecemos ao bom Deus por esse inestimável presente, essa menina tão inteligente, que Ele nos concedeu.

1-02-Alice ao nascer

6-07-Alice

Obrigado, Senhor!

MACHADO de Assis!

Maria Cora

Machado início

UMA noite, voltando para casa, trazia tanto sono que não dei corda ao relógio. Pode ser também que a vista de uma senhora que encontrei em casa do comendador T… contribuísse para aquele esquecimento; mas estas duas razões destroem-se. Cogitação tira o sono e o sono impede a cogitação; só uma das causas devia ser verdadeira. Ponhamos que nenhuma, e fiquemos no principal, que é o relógio parado, de manhã, quando me levantei, ouvindo dez horas no relógio da casa.

Morava então (1893) em uma casa de pensão no Catete. Já por esse tempo este gênero de residência florescia no Rio de Janeiro. Aquela era pequena e tranqüila. Os quatrocentos contos de réis permitiam-me casa exclusiva e própria; mas, em primeiro lugar, já eu ali residia quando os adquiri, por jogo de praça; em segundo lugar, era um solteirão de quarenta anos, tão afeito à vida de hospedaria que me seria impossível morar só. Casar não era menos impossível. Não é que me faltassem noivas. Desde os fins de 1891 mais de uma dama, — e não das menos belas, — olhou para mim com olhos brandos e amigos. Uma das filhas do comendador tratava-me com particular atenção. A nenhuma dei corda; o celibato era a minha alma, a minha vocação, o meu costume, a minha única ventura. Amaria de empreitada e por desfastio. Uma ou duas aventuras por ano bastavam a um coração meio inclinado ao ocaso e à noite.

Talvez por isso dei alguma atenção à senhora que vi em casa do comendador, na véspera. Era uma criatura morena, robusta, vinte e oito a trinta anos, vestida de escuro; entrou às dez horas, acompanhada de uma tia velha. A recepção que lhe fizeram foi mais cerimoniosa que as outras; era a primeira vez que ali ia. Eu era a terceira. Perguntei se era viúva.

— Não; é casada.

— Com quem?

— Com um estancieiro do Rio Grande.

— Chama-se?

— Ele? Fonseca, ela Maria Cora.

— O marido não veio com ela?

— Está no Rio Grande Continue lendo

AMANHÃ os pássaros cantarão!

Luzes da Cidade

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HÁ ARTISTAS que não morrem jamais; suas obras são eternas e nunca serão esquecidas. É o caso do imortal Charles Spencer Chaplin, com sua extensa e magnífica obra, que legou à humanidade por meio das telas de cinema.

Charlie (um hipocorístico de Charles, que ele costumava usar e pelo qual era mais conhecido) fez de quase tudo no cinema. Foi escritor, ator, diretor, dançarino, músico, roteirista e empresário. Assim, ele próprio escreveu, atuou, dirigiu, compôs música, cantou, produziu e financiou seus próprios filmes. Também foi, juntamente com mais três personalidades famosas de Hollywood, fundador da companhia de cinema United Artists, hoje sob controle da MGM. Consta que tenha sido também talentoso enxadrista.

O britânico é, sem nenhuma dúvida, o maior nome do cinema mundial, o mais homenageado cineasta de todos os tempos, um cidadão do mundo, como o próprio Charlie se considerava.

Pois bem!

Nesta mesma semana estava a rever pela enésima vez a película clássica “Luzes da Cidade“, de 1931, mais uma obra imortal do genial Chaplin. Nessa época o cinema mudo já se encontrava em declínio, vez que há quatro anos, com “O Cantor de Jazz”, o mundo entrava na era do cinema falado. Não obstante, o filme foi um campeão de bilheterias.

Sim. Porque há obras de arte que precisam e merecem ser vistas ou lidas por mais de uma vez. E no caso dessa extraordinária película não é suficiente ver uma ou duas, mas toda uma existência. Não está presente nela apenas a comédia em si mesma — como se isso fosse pouco, pois, como diz o adágio popular, rir é o melhor remédio. Há em “Luzes da Cidade”, além do riso e da mera diversão, a mensagem, a poesia, o lirismo, o onírico, cabendo à subjetividade poética do expectador captá-las.

Por essas razões — também — as obras de Chaplin me encantam; por tais motivos merecem ser apreciadas pela vida inteira. E a cada vez que se aprecia tal beleza de arte, a poesia e o sonho, como que em mágica, se reapresentam, revelando-se cada vez de uma faceta diferente da anterior, mostrando ai expectador maravilhado uma nova silhueta ou perfil .

São clássicos e os clássicos não morrem jamais.

O enredo gira em torno do Vagabundo, que, como sempre, por não ter onde morar, vagueia pela cidade, dormindo em qualquer lugar e comendo do que conseguir. Numa tarde uma florista cega acaba por confundi-lo com um milionário, resultando que Carlitos se apaixona por ela, e, por não ter coragem de desfazer a ilusão da moça, acaba se passando por um homem de classe social abastada. À noite, ele acaba salvando do suicídio um homem bêbado,  um magnata, que lhe oferece eterna amizade. “Amigos para sempre”, diz o agradecido, ébrio, infeliz e desmemoriado ricaço. O milionário, que acaba de ser abandonado pela esposa, leva o Vagabundo para casa, e de lá, após condignamente trajados, para um elegante clube de danças, onde Carlitos, por não estar acostumado a ambientes ricos, acaba por protagonizar várias trapalhadas, além de transgredir as regras.

CHARLIE Chaplin - Carlitos

Ocorre, porém, que, na manhã seguinte, ao acordar sóbrio, o poderoso não o reconhece, mandando que seu mordomo expulse Carlitos da casa:  “Quem é esse aí, que eu não conheço?”

O mundo está povoado de gente volúvel. O ser humano se comporta em função de seu estado de ânimo, alterando sua forma de agir ou mesmo de pensar conforme as variações de humor. No caso, a ingestão do álcool provoca sensíveis mudanças de comportamento nas pessoas. Continue lendo

MALBA Tahan!

Mustafá, o servo leal


(Continuação da postagem de 10nov2017, O burro amarelo, bem burro e bem amarelo)

ALLAHUR abkbar! (Deus é grande!) Retomo, agora a minha narrativa já mais de uma vez interrompida. A lenda do “Burro amarelo, bem amarelo”, referida com tanta eloquência e oportunidade pelo erudito calculista Zoraik, foi ouvida em meio do maior silêncio. Duas ou três vezes assaltou-me o desejo de interpelar o narrador e isso acontecia sempre suas palavras feriam pontos delicados de nossa doutrina. Contive-me, porém, e conservei-me imóvel e silencioso, como um túmulo, entre o bom cego e o mestre-escola.

Coube a Zualil, o egípcio, que era, na verdade, o caid el-markahn, a grata incumbência de fazer o elogio do narrador. O nosso amigo, pondo-se de pé rapidamente, ajeitou o turbante,meditou alguns instantes de mãos na cintura, com desembaraço e simpatia, e assim falou:

— É fácil coroar com rutilantes elogios as narrativas que nos divertem, educam e encantam. Tal é o caso da lenda do “burro amarelo”, que acabamos de ouvir. Envolve sábios conceitos, inesquecíveis ensinamentos e judiciosas conclusões. Leva-nos a meditar sobre terríveis malefícios da cegueira espiritual que, embora não atinga os olhos, fecha para sempre o coração. Aquele que não enxergar, por ter cegado para o mundo, tropeça pelas estradas; aquele que é obliterado pela cegueira espiritual, e repele a Lei divina, não pode ter paz na vida, e rola pelos abismos do desespero. Guiemos os cegos de espírito pelas veredas do bem e da verdade. O guia para eles será a salvação. Quero finalizar esta rápida apreciação recordando os versos de um cego – versos nos quais o poeta exalta o poder do amor materno:

Não choro a minha cegueira

Choro a falta do meu guia;

Minha mãe, quando era viva,

Eu era um cego que via

E as palavras de Zualil tinham aquela consonância agradável que o leve sotaque egípcio tornara mais sugestiva.

— Que lindos versos! — comentei alçando a voz para que todos me ouvissem. — E terão, como as encantadoras trovas da “Flor da Saudade”, a força mágica que pertuba os homens?

— força mágica? — estranhou Zualil arregalando os olhos — Qahyat en-nébi! Como descobriste força mágica em meus versos?

Era meu dever esclarecer a dúvida. Recapitulei, portanto, ao egípcio, com todas as minúcias, o singular episódio que ocorrera quando voltávamos da casa do corretor Bechara. Contei que um jovem, pobremente vestido, aceitara o convite para ouvir a lenda das “Sete pontas do quadrado”. Exigira, apenas, como pagamento duas fatias de pão. E vinha o mendigo, muito tranquilo a meu lado, quando me ouviu declamara os versos da “Flor da saudade”:

Saudade, flor que desperta

Tristeza no coração;

Saudades do que se foram

Dos que não voltam mais não!

Com palavras mal articuladas, indagou o rapaz qual era o autor daqueles versos. Respondi como devia, pois não me pareceu justo ocultar a verdade. Operou-se, nesse instante, a força mágica dos versos. O desconhecido atirou por terra o turbante e fugiu a correr como um louco. E tal foi o ímpeto de sua fuga que julgamos impossível tentar evitá-la.

A revelação daquele caso — que para nós não passava de um banal acidente de rua — causou em Zualil um abalo indescritível. Cobriu-se-lhe o rosto de alegria. Todo seu corpo tremia. Tive a impressão de que a tatuagem que lhe cobria o dorso da mão esquerda tornara-se mais azulada.
Sacudiu-me pelo ombro com convulsiva energia e interpelou-me febricitante, numa agiração que só um ataque de loucura poderia justificar:
— Que rapaz foi esse? É mesmo certo que fugiu ao ouvir o meu nome? Onde estava? Ualalu! Quero saber a verdade! O rapaz era moreno? Trazia um punhal na cintura? Como estava vestido?
Assediado pelas aflitivas perguntas do egípcio, senti-me confuso e estonteante. O mestre-escola veio em meu auxílio, e com a maior calma, como se estivesse diante de um discípulo, forneceu ao conturbado egípcio todos os informes exigidos.
Ocorreu, nesse momento, uma cena inesperada que nos deixou no espírito indelével lembrança.

Zualiu, com a face iluminada de intensa alegria, perdeu a compostura e pôs-se a pular nomeio da sala e a gritar como um possesso agitando os braços:

— Estamos ricos! Louvado seja o sapientíssimo! Estamos ricos!
Havia no estupendo homem o que quer que o arrebatava da realidade para o mundo fictício das alegrias estonteantes.
— Infeliz amigo! — deplorei com sincera lástima — Assaltou-o perigoso ataque de demência! Ouve falar da fuga de um mendigo e conclui que vai receber todas as riquezas do gênio de Aladim!
Olhei para o mestre-escola, para o calculista e para o botânico. Li nas fisionomias que todos eles compartilhavam da minha opinião em relação ao estado mental do egípcio. O cego não se moveu. Permaneceu como estava, sentado no tapete, com a cabeça baia apoiada nas mãos.
Ao notar a estranheja com que recebíamos as suas exaltadas manifestações de alegria, achou Zualil que era seu dever esclarecer aquela cena que tivera por origem a “Flor da saudade”. Passeou a mão pela fronte, pelos olhos e impando de satisfação, contou-nos o seguinte:
— As informações que ouvi dos amigos trouxeram-me a convicção de que esse jovem que fugiu desatinadamente ao ouvir o meu nome — revelado por causa dos versos — é o meu servo Mustafá. Como já tive ocasião de contar, em Damasco, sob ameaça de morte, confiei todos os meus haveres a Mustafá e ordenei que seguisse para o Iraque. Combinamos um encontro em certo recanto desta cidade; não nos foi possível, porém, comparecer no dia marcado, e desencontrei-me do homem que conduzia o meu tesouro. Passaram-se muitos meses. Nunca mais o encontrei. Julguei-o morto ou desaparecido. Já havia perdido a esperança de recuperar toda a minha fortuna quando sou avisado de que Mustafá se acha nesta cidade e que foi informado de meu paradeiro. É certo que, dentro em pouco, virá procurar-me.
— Deixemos de sonhos e devaneios — objetei com um gesto incrédulo — Não creio que Mustafá apareça nesta casa! Admitamos que era ele, precisamente, o mendigo que vimos fugir pela estrada. Pela situação miseranda em que o encontramos, faminto e andrajoso, implorando fatias de pão, não devia trazer consigo tesouro algum! é lá admissível que um homem que tem em seu poder várias dezenas de rubis e mancheias de brilhantes, passe privações pelas estradas de Bagdá!? A verdade é outra. Mustafá fugiu porque não desejava avistar-se com o seu amo. Não pretende prestar contas do tesouro que lhe foi confiado.
Zualil franziu o rosto numa negação e recriminou sem titubear, resforçando-se por ser claro e decidido:
— Duvidas da integridade e das boas intenções de Mustafá? Não acreditas na lealdade do humilde servo? A fuga é perfeitamente justificável. No momento em que recebeu a notícia de minha presença nesta casa, trazia em seu poder o cinto que contem as gemas preciosas. Sem revelar o segredo, correu para ir buscá-lo. Para maior segurança, deixara o tesouro bem oculto em lugar secreto. Fiquem certos de que dentro de alguns momentos ele aparecerá aqui.
E já mais calmo, sempre confiante, o egípcio prosseguiu com gesto bem composto:
— Grandes males advém para o mundo da falta de mútua confiança entre os homens. Esforcemo-nos por acreditar naqueles que nunca fizeram por desmerecer de nossa confiança. Evitemos os juízos temerários; as suposições caluniosas e infundadas.  Arranquemos de nossos corações todas as suspeitas, inveja e rancor e tudo mais que possa abalar a caridade e diminuir o amor fraterno.
E, depois de ligeira pausa, acrescentou sem se dirigir a nenhum de nós:
— Logo que Mustafá chegue, entrarei na posse de todo meu tesouro e serei um dos homens mais ricos desta cidade. Quero, pois, demonstrar que sou generoso com os amigos.
Dirigindo-se ao matemático Dorak, declarou jubiloso com um clarão de simpatia na face:
— Vais receber, meu amigo, quinze mil dinares-ouro e vinte camelos de boa raça. O mesmo presente darei ao mestre-escola, ao preclaro botânico e ao cego que nos acompanhou!
E a seguir voltou-se para mim e disse avigorando a frase com intencional demora:
— Ao dono desta casa, que tão gentilmente me acolheu, oferecerei, como prova de minha gratidão, trinta mil dinares-ouro e quarenta camelos de boa raça. O dobro precisamente! Lembras-te do que te disse? Estás com a baraka! A fortuna veio ao teu encontro!

Aquele homem singular, que na realidade nada tinha de seu, imaginava-se riquíssimo e distribuía promessas de ouro por todos nós. Era de admirar a delicadeza de sua sensibilidade e o incomparável primor de seu idealismo.

Fez-se largo silêncio.

De repente, o cego ergueu-se às apalpadelas e declarou, num gesto de espanto, com voz trêmula:

— Atenção, meus amigos! Alguém acaba de chegar! Ouço passos no jardim!

Corri alvoroçado para a porta que tinha serventia para o jardim, descerrei-a e olhei para fora.

O quadro que caiu sob meus olhos deixou-me estarrecido.

Junto à escada, com sua djalaba esfrangalhada, de joelhos, com o busto inclinado e apoiando as palmas das mãos na terra, estava o jovem que fugira de nós pela estrada. Era Mustafá, o servo fiel. Magro, andrajoso, rosto macerado por grandes sofrimentos, a sua figura inspirava piedade. A cair de fome, exausto de fadiga, viera restituir o tesouro que o xeique o havia encarregado de guarda. O olhar de suas pupilas fundas era o único ponto animado de sua fisionomia quase enegrecida pelo sol do deserto.

Não me ocorrem aqui palavras com que possa descrever a alegria de Zualil. Vimo-lo atirar-se aos braços de Mustafá e chorar como uma criança.

Aquela cena deixou-nos emocionados.

O mestre-escola, sempre sereno e judicioso, ponderou que seria mais acertado limitar, naquele momento, as expansões naturais de alegria. Fazia-se mister, no primeiro momento, socorrer o famélico Mustafá antes que o keif da jornada o abatesse para sempre.

E assim fizemos. Merecia o dedicado servo as nossas atenções. Procurei cercá-lo de todas as honras, pois pesava-me na consciência o feio crime de ter duvidado de sua inquebrantável lealdade.

Aquele jovem era, para mim, uma autêntica figura de lenda. Atravessara o deserto, enfrentara os tremendos gasus, livrara-se dos beduínos e aventureiros, sofrera inenarráveis privações, mas não esmorecera e não claudicara, num só momento, no cumprimento do dever.

Depois de reconfortado com fina e abundante merenda, retirou Mustafá o cinto que trazia oculto sob a túnica. Continha o prodigioso cinto, pela sua parte interna, lindíssima coleção de rubis e brilhantes. Aquelas gemas, vendidas em Bagdá, dariam mais de duzentos mil dinares.

Como eram lindas aquelas pedrinhas vermelhas! Pareciam gotas de sangue cristalizadas. Era um prazer segurá-las e senti-las pesar na concha da mão.

O único que não desejou sopesar as pedras preciosas foi o cego.

Disse afinal Mustafá, dirigindo-se placidamente a seu amo, o xeique Zualil:

— Infelizmente não me foi possível trazer a coleção completa. Fui obrigado a desfazer-me de um rubi. Trago aqui oitenta e nove, quando na realidade, ao partir para Damasco, havia recebido noventa.

— Não importa! sobreveio atencioso o egípcio — Seria irrisório tomar-se em consideração tão insignificante perda. É possível até que tenha se desprendido durante a viagem.

Fim!