QUARENTA anos da Turma!

Porque a vida continua aos 40!

 

(BLOGUE do Valentim em 27jul2017)

A IMPORTÂNCIA da formação especializada

NUMA de nossas postagens (Facebook) foi largamente comentado sobre a extinção a EOEIG e o consequente prejuízo sofrido pelo graduado (suboficiais e sargentos) que nutria pretensões de galgar o oficialato. Não lembro bem quando formou a última turma, se 1982 ou 1983. Ora, antes com cinco anos de formado o sargento especialista – de qualquer especialidade – tinha a oportunidade de tentar a matrícula na antiga EOEIG. Uma vez matriculado, sairia de lá como aspirante, podendo chegar a tenente-coronel.
Esse direito nos foi tolhido com o fechamento da antiga Escola.
Ora, a Força se ressentiria largamente da ausência de oficiais especialistas, como os fatos vieram a provar. Como comentou um colega, pareceu produto de perseguição da parte do ministro da época. Se foi, não sabemos o porquê. Ele próprio foi comandante da Escola do Bacacheri.
O ato culminaria numa espécie de hiato, que logo o alto comando, pouco tempo após a passagem do bastão ministerial, se encarregaria de por fim com a criação do EAOf, aproveitando a experiência dos suboficiais, e com a reativação – depois de alguns anos – dos antigos oficiais especialistas em armamento, fotografia, comunicações, aviões, tráfego aéreo, meteorologia e suprimento técnico. Desta vez, porém, exigir-se-ia dos sargentos candidatos o diploma de curso superior, requisito que antes inexistia. Ao mesmo tempo a Academia recebia as primeiras turmas de cadetes de Infantaria, agora com nova designação: não era mais de Guarda mas sim de Aeronáutica.

Semelhante crise na área de pessoal especializado, ao que parece, se estenderia ao pessoal graduado. Nessa primeira metade dos anos 80, estudos detectaram a carência de sargentos especialistas em algumas áreas de interesse da Força Aérea. Assim o Comando-Geral de Pessoal decidiu suprir tais necessidades com a criação do quadro de voluntários especiais, os famosos VE, mão-de-obra que, recrutada entre concludentes do ensino médio, já viria especializada, necessitando apenas de alguns meses de adaptação, ao termo dos quais o estagiário receberia as insígnias de terceiro-sargento. Era uma solução barata que prometia solucionar os déficitsapresentados em várias áreas da Força e que ameaçavam reduzir os níveis de operacionalidade preconizados. Uma ideia brilhante.
Acaso houvesse uma enquete prévia, a minha resposta seria: “não vai dar certo”.
Dito e feito.
Algum tempo depois, chegavam às Unidades os primeiros estagiários para, passados três meses, debutarem como sargentos especialistas. Era um “especialista” forjado da noite para o dia. Um “especialista” com as mesmas prerrogativas e direitos do sargento formado pela Escola, o verdadeiro especialista.
Passou-se mais um tempo e um dia pude conhecer, primeiro um, um eletricista já antigo. Na parte técnica, de fato o graduado não deixava muito a desejar, porém na parte ética representava um grande perigo para o bom nome da instituição e ao bolso do colega que, desavisadamente, viesse a emprestar-lhe dinheiro ou mesmo o nome para, de boa-fé, suprir alguma pseudo necessidade material do ex-VE.
O outro, em Belém, um suboficial oriundo do antigo Parque de Belém, cujo efetivo, consumada a extinção da Unidade, foi transferido para as Unidades da área.
Esse malandro, dotado de grande simpatia pessoal, tecnicamente era dos mais fracos que eu já vi. Contou-me sua história pessoal de como conseguiu ser incluído na Fab, uma verdadeira “boca rica”.
O suboficial iniciou a carreira nos anos 80 quando a Força recrutou os tais “especialistas” no meio civil, a fim de comporem o quadro de voluntários especiais. A sua área – Metalurgia – na época não era contemplada por nenhum curso técnico regular, de forma que teriam que escolher o futuro VE entre os profissionais que já exerciam o ofício, desde que tivessem certificado de ensino médio.
Quando soube disso, ele, que por acaso trabalhava em oficinas de fundo de quintal na periferia da cidade, interessou-se vivamente e, inteirando-se dos pré-requisitos exigidos, acorreu ao Parque de Belém, candidatando-se ao certame. Procurou saber quem era o encarregado da oficina correspondente à especialidade, fazendo prontamente “desinteressada” amizade com o suboficial. Estabelecida a amizade, conseguiu fazer um “estágio” na mesma oficina, embora ainda não tivesse qualquer vínculo com a Aeronáutica. Nesse período foi pegando todos os macetes, de forma que, quando realizou a prova prática, já estava inteirado de tudo, pois sabia exatamente o que lhe iriam cobrar.
E foi assim  a sua admissão.
Passados os três meses de estágio, já estava ali no mesmo rancho dos sargentos antigos, a maioria formados pela Escola, tratando a todos de “você” ou “tu”. O malandro apresentava tamanha desenvoltura como se tivesse partilhado dos dois anos suados quando enfrentamos o Caveirinha e o boi-ralado.
O resultado é que em pouco tempo foi notado o terrível e irremediável engano cometido pela instituição. Se determinada chapa metálica não podia ser dobrada a mais que tantos graus de ângulo, ele, por falta de escola, não se conformava com tal propriedade científica e experimentava a peça, desperdiçando material. Se uma liga não devia sofrer calor maior de tantos graus, o 3S VE pagava para ver, desperdiçando material. E assim foi até que o retiraram da área de aviação, ficando ele autorizado a fazer suas cagadas na área administrativa.
Depois dessa, passei a acreditar que talvez algumas lendas fabianas, contadas à larga em forma de anedotas, poderiam ter alguma dose de realidade.
Uma delas é sobre um primeiro-sargento, grande artista na sua área, porém nem sabendo de onde fica a Academia do Pedregulho, que estava cumprindo serviço de Adjunto. Levaram à sua presença um soldado que havia feito uma merda para que o primeirão o lançasse no livro de partes.
— Qual o teu nome, soldado?
— Washington, sargento.
— O quê?
— Washington.
— Uóxin… Tá bom! Dessa vez vou te acochambrar, mas não me faça mais isso.
Outra anedota é sobre outro primeiro-sargento, também artista, que, certa vez estava de serviço de Adjunto. Nesse dia um soldado, que estava cumprindo punição de prisão, fugira do xadrez. O fato ocorreu justamente na hora em que o comandante da guarda havia ido ao sanitário, enquanto o cabo, diante da fome, havia ido ao rancho, não aguardando a volta do sargento.
Tascou lá no livro:
“Enquanto o comandante da guarda cagava e o cabo comia, o soldado Fulano fugiu da cadeia.”
Diante de tantas “peladas”, cheguei à conclusão de que bem poderiam ser verídicas as anedotas.  (BLOGUE do Valentim em 27ago2014) 

O SARGENTO Jarrão!

EM NOSSA página do Facebook alguém falou no concurso para a Escola.
Pois bem. Naquele tempo o concurso era em quatro dias: o primeiro era destinado a um evento chamado “concentração inicial”, os outros três dias  para os testes de Português, Matemática e Ciências.
Em Belém a nossa concentração inicial foi no ginásio Serra Freire, do Clube do Remo. Tal evento era destinado somente a dar avisos e orientações sobre as etapas seguintes. Os exames de Português, Matemática e Ciências eram realizados em três dias distintos, diferente de hoje em que, por razões de segurança,  “concentração” e todos os testes intelectuais são concluídos no mesmo dia.
Não lembro bem, mas creio que o evento era de caráter eliminatório. Candidato faltou, estava excluído do certame. Sem choro.
Naquela manhã ensolarada, dentre a enorme quantidade de fiscais escalados, suboficiais e sargentos da área de Belém, destacou-se ao longe pelo tipo físico um robusto primeiro-sargento, uma espécie de sargento Garcia, gordo e barrigudo.
Nesse ano havia uma propaganda de tevê muito popular de uma bebida do tipo Kisuco ou Tang, não recordando este escriba exatamente a marca. A propaganda destacava uma pessoa em forma de uma grande jarra de suco, que era chamada de “jarrão”. Era “jarrão” pra cá, “jarrão” pra lá…  A peça publicitária logo logo caiu na boca do povo.
Ao término do evento, já saindo do ginásio, a moçada divisou entre tantos outros sargentos a figura que não tinha como se esconder, e alguém passou a gritar: “Jarrão!… fala, Jarrão!”. Logo todos, ou quase todos, gritavam em uníssono, numa alusão explícita à enorme figura que se destacava. Ao mesmo tempo que a galera caía na gargalhada, cada um deles escondido na multidão, aproveitando a ocasião para fazer aquilo que não tinha coragem para fazer em particular.

É claro que o sargento gordo sabia que a gozação era com ele. Se em seu íntimo estava brabo, é provável que sim. Mas se demonstrasse indignação e reagisse, era pior. Não tinha nada a fazer contra aquelas centenas de rapazolas de dezesseis a vinte e poucos anos, que pouco ou nada tinham a perder e que não deixavam escapar a oportunidade de sacanear alguém.
Esse episódio me vem à mente mais tarde para destacar que a grande maioria daqueles caras não estava levando a sério o concurso. Estavam lá somente para dar satisfação aos pais. Noventa por cento daqueles garotos, talvez até mais, não estava devidamente preparado, de forma que a quantidade de candidatos presentes não servia para aferir o grau de dificuldade do concurso. Bastava colocar força de vontade e determinação em conseguir seu objetivo, além de – é óbvio – uma dose mínima de preparação intelectual.
No entanto, eu não sabia disso. Mas nos dias das provas, este humilde escriba fez a sua parte, não se importando com aquela pequena multidão ali presente.  (BLOGUE do Valentim em 24jul2015)

AS APARÊNCIAS enganam!

ERA hora do almoço. Nessa época o rancho de oficiais ficava apartado das demais instalações da Unidade, funcionando em anexo ao hotel de trânsito, também conhecido como T1.

As mesas estavam devidamente arrumadas, como era rotina, com toalhas, talheres, lenços e jarras de suco. As refeições ficavam nas devidas bandejas, onde cada um dos comensais retirava as poções que lhe convinham e as colocavam no prato. Os taifeiros -garçons serenamente aguardavam o início dos serviços.  Essa era a rotina para aspirantes, tenentes e capitães. Frequentavam esse refeitório também alguns servidores civis assemelhados a oficiais, que recebiam o mesmo tratamento dados a estes. Ao fundo do refeitório, que era uma espécie de quadrilongo, e de frente para a porta de entrada, ficava uma grande mesa, que informalmente era chamada por todos de “santa ceia”, que era destinada ao comandante, a seus convidados e aos demais oficiais superiores da Unidade: tenentes-coronéis e majores. Se estes recebiam tratamento digno de reis e altas autoridades, os outros, mais modernos, não seria exagero dizer que eram tratados como príncipes, guardadas as proporções.

Por enquanto nenhum deles se servia nem se alimentava enquanto o comandante não chegava ao local.

Havia vários grupos de oficiais, cada um com dois, três ou quatro, a conversarem entre si.

Num deles, Capitão Pacobahyba confabulava com o tenente Paolo, a combinar os detalhes e dados que comporiam o discurso de homenagem à autoridade visitante — “Deixaremos o rascunho para o nosso furioso João Pereira, meu sargento e exímio datilógrafo, bater à máquina”. Eis que se aproxima de ambos o  tenente Sobrinho. Era para esse oficial subalterno, um primeiro-tenente,  recém-transferido, a primeira oportunidade que tinha de frequentar o rancho. Não conhecia ainda ninguém, muito menos a sequência hierárquica dos oficiais superiores do efetivo, como era obrigado o oficial, e, vez por outra, observado em reuniões pelo próprio comandante. Vendo o capitão Pacobahyba, que se posicionava em pé quase na entrada do refeitório, de forma cortês Sobrinho indaga deste:

“Por gentileza, meu bom capitão, qual daqueles dois tenentes-coronéis, que estão lá no fundo, em pé, conversando, é o mais antigo? É que devo ir até o mais antigo para saudá-los, conforme manda o regulamento”.

Responde-lhe o oficial intermediário:

“Na verdade, não tenho certeza. Quando cheguei aqui o mais antigo era um major, a quem saudei”.

Perguntou a mais outro, que estava próximo, mas também este não deu certeza da antiguidade dos dois oficiais superiores. Sem saber a quem saudar por mais antigo presente no recinto, o tenente ia caminhando devagar na direção dos dois que conversavam ao fundo. Devia estar pensando a qual dos dois saudar primeiro sem perigo de ser repreendido pela omissão ou engano. Estavam lá certamente no aguardo do comandante, para, assim que ele se assentasse, estes também tomassem assento para a refeição, conforme manda o regulamento. Um deles, tenente-coronel Perdeneiras, era do tipo baixinho, franzino e mulato; já o outro, tenente-coronel Pardomo, tinha aparência bem diferente: alto, tipo atlético, olhos claros e cabelo aloirado.

Capitão Pacobahyba então, de volta a atenção ao tenente, lhe faz esta observação: “Sabe, meu jovem tenente, não é por falta de bondade da minha parte, mas é claro que na verdade sei quem é o mais antigo pois conheço de cor e salteado a relação hierárquica dos oficiais da unidade, e não poderia ser diferente porque esta é uma das obrigações do oficial — eu estou há dez anos aqui e acompanho atentamente as apresentações dos oficiais em boletim e também as que são feitas em público de forma oficial, nas nossas reuniões periódicas. Mas é perdoável ao seu colega de posto que agora me indagou pois ele é recém-chegado aqui.” E, diante da interrogação que espelhava no semblante do seu interlocutor, o velho oficial continua:

“Eu aproveitei o momento para uma fazer experiência. E eu sei qual dos dois coronéis o nosso amigo recém-transferido vai saudar. Olhe e veja”.

O tenente Sobrinho, ao cumprimentar com uma posição de sentido e um gesto de cabeça, o tenente-coronel Pardomo, este oficial superior indica com o olhar o colega ao lado, tenente-coronel Perdeneiras, por esse bem mais antigo, três turmas exatamente. Um ligeiro rubor surgiu na face de Sobrinho pela gafe cometida. Um major, que presenciava, o incidente fez um muxoxo de reprovação.

“Eu sabia que, em dúvida, ele erraria a antiguidade e saudaria o coronel Pardomo. As características físicas do oficial enganaram o amigo recém-chegado, pois, no entender da maioria, esses dotes de aparência, de que são dotados o dito coronel, atestam superioridade. E, e então, para Sobrinho, esse oficial superior certamente seria mais antigo que o outro, que é baixinho e mulato, e, além de tudo,  franzino”.

Fez esse comentário e assim e então se lembrou de um episódio ocorrido cinco anos antes, que envolveu um ex-comandante, coronel Juscelino Braziliense, o austero.

O caso foi quando ele ainda era major.

Braziliense, de raça negra, havia chegado nesses dias à localidade, transferido que fora da base aérea de Salvador. À tarde desse sábado, estava de macacão, botina e chapéu de palha, a capinar as áreas verdes, cujo mato estava por tomar conta do imóvel, dando um aspecto de abandono à casa. Fazia essa tarefa braçal há meia hora, mais ou menos, quando uma jovem senhora que andava pela calçada parou em frente à sua casa.

“Senhor, senhor!” Era para ele que a senhora se dirigia. Major Braziliense volta a atenção para ela: “Pois não, minha senhora”.

“Sabe, meu senhor, a frente da minha casa também está cheia de mato. Quanto o senhor cobra para fazer a limpeza?”

O oficial, mirando bem o rosto e as feições da senhora, ficou como a matutar por alguns segundos, como que a pensar bem no que dizer. E antes que a mulher aparentasse impaciência, finalmente responde: “Quarenta cruzeiros, dependendo da quantidade mato”.

“Então, apareça lá em casa, é na casa 22 da vila”.

“Aguarde só mais meia hora, que eu vou até lá. Já estou terminando aqui.”

Não deu vinte minutos, como o número 22 era perto, e o major lá estava, devidamente fardado e munido de uma enxada. Entrou e começou a capinar.

Não demoram alguns minutos e chega o esposo da mulher, o tenente Benício. Difícil descrever como ficou o jovem oficial ao ver aquela cena: Um oficial superior, que era o seu chefe de Operações, em atividade braçal. Não sabia onde pôr a cabeça de tanta vergonha.

O major Braziliense, com naturalidade, lhe diz o preço: “São quarenta cruzeiros,  meu bom tenente. Pague-me agora ou vai se ver comigo”.

Braziliense era de boa índole e nunca foi de guardar rancor. Mas a Benício dava a impressão de que o evitava no dia a dia da caserna, mau o encarando por quase dois anos, tempo em que Braziliense durou no cargo, tendo então sido promovido.

Chega ao recinto o comandante, coronel Horácio. Que comece o banquete!

 

 

 

 

 

O CASO do discurso!

“ALÔ!…

Dona Sizenanda!? Desculpe a demora em atender…

Em que tenho a honra de servi-la?…

Brigadeiro quem?!…

 Não, nunca ouvi falar…

Sei… Não entendi, dona Sizenanda, onde entro…

Ainda não entendi…

Se puder ajudar…

No rancho…

Compreendo. Vou procurar o tenente. Fico honrado com a lembrança do meu nome, dona Sizenanda. Mas veja que não sou nenhum Machado de Assis…

De nada.”

Sizenanda Tabosa de Oliveira, a secretária do comandante da base aérea, com seu metro e setenta de altura, embora já passada dos quarenta, ainda é o que se chama de “mulher bonita”. Aquele corpo esbelto, pernas torneadas, silhueta insinuante, cabelos soltos até à altura dos ombros ou mesmo presos davam a ela uma condição peculiar própria de mulheres cuja idade é muito difícil de ser definida. Completando seus encantos, os óculos de grau sobre os olhos esverdeados lhe dão um ar de mulher intelectual, quando em outras constituem desvantagem. Também, mas não só, por esses atributos era cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres.

Alguns poderiam lhe dar trinta e cinco, outros quarenta, quarenta e cinco ou até mais anos de idade. Sua idade real? Esse era um segredo muito bem guardado que ninguém se atrevia a perguntar, e o pessoal da seção de pessoal civil nada sabia de oficial sobre ela, pois pertencia ao quadro de pessoal do comando aéreo, que a movimentou de forma não oficial para a unidade em que se encontra há doze anos. Sua ficha de identificação, para os curiosos, bisbilhoteiros e fofoqueiros que existem em todo canto, não estava em arquivo.

Somente nos últimos cinco anos estava a serviço do comandante da unidade. Antes, emprestava seus serviços (e sua graça) ao esquadrão de pessoal. Por essa época, o capitão Pacobahyba, ainda como primeiro-tenente, era o chefe do setor, de forma que ambos já são velhos conhecidos.

Havia nesse tempo um datilógrafo, o cabo Carvalho. Ocorria que, por duas ou três vezes, Carvalho foi ao esquadrão de pessoal e entrou na sala do chefe para perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida ou deixar um recado. Sizenanda, que nessa época se ocupava de processos de medalha, também estava lá. Nessas raras ocasiões, a título de gozação, ele, gozador, vinha com esta:

“Você, Carvalho, por acaso não é compositor de samba?” Como o cabo Carvalho ficava sem resposta diante da inusitada pergunta, ele continuava: “Por que estão cantando teu samba, sem tua autorização”. E, batucando na mesa, cantava um samba de duplo sentido:

Esse samba é do Carvalho

Não se meta nesse embrulho

Tás cantando um samba de outro, dizendo que é teu

Tás querendo achar barulho

(Esse samba de quem é?)

Esse samba é do Carvalho…

De soslaio, notava o sorriso de Dona Sizenanda. Ficava satisfeito.

Agora, Pacobayba, quando chega para os despachos de rotina com o comandante, sempre lhe indaga com um sorriso cordial: “O mar está, ou não está, pra peixe, dona Sizenanda?”. Era uma forma sutil de ganhar um sorriso da bela secretária e antiga amiga., que o fazia de forma cordial — e não de maneira insinuante — à pergunta que o oficial lhe fazia e que não exigia resposta. Outra vez lhe disse o capitão, com o olhar na parede que ficava às costas da secretária: “Sabe, dona Sizenanda, esses dois quadros aí?” — e não esperava resposta. –“Um é uma paisagem noturna e outro retrata o dia, sol, um lindo campo, riacho, uma maravilha. Pois esta segunda paisagem bem  indica quando a gente entra na sala do homem, e o outro quadro representa a situação de quando a gente sai do recinto”. E dona Sizenanda sorria às anedotas do capitão. “Ganhei o dia”, pensava de si para si o oficial.

Mas essa concessão era para poucos, contados nos dedos de uma só mão.

A competente secretária era assim, um amor de pessoa e a eficiência em ação. As aparências, entretanto, enganavam os incautos e qualquer indício de gracejo masculino era reprimido com firmeza, deixando sem chão o galanteador temerário. Se o infeliz insistisse na graça, o caso poderia chegar aos ouvidos do zero-um, e o tal nunca mais se ajeitava, isso se não fosse severamente punido disciplinarmente. O fato é que nunca ninguém chegou a tal ponto.

Logo terminada a reunião, o comandante pede a dona Sizenanda que localize o tenente Paolo, que, por dar expediente no mesmo prédio, em cinco ou seis minutos estava lá. Que chamasse também o major Hipólito.

Que queria o coronel Horário com o tenente intendente mais moderno da unidade?

A um olhar de dona Sizenanda, o jovem oficial, saindo do gabinete do comandante, lhe satisfaz a curiosidade: “Brigadeiro Viana Calmon, a senhora já ouviu falar?”. A secretária diz que não com um movimento de cabeça. “Esse brigadeiro vem a Belém hoje. Pernoita e amanhã vai haver um almoço festivo em sua homenagem. Coronel Horário mandou que eu lhe faça um discurso”

Experiente, a secretária percebe que havia ali um pedido de ajuda. Dona Sizenanda, assim que o tenente sai, pega o aparelho telefônico e disca um número de três algarismos.

Finalmente alguém atende.

“Alô, capitão Pacobahyba, bom dia. É a dona Sizenanda…

Não, não há problema, capitão…

Capitão, vou direto ao assunto. O brigadeiro Viana Calmon está vindo amanhã de visita a esta base…

Viana Calmon!…

Esse brigadeiro, pelo que pude saber, serve num comando com sede no Rio. Apurei que sempre serviu na área do Rio e de São Paulo. Nunca esteve por aqui. Agora, está indo para a inatividade, e resolveu viajar pelo Nordeste e Norte para conhecer essas regiões…

Ocorre que o comandante escalou o oficial mais moderno da unidade, que é justamente o tenente Paolo, para fazer um discurso em homenagem a essa autoridade…

É que ele (coitado!) não acha palavras e – bem – eu pensei…, pensei que o senhor pudesse ajudar. O senhor escreve tão bem, capitão…

O senhor não espere que ele vá lhe procurar. É muito tímido. Peço que o senhor o procure. Pode ser no rancho, agora pelo horário de almoço…

Sim, no rancho. O homem chega hoje à noite e amanhã o comandante deve homenageá-lo com um almoço festivo no rancho, nessa ocasião o tenente Paolo vai fazer o discurso, o comandante do grupo de comando vai entregar uma placa e essas coisas, como é toda vez que vem alguma autoridade de lá…

Muito obrigada, capitão!”

E no horário de almoço, o capitão Pacobahyba combina as ações com o tenente Paolo. Este, em princípio sem entender como é que surge do nada essa ajuda. Sabia que fora escalado por ser o mais moderno, do mesmo quadro que o brigadeiro. Sim, era uma homenagem, mas não entendia se era, ou não era, merecida. Bem, o comandante devia ter lá suas razões. Na verdade, esse tal brigadeiro, Calmon Viana, nunca nem servira na localidade, sempre serviu no eixo Rio-São Paulo, mas agora, como despedida, resolve saber como é a Força no Nordeste e no Norte do país.

Por orientação de Pacobahyba, ele e a dona Sizenanda entram em contato com a secretária desse brigadeiro, procurando saber dados que embasem o discurso. Quando se formou, onde serviu, quais as funções mais relevantes…

 

 

 

A INVENÇÃO do camelo!

NO MOMENTO em que o comandante entra na sala de reunião, e, a oficialidade ali representada fica em pé, posição de sentido, o subcomandante faz a apresentação regulamentar.

Geralmente mais sisudo, nessa ocasião em particular era visível a figura do coronel um tanto mais bem-humorada, risonho até. Ao iniciar, porém, deixou claro a todos que a presença deles no recinto se estenderia um pouco além. “Já pedi ao chefe do Rancho que mande um taifeiro servir cafezinho e água. Deve trazer também bolachas”, disse, bonachão. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Era como quem diz: “não tenham pressa.”.

Começando os trabalhos, fazia um relato de tudo o quanto havia ocorrido de importante nos últimos dois ou três dias. Logo em seguida, o oficial mais moderno lia a ata da última reunião.

Como é natural, sua confortável poltrona fica à cabeceira da longa mesa. Na poltrona imediata à sua direita, se posiciona o subcomandante, tenente-coronel Dacildo, enquanto a da esquerda, vaga, era reservada ao próximo oficial a ser sabatinado e, que, eventualmente, também tenha assuntos imediatos a tratar com o comandante, desde que não fosse sigiloso.

Nesse dia, o próprio comandante, quebrando a rotina que ele mesmo havia definido, principiou-se a elogiar a postura do tenente Barreto. Esse oficial subalterno, quando de serviço de oficial-de-dia, comandou meia-volta volver na guarnição de serviço, que normalmente ficava formada no pátio da bandeira em frente ao prédio do comando. Com isso, os sargentos, cabos e soldados ali escalados ficaram de frente para a sombra, e não contra o sol, como usualmente se perfilavam. Nesse instante, coronel Horácio estava em seu gabinete, a observar a postura do oficial e da tropa pela janela principal. “O verdadeiro comandante é aquele que cuida do bem-estar da tropa. E essa qualidade eu constatei na atitude do tenente Barreto. Que o comandante dele, aqui presente, retransmita ao seu subordinado as minhas palavras”.

Todos aprovaram tanto a atitude do tenente quanto as palavras elogiosas, raras, por sinal, do comandante, o coronel Horácio. Louvado seja!

De fato, o comandante, excepcionalmente, estava de bom-humor. Haveria alguma explicação para isso? Alguma boa notícia, talvez?

Logo em seguida o primeiro oficial, o mais antigo após o subcomandante, tomou assento à cadeira à esquerda, junto ao comandante.

O primeiro a tratar foi o major Hipólito, do grupo de comando. Após os cumprimentos iniciais deste oficial, entrega a coronel Horácio um ofício para sua apreciação e chancela. O comandante, sem ao menos referir-se ao mérito, devolve-o, enfatizando sobre o uso correto da pontuação. “Não faça como aquele item de material, que me trouxeram para inclusão na carga da Unidade, que saiu assim: ‘Cadeira para datilógrafo sem braços’.  Ora, como o datilógrafo iria exercer seu ofício? Com os dedos dos pés? Cadê a vírgula, meu filho”.

Todos se olham discretamente. Ora, se era assim com o major Hipólito, um major antigo quase tenente-coronel, e – pior! – na presença de gente mais moderna, imagina com os demais, reles mortais! Esse era o Horácio de sempre.

De doze oficiais chefes de grupos e esquadrões, o capitão Arnaldo Pacobahyba seria o antepenúltimo a despachar, vez que a ordem de despachos seguia a sequência hierárquica. Havia apenas dois mais modernos que Arnaldo. O bloco de rascunho, que a secretária, a competente dona Sizenanda, havia posto em sua frente, assim como nos demais lugares destinados a todos os demais oficiais, teria boa utilidade.

Este oficial, o capitão Pacobahyba, quando obrigado a ouvir, se o assunto não lhe dizia muito, se pegava a rabiscar, desenhar alguma coisa, já que era dotado de dons artísticos, mas uma parte de seu cérebro continuava atenta ao que se passava. Assim, em caso de emergência, ou seja, uma pergunta ou questionamento, Pacobahyba imediatamente respondia ou comentava, mostrando que não estava desatento às palavras de seu comandante ou de seus colegas ali presentes. Os colegas de sua esquerda e da direita se acumpliciavam tacitamente do pequeno delito do colega.

Seguia a reunião. Geralmente, era permitido a cada um deles opinar sobre que se estava tratando no momento. Embora sabendo que o comandante previamente já tinha opinião formada sobre quase tudo, e que, dificilmente, acataria a quem pensasse diferente, sempre, ao menos um, pedindo permissão, dizia algo, que fosse complementando ou mesmo questionando o sabatinado da vez.

“Perda de tempo”, pensava de si para si o capitão Arnaldo Pacobahyba, “isso só prolonga mais o sofrimento”.

O que se discutia agora? Ah sim. Transferência interna do funcionário Calixto Wilson, depois de vinte anos lotado na seção de cópias. Abrira uma vaga na tesouraria, vez que um antigo sacador fora descoberto em uso de fraude, sendo, após inquérito administrativo, excluído a bem do serviço público. Na opinião do capitão Pacobahyba, esse assunto não era para ser discutido em reunião, bastando um simples despacho do chefe de Pessoal com o próprio comandante. Ocorre que, querendo parecer democrático, Horácio leva o assunto para discussão, pedindo o parecer a cada um dos participantes. Havia ali um propósito oculto, próprio dele, e era exatamente estudar a fala e o que pensa cada um de seus oficiais. Falavam até que, logo após a saída deles, o comandante pegava um caderninho da gaveta e fazia as suas anotações, em geral, registrando observações negativas.

Por unanimidade, a movimentação interna de Calixto Wilson foi aprovada. Ainda que houvesse opinião contrária, era preferível aprovar de pronto um assunto banal como esse somente para não prolongar o suplício de todos. Ele próprio, contrariando o seu pensamento de que time que está ganhando não se mexe, acabou por concordar. Seria o único voto vencido e ficaria exposto às anotações desfavoráveis do comandante, por essa razão o melhor mesmo era não contrariar o que – sabia – já estava decidido pela autoridade máxima ali presente.

O animal, que Arnaldo Pacobahyba rascunhava no caderno, ia tomando forma. Pensaria no que desenhar na folha seguinte do bloco depois de concluído o rascunho de que se ocupava.

Chegando a sua vez, apresentou um relatório com o movimento de saída e entrada de itens que haviam sido enviados a outras unidades, por transferência, ou recebidos dos órgãos técnicos centrais. Nenhum comentário adicional era necessário, julgava. Perguntado se tinha outro assunto a discutir, respondia simplesmente: “Nada mais, senhor”. Devia ter as suas razões para pouca conversa e nenhum sorriso.

Finalmente encerrada a tal reunião de máxima importância, mal aberta a porta e alguns se encaminham, quase correndo, à toalete. Alguns nem conseguiam chegar lá, eis que vinham se prendendo na sala. Outros, mais jovens, acendiam um cigarro. Lafaiete, um capitão bem humorado, aludiu a uma boa e gelada cerveja para alegrar o ambiente, depois daquela bela dose de tortura psicológica.

O capitão Pacobahyba, de volta, agora sobe a passos largos a escada que dá para a chefia da Seção de Suprimento Técnico.

O comandante, coronel Horácio, costumava reunir com seus principais oficiais duas vezes por semana. Para que tanta reunião, meu Deus? Deixou em cima de sua mesa o bloco, o tal bloco da reunião.  Não obstante o conteúdo do bloco, era um oficial cônscio de suas obrigações. No entanto, o tal bloco continha apenas rabiscos sem sentido e desenhos toscos, e no caso desse dia era justamente o camelo. Pacobahyba, para matar o tempo, fazia quando o desenrolar da reunião não lhe queria dizer coisa alguma. Fazer o quê? Não concordava com muita coisa do que era discutido e decidido, mas já estava na Força há tempo para saber que de nada adiantava suas ponderações quando, de fato, as decisões já estavam tomadas na cabeça do comandante. Conhecia o vaidoso comandante, e qualquer palavra a mais que não fosse um “sim, senhor” poderia ser considerada como indisciplina ou, pior, insubordinação. Ele, o comandante, trazia, desde que era tenente, o espírito envenenado pela carreira, que seguia de forma obstinada; primeiro queria ser capitão; uma vez nesse posto, almejava a promoção a major; quando acostumado ao tratamento diferenciado que a tropa dispensava a oficial superior, todos os seus movimentos foram em direção à patente de tenente-coronel; e uma vez coronel, ambicionava voltar à base aérea para comandá-la, sabendo ser esse cargo essencial para o prosseguimento da carreira. Assumindo como titular da base aérea, todas as suas ações, desde o primeiro dia no comando, voltam-se para o primeiro posto de oficial-general, as cobiçadas estrelas. As duas — e por vezes três reuniões semanais, incluindo até o sábado — faziam parte dessa estratégia, ainda que (todos sabiam disso) tinham também por fim mostrar toda a sua autoridade, ainda que tiranizando os oficiais, ao mesmo tempo em que afagava a tropa. Como acréscimo, determinou formatura geral diária, e não só uma por semana como antes. Essa solenidade iniciaria o expediente; depois, formaturas internas em cada grupo e esquadrão no início da parte vespertina e outra ao final do expediente, às cinco da tarde. “Sabem o camelo”, costuma dizer o velho capitão como anedota, “o camelo, todo feio,  é fruto de uma reunião, ao passo que o cavalo, todo certinho, todo bonito, foi feito por conta da espontaneidade”.  Pacobahyba contava essa anedota toda as vezes que a paciência já estava por um fio. E nesse dia, a anedota vinha acompanhada da respectiva ilustração material, que desenhara no bloco.

Queixava-se no íntimo também de seus colegas oficiais. São uns bajuladores, em sua maioria, isso é que são. E, em sua mente, passavam a desfilar um a um deles. Mas sua insatisfação era maior para consigo mesmo, porque, afinal de contas, tantas vezes dizia “sim” quando na verdade queria dizer “não”,  entrava no gabinete de comando com uma ideia e saia com as ideias e decisões do comandante. Era sempre assim. Por isso, insatisfeito com a vida que levava, até que a bendita promoção chegue. Teria ainda que realizar o curso de aperfeiçoamento, por essa razão pisava em ovos.

Toca o telefone e ele deixou que tocasse até que desistisse. Estava velho e cansado.

Considerava-se antigo, já tendo, na verdade atingido o tempo que lhe permitia pedir transferência para a reserva, a tão sonhada aposentadoria. No entanto, essa decisão pessoal, que lhe daria mais tempo para descansar, divertir-se ao lado da família e usufruir finalmente a vida, estava no momento fora de seus planos vindouros, ao menos nos próximos três, quatro anos. Um de seus erros era ter feito concurso para oficial muito tarde. Agora, tinha de agir com a razão e não com a emoção. Já que esperou até agora, teria que ir levando em banho-maria aquela pesada rotina até ser promovido ao posto de major e, uma vez major, sim, aí poria em prática a decisão de finalmente aposentar-se. E aí, adeus base aérea, adeus seção de suprimento e seus velhos problemas. Adeus, povo escamão e enrolão que mal se incumbia do básico, incluindo aí – e principalmente – seus próprios auxiliares, alguns dos responsáveis pelo seu problema de úlcera. Esse pessoal aí — e olhava para baixo pela vidraça — contribuía também para seus grandes aborrecimentos e frustrações. Mas, para não se aborrecer, o oficial é obrigado a fingir que não vê e ao final dá por tudo feito e satisfatório. Fazer vistas grossas, empurrar com a barriga e pisar em ovos passou a ser a sua rotina, e  isso tudo não lhe deixa satisfeito. Oh promoção que não chega!

Ignora, por instantes, o telefone que toca…

Olha novamente pela janela de vidro e vê lá embaixo alguns de seus auxiliares. Gentil, primeiro-sargento, metido a escritor, mas um escritor fracassado; Olegário Mariano, segundo-sargento, bajulador de primeira e malandro por excelência; Juvêncio Longo, suboficial, e seu eterno problema conjugal que finge desconhecer; Zuleiko…, bem Zuleiko até que não compromete, exceto pela sua condição toda especial, o seu jeito afetado… deixa pra lá; e João Pereira, terceiro-sargento já antigo, esse  — coitado! — muito trabalhador, é verdade, uma exceção à regra geral do setor, embora o excesso de trabalho tenha por fim esconder um grande drama familiar que o atormenta há alguns anos… Bem! Paciência, pelo menos esse trabalhava por si e pelos outros. Havia ainda mais dois cabos e um soldado. Essa era a sua equipe até um mês atrás.

E eis que lhe chega Florindo há quase trinta dias. Sangue novo, alguém disposto a arregaçar as mangas. Esperanças de melhoras, enfim. E é exatamente  ele agora que se aproxima da sala. Esse novinho, recém-formado, somando a João Pereira, é promessa de bom trabalho e mais empenho, garantindo a eficiência do setor, apesar dos outros.  Ele nem ao menos suspeita que virá a carregar, juntamente com o colega e os dois cabos e um soldado, nas costas o setor chefiado por Pacobahyba.

O subalterno bateu à porta e, sob uma palavra de autorização, entra no recinto. Perfila-se imediatamente com um bom-dia, posição de sentido e uma continência padronizada.

— Sargento Florindo apresenta-se, senhor capitão!

O telefone toca pela terceira vez. Deve ser importante.

O capitão, fazendo um sinal e apontando a cadeira à frente de sua mesa, pede a Florindo que sente, enquanto ele tira o fone do gancho.

UMA QUESTÃO de tempo!

O SER HUMANO é realmente muito complicado, difícil mesmo de ser definido, classificado, rotulado, sem que incorramos em erros ou injustiça. Depende muito de quem observava, este também influenciado por seu modo peculiar de ver a vida e – embora não devamos fazer – julgar o seu semelhante. O Mau julgador por si julga os demais, era o que diziam os antigos.

Há em cada um de nós várias facetas, algumas inatas, outras adquiridas ao longo deste caminho por vezes tortuoso e espinhento, que chamamos de “vida”. Convivem, via de regra, as boas sementes – bondade, afeição, serenidade, simpatia, piedade… – que germinam simultaneamente a outras não tão boas, isso tudo num mesmo indivíduo.

Eu mesmo. Vou me apresentar aqui como exemplo. Exemplo que deve ser seguido – quanta modéstia! – e também que não deve ser seguido, como costumava demonstrar nosso antigo comandante, o tenente Arrais, quando chamava um aluno lá na frente da tropa, deixando-o sem graça.

Sempre fui contra alguns paradigmas ou mesmo dogmas conhecidos na Força Aérea e na sociedade em geral: “Errar por excesso”, “Direito adquirido”, “Mal necessário”, “Pra baixo todo santo ajuda”, “A corda sempre arrebenta pro lado mais fraco”…

Caminham lado a lado em minha pessoa vários defeitos e uma qualidade, que é a de gostar de ajudar as pessoas. O problema é que esse “ajudar as pessoas” insiste em conviver ao lado da teimosia e da vaidade.

Na administração fabiana, meio em que trabalhei por três décadas, há um “paradigma” em particular que eu sempre combati: “A contar de de…”

É o seguinte. Tentarei explicar.

No ato administrativo, seja ele qual for, aparece lá o “a contar de” ou “a partir de”, indicando que a partir daquela data estará valendo o que se, face o princípio da publicidade, o agente público competente manda fazer. “Fulano de Tal foi incorporado às fileiras a contar de 01fev.1970” ou  “foi o servidor Ciclano de Tal foi desligado do efetivo da OM X a partir de 01fev.1988, por ter sido removido para…”. 

Trabalhei em setor que confeccionava as chamadas “folhas de alterações” e convivia com o problema. Onde eu quero chegar? O colega Escrevente que trabalhou na área de pessoal vai pegar fácil.

Ora, se o servidor (qualquer que seja ele ou ela, à paisana ou de farda) foi incorporado, matriculado, efetivado, incluído em 01fev.1988, nesse primeiro dia de fevereiro daquele ano o cara estava já incluído, matriculado, efetivado etc., passando a contar seu tempo de serviço a contar dessa data. De outro lado, ele sendo desligado em 01fev.1988, ele nessa data já não estava mais lá, naquela Unidade. Então, o tempo dele naquela OM (repartição, secretaria, ministério etc) somente é contado até 31jan.1988. No dia seguinte, 1º fev., o sujeito não pertencia mais ao dito órgão. Simples e claro.

Acontece que muita gente boa gostava de incluir na contagem do tempo de serviço mais um dia, este tal 1º fev. 1988, resultando numa certidão de tempo incorreta, que não contemplava a realidade do tempo efetivamente servido. 

Metódico e organizado com papéis como penso que sou, tal erro administrativo eu combatia. Mas trata-se – sempre soube disso – de tarefa hercúlea travar combate ao vício, à tradição imposta pelo costume adquirido em décadas. Ah! sempre foi assim, e pronto.

Eu não concordo. Oh cabra teimoso!

Passou-se o tempo e eu, já ao final da carreira em Curitiba, tive a oportunidade e o gostinho de me defrontar com um caso concreto, ocasião em que fiz valer a minha teoria, naturalmente sob protestos da turma da tradição que contava errado o tempo e o fazia  apenas porque “sempre foi assim”.  O costume do cachimbo fazia a boca torta.

Naquela quinta-feira às nove da matina, estava lá na Seção de Inativos do II Dacta uma das quase uma dezena de pessoas que costumavam acorrer à nossa Seção nas primeiras horas da manhã em busca de solução para seus problemas. Era um senhor, servidor do Ministério do Trabalho e Emprego, um ex-militar que saíra das fileiras da Força como primeiro-sargento. Servira na de 1º de fevereiro de 1981, com a matrícula na Escola, até 30 de novembro de 1990, a fim de, no dia seguinte, apresentar-se ao atual emprego, ao qual foi convocado em face de sua aprovação em concurso. O homem foi um antigo 1S BCT lotado no então DPV-CT (atual DTCEA-CT), em São José dos Pinhais, quando, à procura de um feijão mais forte, migrou para outro Ministério, abraçando uma carreira mais rendosa e reconhecida.


— Em que tenho a honra de ajudá-lo, senhor?

Seu rosto e suas palavras iniciais expressavam alguma angústia, ao mesmo tempo que uma boa dose de determinação na busca da correção daquele erro de direito, sendo assim estava ali presente para que a administração ministrasse o remédio para o mal que ela própria havia causado. Não solucionado administrativamente, o passo seguinte seria naturalmente bater às portas do Poder Judiciário, trilha um pouco mais longa porém determinante e resolutória, direito de todo cidadão brasileiro, pátria livre e democrática.

Após os cumprimentos de praxe, iniciou-se a contar sua história, mostrando-me algumas folhas de seu histórico militar e uma fotocópia de uma antiga certidão de tempo de serviço. Mal pronunciou algumas palavras e já o interrompi dizendo-lhe já ter compreendido tudo. De fato, minha mente se via mais que treinada naqueles assuntos, objetos que foram de tantas discussões e teimas e que ao final não resultavam em nada, ficando este escriba como voto vencido. 

Dera entrada em seu pedido de aposentadoria, porém surpreendido com a negativa, vez que o órgão de Recursos Humanos da sua repartição detectou uma superveniência de tempo. O ex-sargento não teria como servir no Ministério da Defesa e simultaneamente no Ministério do Trabalho, ainda que por um único dia. O certo seria o servidor ter sido desligado na Aeronáutica em uma data (30nov.) e ser incluído no MTE em 1º de dezembro, dia seguinte. Mas não era isso que dizia a certidão, segundo a qual na contagem de tempo estava incluído o tal dia 1º, data em que já o colega se encontrava em pleno exercício de suas funções no novo Ministério.

Disse-lhe que deixasse comigo. No máximo em uma semana os atos administrativos corretivos teriam sido cumpridos e, ato contínuo, lhe passaríamos a respectiva certidão de tempo com menos um dia, que era o certo. Isto lhe possibilitaria dar andamento no processo de aposentadoria, consoante era seu anseio.

Procurei o mais antigo da Recursos Humanos já sabendo de sua resposta. Tentou convencer-me de que o meu raciocínio estava incorreto, o que eu já sabia ia acontecer. Como que a reforçar seu parecer, chamou um sargento da área de tempo de serviço e o graduado foi da mesma opinião que o chefe. Falou-me ao mesmo tempo que me lançava um sorriso meio debochado, que eu fingir não entender a fim de não me estressar à toa.

Foi apenas por descargo de consciência a minha ida à Recursos Humanos. Voltando de lá, sentei-me à mesa de digitação e fiz o meu arrazoado. Citando a legislação específica, – no caso o Estatuto dos Militares -, ao mesmo tempo que outros pareceres e também a Carta Magna. Utilizando-me do jargão técnico e formal ao douto Consultor Jurídico, finalizei o documento com o “salvo melhor juízo do ilustre Consultor”.

Dois dias após, retorna-me o documento com o “concordo”, acompanhado do parecer correspondente. Beleza! Despachei junto ao chefe e mandei fazer o item de boletim, a publicar no dia seguinte. 

Além de poder ajudar alguém, conforme procurei sempre fazer ao longo da carreira, meu espírito se alegrava com uma vitória que há anos vinha buscando: ver o “a contar de” finalmente ser aplicado corretamente.

Dado um telefonema, duas horas após o ex-colega de farda encontrava-se à minha frente, cumprimentando-me radiante. Seu rosto expressava evidente agradecimento ao nosso trabalho. Talvez não esperasse solução tão expedita.

Dormi naquela noite o sono dos justos.

Pelo fato de ter ajudado alguém? Não apenas. Sobretudo pela vaidade de ter sido, finalmente, reconhecido meu ponto-de-vista. (BLOGUE do Valentim em 23ago2014)