SOBRE nomes e homônimos!

DESDE que ingressei na Força Aérea em 1977 convivo com  inúmeros e variados  antropônimos, que no ambiente militar são denominados nomes-de-guerra. Fico a imaginar alguma dificuldade dos responsáveis por definir os nomes-de-guerra dos meninos da minha turma, aproximadamente meio milhar de guerreiros.

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https://antoniovalentim.wordpress.com/2017/12/21/sobre-nomes-e-sobrenomes/

O nome a ser escolhido é sempre o menos comum, de forma que não haja na mesma turma dois iguais. Para mim, foi fácil. De Antonio Valentim Moreira, o do meio, Valentim, certamente era o mais raro. Os de nome de origem estrangeira também se destacavam. Muitos passavam a ter o nome duplo — Paulo Antônio — ou com uma letra antes seguida de ponto: F. Silva, P. Antonio. Havia os irmãos Dauma, então um deles, o segundo por antiguidade, passou a se chamar C. Dauma. Os Silva sempre tinham acompanhamento: Da Silva, J. Silva, Silva Santos, Santos Silva, Souza Silva…

Nem sempre o nome combina com as características físicas de seu proprietário. Já vi Negrão ser branco e Moreno não ser mestiço; também conheci o Longo, que era baixinho e Baixo, que tinha perto de um metro e oitenta; Formoso, que não era bonito; e Valente sem tanta coragem. Esquisito mesmo era o Marechal, um simples soldado.

Quando cheguei a Anápolis, cansado do Valentim, tentei o Moreira, que, para mim, soava mais respeitável. Mas havia um outro Moreira, o do DPV, Divino Martins Moreira. Por isso, cumprindo determinação do tenente Wanderlan, voltei a me chamar Valentim, como nos dois anos de Escola, e foi com esse nome que fiquei conhecido durante os próximos vinte e oito anos e até hoje.

Ocorre que um ano depois me chega um xará. Era o Erivaldo Valentim, cujo nome-de-guerra era também Valentim.

Esse meu xará, ao que se sabe e se falava, protagonizou alguns lances, ficando assim bastante conhecido na Unidade, causando alguns comentários desairosos, pois havia se envolvido com a sobrinha de um suboficial, embora fosse casado. Num jogo de futebol de salão alguém diz: “Passa pelo meio dos dois!”. Outro responde com um sorriso sarcástico: “Isso não é possível, só o Valentim consegue”.

Foi por essa razão que um belo dia fui chamado à Seção de Informações. Ao chegar lá acompanhando o cabo Matos, o chefe lhe diz que se enganou: não era eu e sim o outro. Respiro aliviado pois no caminho a mente ia tentando em vão descobrir qual erro havia cometido, ou por qual erro estava indo a justificar.

Havia na Unidade também o famoso major Aldair, especialista em Comunicações, comandante do Esquadrão de Eletrônica, o temido Camisa Dez. Ele também tinha um xará, o sargento Aldair, conhecido por Cachorro.

Uma mulher de reputação duvidosa telefona para a Base procurando pelo Aldair. O telefonista naturalmente transfere a ligação para o Esquadrão de Eletrônica, sala do major Aldair.

— Alô, Aldair! Tu vai ou não vai me pagar, seu cachorro? — vai de saída esbravejando a mulher.

— Ah… como? Não estou entendendo. Deve ser um engano, minha senhora. Eu sou o major Aldair… — tenta esclarecer o major.

— Mas ontem tu era sargento, ó safado! E agora tu é major?

Com muito custo o orgulhoso Camisa convence a mundana de que há mais de um Aldair na unidade e que esse sim deveria estar ouvindo os xingamentos da madame. Depois do episódio manda chamar o xará sargento e determina que ele mude seu nome-de-guerra.

Duas décadas depois em Belém eis que me deparo novamente com outro Valentim. A diferença que este, bem mais jovem, e também fisicamente bem alto e forte. Era inevitável que outros equívocos também ocorressem. E assim foi em relação ao alfaiate, ao mecânico e também a mulheres.

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MONTIEZ Rodrigues!

Amigo é coisa pra se afastar do lado esquerdo do bolso

MONTIEZ Rodrigues 1

TENHO vários amigos deficientes físicos e, na própria família, tenho irmão e sobrinha, e até mesmo um tio deficiente mental. Conviver com pessoas deficientes é um contínuo aprendizado. Ensina-nos a ser mais humildes, a ter mais respeito pelo nosso corpo e até mesmo a agradecer a algum ser superior o fato de não sermos nós o titular de alguma deficiência.

Convivi nas universidades, nos ambientes de trabalho, nos clubes que frequentei, com pessoas com diversos tipos de deficiência. Teve até um que transformou sua deficiência em eficiência.

Franklin, um ex-colega do curso de engenharia elétrica, num acidente com energia elétrica, teve uma de suas orelhas decepadas e o aparelho auditivo de seu ouvido esquerdo comprometido com as sequelas do choque, tendo sua orelha de ser cauterizada, diminuindo, portanto, sua capacidade de ouvir. Já depois de formados, quando fizemos juntos o concorridíssimo concurso para auditor fiscal da Receita Federal, eu tirei uma nota muito superior a dele, mas, como ele se inscreveu como deficiente, passou e eu sobrei. Hoje deve gozar de uma aposentadoria muito superior a minha, que só dá pra tomar Heineken. Eu deveria ter arrancado uma de minhas orelhas antes da prova. Levei tantos puxões de orelha na infância, mas nunca conseguiram arrancar uma, coisa que alterou em muito meu destino.


No entanto, há aqueles que gozam de perfeita saúde, mas se fingem de cegos para não ver, de surdos para não ouvir e de mudos para não expressar qualquer opinião. Há também os que ampliam suas deficiências para obterem privilégios à custa de outrem. Na semana passada, encontrei-me com um colega surdo-mudo, casado também com uma senhora surda-muda, que estava junto com ele. Gesticulando, chamei-os para se sentarem à minha mesa, no Bar do Carlos, na praça da Missão, para tomarmos umas cervejas e comermos alguma coisa. Era a primeira vez que me sentava num bar sem bater papo. Era gesto pra lá, gesto pra cá e eu, no meu arremedo de libras, tentando me fazer entender. Mas até ali, tudo bem, deu pra se comunicar. Foram várias Heinekens, um bode assado, picanha na chapa e outras iguarias numa conta que deu duzentos e trinta reais. Quando a conta chegou mostrei pra ele, que fez que não viu. Usei todos os gestos que simbolizassem dinheiro, grana, din-din, gaita, bufunfa e nada! Esgotando minha capacidade libriática, paguei a conta, nos despedimos e saí pensando que acabara de acrescentar mais uma deficiência, desta vez visual, a quem, àquela altura, já não era mais meu amigo. 
(via Facebook, acesso em 02ago2018)

Lembra aquele velho adágio sobre o “o pior cego é aquele que não quer ver.”. Mais uma divertida crônica do alencarino Montiez Rodrigues, ele que já nos diverte diariamente no Facebook com as suas tiradas inteligentes e muito bem-humoradas. 
Pode ser, meu amigo Montiez, que eles tenham considerado uma outra, talvez mais popular lá no meu Pará: aquela que “quem convida, paga”.
Mas esse fato lembra um ex-colega de Força Aérea, cuja vida era dedicar-se a planejar e executar caneladas, tombos, golpes, mutretas e outras vigarices.
Aproximava-se, fingindo-se amigo, e, passado algum tempo, pedia ao incauto dinheiro, cheque ou mesmo que servisse de avalista. Claro que não tinha intenção de honrar o compromisso, deixando o colega com toda a dívida. Um deles, o Braga, teve muitos incômodos por isso, chegando a receber, não só uma vez, cobradores e oficiais de justiça à sua porta com a intenção de levarem bens de valor, a fim de ressarcir as dívidas que este assumiu ao avalizar o pseudo amigo. Cabra safado! Da última vez que tive notícias, o dito já havia acumulado onze processos. Onze!
Há outras caneladas, tombos, golpes, mutretas e vigarices, que deixarei a uma crônica específica. 
L.s.N.S.J.C.! 

PARA Vigo me voy!

Floresta amazônica: nunca ouviu falar?

José Wilker no papel de Lorde Cigano em Bye Bye Brasil (fonte: Internet)

 

 

CONSIDERO o filme Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, um clássico do cinema brasileiro, e seu protagonista um dos grandes atores do país. O ator José Wilker é possuidor de vasta filmografia, tendo participado de mais de 70 filmes. 

Nessa produção Wilker encarna o impagável Lorde Cigano, um artista mambembe, que lidera a Caravana Rolidei, uma trupe de artistas circenses em decadência, que circula pelo país em um velho caminhão em luta pela sobrevivência. Além de Wilker, Bety Faria (Salomé) e Príncipe Nabor (Andorinha) compõem a trupe. Mais tarde, os sertanejos Fábio Júnior (Ciço) e Zaira Zambelli (Dasdô), sua mulher juntam-se ao grupo.

BYE BYE Brasil

Fonte: Internet

 

 

A película, de 1979, é inicialmente ambientada no Nordeste do Brasil. Logo em seguida, na ilusão da busca de melhores condições de vida , a Caravana migra para a Amazônia. 

Não classifico a obra uma mera comédia, e sim um filme que aborda o político e o social. Bye Bye Brasil mostra, além da miséria do Brasil mais pobre, a temática da ecologia quando as problemáticas ambientais nem sequer eram mencionadas no país como hoje. Além, é claro, da denúncia social em si mesma e, o filme apresenta muito mais de um Brasil caboclo que vai, aos poucos, ficando para trás, perdendo a sua identidade para assumir – ou tentar – uma outra mais sofisticada.

“Floresta amazônica: nunca ouviu falar?”

Além dessa expressão, mencionada duas vezes, Lorde Cigano chama a atenção de Ciço, o sanfoneiro vivido por Fábio Júnior, para as condições impróprias do mar da cidade, que tem fezes humanas. Também chama atenção a cena em que, ao entrarem na cidade de Maceió, mostra o inferno que são as dificuldades do trânsito de uma capital, em contraste com as cidades do interior, um preço alto pela chegada do tal progresso.

 

Paralelamente às difíceis condições de vida do povo sertanejo, vão chegando aos municípios do sertão nordestino itens da vida moderna, incluindo a televisão, razão pela qual a trupe tem dificuldades cada vez mais crescentes em vender sua arte. Artistas como da Caravana Rolidei deixam de ser atração, perdendo cada vez mais espaço para as “espinhas de peixe”. 


“Ano passado deu mais gente”.

Entenda-se por “arte” também a prostituição, pois Salomé (Bety Faria), além de trabalhar como dançarina e cantora, também faz um extra vendendo seu corpo:

“Venham ver a internacional Salomé, a rainha da rumba, a princesa do Caribe, aquela que já foi amante de um presidente dos Estados Unidos”, propagandeia Lorde Cigano,  diante do prefeito local, sexualmente interessado na personagem vivida por Bety Faria.

“Mas o espetáculo continua familiar, como no ano passado?”, indaga o alcaide, interessado, mas usando de evidente ironia.

Lorde Cigano se propõe em seu show a realizar o maior desejo de um povo sofrido de um país tropical e desigual, que almeja ser igual aos sofisticados países do hemisfério Norte.

“Eu, Lorde Cigano, posso por exemplo tornar real o sonho de todos o brasileiros: eu posso fazer nevar no Brasil”. 

 

“Tá nevando no Sertão, tá nevando na minha administração” É o prefeito da cidade que diz, procurando também tirar proveito da ilusão, frisando que é na sua administração que tal fenômeno ocorre.

Caravana Rolidei então decide migrar para a Amazônia: Altamira, a Princesinha do Xingu, e depois Belém. 

Bastante emblemática é a cena em que um índio, cuja tribo fora dizimada pelos brancos, pergunta a Dasdô sobre o presidente do Brasil e ela dá de ombros: 

“Sei lá!” 

E índio também quer ser chique e usa óculos Ray Ban, veste calça Lee e ouve rádio. Índio quer viajar de avião e, também por questão de sobrevivência, já que é forçado a abandonar sua cultura milenar, acaba se adaptando precariamente às condições impostas pelos brancos. É o caso do cacique, que, em Altamira, aceita um emprego em uma indústria de celulose do magnata americano Daniel Ludwig, o famoso projeto Jari dos anos 1970. 

São as mudanças sócio-culturais que o país vai sofrendo, uma mudança que não tem volta, com o povo migrando de vez para a americanização dos costumes, perdendo sua identidade para sempre a sua identidade cultural. Bye, bye, Brasil!

Perdendo tudo em Altamira, a sobrevivência do grupo está nas mãos de Salomé, que assume abertamente a sua condição de prostituta, viabilizando a saída da cidade da extinta Caravana Rolidei. Assim, de barco, vão para a cidade grande mais próxima: Belém, onde, por um tempo, Salomé continua  a “se virar”.

Y para Vigo me voy! 

(BLOGUE do Valentim em 10set2017, reeditado)

Bye Bye Brasil não é simplesmente comédia.

L.s.N.S.J.C.!

MONTIEZ Rodrigues!

A santidade ao alcance de todos

MONTIEZ Rodrigues 1

VENDI muito efígies de santos na lojinha de miudezas de meu avô no beco de Casé, em Serra Talhada. Tornei-me um perito na hagiografia católica. Conhecia a imagem a vida de cor de cada santo. Nada demais para quem nasceu na terra do Padre Cícero, numa cidade de médio porte e de muitas igrejas. Estudei no seminário dos franciscanos, ajudei na missa como coroinha e, já rapaz, como leitor do Evangelho na hora da missa. Gostava da preleção quando se iniciava com a frase:

“Naquele tempo jesus falava a seus discípulos…” 

Ouvindo minha própria voz, sentia-me como se eu fosse também um discípulo a ouvir atento as palavras do meigo Rabi da Galileia.

Pois bem. De posse de tanta santidade, subi num pau-de-arara e indo a Juazeiro do Norte, em romaria, resolvi fazer uma pesquisa hagiográfica por museus, igrejas e lojas de Santos de Juazeiro. A maioria deste tipo de comércio se concentrava ali pela Praça Padre Cícero, indo da matriz de Nossa Senhora das Dores até na apropriada Rua de Todos os Santos.

Depois de muito pesquisar, cheguei na maior loja de santo da cidade e olhei por todas as alamedas cheias de retratos, pinturas, e estatuetas de santos, alguns espalhados pelo chão, outros pregados nas paredes, até que cheguei na ala dos santos chamados Franciscos. Vi São Francisco de Assis, São Francisco das Chagas, São Francisco de Paula, São Francisco do Canindé, São Francisco do Oeste, São Francisco do Conde, um mexicano San Francisco de sombrero, às costas, preso por um cordão preto e até um de nome apenas São Francisco.

Mal sucedido na pesquisa por não encontrar o que realmente procurava, cheguei para o proprietário do estabelecimento e perguntei:

“Por acaso, você não tem aí um São Francisco Demontiez?”

Ele me olhou pensativo e calmamente me respondeu:

“Não, mas você faz a encomenda e pode vir pegar depois de amanhã. Eu, ali, naquela tórrida manhã de Juazeiro, já com vontade de tomar uma gelada, fiquei pensando: “Será que alguém como eu, depois de tomar tanta cachaça e cerveja, pode virar santo?”

SÃO Francisco de Assis

São Francisco de Assis (fonte: Internet)

Em Juazeiro do Norte pode! É só fazer a encomenda! Nem precisa passar por aquele processo moroso de beatificação que leva décadas, em alguns casos, séculos para se atingir a santidade. (via Facebook)

Mudei por minha conta o subtítulo. O original era “Em busca da santidade”. “A santidade ao alcance de todos”, para mim, soou melhor porque me remete a um texto de antigo que li faz mais de trinta anos. Chama-se “A ignorância ao alcance de todos”, de autoria de Stanislaw Ponte Preta.

Um sujeito a bordo de um ônibus coletivo, intrigado pelo sem número de nomes estranhos, pensa alto: “Leônio Xanás!”. Ao que o motorista, atento e solícito, automaticamente responde: “Passa perto.”. Imaginando tratar-se de um passageiro perguntando por uma rua, tratou logo de livrar-se do perguntador. Diante da reação do motora, o homem passa a fazer experiências. Em todo o canto que chegava, falava “Leônio Xanás” para se divertir com a reação das pessoas. Num restaurante: “Leônio Xanás tinto, por favor!”. E o garção lhe responde: “Estamos em falta, mas chega na semana que vem”. Na portaria de um prédio: “Doutor Leônio Xanás?”. “Acho que deve ser no décimo andar, chefia”. E assim ia.

Constatoa o personagem pontepreteano que as pessoas se sentem envergonhadas em declarar-se ignorante neste ou naquele assunto; ou, como é o caso do santeiro da crônica de Montiez Rodrigues, temem perder uma boa venda. O caso é que nem sempre se preocupam em realmente dizer a verdade: não sei, de quem se trata, vou procurar saber, talvez fulano saiba dizer…

No caso dos santos, em que o cronista, declarando-se amante da bebida, duvida se chegaria à santidade, a Igreja tem lá suas explicações. Conhecedor da vida dos santos, a Hagiografia, o etílico amigo Montiez certamente já leu sobre tantos santos, que, antes de se converterem, nem sempre levavam vida santa. Mas é claro que o amigo não conta a história com esse fim. 

O riso é o melhor remédio!

L.s.N.S.J.C.!  

PODEMOS elogiá-los à vontade!

DURANTE os três decênios em que estivemos na Força Aérea Brasileira muitos  acontecimentos  presenciamos e de tantas outros travamos notícias por meio das redes sociais da época, que funcionava de boca a ouvido. Chegamos a ver capitão desafiar major para o desforço físico e coronel com a ficha individual  mais suja que pau de galinheiro de fazer inveja ao praça mais alterado do quartel.

De todos os episódios extraordinários, pitorescos, divertidos ou fora de série, lembramo-nos de alguns em especial envolvendo autoridades. Passo então a registrá-los sob pena de caírem no vão do esquecimento.

Uma vez, em palestra do comandante da aeronáutica, tenente-brigadeiro Bueno, vimos com os olhos que a terra haverá de comer um dia um sargento receber um lance (uma bronca, uma mijada, um esporro) dessa autoridade. Era uma manhã e o local era o cine-teatro Brigadeiro Camarão, que fica próximo ao Colégio Rego Barros.

O novinho teve a coragem — ou falta de juízo — de dormir na palestra do brigadeiro. O comandante-mor, talvez por ocultar uma conjuntivite ou qualquer outro problema ocular, palestrava usando  óculos escuros — ou seria apenas um ardil, pois a autoridade simplesmente “filmava” a audiência enquanto falava.

“Você aí, que está dormindo”, gritou Sua Excelência, “Você acha que eu vim de Brasília até aqui para alguém dormir durante a minha palestra?”.

Foi nessa hora que o infeliz sargento dorminhoco se viu como o centro das atenções, eis que todos viraram o olhar para a sua direção para saber quem era. Inclua-se os comandantes de unidades e outros oficiais superiores, a fim de conferir se o militar em questão era ou não seu subordinado.

Nesse mesmo dia o dorminhoco foi devidamente catrapado.

Soubemos de outro episódio.

Foi numa das vezes em que o presidente Lula visitou Belém, tendo ele e dona Marisa se hospedado no hotel de trânsito dos oficiais da guarnição.

Foi o chefe do Pessoal, na época capitão Omar, quem contou-nos os detalhes. Depois de um almoço à base da exótica gastronomia paraense, a saber, maniçoba, pato-no-tucupi, vatapá, acompanhados de sucos de taperebá e muruci; como sobremesa, açaí e musse de cupuaçu, além de outros quitutes da região, grande chance de passar mal quem não estava habituado à peculiar culinária amazônida.

Não deu outra.

Depois que toda a comitiva presidencial já estava de saída, o chefe do Pessoal já mencionado, pessoalmente, propôs-se a realizar  vistoria nas dependências do hotel-cassino, incluindo apartamentos, refeitório e sanitários. Numa das toaletes, o oficial observou que este fora frequentado por alguém de muita pressa, porque a natureza não deu tempo suficiente para que o usuário chegasse ao assento. Era um fedor dos diabos, além de, visivelmente estar lá, para quem quisesse ver, o produto do almoço no chão, na parte externa do vaso e nas bordas deste, formando uma espécie de trilha.

Quem teria feito aquela merda?

“Parece que alguém andou abusando da maniçoba”, falou o capitão Omar, dirigindo-se ao segurança que ainda guardava o local.

“Acho que foi o Ciro Gomes, chefia!”, respondeu o militar, com uma espécie de sorriso à Monalisa, como quem conta uma confidência. “Eu vi o ministro entrando aí às pressas”.

É claro que o autor da proeza podia ter sido qualquer um. Mas, Ciro Gomes, ministro de Lula, era a personagem mais conhecida entre eles. Ficava mais divertido atribuir a culpa ao célebre político.

Mas não é sobre Ciro ou Lula que vamos ocupar o restante desta página, pois não era a primeira vez que o T1 recebia um presidente da República.

Pouco mais de duas décadas atrás o mesmo hotel de trânsito, o T1, foi cenário de uma situação divertida, ao tempo que embaraçosa e constrangedora, envolvendo um outro presidente da República, o extinto general João Batista de Figueiredo, o derradeiro presidente do regime militar.

JOÃO Figueiredo presidente

General-presidente João Figueiredo (fonte: Internet)

Era o ano de 1980. Ou teria sido 1981? Isso, porém, não vem ao caso. Por razões políticas que desconhecemos, o general-presidente encontrava-se em litígio com o governador do Pará, que, contrariamente aos preceitos da caserna, era apenas um coronel, o Alacid da Silva Nunes. Devido a essa razão, Figueiredo e sua comitiva hospedou-se no T1, já que o governador ignorava a sua presença em Belém.

O comandante da Base Aérea de Belém era o coronel-aviador Próspero Púnaro Barata Neto, oficial que marcou para o bem (segundo uns) e para o mal (na opinião de outros) a história daquela unidade militar. Naquela época era o costume de serem nomeados para comandantes de base aérea os coronéis já muito antigos, quase prontos a serem promovidos. Era o caso. Mas, na realidade, Barata já tinha idade para ser brigadeiro ou até mesmo major-brigadeiro. Ocorre que o oficial teve seu tempo de serviço interrompido por conta de um episódio de que tomou parte pouco mais de vinte anos antes, somente sendo reintegrado à FAB no governo Jânio Quadros.

Em 1959, esse mesmo oficial participou de um episódio histórico. Nesse tempo o capitão Barata envolveu-se numa rebelião (uma tentativa, ao menos) que pretendia, se bem sucedida, derrubar o governo Juscelino Kubistchek. Barata Neto e seus correligionários de ideais, os tenentes-coronéis Haroldo Coimbra Veloso e João Paulo Burnier, já são mortos. Podemos elogiá-los à vontade, pois.

Veloso era então já reincidente na prática rebelde contra JK, que, num gesto magnânimo e bondoso, o anistiara após a frustrante rebelião histórica conhecida como A Revolta de Jacareacanga. Inconformado, Haroldo Coimbra Veloso junta-se desta vez a outros udenistas (que também eram lacerdistas, eduardistas…), entre militares e civis, incluindo os dois oficiais citados, para, mais uma vez, tentar derrubar o governo de Juscelino num episódio chamado de A Rebelião de Aragarças, que durou somente 36 horas, de que poucos historiadores se ocupam. Apesar de pouco a História registrar, ambos os episódios nós destacamos aqui no BLOGUE do Valentim.

Mas voltemos ao Figueiredo e ao Barata Neto, então comandante da Base Aérea, naquele Círio de Nazaré de 1980. A exemplo de Barata, Veloso e Burnier, o general não mais está entre os vivos, por isso, podemos também elogiá-lo à vontade, como dizia Machado de Assis.

Nessa tarde, com a agenda livre, foi programado um coquetel na área da piscina do T1 em homenagem à autoridade máxima do país, que honrava Belém e a Aeronáutica com a sua presença. O brigadeiro comandante do Primeiro Comando Aéreo, demais oficiais-generais da área de Belém, a totalidade dos oficiais superiores da guarnição, além de as principais autoridades civis federais, todos acompanhados pelas respectivas madames esposas, se faziam presentes em trajes informais.

É evidente que, do baixo clero, obrigatoriamente — e aí por dever de ofício — se encontravam também presentes motoristas, seguranças, taifeiros e a Banda de Música. A vida divide a humanidade em duas: os que usufruem e os que servem; os que tocam e os que carregam o piano; a casa-grande e a senzala.

Banda de Música?

Sim. Não raro os militares músicos em ocasiões como essa eram solicitados a demonstrar sua arte, mormente nessa tarde em que o mandatário máximo visitava pela primeira vez o Estado do Pará. Ademais, Barata Neto, ainda que muito caxias, conservador, sangue azul e militar rígido, com seu inseparável cachimbo,  apreciava muito o trabalho dos componentes dessa subunidade, tendo, inclusive renovado e ampliado toda a instrumentação musical, atendendo a uma reivindicação antiga. Em contrapartida, a Banda, em sua administração, era, por conseguinte, frequentemente convocada. Em tais ocasiões, além da música, o uísque, a vodka, a gelada, ou mesmo a manguaça rolavam soltos.

Banda e Rancho possuíam agenda cheia, portanto.

Naquela tarde ensolarada de outubro estava lá, à borda da piscina, Figueiredo em trajes sumários. Rodeado por oficiais-generais, ministros e o coronel Barata, o presidente, entre uma dose de uísque e outra, degustava uvas, como a lembrar a imagem de um imperador romano ou uma espécie de semi-deus. Continue lendo

MONTIEZ Rodrigues!

O general hi-tech

MONTIEZ Rodrigues 1

O cronista Montiez Rodrigues conta mais uma de suas experiências enquanto militar da Força Aérea Brasileira (foto: Facebook)

UM GENERAL-DE-BRIGADA do Exército Brasileiro, empolgado com o Brasil potência do milagre econômico e entusiasta da entrada do Brasil nos avançados campos da tecnologia, gostava de viajar, dar palestras e visitar os centros de excelência profissional das Forças Armadas do país. Não era intelectualmente bem dotado, mas era bastante divertido em suas preleções. Chegou a assumir o comando do quartel da restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro, laboratório onde se testava a eficácia dos armamentos e munições usados pelas Forças Armadas.

Na vez em que a equipe de telemetria do Centro de Lançamentos da Barreira do Inferno foi visitar os laboratórios desSa base militar, coincidentemente, uma turma de cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras também estava em visita. Que fez o general? No auditório do quartel ordenou que todos nós, os sargentos da Barreira do Inferno, subíssemos ao palco e nos apresentou aos cadetes e oficiais presentes, dizendo:

“Olhem esses meninos, eles representam o que há de melhor na educação tecnológica em nosso país! Uma continência para nossos heróis!”, vibrou o general.

Foi uma homenagem e tanto. Entre encabulados e envaidecidos, todos nós ficamos. Vivíamos em plena ditadura e a hierarquia era rigorosa, mas o general podia e gozava de prestígio não só no Exército, mas em todas as Forças​ Armadas. No entanto, aquele instante em que gozamos de prestígio mais do que a oficialidade presente foi demais!

Um lugar lindo, a Marambaia! Passear por aquela praia extensa vendo a serra avançando no mar entre a neblina foi extasiante. O lugar era de uma paz indescritível. Devia ser reconfortante morar numa daquelas casas da Vila Militar que mais pareciam as dachas soviéticas nas praias do Mar Negro.
Anos mais tarde fui encarregado de ciceronear o velho general, agora de Exército e já na reserva, em visita à Barreira do Inferno. Saí com ele e seu séquito pelas dependências do quartel. Mostrei a estação de Radar, a de Telemetria, onde eu trabalhava, mas o general delirou foi quando liguei os comandos da antena Stella, uma gigantesca parabólicas de rastreio de veículos espaciais, e comandei uns giros da antena em várias direções.

O oficial de segurança da Barreira, um terror para seus subordinados e um tremendo puxa-saco até de outro tenente que tivesse um dia a mais de antiguidade sobre ele, a toda hora dirigia-se ao general, às vezes interrompendo minhas explicações apenas para redundar o que eu acabara de dizer. Houve um momento em que o general perdeu a paciência e disse:

“Tenente, cale sua boca porque você só entende de infantaria! De tecnologia, só conhece o manejo de algumas armas. Deixe o sargento, e só o sargento, explicar pra gente porque ele se expressa muito bem e fala dos equipamentos como se fossem coisas vivas!”

E aí, (como que) para comprovar o que dissera, diante de um osciloscópio, dirigiu-se ao grupo que o acompanhava e perguntou:

“Vocês já viram a energia elétrica que se encontra nas tomadas de suas casas? Aquela que promove todas as benesses da nossa vida moderna?”

Aí, olhou pra mim e ordenou:

“Sargento, mostre pra eles! Então pus os dois bornes de entrada do osciloscópio na tomada de energia. Na tela se desenhou uma linda senoide de sessenta hertz que parecia uma bailarina da dança do ventre a oscilar harmoniosamente. O general entusiasmado gritou:

“Olha aí! Estão vendo? Esta é a energia elétrica de suas casas!”

Todos olharam admirados para o osciloscópio e aplaudiram. Ainda não sei se entusiasmados com a exibição de tecnologia tão primária ou pela bajulação imanente que a maioria tinha por todos os generais da ditadura.

Provavelmente pelas duas razões, meu caro Montiez Rodrigues, o tecnológico. O esporro dado pelo general no tenente foi algo de humilhante, mas bem merecido. Muitos deles se põem, por pura bajulação, a meter o nariz onde não entendem bulhufas, necas de pitibiriba (como dizem os paraenses). Mas se metem assim mesmo como que para justificar a sua existência ou o soldo ganho no final do mês. 

L.s.N.S.J.C.!

 

 

O CRONISTA anônimo!

RECONHECE-SE um bom cronista quando ele, de uma frase casual ou de um fato aparentemente corriqueiro e normal, transforma a ocasião em um belo texto, composto de reflexões filosóficas e, por vezes, de uma pitada de bom humor. O bom cronista vai muito além da mera informação.

Não. Não estamos aqui falando de cronistas célebres, conhecidos do grande público. Feras como Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino, Rubem Braga, entre outros, mestres na arte de transformar banalidades em textos de elevado trato, além de bem-humorados e reflexivos sobre o ofício de viver, são figuras consagradas e reconhecidas.

Também não falamos sobre o cronista musical, esse até mais conhecido e badalado. Gênios como Chico Buarque e João Bosco, exímios em contar e cantar a vida cotidiana e os fatos aparentemente sem muita importância, são pouquíssimos e, por paradoxal que seja, nem tanto valorizados num terra em que o povo não prestigia como devia os verdadeiros talentos artísticos.

Falo aqui de gente anônima que, como eu, gostam de traduzir em letras as coisas simples, e aparentemente sem relevâncias.Vide o caso de José Augusto Moita, cujas crônicas nós aqui postamos por três vezes e também na BODEGA do Valentim, por uma oportunidade.

JOSÉ A. Moita

José Augusto Moita (fonte: Facebook)

Como bom cearense, Moita discorre com uma boa dose de humor sobre o fato de o músico Pantico Rocha, que, após décadas de carreira trabalhando na informalidade, somente agora houve por bem registrar-se e ser portador de sua carteira de trabalho, afinal. Justo agora, em épocas de precarização dos direitos trabalhistas, situação em que o amigo alencarino foi direto ou indiretamente na ferida. Como cronista inteligente, disse ele com outras palavras sobre o problema. Ao bom entendedor, meia palavra basta.

Recentemente, postamos igualmente outra crônica de J. A. Moita. Trata-se de um casal de amigos, abnegados, que de sua casa e com poucos recursos resolveram instalar uma escola de música para crianças e jovens carentes da localidade. O título “Bem, temos uma orquestra!” retrata bem a qualidade do bom cronista que, a partir de uma frase apenas, se põe a escrever e reflexionar, com facilidade, sobre a bela e abnegada atitude do senhor Alberto e da dona Marta.

Da mesma forma, o cronista em alusão foi bem num texto em que reporta as suas agruras em cumprir dupla jornada, uma como funcionário público de banco e outra como microempreendedor, tendo que correr de um lado para outro a fim de conseguir juntar uns trocados e conseguir dar relativo conforto à família. Com bom humor, faz indiretamente uma crítica severa e justa ao sistema econômico do governo brasileiro de então. Nessa época  — e, ao que indica, estamos a voltar a esse tempo nefasto –, o brasileiro obrigava-se a fazer das tripas coração, quase ocupando dois lugares no espaço ao mesmo tempo, como foi o caso do Moita.

Outra.

O progressista anônimo também contribui para enriquecer este blogue com a crônica sobre um episódio banal, ocorrido no contexto temporal da Copa do Mundo de 1978. Retrata, de forma indireta, a manipulação que os meios de comunicação exercem sobre os brasileiros em sua maioria, quando o ideal seria a escola e os livros exercerem tal influência e poder. Estamos longe, muito distantes, do ideal.

Pobre povo brasileiro, sempre manipulado!

MONTIEZ Rodrigues 1

Montiez Rodrigues (fonte: Facebook)

Outro grande e inteligente cronista anônimo revela-se no nome de Montiez Rodrigues, também nosso ex-colega de farda, que nos diverte diariamente com suas tiradas cômicas postadas no Facebook. Montiez, também alencarino, relata numa de suas crônicas diárias sobre um ex-colega teuto-brasileiro. Trata-se do Gigante Pool, em que o cronista homenageia suas qualidades ao mesmo tempo em que discorre sobre um determinado período de suas vidas em comum: o tempo inesquecível da sua juventude (e nossa também) naqueles dois longos anos de Escola de Especialistas de Aeronáutica.

São das ideias desses cronistas anônimos, além de também dos fatos e situações corriqueiras, que nós nos valemos em nossos blogues também quase anônimos.

L.s.N.S.J.C.!