RISCO calculado

É FINAL de tarde e o expediente daquele dia se aproxima do seu término. É o período do dia em que quase todos, militares e civis, já se preparam para voltar às suas casas, as oficinas, os hangares, os almoxarifados, o posto médico, a garagem e as seções administrativas, em todos esses locais o ritmo de trabalho vai aos poucos chegando à calma. Muitos já estão trocando de uniforme para, em poucos minutos, entrarem em formação para a chamada de final de expediente e o aguardado “Fora-de-forma, marche!”. Exceção se faz à equipe de serviço e a uma ou outra equipe de manutenção, que prepara as aeronaves para o voo do início do dia seguinte. 

Calixto Wilson, o operador da copiadora, após a rotina de copiar o boletim diário da unidade, pega do bolso um cigarro e o acende; abrindo a porta, sai da sala, pois lá fora o ar está bem mais fresco agora com a aproximação do crepúsculo equatorial. É nesse momento que avista uma figura que não via há muitos anos. Vinha em sua direção com passos lentos e caminhada característica. 


Juvenal dos Santos Flores é então um primeiro-sargento. Ele havia servido nessa unidade há mais de dez anos, antes de ser transferido para a região Sul, e agora está de volta. Na época era um jovem terceiro-sargento. 

Abraçaram-se. 

“Bem, muito bem, obrigado. Pois é, amigo Calixto, há quanto tempo mesmo, tchê! Desde 1975, quando eu fui transferido pra minha Querência amada.” 

Juvenal, a convite do amigo, entra na sala para um café. Entre um gole e outro, Calixto entra no assunto. Queria saber por curiosidade sobre um fato ocorrido naquela época. Nesse tempo Calixto já era operador da copiadora, e por suas mãos, além do boletim diário da unidade, também passavam outros documentos, por isso sempre se mantinha bem informado acerca de quase tudo.


Fez muito furor nos papos de rancho e nos senadinhos que se formavam a cada canto do quartel o caso de um grupo de sargentos que sofreu punição disciplinar por terem fraudado o sistema nacional da habitação. O comandante puniu severamente esses militares, aplicando a cada um deles vinte dias de detenção, com base no número 63 do artigo dez do Regulamento Disciplinar.

“Sei o que o amigo quer saber. É sobre um acontecido há dez anos”, disse o primeiro-sargento, depois de esvaziar a xícara. “Mas antes, lembrei o caso da Marcosa”. Deixa que eu te conte.

A Marcosa era uma concessionária de automóveis, que falira há alguns anos. Ora, certa vez o gerente da empresa apareceu na unidade e ofereceu Chevette, carro recém-lançado, aos sargentos recém-formados. Foram 25 carros zero-quilômetro. O Chevette era uma grande novidade e foi lançado pela Chevrolet para competir com o Fusca da Volkswagen. Até quem não sabia dirigir, ganhou carro novo. Mas nenhum deles pagou uma mensalidade sequer. Resultado: faliram a Marcosa.

“Sim, caro Calixto, e dizem as más línguas que foi a nossa gente a responsável por essa falência. Havia uma turma grande de sargentos novos e um dia o gerente da empresa veio oferecer um Chevette para cada um deles. Mas este amigo não estava entre eles. Quanto ao sistema da habitação, devo dizer antes que fazia anos que a minha situação financeira não era boa. Para ser bem sincero, estava à beira da loucura. Mais quebrado que arroz de terceira. Não sabia o que fazer para pagar as dívidas e ao mesmo tempo sustentar a prenda e a piazada. Quando estava bem, devia a apenas dois agiotas.

“Aliás, fazendo um parêntesis, somente muito depois fui entender que aquela época recessiva, de inflação galopante, pacotes econômicos de arrocho impostos pelo governo, não apenas eu estava em situação financeira difícil, mas a maioria, grande maioria do povo brasileiro. E a gente andava de cabeça baixa, achando que tudo era culpa só nossa. O comando não fazia nada para ajudar, ao contrário, só para nos ferrar. Qualquer atraso em mensalidades e as Casas Pernambucanas, Mesbla e companhia mandavam logo carta para o comandante, que ameaçava logo o praça com o número 63 do artigo dez. Era dar um jeito de pagar ou ser punido”.

Calixto deixava à vontade o amigo. Que falasse o que quisesse e tivesse vontade; sabia bem ouvir para depois tirar suas próprias conclusões sobre os fatos e pessoas. Tinha a teoria de que as pessoas têm necessidade de falar, e ele, ouvindo, passava a conhecer o que pensava essas pessoas. Juvenal parecia estar sendo sincero quanto às dificuldades sofridas, fossem particulares ou conjunturais, pois tudo ainda estava recente na memória do funcionário. Acostumara-se a ouvir, pois, sabe-se por que razão, recebia muita gente que iniciavam a falar de sua vida, de seus problemas e de outras pessoas. Pediu que o amigo continuasse, pois o expediente estava próximo do final e nenhum documento mais lhe chegaria para  ser copiado.


“Mas não era só este amigo que tinha a situação financeira complicada. Ouvi falar que os imóveis estavam encalhados. Depois do último pacote financeiro baixado pelo governo, nenhuma construtora conseguia vender suas casas e apartamentos. As prestações estavam nas alturas. Foi quando chegou na unidade um corretor de imóveis, oferecendo alguns apartamentos para venda. O cara só podia ser louco, pensei comigo, ninguém agora tem dinheiro para se meter numa dívida dessas, em que a mensalidade cresce acima, bem acima, do nosso salário. Porém o mais absurdo de tudo era que ele oferecia dinheiro a quem se dispusesse a comprar um apartamento”.

Por incrível que possa parecer, ofereciam dinheiro para que outros se endividassem. Calixto balançava a cabeça afirmativamente, pois sabia de tudo até aí. Fez sinal que o amigo continuasse a prosa.

“Um milhão de cruzeiros! Dá pra acreditar? Isso dava quatro vezes o valor do meu salário naquela época. Era pra balançar qualquer um, ainda mais se estivesse endividado até à medula, como era o meu caso. Ora, eles, imobiliária e construtora, iam receber do governo mais de cem vezes esse valor. Então, por que não, digamos, incentivar, promover a venda. Era pegar ou largar. Isso chegou ao conhecimento do comandante, pois seus agentes de informação não dormiam no ponto, principalmente se fosse para ferrar gente subalterna. Aí o comandante reuniu todos nós no auditório e largou um sonoro sabão, dizendo que puniria exemplarmente quem não honrasse o compromisso financeiro, que era pra todo mundo pensar bem antes de tomar a decisão e assim por diante”.

Enquanto parou para tomar fôlego, Calixto pensava que de fato todos deviam estar com a corda no pescoço: os sargentos, pelas razões que o amigo Juvenal expunha; e os agentes imobiliários com seus imóveis encalhados, a ameaça de irem muitos à falência. A saída era só essa: ganhar dinheiro, oferecendo dinheiro. Aos sargentos, era ganhar dinheiro aumentando o grau de endividamento.

“Confesso que aquela reunião me deixou mal. Mas, depois de analisar bem os prós e os contras, de ver que o que tinha a perder e a ganhar, vi que não restava para mim outra alternativa. Essa grana dava para por as coisas em ordem, pelo menos por alguns meses. Moraria com a família nesse apartamento enquanto pudesse. É claro que sabia que meu salário não dava para pagar a mensalidade; ficaria inadimplente com o banco da habitação, correndo risco de me punirem disciplinarmente e também me prejudicarem a carreira, o que não era nada bom. Mas era um risco calculado, e eu tinha um plano “b”, que, para dar certo, dependeria de algumas circunstâncias.

Calixto já imaginava qual era esse tal plano “b”, mas não interrompeu o amigo, curioso pelo relato que viria para ver se confirmaria suas suspeitas. Além do mais, colheria aí alguma informação adicional, algo que ainda não sabia. Juvenal continuava.

“Chegou a data marcada pelo tal corretor e fui até à imobiliária para acertar tudo. Antes, tivemos que passar pela agência da caixa econômica para formalizar o contrato. Como era casado, a patroa foi comigo. Assinamos. Depois disso, fomos a pé até à tal imobiliária. Numa sala secundária, meio escondida lá nos fundos, recebi toda a grana, contadinha, dentro de um grande envelope. Nenhum recibo, nem nada. Senti uma tremedeira pela sensação de estar fazendo uma grande coisa errada, uma falcatrua, uma coisa desonesta. Mas confesso que depois passou, e veio em seguida a sensação de estar me vingando daqueles caras que também ajudavam a gente a sofrer a humilhação das dívidas, das visitas nervosas ao agiota, de toda aquela vergonha, tudo para não deixar a família passar fome. A sensação de, pelo menos uma vez, dar o troco no sistema justificava o medo de estar fazendo falcatrua, se o amigo me entende”.

Calixto fez com a cabeça que sim.

“Peguei aquele milhão de cruzeiros e paguei as contas mais urgentes, empurrando com a barriga as outras que podiam esperar, e assim fui respirando até o final do ano. Nesse período, já completava tempo para pedir transferência. Isso também fazia parte do tal plano “b”. Sabia que ficaria marcado na unidade por esse problema e os oficiais não me deixariam em paz. Minha carreira em perigo. Tinha grandes chances de ser movimentado e isso vinha a convir. Chegou o final do ano, e lá por novembro fomos chamados à sala do comandante. Todos nós íamos receber a punição prometida. Aliás, todos não. O Rufino, um tranqueira, um xiru que só servia para fazer peso em cima da terra, um conterrâneo meu que não honrava a bombacha que usava, não estava na relação dos inadimplentes, como passamos a ser chamados de forma pejorativa.  E eu sei que ele não pagou uma parcela sequer do apartamento”.

Calixto esboçou um sorriso discreto com o caso do sujo falar mal do mal-lavado.

“Sei porque o amigo sorri. Parece irônico que eu esteja reprovando um outro fraudador como eu. Mas não é bem assim. Rufino era um trambiqueiro profissional, vivia a dar tombos em qualquer um. Nós erramos e estávamos ali para ser punidos, enquanto ele passeava pelo corredor dando risada de todos nós.”

Calixto perguntou a Juvenal por que razão o Rufino escapou da punição. 


“Diziam que o bagaceira havia molhado a mão de um funcionário da caixa, para que este ‘esquecesse’ o seu nome. Essa é a hipótese mais provável.  Ficamos com raiva desse cara e também do encarregado da seção. Era um dois-esse baba-ovo, que se dava o serviço sujo de entregar os colegas. Fazia com prazer esse serviço imundo.”


Calixto conhecia vários desses tipos. Pensou num nome. Sim, era esse: subserviente com os grandes, arrogantes com os pequenos.


 “O bajulador recebeu-nos na sala com um largo sorriso no rosto e dizendo palavras de sentido irônico, como: ‘Podem ficar à vontade…’. Dava ênfase na expressão ‘à vontade’, de forma que soasse engraçado, mostrando que se divertia com a desgraça alheia, à moda de um comediante da tevê. O comandante não se demorou a largar seus afazeres no gabinete para se levantar da poltrona e, com o rosto carrancudo, nos dar uma grande mijada. Só não nos ofendeu a mãe, o resto foi uma sonora humilhação que nos aplicou. De quando em vez eu olhava de relance a cara do encarregado, e via que ele não fazia esforço para disfarçar a cara de satisfação, um sorriso tipo Monalisa, mas se o comandante olhava para ele, o jaguara mudava logo para uma fisionomia séria e circunspecta. No final, o veredicto da autoridade: vinte dias de detenção, que cumpriríamos na semana seguinte. ‘E tem mais: quem não pagar o que deve, vai receber o dobro de cadeia, até que seja excluído da Força’.”

Calixto disse que não viu em boletim o nome de Juvenal.

“O amigo sabe muito bem que meu nome não apareceu no boletim. Se saísse em boletim, iria para a ficha, daí para a diretoria de pessoal e a minha carreira estaria seriamente ameaçada, praticamente arruinada porque eu não era ainda estabilizado, tendo só sete anos de serviço público na época. Era tomar o caminho da rua. Esse era o meu plano “b”, que já tinha em mente. Se desse errado, tudo estaria terminado. Não se preocupe, amigo, vou dizer como tudo ocorreu”.

Calixto, percebendo que a história ia bem longe, pediu que Juvenal continuasse com ela noutro dia.  (BLOGUE do Valentim em 02dez2016)

AZAMBUJA, o primeirão!

(Continuação da postagem de 22maio2017)

UM DIA perguntei a Azambuja o porquê de tanta dedicação ao trabalho. Para mim — e essa era a ideia que eu tinha antes de conhecê-lo — bastava fazer o previsto, deixando o que fosse de extra para depois. Afinal, para que se matar trabalhando se o salário ao final do mês não vai se alterar. Minha teoria era guerra, sombra e água fresca.

— Meu jovem amigo — respondeu-me ele –, eu não trabalho assim somente por causa do salário extra no final do mês, até porque, como bem diz você ele não vai sofrer aumento por causa do meu trabalho extra. Nem porque serei bem avaliado ao final do ano – e isso também vai depender da visão que têm de mim meus superiores. Também não me esforço apenas para ser promovido ao cabo de alguns anos; a promoção poderá vir ou não, de nada adiantando meu empenho. Faço assim para satisfazer meu chefe. Ele é um sujeito rigoroso e muito exigente. Esse meu chefe não vai me deixar dormir tranquilo se, ao final da jornada, revendo o filme do dia, descobrir alguma falha, alguma omissão; se verificar que, com a minha indolência, incompetência ou falta de tato, prejudiquei  alguém em algo, ainda que seja algo aparentemente insignificante – pode até ser insignificante para mim, não para o outro. Ele vai me cobrar se, existindo um trabalho que deveria ser feito hoje, eu, por falta de esforço ou negligência, acabei deixando-o para o dia de amanhã. Aí ocorre que no dia seguinte, no calor da peleja diária, surgirão outras questões a serem resolvidas naquela mesma jornada, exigindo ação urgente e inadiável e, então, dando um sorriso sem graça vou dizer a mim mesmo: não deu tempo de fazer aquele trabalho, e aquela pessoa, que tanto contava com o meu esforço, ficará prejudicada. Será então razão de vergonha para mim se assim proceder. Meu chefe é alguém que está em todo lugar. 

— ? 

Por causa dessa última frase já estava sem compreender o que dizia o Primeirão. Devia estar usando uma espécie de metáfora ou coisa assim,  e meu semblante denunciava essa interrogação, que ele com certeza percebeu.

— Meu chefe — completou antes que eu pronunciasse a pergunta que estava para formular  — é a minha consciência.

Deu ênfase às duas últimas palavras. Como me demorei a falar, ele continuou.

— Além do mais, já estou um pouco velhinho para ser repreendido por homem barbado.  Por outro lado, sejamos práticos: a dedicação ao trabalho nos dá a sensação de que o tempo corre mais célere, e rapidamente o expediente chega ao seu final; quando nos damos conta, já é sexta-feira, e a quinzena está por terminar, com a mensagem-rádio informando do C130, seus horários e tudo o mais. Não é mesmo? 

Fiquei a recordar dessas palavras marcantes anos depois, quando a memória me trazia de regresso a imagem daquele militar veterano, muitas vezes incompreendido, e que mais de duas décadas atrás rumara à capital do Estado para completar a relação de documentos, sem os quais ficava difícil conseguir um emprego decente.

Quando lhe disseram que faltava um, o certificado de alistamento, o posto de alistamento mais próximo que encontrou foi justamente o da Força Aérea, e então, quando deu por si, nos primeiros meses do ano seguinte se via incorporado como soldado recruta. Foi grande o seu contentamento quando, ao receber seu primeiro soldo, enviou a metade daqueles cruzeiros a seus pais, agricultores pobres que, a muito custo, mandaram o pequeno Juvenal, o primeiro de seis, à escola primária na vila, onde foi apresentado às primeiras letras. Nesses meses de recrutamento, comia e dormia no quartel, permitindo-se a no máximo duas saídas mensais à cidade, não sem regressar ao quartel invariavelmente próximo ao meio-dia, pois o rancho não esperava. Não considerava isto uma privação, tampouco reclamava da rotina espartana que ele próprio se impunha naqueles meses iniciais de milico. E foi observando as patentes, que ele em breve aprenderia a distinguir o que era cabo, sargento, tenente…, decidindo enfim renovar tempo de serviço. Aquele rapaz pobre do interior imaginava romanticamente que se entrava como soldado e se acabava na patente de coronel e, num belo dia ficou sabendo que não seria por tempo e mérito promovido de soldado a cabo e, desta graduação, a sargento, como pretendia ele ingenuamente. Foi quando procurou saber de que jeito poderia seguir carreira. Não, disseram-lhe, na Aeronáutica não se poderia ser promovido sem que prestasse concurso intelectual, pelo menos como acesso às primeiras graduações de cada ciclo. Azambuja então passou obstinadamente a preparar-se com tal objetivo e, tão logo a legislação lhe permitiu, mediante os exames exigidos, acabou na Escola, não sem antes ter sido S1 e cabo. Depois disso serviu em três ou quatro Unidades antes de chegar até aqui.

Lembrei também daquele dia em que chegaram à nossa Unidade quatro soldados novos. Azambuja os reuniu a uma sombra de mangueira e pôs a dar-lhes orientações. Procurem estudar pois o tempo passa ligeiro. Ao mesmo tempo procurem aprender ao máximo do que for ensinado aqui. Se forem espertos, sairão da caserna com uma profissão. E assim por diante, ia aconselhando aquela turma, fazendo o mesmo com as turmas seguintes.

Esse era Azambuja, um sujeito que, no íntimo, divertia-se com a imagem tão pesada que muitos  injustamente lhe atribuíam.

Era costume na Força Aérea, o terceiro sargento tratar o segundo e o primeiro sargento de “você”, isto é, sem formalidades, mas lá, exceção feita a mim, a grande maioria dos terceiros e segundos chamavam-no de “senhor”. Não obstante a proximidade de que gozava desse meu grande amigo, nunca tive coragem de lhe observar que aquele bigode extravagante não o ajudava – aliás, ele nem precisava desse adorno – a ser mais respeitado, mais do que já era, como ele almejava; ao contrário, lhe dava um aspecto engraçado, o que não era de seu agrado.

Certa vez, o tenente Cajazeiras, André de Araújo Lima Cajazeiras, recém-chegado à Unidade, lhe apresentou um documento e pediu a Azambuja que o publicasse com outra data, uns dois dias retroativos, pois isto lhe daria uma vantagem financeira significativa. Azambuja se negou a fazer isso.


— Sei que o senhor é meu superior e lhe devo obediência, mas o que me pede que faça não está correto.


Inconformado, Cajazeiras dirigiu-se à sala do coronel Bieniak, que se encontrava nesses dias em Cachimbo.

— Comandante, não venho gostando das atitudes desse sargento da Ajudância.  


Embora eu não estivesse na sala do comandante, esta passagem foi-me contada mais tarde pelo próprio tenente Cajazeiras, quando este servia em outra Unidade de Brasília.


— E você acha que ele está errado? — Redarguiu o comandante, depois que o oficial subalterno contou-lhe o que se passava.

– … 


Silenciou Cajazeiras, ao perceber de que lado estava o coronel Bieniak. Percebeu que seus argumentos não prosperariam. Envergonhado, pedindo permissão regulamentar, retirou-se da sala.Era certo então que Azambuja gozava de elevada consideração por parte do comandante, que apoiava suas ações à frente da Ajudância. Fui também testemunha do quanto era desorganizado o setor antes de sua chegada, vez que muita coisa era empurrada com a barriga, tendo muitas vezes de recorrermos às unidades da área quando deparávamos com um assunto destoante da rotina.  Se estivesse então próximo ao embarque para Cachimbo, então era só enrolar um pouco e deixar tudo para a outra equipe. Simples assim.

Passou-se o tempo e o coronel Bieniak em breve encerraria a sua administração, passando o comando da nossa Unidade ao coronel Camboim. 

Continua…

AZAMBUJA, o primeirão!

MUITO repercutiu entre os colegas da Aeronáutica o infortúnio ocorrido com o Primeiro-sargento Azambuja, Juvenal de Azambuja, quando servia na serra do Cachimbo, sudoeste do Pará. Circularam em Brasília as versões mais variadas, predominando as que atestavam o acerto da decisão do comandante na época. Alguém assim como ele só podia ser um cínico, e algo de ruim certamente teria feito, quem sabe algum ato de indisciplina ou até mesmo uma falcatrua abominável, de maneira que seu afastamento sumário da Unidade fora atitude acertada — diziam.

De outro lado, surgiram teorias que sentenciavam a injustiça do afastamento intempestivo do primeiro-sargento, enquanto havia outras tão inconsistentes, incompletas, incertas, como que propositalmente a deixar o desfecho do caso a cada um que a escutasse.

Houve ainda um grupo — uma minoria, diga-se — que o acusava de ter-se comportado forma inerte, acomodada. Azambuja, para esses, deveria ter levado o caso às últimas consequências, não se conformando com a injustiça e a arrogância que prosperaram aí, levando-o a irreparável prejuízo moral e financeiro, tendo este último aspecto para muitos se sobressaído em relação ao primeiro. O Primeirão tinha necessariamente de ter dado um soco na mesa, e quando, mais tarde, foi promovido a tenente, deveria ter voltado à Unidade e provocado alvoroço e incômodo com a sua presença entre aqueles que antes  haviam contribuído para o seu injusto afastamento da Unidade. Uma espécie de vingança.

E, finalmente, ainda houve quem associasse ao problema ocorrido com Azambuja todas as complicações funestas que sobrevieram ao comandante, coronel Camboim, Asnam de Souza Viriato Camboim, culminando com a perda de comando e o fim precoce de sua carreira. Durma-se com um barulho desses.

Eu discordo de qualquer uma dessas teorias, boatos, na verdade; mesmo das favoráveis a Azambuja, porque estas, assim como as outras, se apresentavam invariavelmente exageradas e artificiais. Todas as teses, até as mais aproximadas à verdade, foram necessariamente produto de especulações, quaisquer delas com base na aparência – também da aparência do Primeirão, melhor explicando. É uma forma de preconceito disfarçado, involuntário. As aparências enganam, como diz o dito popular, e quem vê cara não vê coração.

E é para dar um basta nos boatos e fofocas que foram disseminadas em consequência, que venho registrar a verdade, não menos que a verdade.  Hoje, decorridos quase duas décadas, poucos comentam o fato, mas a imagem que ficou na cabeça de muitos não condiz com a realidade dos acontecimentos. Eu fui testemunha ocular do caso, além de ter convivido com o Primeirão, e posso afiançar a grande injustiça de que foi vítima Azambuja. Não por ser amigo daquele sujeito caladão com quem eu, diferente da maioria dos colegas da Unidade, simpatizei desde o começo. Essa característica, o fato de ser um cara que não falava muito, dava a muitos a falsa impressão de ser Azambuja um sujeito antipático, um cara arrogante. Seu cenho franzido agravava essa sensação, dando a muita gente a ideia de que vivia sempre zangado. Nada disso. Posso afirmar sem medo de errar que seu jeitão peculiar se devia à timidez e à modéstia, não sabendo eu dizer qual das características prevalecia em sua personalidade.

Muito peruei para servir naquela Unidade longínqua, onde a gente ficava destacado a metade do mês e os outros quinze dias na sede, Brasília. Consequentemente o efetivo era dividido em duas partes, ocorrendo um revezamento a cada quinzena, quando um C130 vinha do Rio de Janeiro e levava uma das metades do povo, para, chegando em Cachimbo, resgatar a outra parte, em substituição. Quinze dias após, o mesmo processo se repetia. A despeito da distância da família e das condições inóspitas daquela localidade amazônica, financeiramente compensava. Recebíamos em torno de dezoito salários ao ano, em vez de treze, e esse detalhe era o que realmente nos interessava. Idealismo, patriotismo, militarismo e outros ismos, tudo o mais era apenas um detalhe que não nos influenciava tanto.

Havia chegado à Unidade cinco anos antes. Três anos depois chegava Azambuja, primeiro sargento antigo, estacionando seu fusquinha 72 no pátio. Foi, em razão das recomendações que haviam seus chefes anteriores feito ao comandante, coronel Bieniak, Alberto de Sousa Bieniak, nomeado como encarregado da Seção de Pessoal, a SPM.

Lembro de seu primeiro dia entre nós, quando instado a nos dar algumas palavras. “Não é o comandante nem os oficiais, tampouco eu, o encarregado, o elemento mais importante em um setor de trabalho, seja ele qual for, uma oficina, um almoxarifado, uma seção administrativa…, o elemento mais importante, sem o qual nada funciona, é você…”. Entre outras, que ele falou e eu esqueci, ficou-me na memória também esta: “Por trás de cada documento, uma parte, um requerimento, uma solicitação verbal, existe um ser humano que precisa de que você trabalhe e providencie aquele pedido; aquele não é apenas um papel…”

A SPM, no caso da nossa Unidade, era uma espécie de ajudância, local a que todos, soldados, cabos, sargentos, suboficiais, oficiais e alguns servidores civis, acorriam em busca de soluções administrativas as mais variadas, geralmente procurando adequar os direitos e deveres à cada situação individual, conciliando essas necessidades com o calendário de substituições. Se um período de férias precisava ser adiado ou antecipado, se uma publicação em boletim necessitava ser executada em tempo, se alguém tinha de fazer uma viagem para visita a algum parente ou por qualquer outra razão, ou outro motivo que fosse, era lá, na SPM, que todos se socorriam, e o nome de que todos se lembravam era um só: sargento Azambuja. Eu, sargento novo, estava ali servindo como um mero ajudante, limitando-me a fazer a parte de datilografia, além de cuidar do arquivo, e assim ia procurando fazer o meu possível para que a tarefa dele fosse realizada com menos atropelos. A Unidade era peculiar, vez que, como já adiantei, só contávamos com a metade do efetivo, e esta razão demandava ordens e acertos tendo em vista o bem-estar de todos e de suas respectivas famílias, sem que isto pudesse prejudicar a missão, e qualquer erro ou omissão poderia acarretar sensíveis prejuízos. O desempenho profissional de Azambuja fluía com a mesma qualidade em qualquer lugar e situação, tanto na sede, Brasília, onde não se limitava aos horários pré-estabelecidos do expediente, como em Cachimbo. Lá, também por haver mais tempo disponível, com a minha ajuda, punha-se firmemente na organização de todos aqueles papéis.

Portanto, desde de quando chegou, Azambuja desempenhava um trabalho eficiente, organizado e eficaz, dando, de forma célere e expedita, destino certo e solução a cada assunto que lhe chegava às mãos, procurando fazer o certo sem olhar patentes, pois sua competência beneficiava igualmente do soldado ao comandante. Uma característica lhe era mais marcante que as outras: exigia em troca as correções de atitude e disciplina, conforme mandavam os rígidos regulamentos militares, ou administrativas, não admitindo meios termos. Certamente esse aspecto tenha contrariado muita gente boa. Recordo que uma vez, ao chegar ao setor de trabalho,  surpreendeu o cabo Tranqueras, Olivado da Silva Tranqueras, sentado em sua cadeira a falar ao telefone com alguém que poderia ser a namorada. Meu jovem, se não tens nada a fazer aqui, vai fazer nada em outro lugar.”

Esse seu jeitão especial, que muitos confundiam com grossura, aliado à sua figura calada que dava a todos a impressão falsa de ser um mau sujeito, o que, somado ao seu aspecto físico, mulato, baixinho e orelhudo, óculos de grau, e ainda por cima aquele bigode que de jeito algum lhe caía bem ao rosto, ficou marcante na tropa, sendo por isso razão de piadas por parte de alguns, também de risos disfarçados e de antipatia por parte de outros. Quanto ao comandante, Azambuja lhe caiu imediatamente nas graças. Pude testemunhar alguns elogios que vinham da parte do comandante para com o nosso setor, que Azambuja fazia questão de atribuir os méritos às nossas ações, provando sua modéstia.

O aval que vinha do comandante contribuiu para, injustamente, lhe imputarem a fama de bajulador. Ao contrário, era daqueles que raramente sorria a seus superiores, limitando-se a cumprimentá-los formalmente e, cordialmente, lhes desejando bom dia ou boa tarde. Não lhes fazia festas, e se fazia não eram para seus superiores, tampouco contava piadas com o objetivo de ser simpático, como faziam outros. Não ficava nos corredores, ao contrário de seu antecessor, gritando ordens para serem ouvidas pelos oficiais e assim lhe creditarem a fama de disciplinador. Não precisava disso; para Azambuja, era suficiente se ater ao trabalho, desde que um trabalho bem feito, e nada mais além disso para ele era necessário, embora isto muitas vezes, segundo uma vez me confidenciou, tenha, mais de uma vez na carreira, lhe causado prejuízos na avaliação a que cada um de nós era submetido anualmente. (BLOGUE do Valentim em 26jun2014)

Continua…

JACAREACANGA: guerra, sombra e água fresca (segunda parte)

O MOVIMENTO tinha por fim a deposição do governo recém-instalado de JK, mas o certo é que na hora “H” alguém traiu os rebeldes, ou, ao menos, deixou de coordenar as ações como haviam combinado, e… o socorro não veio. A essa altura a população de Santarém já começava a sofrer com o desabastecimento, mas as tropas legalistas a bordo do “Presidente Vargas” já estavam chegando. Questão de tempo, pouco tempo… 

Continuação da postagem de 08maio2017
VELOSO determinou a Paulo Vítor que voltasse e ficasse no comando de Jacareacanga, enquanto ele e Lameirão permaneciam em Santarém.
Do dia 15 ao 22, as forças rebeldes mantiveram-se com alguma tranquilidade, apesar dos constantes voos rasante de um AT11 que fazia missão de atemorização. Com o tempo, todos, inclusive a equipe de repórteres e fotógrafos dos “Diários”, acostumaram-se à rotina barulhenta. Os presos de Jacareacanga foram transferidos para Santarém, onde havia melhores condições. Veloso, um lorde, jamais esquecia que esses presos também eram seus colegas de farda, por isso lhes garantia tratamento o mais digno possível.
Enquanto isso, houve vários problemas disciplinares graves em unidades da Força Aérea, envolvendo oficiais simpatizantes do movimento rebelde, criando assim um ambiente de cisão, de insegurança, de desconfiança no seio da Força. Diariamente os principais jornais publicavam as ações repressivas aos simpatizantes do movimento. O brigadeiro Guedes Muniz foi preso por dez dias por ter enviado um telegrama ao brigadeiro Cabral. Na Base Aérea da Pampulha foram detidos quatro oficiais do efetivo de unidades sediadas no Rio de Janeiro, todos acusados de apoiar o movimento rebelde. Vários oficiais em Belém foram designados pelo brigadeiro Cabral para sair em missão de prisão a Veloso, porém se negaram a cumprir tais ordens, sendo, por isso, presos de modo incomunicável. Esses oficiais, todos capitães e tenentes, recusam-se a cumprir missões de atemorização contra o aeródromo de Santarém, onde estão Veloso e Lameirão, e contra o de Jacareacanga, em que Paulo Vítor camuflou entre folhagens o 2059, que estava com pane no motor esquerdo.
O comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Antônio Alves Cabral, pede ajuda ao Rio para enfrentar os atos de rebeldia em seu comando. Ora, a designação de um brigadeiro para comandar pessoalmente a operação, o oficial da Aeronáutica de maior patente em toda a região Norte, por si só já diz que o governo colocava todo o empenho na sufocação imediata da rebelião, antes que o movimento tomasse corpo. Além do mais, isso significa também que os oficiais de alta patente não confiavam nos de baixa, capitães e tenentes, mormente os que serviam em Belém. A maioria absoluta deles estava a favor dos rebeldes, mesmo que tacitamente. Havia, portanto, um clima tenso de insubordinação, uma crise disciplinar que devia com urgência ser debelada.
Por isso, o ministro envia como observador e conselheiro o major Celso Resende Neves. Celso era instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior. Ele é reconhecidamente um oficial equilibrado, de qualquer ponto de vista que se analise, especialmente o político. Celso reuniu todos aqueles jovens aviadores de Belém e lhes mostrou o mal que estavam fazendo contra a sua própria carreira, ao recusarem o cumprimento de missões ordenadas por seus superiores. Os argumentos do representante da legalidade convenceram os pilotos a não aderirem à rebeldia. “Está bem, Major, nós voltaremos a voar”, assentiu o capitão Burlamarque Barreira. Mas como todo bom oficial companheiro, o capitão quer preservar o espírito de camaradagem com os colegas rebelados. E pergunta a Celso: “Se Paulo Victor precisar de uma Peça para o C47, nós poderemos ajudá-lo?” Responde, cavalheirescamente, o Major Celso: “Belo gesto de sua parte, desde que eu não fique sabendo”.
Por sua vez, no Gabinete do Ministro da Aeronáutica, o brigadeiro Vasco Alves Seco também tinha as suas dificuldades em arregimentar combatentes para sufocar a rebeldia. O alto comando admitia que possuía a Força Aérea uma crise de disciplina instalada em seus quartéis. O ministro temia que os convocados fingissem estar ao lado da legalidade, e — a exemplo de Paulo Vítor — se bandeassem para o lado dos revoltosos, e – o pior -, munidos de poderosa arma de guerra: o avião. Igualmente, temia o contrário: os loucos por sangue, que saíssem metralhando e bombardeando sem critério. Era um comandante que prezava paz. Tinha que haver equilíbrio; sem derramamento de sangue… se possível. É aí que surge em cena seu ajudante-de-ordens, o capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen, que se oferece como voluntário.
Veloso e Lameirão

A imprensa do Rio de Janeiro, para vender mais jornais, apelava para o sensacionalismo. As emissoras de rádio também alardeavam notícias fantásticas e exageradas.

Combate em Santarém!
Luta-se encarniçadamente na Pérola do Tapajós!
Já sobem a milhares os mortos e feridos na revolta de Jacareacanga!


Circulavam até anedotas dizendo que os dois oficiais tinham seguido para a Amazônia para passar o carnaval em companhia de belas moças.
Enquanto isso, em Santarém aeronaves B17, as “Fortalezas Voadoras” sobrevoavam a cidade despejando folhetos conclamando a população a se afastar dos insurretos, a exemplo do que já faziam nas demais localidades tomadas pelos rebeldes.
O ambiente em Santarém ainda, apesar das ações do B-17, é de piquenique. Guerra, sombra e água fresca. Depois dos primeiros dias, os jornalistas acostumaram-se com o B17 e não se incomodavam mais com seus rasantes. No terceiro dia de permanência no QG rebelde, a ausência de novidades os deixava entediados. Sentavam no chão e começavam as anedotas, ao mesmo tempo em que Veloso fazia bombas com cápsulas presas entre as pernas. Aquilo não parecia uma guerra; parecia um piquenique de fim de semana, com o B-17 fazendo a cobertura. Enquanto as emissoras do país inteiro noticiavam que se travavam batalhas nas ruas de Santarém, Veloso e Lameirão tiravam boas sestas, deitados nos duros bancos do aeroporto.
A legendária fotografia publicada nos jornais dos Diários Associados. Nela um Catalina legalista metralha o AT11 rebelde. Lameirão revida… com tiros de revólver. 
Tiros de verdade só houve no dia 21, dez dias depois do início da revolta. O AT11 havia decolado para um vôo de observação sobre o Rio Amazonas, por onde navegava um navio mercante fluvial, procedente de Belém, com tropas da Aeronáutica para sufocar a Rebelião.
Na volta desse vôo, Veloso e Lameirão quase colidem o AT11 com o B17 legalista. Depois do pouso, não houve tempo para a camuflagem. Surgiram então dois Catalinas, e um deles , o 6514, mandou chumbo. Os tiros de metralhadora, no entanto, erram o alvo. Os rebeldes revidam… com tiros de revólver! Parecia cena de filme pastelão.
A imprensa exagerava… 
Na tarde de 22 de fevereiro, Lameirão, sobrevoando o Amazonas no “Beechcraft”, avistou uma embarcação que confundiu com o “Presidente Vargas”, de transporte de tropas; na verdade era o “Lobo D’Almada”, que conduzia centenas de civis. Lameirão, muito nervoso, tão logo pousou, foi relatar a Veloso a necessidade de bombardeá-lo; este, mais sensato, preferiu outra alternativa, realizando uma retirada estratégica. Veloso argumentou que um ataque à força-tarefa, com o navio já aportado, de nada adiantaria, pois a tropa logo desembarcaria e os prenderia. Às dezenove horas deste mesmo dia, partiram para Jacareacanga evacuando armas, munições, gasolina, víveres e 25 homens que julgavam ser fiéis ao movimento. Foi um voo épico, pois chegaram às 21 horas com a pista iluminada apenas por dois lampiões a querosene.
Na verdade, o verdadeiro navio “Presidente Vargas” trazendo a força-tarefa ainda navegava nas proximidades de Monte Alegre. Mas esse engano foi providencial para os desdobramentos futuros. Se Veloso determinasse o ataque ao navio aportado em Santarém, seria o responsável direto por centenas de mortes de civis inocentes, maculando de vez com sangue inocente os propósitos idealistas dos revoltosos; se atacasse o “Presidente Vargas”, aniquilando o contingente militar, teria provocado uma reação armada sem precedentes, com o governo federal mobilizando todas as forças de terra, mar e ar em sua perseguição. Dessa forma, os revoltosos dificilmente escapariam com vida, além de ocorrem muitas outras mortes.
48 horas após a fuga dos rebeldes, tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que viajaram no “Presidente Vargas” desembarcaram em Santarém. Era o dia 23. A cidade voltou a seu ritmo de vida normal. Abriram-se os bancos, a Caixa Econômica, o telégrafo. As estações de rádio das companhias comerciais de aviação, cujos cristais o major Veloso havia retirado, voltaram ao ar. As muitas pessoas e famílias, que se haviam evadido ante o noticiário alarmista das emissoras de rádio de outras cidades, começaram a regressar. Os gêneros alimentícios de primeira necessidade que escassearam, pois nenhum barco ousava atracar no antes pacato cais, reapareceram no mercado.
Em contrapartida, a hotelaria comemorava o sucesso das casas cheias, já que militares, jornalistas, juristas, mascates e prostitutas dormiam quase uns por sobre os outros nos seus quartos e corredores. Santarém passou a ser uma base de operações do QG montado contra os revoltosos de Jacareacanga.
O tenente Petit, que não havia aderido aos revoltosos, assumiu o comando do aeródromo de Santarém, ordenando a imediata desobstrução da pista de pouso com a retirada de tambores de gasolina e de outros obstáculos. Restabeleceu o funcionamento do rádio, por meio do qual foi enviada a Belém a notícia da liberação daquele aeródromo.
No entanto, as pistas de aviação de Itaituba e Jacareacanga continuavam obstruídas.
Mas em Jacareacanga, Veloso, ante a iminente chegada das tropas legalistas, que vinham lhe dar combate, mandava os mundurucus espalharem sobre a pista de pouso estacas pontiagudas, prevendo que os paraquedistas saltassem lá. Foi grande a aprovação dos índios à iniciativa do comandante porque, finalmente, o grande chefe Veloso tomava uma atitude condizente com a imagem de um grande guerreiro. Em pouco tempo estava terminada aquela tarefa que levaria ao empalamento dos inimigos que ali decidissem saltar.
Nesse ínterim, Lameirão decolou no AT11 para Itaituba, com a missão de trazer de lá alguns homens seus. Em voo, Lameirão proferiu a senha combinada, mas não foi respondida pelo pessoal de terra. Desconfiado, retornou a Jacareacanga. Soube que esses homens já haviam deixado Itaituba por via fluvial, provavelmente amedrontados pela propaganda legalista, ao mesmo tempo que pressentiam a chegada dos militares.
De volta Jacareacanga, pretendia confiar a Cazuza a missão de armadilhar um trecho de quinze quilômetros de terra, que, por ser paralelo ao trecho em que o rio encachoeirava, seria cumprido a pé pelas tropas legalistas. Ocorre que Cazuza já tinha partido para São Luís em companhia do comandante Veloso e seus homens.
Assim que desembarcou do “Presidente Vargas”, sem perda de tempo, a tropa de infantaria da Aeronáutica transferiu-se para barcaças, de calado raso, a fim de evitar encalhe. Sob o comando do tenente-coronel Delayte começaram a subida do rio Tapajós.
Era o que Veloso queria. No trecho encachoeirado do rio,onde ele se estreita, encurta-se a distância entre a mira e o alvo, o major planeja armar seus índios e caboclos. Os rebeldes estariam à espera, derramariam gasolina no rio ateando fogo. Quem conseguisse escapar das labaredas, levaria chumbo.
Para executar o plano, ele, Cazuza e mais onze homens a bordo de uma voadeira, barco a motor muito utilizado na Amazônia, vão ao lugarejo São Luís, onde fazem escala, para a partir daí chegarem a Itaituba. Precisavam de gasolina. Dois desses homens são enviados na frente, como batedores, para ver se o campo está livre. Hugo Delayte e sua tropa já dominam a cidade, e prendem os batedores, que denunciam o plano de Veloso, inclusive indicando a sua provável localização. Conduziram Delayte e seus soldados ao lugarejo São Luís, mostrando a cabana onde Veloso estaria escondido. Ao ouvir passos, saiu então para ver o movimento um homem, que, mal abriu a porta, foi metralhado.
Antes, pressentindo a chegada dos legalistas, Veloso escapulira pelo mato a dentro. No chão ficou Cazuza, a única vítima daquele conflito, que morreu sem saber por que lutava. Revelou-se mais tarde em inquérito que Cazuza foi atingido por um sargento conhecido por Mineiro, com quem tinha uma desavença antiga.
De Santarém decolavam Catalinas levando as tropas de paraquedistas para desembarque anfíbio, ao contrário do que esperava Veloso ao mandar os índios armadilharem a pista. Também decolam os B25 carregados de bombas e munição para as metralhadoras.
O brigadeiro Cabral, que comandava pessoalmente a operação aérea, determinou ataque. Metralharam a pista e, diante dos rasantes e rajadas disparadas pelos B25, os caboclos que apoiavam os rebeldes correram, embrenhando-se na mata. Os três Catalinas pousaram na água do Tapajós, e 45 paraquedistas desembarcaram, caminhando os seis quilômetros que separam o rio do aeroporto.
Mas as tropas legalistas não encontram o C47, que estava camuflado sobre folhagens à beira da pista – ou não quiseram encontrar. A Paulo Vítor e a Lameirão não resta outra saída a não ser a fuga. Decidem fugir para a Bolívia, onde pediriam asilo político. E não há tempo a perder; tem que ser agora.

Veloso é preso

O socorro esperado não veio. Resta a Veloso somente a rendição… 
Ele estava sentado numa cadeira de balanço, na varanda da casa do tabelião Manuel Lauro Figueira de Mendonça, na beira do rio, quando recebeu voz de prisão do capitão Milton Castro, comandante de uma patrulha de sargentos e cabos da Aeronáutica: “Renda-se, Major, para não morrer!“, avisou o capitão. “Tantos homens para dominar um só?”, respondeu o rebelde, com uma ponta de sorriso e muita ironia.
Veloso é imediatamente levado à presença do brigadeiro Cabral, que comandava em Itaituba a contra-ofensiva aos rebeldes. “Mas logo você, Veloso? Você, Paulo Victor e Lameirão, todos meus amigos… “, começou a falar o brigadeiro, manifestando o seu desapontamento com a ação desleal dos subordinados. “Há gente que presta, brigadeiro!”
Oficiais do Estado-Maior do brigadeiro Cabral intervêm na conversa para repreender Veloso, enquadrá-lo, lembrando-lhe a condição de transgressor da lei. Mas Veloso não se cala facilmente: “A lei para mim só existiu até o 11 de novembro!”, responde Veloso, referindo-se ao dia que o ministro da Guerra, general Teixeira Lott, depôs, em 1955, o presidente interino da República, Carlos Luz, e em seguida o titular, Café Filho, sob a acusação, comprovada, de que ambos tramavam o golpe para não dar posse ao eleito Juscelino Kubitschek.
Mesmo diante da impertinência de Veloso, o brigadeiro Cabral, demonstrando a educação de um lorde, não revida, não altera a voz. Dirige-se aos oficiais legalistas e, num gesto de genuína generosidade, traça a melhor biografia do rebelde. “Creio que sei o que se passou com Veloso – começa o brigadeiro Cabral – este homem trabalhava, patrioticamente, na tarefa árdua de abrir pousos dentro da mata. Aí estão Jacareacanga e Cachimbo como monumentos a esse rapaz extraordinário. No entanto, o que acontecia no Ministério? Havia sempre gente a intrigá-lo no Gabinete do Ministro. Veloso foi sempre um homem de trabalho, um homem sério. Sentiu como uma ferroada as injustiças. Ficou recalcado. Quando surgiu a contrarrevolução, da qual ele discordava, seu espírito já estava preparado para a revolta. E aí ele fez essa bobagem…” .“Não considero uma bobagem o que fiz”, Veloso interrompe o brigadeiro com mais uma ousadia, não sendo nem um pouco sensível ao depoimento favorável de seu superior hierárquico.
Veloso ficou preso no Parque de Aeronáutica de Belém. Era o dia 29 de fevereiro de 1956. No dia seguinte, o presidente JK envia ao Congresso um projeto que concede anistia aos partícipes de rebeliões contra seu governo.
Estátua do brigadeiro Veloso em Cachimbo, no quartel que leva seu nome
 

Em Jacareacanga, o brigadeiro Veloso é tido como herói. Os poderes locais lhe rendem homenagem, dando seu nome a uma avenida e a uma escola. Em Santarém também há um escola com o nome do brigadeiro Veloso. Idêntica homenagem ganhou também Veloso em Itaituba. Na Serra do Cachimbo, onde Veloso foi pioneiro, há ainda uma Unidade da FAB com o seu nome.

Veloso voltou a participar de outra rebelião com os mesmos objetivos: derrubar o governo JK. Foi em 1959, sob a liderança do tenente-coronel Burnier, quando se refugiaram em Aragarças. A rebelião foi sufocada em menos de 36 horas.
 
Após o movimento político-militar de 31 de março de 1964, que destituiu o presidente João Goulart, Veloso requereu sua entrada para a reserva remunerada como brigadeiro. Com a instauração do bipartidarismo, filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena), de orientação governista. No pleito de novembro de 1966, elegeu-se deputado federal pelo Pará na legenda da Arena.
 
Em 1968, já como deputado federal pela Arena, envolveu-se noutro episódio conflituoso, ao tentar reempossar o prefeito de Santarém, Elias Pinto, sendo nessa ocasião atingido por tropas da Polícia Militar do Pará, a mando do então governador, coronel Alacid Nunes. 
Faleceu no Rio de Janeiro em 22 de outubro de 1969. 
(BLOGUE do Valentim em 10fev2016)

Fontes:

http://www2.fab.mil.br/cpbv/index.php/ultimas-noticias/112-estatua
https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/haroldo_veloso
http://tertulino.blogspot.com.br/2013/10/a-revolta-de-jacareacanga-um-ensaio-de.html
http://histatual.blogspot.com.br/2009/11/revolta-de-jacareacanga-fab-em-armas-na.html
http://www.efecade.com.br/1956-revolta-de-jacareacanga-a/
http://www.bloguedovalentim.com/2016/01/haroldo-veloso-e-rebeliao-de.html
http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/revolta-de-jacareacanga/
http://decadade50.blogspot.com.br/2006/09/quem-tem-medo-de-jk_115711236739430244.html
http://www.blogquartopoder.com.br/2011/05/jornais-antigos-narram-revolta-de.html
http://www.planobrazil.com/combate-em-santarem-a-perola-do-tapajos/
http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=6641&id_coluna=94

MEU amigo, Brito!

NO NOSSO tempo de Escola de Especialistas existia um professor de Português. Ele, cujo nome não me sobreviveu na memória, era uma figura. Tinha para cada assunto a ser ensinado um exemplo engraçado ou curioso. No caso da pontuação, uma vez nos ensinou sua importância para que um texto não produza ambiguidade e assim deixe de cumprir a sua finalidade: estabelecer uma comunicação.
Era o caso da pitonisa, que, consultada pelos membros da corte de Alexandre, o Grande, sobre uma grande viagem do imperador para umas terras distantes em missão de interesse de seu país: conquista, guerra. Queriam saber da pitonisa se Alexandre e seu exército sairiam vitoriosos. Ela escreveu assim: “Irás voltarás não morrerás lá”. Alexandre morreu nessa guerra. Inconformados com esse resultado, os mesmos assessores voltaram à pitonisa e ela, defendendo-se, disse que eles não haviam esperado a pontuação. O pequeno texto, pontuado, ficaria assim: “Irás. Voltarás? Não. Morrerás lá.”
Ainda sobre a vírgula o professor costumava contar um causo. Dois homens conversando e um deles se chamava Parente. Apontando para um cachorro, o outro costumava falar ao primeiro: “Aquele cachorro é seu Parente?”. Dizia assim sem enfatizar a pausa, a vírgula se fosse numa comunicação escrita. Dessa forma ele tanto poderia estar mencionado o nome “Parente” do amigo, o vocativo, e perguntando se o Parente era dono do cachorro, ou também, não usando a vírgula entre o pronome possessivo (“seu”) e o nome próprio “Parente’, indagando se o animal era parente desse amigo seu.
Uso esses exemplos para chegar ao amigo Alexandre Soares de Brito, o poeta. Certa tarde, não lembro se na primeira, segunda, terceira ou quarta série, estávamos correndo curto na estrada que vai da Vila dos Sargentos à outra estrada que dá entre a Escola e o hospital. De longe ao nosso lado direito ia uma jovem, que a julgar pelos atributos corporais, prometia ser uma beldade. Diante desse fato relevante, a tropa – naquele tempo exclusivamente masculina – dirigia os olhares para ela, olhando à direita, ainda que o guia ou o comandante da tropa não tivesse comandado ordem alguma nesse sentido. Não precisava. Ao passar pela moça, todos se decepcionaram pois seu rosto não correspondia ao que mostrava o restante do corpo. O Brito, que naquele tempo já era um poeta, veio com esta: “Última forma nos olhares lânguidos.” Demos uma boa risada.
Mais tarde, talvez vinte e um anos depois, estávamos nós novamente como colegas. Desta vez em Belo Horizonte, realizando um estágio que nos garantiria seguir a carreira até a patente de capitão. Estava lá o mesmo poeta Brito, com a diferença de mais experiente, mais sábio, mais amigo.
Este escriba, para incomodá-lo e imitando o causo do professor de Português da Escola, brincava com o seu nome: “Vem cá, Brito.” Dava pouca ênfase à vírgula de propósito para ficar assim como “Vem, cabrito”, numa ambiguidade pensada.
Brito sempre foi um grande amigo nosso, e, sendo essa sua natureza, certamente que sempre o será.  (BLOGUE do Valentim em 17ago2015)

JACAREACANGA: guerra, sombra e água fresca!

Major Veloso

 Em 1956 a Rebelião de Jacareacanga, uma das duas revoltas que tiveram por objetivo derrubar o governo de Juscelino Kubitschek, foi protagonizada pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso e pelo capitão-aviador José Chaves Lameirão. Os dois militares contaram também com a participação do major-aviador Paulo Vítor da Silva. Foi deflagrada num sábado de carnaval, 11 de fevereiro, onze dias depois da posse de JK. Veloso acabou sendo preso pelas tropas legalistas em 29 de fevereiro, enquanto Lameirão e P. Vítor fugiram para a Bolívia, onde pediram asilo político. Todos foram anistiados por JK.

Mais tarde, já na reserva remunerada da Aeronáutica, no posto de brigadeiro, Veloso ver-se-ia envolvido noutro episódio conflituoso, quando, tentando reempossar o prefeito de Santarém Elias Pinto, do MDB, acabou sendo ferido por tropas da Polícia Militar do Pará, a mando do governador Alacid Nunes. Nessa ocasião, cumpria o mandato de deputado federal pela Arena. 

O MAJOR-AVIADOR Haroldo Coimbra Veloso era carioca, magro e aloirado, característica física que o tornava parecido aos galãs do cinema americano, embora do tipo caladão. Com dezoito anos de idade, ingressou no Exército Brasileiro, matriculando-se na Escola Militar do Realengo. Recém-criado o Ministério da Aeronáutica, ele, já com dois anos de Realengo, requereu transferência para a Escola de Aeronáutica, formando-se em Engenharia Aérea e declarado aspirante em setembro de 1942. Seguindo a carreira de oficial, em 1953, já no posto de major, por ser engenheiro, foi escolhido pelo ministro Nero Moura para coordenar a construção da pista de aviação de Aragarças, Jacareacanga e  Cachimbo,cer esta última inaugurada em janeiro de 1954. Esses trabalhos lhe permitiram conhecer bem a região central brasileira e a Amazônia, além de, por ser um sujeito carismático, granjear rapidamente a simpatia dos civis e indígenas que trabalharam com ele na construção dessas pistas de pouso e estradas, o que mais tarde lhe foi bastante útil em seus objetivos políticos. Os campos de aviação por ele construídos passaram a garantir o apoio e a infraestrutura necessários à aviação comercial na rota Brasil – Estados Unidos, bem como, no âmbito do Correio Aéreo Nacional, a rota Rio de Janeiro – Manaus.

Major Veloso e capitão Lameirão

    

Aquele carnaval de 1956, em que a marchinha “Quem sabe, sabe”, de Joel de Almeida, fazia bastante sucesso nas rádios cariocas, foi marcante na vida do major Veloso e seu correligionário de ideais, o capitão-aviador José Chaves Lameirão. Tanto poderiam tornar-se heróis, como poderiam acabar como vilões, presos ou mesmo mortos, dependendo do êxito ou do fracasso da empreitada em que estavam prestes a se meter até o pescoço. Era matar ou morrer.

Mas por que agora, sábado em pleno carnaval, chefe?”.Você sabe de outra data melhor, amigo Lameirão, quando as sentinelas estão distraídas?” E, como Lameirão demorasse na resposta, Veloso responde o óbvio: “A outra data será somente no ano que vem, mas até lá Juscelino já terá mostrado a que veio, e nós teremos perdido a oportunidade de livrar o país desses caras.” .

“É agora ou nunca”, teria completado.

Chega o sábado gordo, que por iniciar um feriadão era o dia mais indicado para se executar uma missão daquela monta. As características daquela semana tipicamente carioca facilitaria o plano que vinha de há algum tempo amadurecendo na cabeça de Haroldo Coimbra Veloso e na de seu fiel escudeiro José Chaves Lameirão. Pela cultura carioca do carnaval, a guarda, em sua maioria, não se concentrava plenamente em seu serviço de guarnecer o quartel, e o próximo expediente só se daria na tarde da próxima quarta-feira, sendo, pelas dificuldades de logística da época, muito complicado mobilizar a tropa naqueles dias. Somando-se a essas peculiaridades, o capitão Lameirão, que pertencia ao efetivo do Parque, tinha acesso facilitado ao quartel, pois a guarda tinha por doutrina o reconhecimento fisionômico de todos os oficiais da Unidade, franqueando-lhe prontamente o acesso ao quartel.

Pois bem. Na madrugada daquele sábado de carnaval, onze dias da posse de JK e sua equipe de governo, o major-aviador Veloso e o capitão-aviador Lameirão deram início à execução do plano, uma tarefa ousada que já vinha em sua mente durante semanas ou mesmo meses. Os oficiais ingressaram no então Parque de Aeronáutica dos Afonsos, subúrbio do Rio de Janeiro, dirigindo-se ao hangar, onde se apoderaram de um avião de combate: um Beechcraft AT11, matrícula 1523, aeronave orgânica daquela unidade especializada em manutenção de aeronaves da FAB. Proveram a equipagem aérea com o embarque de armamento e munição, além de preparar o avião para o voo. Mas sobreveio um contratempo: a porta do hangar estava trancada, em vez de semiaberta como Lameirão a deixou na véspera, já de noitinha. Provavelmente o oficial-de-dia, que era um daqueles tenentes caxias, por zelo, em suas rondas noturnas, tenha observado o desleixo, a tenha mandado fechar. Foi então necessário arrombá-la, e o barulho acabou por chamar a atenção do mesmo oficial-de-dia, que, em ronda de rotina, se aproximava do local. Antes que este começasse por fazer perguntas, tiveram que prendê-lo, trancando-o numa das seções do hangar, impedindo que ele desse o alerta. Além disso, a movimentação da aeronave ao taxiar levou à desconfiança da torre de controle que não autorizou a decolagem.

Não deram bola pra isso. Sem autorização da torre, a aeronave decolou rumo a Cachimbo, deixando atônitos os controladores de voo.

Veloso era por natureza um homem discreto e, como era de se esperar, a missão fora planejada em segredo, pois, além dos dois oficiais executores, apenas duas outras pessoas sabiam; elas estavam incumbidas de fazer os necessários contatos com as unidades aéreas, que dariam todo o suporte material e bélico ao movimento, desencadeando a insurreição por todo o território brasileiro. As demais unidades aéreas da FAB, com grande poder de fogo, sediadas em Fortaleza, Recife e Salvador, de imediato tomariam parte da missão, rumando para Jacareacanga, região remota do país, onde, devido às dificuldades de logística da época, não seriam alcançadas com facilidade. Os revoltosos passariam a ditar as regras. Em seguida, os colegas da Marinha também entrariam em cena, manobrando os navios de modo a não permitir embarque das tropas mobilizadas para combater os revolucionários. Dar-se-ia um efeito dominó. Não tinha como falhar.

O sábado se constituiu numa dura jornada para os dois intrépidos oficiais, porque o AT11 era uma aeronave que não possuía grande autonomia. Assim tiveram que fazer pousos intermediários em Uberlândia, Aragarças, Xavantina e Cachimbo, sendo esta última pista de aviação – deram a entender – o destino da dupla, onde se refugiariam. Mas, chegando a Cachimbo, voaram para Jacareacanga, estado do Pará, margem oeste do rio Tapajós, onde efetivamente os dois oficiais montariam seu quartel-general.

Cachimbo, destino bastante óbvio pela ligação de Veloso com a pista de aviação, era apenas um despiste. Seu plano real era fazerem sua base de operações em local mais remoto, mais isolado, um lugar onde não pudessem ser alcançados por terra e o acesso fluvial bastante difícil. Dessa maneira ganhariam tempo, enquanto seus companheiros dos demais esquadrões de combate da FAB se preparavam para juntar-se a Veloso e Lameirão, precursores do movimento. Chegaram exaustos ao destino dez horas mais tarde, por volta das dezesseis horas.  Em cada um dos aeródromos por que passaram, mal pisaram o solo e trataram de inutilizar o equipamento de rádio, retirando o cristal, de modo a não serem denunciados, atrasando a perseguição aérea por parte das forças legalistas.

Em Jacareacanga, assim que pousaram, Veloso deu voz de prisão ao efetivo destacado, um sargento e cinco ou seis cabos e soldados, além de alguns civis, que foram obrigados a imediatamente obstruíram a pista de pouso com a colocação de troncos de árvores, tambores de gasolina vazios e outros objetos em toda a sua extensão. Os oficiais rebeldes passaram então a comandar aquele pequeno destacamento militar, que distava seis quilômetros do rio Tapajós, estruturando-o para a resistência. Aguardavam então o efeito dominó nas bases aéreas.

Embora cansados, dirigiram-se logo ao vilarejo, a fim de localizar Cazuza, como era conhecido o caboclo José Barbosa Filho, que foi por Veloso promovido simbolicamente à graduação de “cabo”. Para o cabo Cazuza, era “Deus no céu e o major Veloso na terra”; estava disposto a tudo pelo seu comandante, até mesmo arriscar a própria vida. Logo populares se acercaram de seu amigo Veloso, prontos a lhe servir.

No meio do povo simples, Veloso se sentia lisonjeado com o tratamento que aqueles caboclos e suas famílias lhe dispensavam. Ele, sisudo por natureza, mas sua fisionomia denunciava a alegria ao revê-los. Conhecia a quase todos pelo nome e a vários deles cuidou com remédios, a outros lhes forneceu roupas, e a um ou outro até mesmo lhe dera dinheiro para suprir eventuais necessidades básicas. Tudo durante o tempo em que trabalhavam na construção da pista e das outras construções do campo. Era um povo pobre, quase miserável, que lhe viam como um pai. Havia um respeito recíproco.

Major Paulo Vítor, um índio Kaiapó e major Veloso 

A missão agora se apresentava mais complexa que apenas construir pistas. Bem mais complexa.

Reuniram e armaram a todos, que agora se constituíam em soldados fiéis ao comandante Veloso e ao subcomandante Lameirão. O contingente disponível e voluntário não era suficiente, de forma que foi preciso também contar com a ajuda dos índios mundurucus.

A partir de então, passariam longas e entediantes horas a monitorar as comunicações da 1ª Zona Aérea, procurando saber do movimento de tropas que certamente seriam mobilizadas para lhes dar combate.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, ao ser comunicado da rebelião, o presidente Juscelino Kubistchek assim declarou:

“Trata-se de uma incontida explosão de ódio acumulado, pois nem tive ainda tempo de errar. Usarei de energia e severidade contra aqueles que falharem nos deveres da Pátria, ameaçando o regime”.

Tais palavras diziam com todas as letras que o governo federal não estava disposto a dar vida fácil aos revoltosos. No Ministério da Aeronáutica, o brigadeiro Vasco Alves Seco reunia-se com seu estado-maior para estudar como dar combate e sufocar a insurreição.

Com o país já em estado de sítio, situação que já vinha de três meses, desde 11 de novembro de 1955, o ambiente nos quartéis das três forças, agravado pela rebelião promovida por Veloso, se apresentava como o mais tenso possível. Os comandantes determinaram caça às bruxas, e muitos deles criaram nos diversos quartéis a figura do superior-de-dia, um major ou capitão que dava serviço diário na Unidade, com a missão de controlar o seu próprio efetivo, com poderes de recolher ao xadrez a qualquer suspeito de qualquer infração disciplinar.  Decretou-se nas unidades militares a “prontidão total”, sendo que qualquer fato anormal verificado no seio da tropa tinha que ser levado de imediato ao comandante, de modo a situação ser avaliada e, se fosse o caso, reprimida. O ambiente de cizânia, que já existia antes, chega ao seu ápice, com os militares, por exemplo, sendo proibidos de se reunirem grupos de dois ou mais, para não ser confundido com motim. Na mesa de rancho, o mais antigo presente era responsabilizado por qualquer comentário de teor político-partidário, tendo a obrigação de levar o fato ao conhecimento de seu superior ao menor tempo possível, sob pena de ele próprio sofrer severa punição. Na Aeronáutica, em particular, principalmente na Base Aérea de Belém, significativo número de oficiais-aviadores foram presos de forma incomunicável por se negarem a dar combate aos revoltosos.

Além disso, os hangares e demais locais onde aviões estivessem estacionados, sofriam severa vigilância, pois postos de sentinela foram especialmente criados.

No sítio da rebelião, Veloso contava com uma tropa fiel, disposta a qualquer coisa. “Chefe –  disse Lameirão a Veloso – o senhor é muito querido nessas bandas. Podia até se candidatar a deputado”. Mas, devido a seriedade do problema em que esses dois oficiais estavam metidos, Veloso não esboçou o menor sorriso à brincadeira de seu colega, ainda que em seu íntimo se regozijasse com a constatação do amigo.

Os indígenas, amigos leais a Veloso de longa data, mostravam-se ansiosos pela luta. Porém, não compreenderam, por exemplo, que Veloso aprisionasse os adversários – esse era o caso do sargento e dos cabos e soldados do destacamento de Jacareacanga – e não os matasse. Ao contrário, dava-lhes alimentação e remédios, tratando-os com urbanidade. A impressão que deixou Veloso entre os índios foi de que estava se tornando um fraco.

Além da interdição da pista, providenciaram a camuflaram o AT11, que ficou estacionado numa das margens da pista junto às árvores e coberto com folhagens.

O plano inicial era somente esse: estruturar a resistência nesse local ermo, esperando que demais focos de rebelião naturalmente se estabelecessem em todo o território nacional.

A essa altura a Aeronáutica decide ocupar preventivamente os outros aeródromos da região para que eles não caiam nas mãos dos revoltosos. Para isso, um contingente de paraquedistas do Exército é deslocado pela Força Aérea Brasileira do Rio de Janeiro para Belém.

 Com tais objetivos imediatos, em Belém, já no dia seguinte ao roubo do avião, domingo, o oficial-de-operações traz a notícia ao brigadeiro Cabral de uma aeronave que está a caminho, vinda de Caiena, a serviço do Correio Aéreo Nacional (CAN). Era um Douglas C47, pertencente ao 1º Grupo de Transportes, sediado na Base Aérea dos Afonsos. A aeronave era comandada pelo major-aviador Paulo Vitor da Silva, tendo como copiloto o tenente-aviador Carlos César Petit de Araújo. Ficou decidido então que a aeronave seria aproveitada com missão de conduzir as tropas para dar combate aos revoltosos. Viria bem a calhar, em vez de esperar socorro do Rio de Janeiro, que demandaria mais alguns dias.

Por estar em missão em país estrangeiro, era de se esperar que o comandante da aeronave C47 2059, major Paulo Vítor, se encontrasse totalmente alheio aos tumultuosos acontecimentos recentes, até ser notificado da nova que missão que lhe fora atribuída, que era a de transportar um contingente de soldados aos aeródromos próximos da região da rebelião. Existem, porém, versões outras que asseguram que não era bem assim; que Paulo Vítor já estava premeditando algo que não fosse o cumprimento das ordens legais que seriam confiadas, não fosse naquela ocasião, seria noutra, simpático que sempre foi aos ideais agora personificados por Veloso e Lameirão.

E eis que a ocasião surgiu bem antes do que ele esperava. Mesmo sob desconfiança de alguns dos militares que embarcariam no 2059 com a missão de combater os rebeldes, a aeronave foi abastecida com armamento suficiente para um grande combate, como fuzis, metralhadores e munições, além de mantimentos básicos.

 As autoridades legalistas até então desconheciam a amizade de longa data que unia Paulo Vítor a Veloso. O primeiro não tinha a menor intenção de cumprir ordens que implicasse em combate ao velho amigo. Entretanto sabia que, se recusasse, acabaria sendo preso como sucedeu a outros oficiais de Belém e de outras Unidades, que mais tarde viriam a ser indiciados em inquérito policial-militar por insubordinação. Por essa razão, simulou estar do lado da legalidade. Além do mais, um avião da categoria de um C47, capaz de conduzir significativa fração de tropa armada, somando a isso armamento e munição, não seria reforço nada desprezível às pretensões do amigo Veloso.

 A primeira escala era Porto de Moz. Paulo Vítor deixou aí uma fração da tropa, composta de um sargento, um cabo e cinco soldados. Até então simulava estreito cumprimento da missão que lhe haviam ordenado seus superiores em Belém; iludia, portanto, a tropa. Idêntico procedimento fez nas escalas em Santarém e Itaituba, deixando aí uma tropa comandada pelo tenente Glozner. Seguiu depois para Jacareacanga, em vez de retornar à Belém, como era previsto em ordem de missão.

Quando Paulo Vítor cortou os motores do 2059, Veloso, Lameirão, Cazuza e mais dez homens armados cercaram a aeronave, dando voz de prisão à tripulação assim que esta desembarcou. A farsa ia até aí. Paulo Vítor declara-se logo a favor dos insurgentes, porém, o copiloto, tenente Petit, os sargentos Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço se negam a participar do movimento. Solidário ao comandante da aeronave e ao movimento, declara-se o primeiro-sargento Jorge João Günther Pfiffer.

Ainda nessa mesma data, Paulo Vítor envia mensagem-radio ao ministro da Aeronáutica declarando seu apoio aos revolucionários:

JJ GABAER SBRJ 

COMUNICO VOSSENCIA MINHA TOTAL SOLIDARIEDADE MOVIMENTO LIDERADO MAJOR VELOSO PT MAJ AV PAULO VICTOR DA SILVA”

Veloso determina a Cazuza forte esquema de segurança, visando que os legalistas não fugissem. O dia seguinte prometia ser intenso.

 Com a adesão de um aviador e a conquista de um avião de porte, como era o C47, o panorama tático da rebelião muda de figura, possibilitando a Veloso controlar os outros campos de aviação da região, Tapajós acima: Itaituba, Belterra e Santarém.

 Os sentimentos de Veloso foram de grande ânimo e esperança com a adesão inesperada – ou talvez não tão inesperada – de Paulo Vítor. Logo viriam os outros. Entretanto, logo que este lhe relatou a circunstância de mera casualidade em que se viu, seu espírito volta à realidade.

Sem tempo a perder, nessa mesma tarde, pilotado por Lameirão, o 2059 retornou a Itaituba, agora já do outro lado do combate, levando forte contingente armado para render as tropas ali desembarcadas no dia anterior. Dominam facilmente o aeródromo e, no fim desse dia, retornam à Jacareacanga, conduzindo preso do tenente Glozner, alguns graduados e soldados.

Com Belterra também sob controle, agora é a vez de Santarém.

Era uma quarta-feira, 15 de fevereiro. Decolam o At11 1523, com Lameirão pilotando e Cazuza como artilheiro, e o C47 2059, conduzido por Veloso e Paulo Vítor, transportando 25 homens fortemente armados. Os aviões chegam a Santarém, e ao se abrir a porta do 2059, Veloso dá voz de prisão ao efetivo do aeródromo e à guarnição armada que no dia anterior desembarcara lá. Dessa forma o destacamento de Santarém foi ocupado sem a menor resistência. Lameirão mandou interditar a pista. Enquanto isso, Veloso assume, em nome da Força Aérea, o comando da força policial santarena, interdita o telégrafo e ainda neutraliza as comunicações de rádio e das companhias de aviação civil, confiscando os cristais dos equipamentos. Mandou também montar um posto de vigilância no trapiche do Instituto Agronômico do Norte, bairro da Prainha, com a missão de revistar as embarcações.

Concluídas essas primeiras providências, Veloso, fazendo uso do sistema de alto-falantes do diretório local do Partido Social Democrático, comunicou à população que a cidade estava sob controle da Força Aérea, mas era um controle pacífico e que todos podiam continuar com seus afazeres de rotina, sem, porém, entrar em detalhes sobre os reais objetivos do movimento.

Os sargentos tripulantes do 2059, Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço ficaram presos. Quanto ao tenente Petit, circulava sob cerrada vigilância. Fugiram dois dias depois, 17, a bordo de um barco com destino a Belém.

Nessa mesma data acontecimentos fervilhavam na capital do Estado. Uma verdadeira operação de guerra estava sendo montada pelo comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Cabral. Um navio fluvial, o “Presidente Vargas”, estava em preparo para transportar elevado contingente de militares da Aeronáutica e do Exército (algumas fontes falam em 600, outras em 400 e uma última, em 300 soldados). O tenente-coronel Hugo Delayte foi designado como o comandante da operação orquestrada para prender Veloso e acabar com a rebelião. O navio seria escoltado pelas corvetas “Cananéia” e “Cabedelo”, e apoiado por aviões Catalina, que são aeronaves do tipo anfíbio, ou seja, preparadas também para pousar na água. Essas aeronaves transportariam paraquedistas do Exército que tinham a missão de desembarcarem nas margens do rio Tapajós. O navio também seria apoiado por outros aviões, que fariam reconhecimento e apoio de fogo.

Enquanto isso, em 18 de fevereiro, sábado, um avião dos “Diários Associados” pousa em Santarém. Veloso mandou desinterditar a pista, pois era seu desejo dar plena publicidade ao movimento, buscando com isso que a oficialidade insatisfeita com os rumos do país aderisse à rebelião, gerando o tal “efeito dominó’.

Consta que nessa mesma data teria chegado a Belém um coronel com a incumbência de “assumir” o comando da Base Aérea de Belém e assim deflagrar de vez todo o movimento rebelde, pois, como se sabia, bastava um comando de um oficial de alta patente para que os militares aderissem em definitivo ao movimento. Entretanto, uma denúncia velada veio a frustrar tais propósitos. O oficial foi detido e preso de forma incomunicável, assim que pisou o solo de Belém.

Continua

QUANDO era apenas um sargento novinho

OUTRO dia um comentário do amigo Rocha, hoje conceituado médico, me lembrou da época em que este blogueiro era apenas um sargento novinho, e isso foi lá em Anápolis de 1979 a 1984. Servia no Esquadrão de Pessoal, que se localizava no prédio do comando da Unidade, instalações moderníssimas para aquela época e ainda para hoje.

“Claro que eu lembro de você, caro Valentim. Foi pra você que eu entreguei as minhas alterações”. Sim, claro. Eu era sargento chefe da Seção de Alterações da Base Aérea de Anápolis, e, além de supervisionar aquela dezena de cabos e soldados batendo à máquina de escrever as alterações dos militares, eu pessoalmente mantinha uns fichários – era com o que nos virávamos, sem o computador e outras parafernálias de hoje –  em que controlava o tempo de serviço do efetivo (quinquênio, naquele tempo), as datas de inspeção de saúde periódica e as melhorias de comportamento para as praças. Quem é ou foi da caserna deve me entender, principalmente que é daquela época romântica.

Sim. Por isso eu precisava das folhas de alterações (uma espécie de histórico que registra os principais dados do militar ao longo de um período). Era para colher os dados e preencher as fichas, conforme a natureza do assunto. A partir daí, íamos, a cada mês, verificando quem mudava de quinquênio (para cinco anos, dez, quinze…), para que fosse concedido cinco por cento, dez por cento, etc, do respectivo soldo no caixa “Tempo de serviço”; quem precisava ser enviado ao Esquadrão de Saúde para a inspeção de saúde periódica e quem, dentre os praças, estava mudando para o “ótimo comportamento” ou “excelente comportamento”, conforme as regras do Regulamento Disciplinar. Na data certa, mandava – ou eu mesmo fazia – bater o item de boletim para a publicação no boletim da OM.

Passei a ter grande prazer naquele serviço rotineiro, que ajudava muita gente, mormente os mais esquecidos e desligados dessas coisas administrativas. Eu era pontual e certeiro nesse trabalho que, para o interessado, procurando sempre me antecipar às solicitações dos colegas.

Depois, tudo mudou. Veio a informática e as coisas foram saindo quase no automático. Até mesmo as folhas de alterações, antes batidas à máquina, deram lugar aos formulários impressos. E viva a modernidade.

Tudo dava uma trabalheira danada. Mas a verdade é que dá uma saudade daquele tempo!