CHICO Damião, o sangrador de onças!

ONÇA jaguar

Fonte: Internet

GENTE HÁ em muitos lugares deste planeta que, embora não tenha frequentado bancos escolares, sem ter recebido educação formal, esbanja conhecimento nos mais diversos assuntos do interesse humano. Gente que sabe de tudo um pouco, que tem resposta para tudo.

Lá no meu rincão não era diferente. E o artista daquela região recôndita do estado do Pará não era outro senão o velho Chico Damião, uns cinqüenta anos de idade.

O velho era quem nas redondezas saciava a curiosidade do povo nos assuntos mais variados e intrigantes. Não era o caso de se dizer que em terra de cego quem tem um olho é rei. Creio que não era esse o caso, pois tudo o que ele dizia (à consulta posterior de livros e de outros mais letrados), fazia sentido – menos o caso da onça, de que me ocupo agora nestas linhas. A fala de Damião expressava uma lógica irrefutável, levando, de quando em vez, os mais velhos a se questionarem se ele era um exímio mentiroso, desses autodidatas de muita leitura e imaginação, ou tudo mesmo era verdade absoluta. Desconhecia-se de onde o cérebro daquele velho, baixinho, fanho e meio corcunda, extraíra tanta informação. A seu modo era um sábio, desses que se estivesse no meio acadêmico seria capaz de levar o nome do país ao cenário científico internacional. Nunca esteve na hora certa e no lugar certo. Em vez disso, estava naquele instante, no meio daquele fim-de-mundo, filando um prato de comida em troca de uma boa prosa.

Além de saciar a nossa sede de conhecimento e nossa curiosidade, transformando em ponto final ou de exclamação  maioria   as nossas interrogações, velho Damião divertia a todos com o seu jeito aparente de pessoa simplória, aquele ar de homem erudito, mas que ao final se apresentava invariavelmente tão engraçado pela particularidade de ser fanho  não só por esta. Olha que nem precisava dizer nada, visto que apenas um olhar, um jeito, trejeito ou maneirismo era suficiente para encantar e prender a atenção de todos, homens, mulheres, velhos e crianças.

Tenho cá comigo de que o causo da onça, ele inventara com o propósito de acentuar o interesse sobre a sua figura, da qual irradiava todo um carisma. Servia ainda a determinada finalidade prática, a sobrevivência nesta selva chamada mundo, aplainando os duros caminhos da vida.

De onde era? Não sabíamos. Uns diziam que era do Ceará, alguns outros que era do Rio Grande do Norte, havia também quem dissesse que o velho chegara quarenta anos antes do Paraná. Eu mesmo não me surpreenderia se viesse a saber que Chico Damião era mesmo de lá do Pará e daquela região, sem jamais ter-se afastado vinte léguas sequer do ponto em que morávamos.

A cada quinzena chegava à nossa casa sempre por volta das onze e meia, hora em que a bóia estava quase no ponto de ser servida, com o tosco fogão de lenha que emanava aquele cheiro que atiçava o cérebro comandar a produção inevitável de água na boca. Chegava também nas outras casas naquele mesmo período do dia, e talvez fosse essa a sua única refeição decente de cada dia.

Nunca perguntamos se era casado, solteiro ou viúvo, e também ele não o disse – pelo menos que eu esteja lembrado. Desconfio que nunca se casou.

 Mas, seu Damião, esse causo da onça…

 Não é “causo”, não, seu Duca. Foi um fato verídico.

 Sim, não querendo duvidar. O senhor, claro, um dia foi novo, igual eu também fui, e tudo o mais. Mas qualquer um de nós se mijaria de medo diante dum animal do porte de uma onça. Além do mais…

 Sei, seu Duca. Onça é bicho ligeiro e feroz, e é a defesa do animal a ligeireza. Deus deu a cada vivente o instinto da sobrevivência. Aliás, deu dois instintos de sobrevivência: o individual, daí os bichos se defenderem, caçarem para comer, correrem quando ameaçados, conforme a sua natureza…

O velho costumava usar de palavras rebuscadas, esbanjando sabedoria diante de nós, gente ignorante. Jamais viemos a saber se ele houvera freqüentado universidade, indo bem além da quarta série primária que era comum uns poucos daquela região distante. Podia ser que fosse até um bacharel, um doutor ou professor de História – quem sabe?! Podia ser também que tivesse sido um autodidata, desses que preenchem sua vida de solteirão mergulhado em livros – creio ser essa a hipótese mais acertada. Quem sabe um dia tenha sido pessoa abastada, que, por esses revezes que a vida impõe, tenha perdido sua fortuna em um negócio mal feito ou numa aposta mal sucedida. Nunca soubemos. O certo é que, por trás daquela erudição, havia um grande ser humano, que, por ser humano, também se divertia com a nossa curiosidade e a atenção que dispensávamos ao seu discurso.

Chico Damião fez uma pausa para respirar e beber um gole do Cinzano que meu pai me mandara buscar lá dentro e que era destinado especialmente às visitas, enchendo o copo de seu Damião e o dele, meu velho, também.

 E o outro instinto?

 Sim, o outro instinto. É o da sobrevivência da espécie, por isso os animais se acasalam. Diferentemente dos seres humanos, eles acasalam apenas para procriar, gerar outros seres da sua espécie, sem constituir família. Esses são instintos primários, necessários à sobrevivência de todos. Veja a cadeia alimentar…

 E a onça? – interrompeu meu pai, evitando que o assunto tomasse outra direção.

 Eu já ia passando adiante, não é mesmo?! Sim, a onça. Mas acho que eu já contei esse caso aqui.

 Eu só ouvi falar, mas contar mesmo o senhor não contou pra nós. Sabe, as pessoas aumentam muito, então é bom ouvir da boca do próprio autor da façanha.

Na verdade o velho já havia contado a história havia uns anos antes, no entanto, depois vim a imaginar, quando pensava certa vez no caso, que essa seria uma estratégia de meu pai a fim de tirar as provas dos noves. Uma armadilha para pegar o velho em contradição. No entanto, velho Damião, macaco velho, não cairia nessa jamais. A história era sempre igual, talvez acrescentando palavras novas em vez de outras dantes, mas o fato em si era o mesmo, sem tirar nem por.

 O caso se deu lá pras bandas do Maranhão na década de trinta. Carregava comigo, e carrego até hoje, como o senhor pode ver, estes dois objetos inseparáveis: o chapéu e esta faquinha afiada. É claro que para caçar levamos também, cada um de nós, uma espingarda de chumbo e dois cães.

Tirou a faca da bainha, mostrando-a.

 Continue, seu Damião.

 Distraí-me naquela selva, e quando dei por mim estava mata a dentro, perdido de meus companheiros. Se ainda tivesse cachorro bem, mas os cães resolveram acompanhar meus companheiros, que eram em dois.

 Isso é o que eu chamo de ficar no mato sem cachorro.

 De fato, literalmente, seu Duca, ou seja, ao pé da letra, este seu amigo estava naquele mato sozinho, sem o melhor amigo do homem. Vi as pegadas do animal, e comecei a engendrar uma maneira de enfrentar a onça em caso de ela me achar primeiro, querendo me fazer de almoço. Não, comigo não, antes ela do que eu. Pensei na velha espingarda de chumbo, não, aquele trabuco velho não era páreo pruma onça. Além do mais, dificilmente o animal ficaria diante de mim na posição de caça, digo assim, numa distância suficiente para que eu fizesse uso da arma de fogo.

 Dizem que onça é traiçoeira, inda mais naquela cor de mato  que não dá nem pra gente ver ela.

 Isso mesmo. Trata-se de um animal cuja propriedade natural é exatamente essa, um ser possuidor de cores que se confundem com a vegetação, justamente para facilitar a sua sobrevivência. Além disso, trepa nas árvores, é ligeiro e traiçoeiro.

 Então assim, as chances do senhor não eram grandes, né.

 Mas não me avexei, não  como já lhe disse. De repente, ela tava lá. Eu, sozinho naquela mata, frente a frente com aquela bicha enorme.

Vamos ver até aonde essa lorota vai dar. Era o que provavelmente pensava meu pai. Presumo isso pela expressão de seus olhos, a encararem os de Damião.

 Como se virou, seu Damião?

 Lembrei-me do chapéu, lembrei primeiro da faca. Era preciso pensar rápido. A faca… o chapéu… Por que não?! O chapéu na mão esquerda, a faca na direita. O gatinho se aproximou de mim, com certeza já de água na boca diante do almoço inesperado.

É provável que o leitor esteja pensando que o velho fazia suspense para ganhar tempo, pensando em que desfecho daria ao caso de forma a resultar num final feliz. Meu pai talvez assim pensasse também. Mas não era o caso, velho Damião já contara o mesmo causo dezenas, talvez até mais de uma centena de vezes, tendo de cabeça todo o enredo. Eu quero convencer-me de que o prolongamento era devido à refeição que ainda não chegara de todo à mesa, e o desfecho coincidiria com a última garfada. Cá pra nós: é possível que por meia dúzia de dias ou mais o homem não estivesse à frente de uma refeição tão suculenta quanto a que minha família lhe proporcionava então.

– Deixe de mistério. Como se virou?

 Como o senhor é impaciente, seu Duca! A gente nem pode fazer um pouco de mistério. Tá bem, vou direto ao ponto. Como me virei.

 Sim, como se virou?

 Num lance de extraordinária rapidez, que só o instinto de sobrevivência e a providência divina podem explicar, lancei o chapéu na cara da onça, pegando-a de surpresa com a minha ação. Ela, atarantada por conta da falta de visão, levantou as patas dianteiras meio que desesperada. Ato contínuo, levei com toda a minha força  não esqueça que eu era novo nesse tempo  a faca ao sovaco da onça. Foi um golpe certeiro.

 Essa não! O senhor tá dizendo que esfaqueou o sovaco da onça?

 Isso mesmo.

 Com essa faquinha aí?

 Com esta faquinha aqui.

 Eu nunca vi uma onça, seu Damião, mas já vi dizer que couro de onça é duro.

 Sei que o senhor duvida de mim, seu Duca. O senhor tem lá a sua razão em duvidar de semelhante história, pois quantos mentirosos já não sentaram a esta mesa desfrutando da sua hospitalidade! Mas eu fico triste com essa dúvida do amigo, que está a me considerar iguais aos outros. Mas me responda uma coisa: como o sapateiro corta o couro curtido, se não é com uma faca comum, mas bastante afiada, afiada igual a esta aqui. Esqueci-lhe de dizer que naquele tempo eu também me virava como sapateiro. Não, não estou contando para gabar minha valentia. Como lhe disse, atuou em mim o mero instinto de sobrevivência: era ela ou eu.

Desse causo da onça jamais me esqueci.

QUANDO chover no seu desfile, olhe para cima e não para baixo. Sem a chuva não existiria o arco-íris.”  Gilbert Keith Cherteston

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

(Reeditado de BLOGUE do Valentim

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BERNARDO Guimarães!

O Baile do Judeu

BERNARDO Guimarães

Fonte: Internet

ORA, um dia lembrou-se o Judeu de dar um baile e atreveu-se a convidar a gente da terra, a modo de escárnio pela verdadeira religião de Deus Crucificado, não esquecendo, no convite, família alguma das mais importantes de toda a redondeza da vila. Só não convidou o vigário, o sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o Juiz de Direito; a este, por medo de se meter com a Justiça, e aqueles, pela certeza de que o mandariam pentear macacos.

Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus-Cristo numa cruz, mas, às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de Sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá estavam, em plena judiaria, pois assim se pode chamar a casa de um malvado Judeu, o tenente-coronel Bento de Arruda, comandante da guarda nacional, o capitão Coutinho, comissário das terras, o Dr. Filgueiras, o delegado de polícia, o coletor, o agente da companhia do Amazonas; toda a gente grada, enfim, pretextando uma curiosidade desesperada de saber se, de fato, o Judeu adorava uma cabeça de cavalo mas, na realidade, movida da notícia da excelente cerveja Bass e dos sequilhos que o Isaac arranjara para aquela noite, entrava alegremente no covil de um inimigo da Igreja, com a mesma frescura com que iria visitar um bom cristão.

Era em junho, num dos anos de maior enchente do Amazonas. As águas do rio, tendo crescido muito, haviam engolido a praia e iam pela ribanceira acima, parecendo querer inundar a rua da frente e ameaçando com um abismo de vinte pés de profundidade os incautos transeuntes que se aproximavam do barranco.

O povo que não obtivera convite, isto é, a gente de pouco mais ou menos, apinhava-se em frente a casa do Judeu, brilhante de luzes, graças aos lampiões de querosene tirados da sua loja, que é bem sortida. De torcidas e óleo é que ele devia ter gasto suas patacas nessa noite, pois quantos lampiões bem lavadinhos, esfregados com cinza, hão de ter voltado para as prateleiras da bodega.

Começou o baile às oito horas, logo que chegou a orquestra composta do Chico Carapana, que tocava violão; do Pedro Rabequinha e do Raimundo Penaforte, um tocador de flauta de que o Amazonas se orgulha. Muito pode o amor ao dinheiro, pois que esses pobres homens não duvidaram tocar na festa do Judeu com os mesmos instrumentos com que acompanhavam a missa aos domingos na Matriz. Por isso dois deles já foram severamente castigados, tendo o Chico Carapana morrido afogado um ano depois do baile e o Pedro Rabequinha sofrido quatro meses de cadeia por uma descompostura que passou ao capitão Coutinho a propósito de uma questão de terras. O Penaforte, que se acautele!

Muito se dançou naquela noite e, a falar a verdade, muito se bebeu também, porque em todos os intervalos da dança lá corriam pela sala os copos da tal cerveja Bass, que fizera muita gente boa esquecer os seus deveres. O contentamento era geral e alguns tolos chegavam mesmo a dizer que na vila nunca se vira um baile igual!

A rainha do baile era, incontestavelmente, a D. Mariquinhas, a mulher do tenente-coronel Bento de Arruda, casadinha de três semanas, alta, gorda, tão rosada que parecia uma portuguesa. A D. Mariquinhas tinha uns olhos pretos que tinham transtornado a cabeça de muita gente; o que mais nela encantava era a faceirice com que sorria a todos, parecendo não conhecer maior prazer do que ser agradável a quem lhe falava. O seu casamento fora por muitos lastimado, embora o tenente-coronel não fosse propriamente um velho, pois não passava ainda dos cinquenta; diziam todos que uma moça nas condições daquela tinha onde escolher melhor e falava-se muito de um certo Lulu Valente, rapaz dado a caçoadas de bom gosto, que morrera pela moça e ficara fora de si com o casamento do tenente-coronel; mas a mãe era pobre, uma simples professora régia!

O tenente-coronel era rico, viúvo e sem filhos e tantos foram os conselhos, os rogos e agrados e, segundo outros, ameaças da velha, que D. Mariquinhas não teve outro remédio que mandar o Lulu às favas e casar com o Bento de Arruda. Mas, nem por isso, perdeu a alegria e a amabilidade e, na noite do baile do Judeu, estava deslumbrante de formosura. Com seu vestido de nobreza azul-celeste, as suas pulseiras de esmeraldas e rubis, os seus belos braços brancos e roliços de uma carnadura rija, e alegre como um passarinho em manhã de verão. Se havia, porém, nesse baile, alguém alegre e satisfeito de sua sorte, era o tenente-coronel Bento de Arruda, que, sem dançar, encostado aos umbrais de uma porta, seguia com o olhar apaixonado todos os movimentos da mulher, cujo vestido, às vezes, no rodopiar da valsa, vinha roçar-lhe as calças brancas, causando-lhe calafrios de contentamento e de amor.

Às onze horas da noite, quando mais animado ia o baile, entrou um sujeito baixo, feio, de casacão comprido e chapéu desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi direto a D. Mariquinhas, deu-lhe a mão, tirando-a para uma contradança que ia começar.

Foi muito grande a surpresa de todos, vendo aquele sujeito de chapéu na cabeça e mal-amanhado, atrever-se a tirar uma senhora para dançar, mas logo cuidaram que aquilo era uma troça e puseram-se a rir, com vontade, acercando-se do recém-chegado para ver o que faria. A própria mulher do Bento de Arruda ria-se a bandeiras despregadas e, ao começar a música, lá se pôs o sujeito a dançar, fazendo muitas macaquices, segurando a dama pela mão, pela cintura, pelas espáduas, nos quase abraços lascivos, parecendo muito entusiasmado. Toda a gente ria, inclusive o tenente-coronel, que achava uma graça imensa naquele desconhecido a dar-se ao desfrute com sua mulher, cujos encantos, no pensar dele, mais se mostravam naquelas circunstâncias.

— Já viram que tipo? Já viram que gaiatice? É mesmo muito engraçado, pois não é? Mas quem será o diacho do homem? E essa de não tirar o chapéu? Ele parece ter medo de mostrar a cara… Isto é alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente! Ora, não é! Pois não se está vendo que é o imediato do vapor que chegou hoje! E um moço muito engraçado, apesar de português! Eu, outro dia, o vi fazer uma em Óbidos, que foi de fazer rir as pedras! Aguente, dona Mariquinhas, o seu par é um decidido! Toque para diante, seu Rabequinha, não deixe parar a música no melhor da história!

No meio de estas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrando a dona Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça. O Carapana dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes que dominassem o vozerio; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio. Os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

As risadas e exclamações ruidosas dos convidados, o tropel dos novos espectadores, que chegavam em chusma do interior da casa e da rua, acotovelando-se para ver por sobre a cabeça dos outros; sonatas sinistramente burlescas do sujeito de chapéu desabado, abafavam os gemidos surdos da esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço e parecia já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava tanta gente.

Farto de repetir pela sexta vez o motivo da quinta parte da quadrilha, o Rabequinha fez aos companheiros um sinal de convenção e, bruscamente, a orquestra passou, sem transição, a tocar a dança da moda.

Um bravo geral aplaudiu a melodia cadenciada e monótona da Varsoviana, a cujos primeiros compassos correspondeu um viva prolongado. Os pares que ainda dançavam retiraram-se, para melhor poder apreciar o engraçado cavalheiro de chapéu desabado que, estreitando então a dama contra o côncavo peito, rompeu numa valsa vertiginosa, num verdadeiro turbilhão, a ponto de se não distinguirem quase os dois vultos que rodopiavam entrelaçados, espalhando toda a gente e derrubando tudo quanto encontravam. A moça não sentiu mais o soalho sob os pés, milhares de luzes ofuscavam-lhe a vista, tudo rodava em torno dela; o seu rosto exprimia uma angústia suprema, em que alguns maliciosos sonharam ver um êxtase de amor.

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu e o tenente-coronel, que o seguiu assustado, para pedir que parassem, viu, com horror, que o tal sujeito tinha a cabeça furada. Em vez de ser homem, era um boto, sim, um grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, por um maior escárnio, uma vaga semelhança com o Lulu Valente. O monstro, arrastando a desgraçada dama pela porta fora, espavorido com o sinal da cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua, sempre valsando ao som da Varsoviana e, chegando à ribanceira do rio, atirou-se lá de cima com a moça imprudente e com ela se atufou nas águas.

Desde essa vez, ninguém quis voltar aos bailes do Judeu. (Conto Brasileiro, acesso em 25mar2018)

Essa história lembra um ex-governador do Amazonas, o Gilberto Mestrinho, que era apelidado de Boto.

L.s.N.S.J.C.! 

CAPITÃO Pacobahyba e o discurso!

 

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NO CASSINO de Oficiais tudo e todos preparados, o serviço de taifa a postos, comandante e demais oficiais presentes, e eis que chega a autoridade a ser homenageada. Era o brigadeiro Vianna Calmon, em sua visita de cortesia, por ocasião de sua transferência para a reserva remunerada, a ocorrer em dias próximos.

Já havia visitado algumas unidades do Nordeste e, em Belém, o comando da Primeira Zona. Era, porém, a primeira vez que era alvo de tamanha distinção. Antes, apenas um almoço um jantar, nada mais que isso.

Tenente Normando, um pouco nervoso, está a um canto manuseando os papéis de continham o discurso em honra ao oficial-general.

O comandante tece algumas palavras de boas-vindas à autoridade, que ele correspondia com sorrisos e meneios de cabeça. Olhando para o canto onde se encontra o tenente Normando, fá-lhe um gesto de cabeça. Era a deixa para que o jovem oficial iniciasse o discurso.

Excelentíssimo senhor major-brigadeiro Intendente André Luís de Vianna Calmon, mui digno diretor de Intendência da Aeronáutica,

Estimado senhor comandante desta Base Aérea, ilustríssimo senhor coronel Horácio Vieira de Sousa e Silva,

Senhor Subcomandante, tenente-coronel Dacildo de Amoedo Rocini, prezados senhores oficiais aqui presentes e senhores e senhoras funcionárias civis…

Excelência,

Incumbiu-me o ilustríssimo senhor comandante de ter a honra de dirigir estas singelas palavras ao Excelentíssimo senhor brigadeiro intendente que nos prestigia com sua notável presença.

Devo confessar que somente após algumas horas desde quando o senhor comandante chamou-me a seu gabinete onde designou-me para tão honrosa incumbência é que fui atentar para a magnitude e importância deste singular evento. Esta data ficará marcada como ocasião especial no livro histórico desta Unidade.

Ora, Vossa Excelência, ao se formar pela Escola de Aeronáutica, há quase quarenta anos passados, foi designado para servir na Base Aérea de São Paulo, onde brilhantemente exerceu todas as funções de oficial intendente. Lá certamente Vossa Excelência teve oportunidade de pôr em prática toda a teoria dos livros escolares, toda a pedagogia dos mestres e todos os ensinamentos da caserna. Lá certamente Vossa Excelência pôs em marcha o soberbo assessoramento ao comandante da Unidade e aos demais oficiais mais antigos, bem como serviu com garbo aos colegas oficiais subalternos e intermediários, igualmente aos demais componentes da tropa e auxiliares civis.

Mais tarde, com méritos, Vossa Excelência, foi transferido para o Quartel da Quinta Zona Aérea. Aos olhos menos atentos, uma movimentação de rotina. Eu, porém, afirmo, malgrado a minha juventude e os poucos anos de quartel, que a movimentação continha significação. Vejam que, ainda hoje, e mais naquela época, os primórdios da Aeronáutica brasileira, os comandantes não podiam prescindir de bons auxiliares. Vossa Excelência certamente foi indicado para novo encargo haja vista seus prestimosos talentos de gestão, tanto no rancho, como na tesouraria, na seção de procuras e compras, no almoxarifado de materiais e no serviço de registro patrimonial de bens móveis. O trabalho daquele jovem tenente certamente não passava despercebido dos olhares mais experientes dos oficiais superiores daquela época pioneira.

Não foi à toa essa movimentação, portanto, a primeira como oficial. Coube ao jovem tenente e capitão Vianna Calmon a honra de servir junto a um oficial-general, no apoio indireto a toda uma Zona Aérea, que correspondia a São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso.

Lá, na Quinta Zona, Vossa Excelência, desempenhando todas funções inerentes a capitão intendente, permaneceu quatro anos. Ora os talentosos não hão de ficar escondidos por muito tempo, e, como já se previa, Vossa Excelência, na época o recém-promovido major Vianna Calmon…

Enquanto isso, o capitão Arnaldo Pacobahyba observava a audiência presente. Seus olhos estudavam o próprio brigadeiro ali homenageado, o comandante, passando pelos demais oficiais, além do próprio tenente incumbido da homenagem. Tinha de tirar o chapéu ao comandante. Coronel Horácio prestava homenagem a um brigadeiro intendente que jamais viera antes à região Norte, talvez até escarnecesse do povo da região. Sempre, durante quarenta anos de serviço, a circular no âmbito dos gabinetes de São Paulo e Rio, mais tarde, por função, até Brasília, mas nada além daí. Por conhecer Horácio de outras ocasiões, sabia que toda aquela festa não era em vão, banda de música, jantares e festas, tudo ali tinha significado, razão de ser. É possível que, além do fato de ser um brigadeiro influente, também fosse amigo do próprio ministro ou do comandante de pessoal, gente alta, influente. Sim, por que não pensara nisso, claro, a promoção, ali estaria alguém a indicar o nome do coronel Horário nas próximas reuniões da Secretaria de Promoções. Esse Horário não daria ponto sem nó. Desviava de quando em vez o olhar para as pessoas em volta, até que chega ao rosto da dona Sizenanda. Estava a secretária visivelmente emocionada com o discurso do tenente Normando. Mais tarde, Pacobahyba volta, por mais de uma vez, a comparar as fisionomias. Haveria ali laços de sangue?

Agora o tenente já estava nos últimos cargos da carreira do brigadeiro. Discorria no momento sobre o desempenho da autoridade na função de Diretor de Intendência, de onde empenhava-se sem distinção por toda a Aeronáutica, de sul a norte. O brigadeiro ouvia com atenção.

…a coroar tal carreira invejável, eis que Vossa Excelência decide conhecer as Unidades da Força que se localizam mais acima no mapa. Bem é certo, podemos imaginar, que queria o oficial intendente conhecer a realidade das Unidades a que apoiou por uma vida de quarenta anos…

Pacobahyba percebe que, de início o brigadeiro comportava-se como a uma homenagem qualquer, um discurso comum, como tantos em sua longa carreira que participou. Nada de anormal. Contudo, à medida que as palavras bem pronunciadas, ou melhor, até mesmo interpretadas, de Normando iam sendo firmadas no silêncio que se fazia no recinto, o semblante de sua excelência ia aos poucos se mudando, de forma que ao final a autoridade deixou escapar uma ou duas lágrimas.

— Gostaria de uma cópia dessas suas palavras, meu jovem — disse a autoridade com um efusivo aperto de mão e um tapinha nas costas de Normando. — Se eu não tivesse presente, não poderia acreditar que pudesse sair da cabeça de um oficial tão jovem palavras tão inspiradas.

Dava para ver que Horácio também ficara satisfeito com o resultado, cumprimentando logo depois o tenente.

— Foste bem, hein meu rapaz. Emocionaste o brigadeiro!

Já se imaginava com as insígnias de oficial-general. Era questão de tempo apenas.

L.s.N.S.J.C.!  

CLÁSSICOS do Valentim

Reginaldo Rossi: O Pão, 1966

OLHA, nunca mais eu quero saber de você
O imenso amor que eu lhe dediquei
Você não ligou e nem sequer notou
Olha, você maltratou meu pobre coração
Fez uma bolinha e jogou no chão
E a chorar deixou-me, nem disse adeus
Mas um broto eu encontrei
E diz que eu sou um pão
E me entregou todo o seu coração
Que nunca mais vai ser de outro alguém
Olha e eu também percebo que me apaixonei
E meu coração todinho eu entreguei
E que vou viver só para esse amor

 

 

 

CLÁSSICOS do Valentim!

Tião Carreiro e Pardinho: Empreitada perigosa

 

JÁ derrubamos o mato
Terminou a derrubada
Agora preste atenção
Meus amigo e camarada
Não posso levar vocês
Na minha nova empreitada
Vou pagar tudo que devo
E sair de madrugada /
A minha nova empreitada
Não tem mato e nem espinho
Ferramentas não preciso
Guarde tudo num cantinhoPreciso de um cavalo
Bem ligeiro e bem mansinho
Preciso de muitas balas
E um Colt Cavalinho

Eu nada tenho nada a perder
Pra minha vida eu não ligo
Mesmo assim eu peço a Deus
Que me livre do inimigo

A empreitada é perigosa
Sei que vou correr perigo
É por isso que não quero
Nem um de vocês comigo

Eu vou roubar uma moça
De um ninho de serpente
Ela quer casar comigo
A família não consente

Já me mandaram um recado
“Tão” armado até os dentes
Vai chover balas no mundo
Se nós topar frente a frente

Adeus, adeus Preto Velho
Zé Maria e Serafim
Adeus, adeus Paraíba
Mineirinho e Seu Joaquim

Se eu não voltar amanhã
Pode até rezar pra mim
Mas se tudo der certinho
A menina tem que vim

 

 

MINHAS gêmeas prediletas!

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Charlene à esquerda, Fernanda à direita. Ao centro, suas irmãs Aline e Cristiene

FERNANDA, Charlene & Aline

Aqui as duas ao lado da Aline

GÊMEAS no shoping

As gêmeas com a mãe

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Charlene em foto para a revista da Escola de Especialistas

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Charlene onze anos depois, na formatura do CIAAr

Fernanda e seu marido

Fernanda e seu esposo Olivier

Fernanda grávida

Fernanda à espera de sua filha Chloé

UM pai é feliz quando vê seus filhos felizes. Que o Papai do Céu sempre abençoe vocês, minhas filhas, meus anjos, meus amores. Saibam que  vocês moram no meu coração e não pagam aluguel.

Só temos te agradecer, Senhor. Nesta data, 7 de março, fazem mais um ano de vida minhas gêmeas queridas Fernanda e Charlene

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!