O BRASIL dos estádios de futebol!

Por Antonio Carlos Salles (*)

ESTÁDIO Baenão fachada histórica

Fachada histórica do estádio Evandro Almeida, do Clube do Remo, o Baenão

OS NOMES dos cerca de 800 estádios de futebol no Brasil, segundo dados da CBF, variam de sofisticados a populares, de criativos a bizarros.

Há homenagens sinceras, que são poucas, diante daquelas onde transbordam puxa-saquismo e oportunismo.

Há nomes que são pura poesia.

Quando rola a bola “torrrcida brasileiiira” (já há o estádio Fiori Gigliotti ?),
o jogo pode ser no Caneleira (Santos), no Bambu (ES), Castanheira ou Eucaliptos (RS).

Nas vilas icônicas, como Vila Euclides e Vila Belmiro (SP), nas ruas e avenidas imortalizadas por seus clubes, como Rua Javari (Juventus, Moóca), Rua Bariri (Olaria, RJ), Teixeira de Castro (Bonsucesso, RJ), Curuzu (Paysandu, PA) e Vila Capanema (Paraná Clube, PR).

Há palcos de nomes líricos, quase românticos, como nem sempre o futebol é.
Serra Dourada (GO e BA), Jardim das Rosas, Brinco de Ouro da Princesa e Fonte Luminosa (SP). Jóia da Princesa (BA), Arena das Dunas (RN), Ilha do Retiro (PE), Passo d’Areia, Das Rosas, Dos Plátanos e Das Cabriuvas, esses todos no Rio Grande do Sul.

A nobreza, que investia mas exigia reconhecimento, também está presente.
Comendador Souza, Barão de Serra Negra e Conde Rodolfo Crespi (SP).

O Pacaembu (SP), no elegante e charmoso bairro de mesmo nome, é um estádio épico para os paulistanos. O risco de privatização existe embora tombado pelo Patrimônio Histórico, nada nele possa ser mexido.
Já pensou, transformar o Pacaembu em arena insípida e dar-lhe o nome de Charmão?

No país onde a bola gorjeia a esperança de muitos por uma vida melhor, o futebol é jogado no Estádio dos Pássaros (Arapongas/PR), no Parque do Sabiá (Uberlândia/MG), na Morada dos Quero-Queros (RS).

Onde há pássaros, costuma haver alçapões. Trapichão (Maceió), Barradão (Salvador), Frasqueirão (Natal) e Fumeirão (Arapiraca), são alguns deles.

Aos amantes do futebol noturno, peço que se dirijam ao Madrugadão (MS).
Moça Bonita (RJ), Moreninhas e Morenão (MS), unem futebol e paquera, por que não?
O Amigão (PB), sugere ampla confraternização e ombro amigo aos torcedores derrotados.

Se o time está caindo pelas tabelas, há estádios onde a fé habita, como São Januário (RJ), Frei Epifânio (MA), Madre de Deus (BA), Padre João (PA), Nossa Senhora do Ó (PE) e Capela Nova (MG). Abençoado seja o futebol!

Ameaçados pelo rebaixamento nas Séries A e B, também tem o seu cantinho: Estádio dos Aflitos (PE) e Baixada Melancólica (RS). Em caso de repescagem, o drama aumenta: Boca do Lobo (RS) e Boca do Jacaré (DF).

Para times com uma pegada ambiental, modernos e atuais, sugiro o Passos das Emas (MT) e o Parque do Bacurau (PA). Ou ainda o Macieirão (SC), Laranjeiras (RJ) e Estádio dos Vinhedos (RS).

Herança dos tempos em que o Brasil era superlativo no futebol e frágil na democracia, surgiram Marreirão (AC), Batistão (SE), Mangabeirão (PB) e Albertão (PI). Mundão do Arruda (PE), Coliseu e Gigante da Boa Vista/Castelão (CE). Carneirão (PE), Mangueirão (PA) e Mineirão (MG). Engenhão (RJ), Colosso do Tapajós (PA) e Gigante do Norte (MT), são mais recentes.

O Maranhão, do lendário Nhozinho Santos (de 1950), tem 12 estádios cujos nomes terminam em ão, entre eles Castelão e Cafeteirão.

A julgar pelos novos tempos, não será surpresa se em breve forem reinaugurados estádios com o nome de Capitãozão.

Há aqueles cujos nomes são óbvios, como Maracanã (bairro/RJ), Beira-Rio (Inter/RS, ao lado do rio Guaíba) e Morumbi (bairro/SPFC). Embora este desperte controvérsias de palmeirenses e corinthianos que vêem na localização maior proximidade com o bairro de Vila Sônia.

Os craques, razão de ser dos estádios e suas histórias, estão bem pouco representados, em números infinitamente menores que os políticos.

Perdi a conta dos Getúlio Vargas ou Presidente Vargas, como o tradicional PV, de Fortaleza. 

E há raros Mané Garrincha (DF), Romário Faria e Leônidas da Silva (RJ). O estádio Nilton Santos (Botafogo/RJ) antes era João Havelange, um agrado da subserviência política a um ex-atleta e torcedor do Fluminense.

E claro, há o Rei Pelé, em Maceió (AL).

Ainda que exista um movimento para mudar o nome para Rainha Marta, em homenagem a jogadora brasileira Marta, seis vezes a melhor do mundo pela FIFA.

Antonio Carlos Salles é jornalista. 

(Juca Kfouri, acesso em 13out2018)

Muito interessante!

L.s.N.S.J.C.! 

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NÃO dá para fazer filme de faroeste!

AO ESCRITOR é, além do conhecimento do conteúdo, necessária uma boa dose de inspiração. Há temas que precisam ser desenvolvidos na exata hora em que surge nalgum canto da mente a ideia do que se escrever. Há a motivação, que é o tema, o conteúdo, mas se deixar passar a oportunidade, as palavras podem não vir, ao menos parecidas às que se deixaram iluminar naquela exata ocasião.

É agora ou nunca, como dizia Elvis Presley.

Chamam isso de inspiração. Não sei. Mas sei que, ainda que música não seja a nossa especialidade, é o que provavelmente ocorre com os grandes compositores musicais. O mesmo acontecia a talentos do nível de um Chaplin, por exemplo.

Por muitas vezes desejei aqui nestas páginas eletrônicas rabiscar, teclar, digitar, escrever sobre as muitas experiências vividas, testemunhas e ouvidas do tempo em que vesti a farda azul barateia. E isso foi por um curto período de três decênios, um sopro, como bem definiu o centenário arquiteto Niemeyer.

Lá convivi com uma fauna variadíssima de artistas. Havia um bordão na caserna que dizia assim: “Não dá pra fazer filme de faroeste, porque só tem artista e nenhum bandido”. E este escriba viu e soube de muita coisa digna de filmes, livros, teatro. Tantos foram os personagens dignos dos mais diabólicos embusteiros participantes das novelas de tevê, em seus múltiplos e folclóricos personagens.

O título poderia ser “Calixto Wilson e outros picaretas”. Nem me perguntem a razão desse nome, pois nem mesmo este escriba sabe responder.

Adiantamos aqui três casos.

O primeiro deles é o do servidor civil exemplar que trabalhava fora de expediente e até aos sábados e domingos, não raramente. Esse cidadão foi homenageado com medalhas e até uma placa em que aparecia como o “funcionário do ano”. Trabalhava na seção de finanças na função de sacador, ou seja, era encarregado de lançar as alterações — direitos, vantagens e também descontos — nos contracheques. Isso foi em Curitiba. Há uma lei que limita o tempo do servidor em 70 anos de idade, passada a idade ele compulsoriamente é aposentado. O nosso amigo, chegando essa indesejosa data, foi ao comandante e, implorando, pediu para permanecer no trabalho, alegando não ter o que fazer em casa. Se fosse para casa, morria antes do tempo de tédio e tristeza, pois nutria grande amor pelo trabalho que exercia. Continuou nas mesmas funções. Não demorou muito, exatamente num final de semana, passou mal e morreu.

Passado algum tempo a família procura a unidade, devolvendo uma pequena fortuna que fora descoberta na conta do falecido. “Esse dinheiro não é do meu pai”. Fazendo uma sindicância, foi descoberto que o tal funcionário exemplar mantinha um servidor inativo, um primeiro-tenente reformado, num caso que se convencionou chamar de “funcionário fantasma”. Mediante procuração, todos os anos o tal tenente, que ninguém conhecia e ninguém via, apresentava-se como prova de vida e residência.

Outro caso.

Um militar reformado, este de carne e osso, que na verdade era outra pessoa. O dito dispunha de duas identidades, sendo que a primeira, provavelmente a verdadeira, dava-o como dispensado do Exército por incapacidade de saúde. O sujeito fora dado, isso ainda em sua juventude, como portador do mal de Hansen, vulgarmente conhecida por lepra.

Desempregado, engendrou a ideia de comprar outra identificação, que naquele tempo não era difícil. Com a nova identidade, em que alterava a idade e também o nome, logrou ingressar na Aeronáutica como soldado. Cansado da vida de milico, veio a mais tarde ser reformado por razão de: lepra. Mas, desta vez, com proventos no status de militar reformado no posto de segundo-sargento.

Lembro bem o nome do falsário: Antonio Matti, gaúcho. Seu alter-ego: Antoninho Mate, paranaense. Cabra inteligente, inventou um nome parecido de modo que, se alguém pronuncia na presença de um familiar ou conhecido, automaticamente vai ser assimilado como um diminutivo carinhoso.

São casos que deixo para detalhar numa outra oportunidade, com mais tempo e, sobretudo, mais inspiração. É certo que pouco este escriba sabe sobre os dois casos, mas, somado ao que se contém podem vir tantos outros detalhes que a imaginação e verosimilhança conseguem visualizar.

Há um terceiro, além de tantos outros casos que o velho escriba poderia desfilar aqui.

É o caso dos colegas que conseguiram ludibriar a Caixa Econômica e o antigo BNH. Lograram iludir, ainda que temporariamente, a essas repartições, mas não o comando da Base Aérea de Anápolis, que puniu severamente os caloteiros. Ou melhor, a quase todos. Um sobreviveu, enganando a todos: colegas e comando.

Mas esse é um assunto que reservamos para mais tarde.

Até lá, amigos.

MONTIEZ Rodrigues, Sérgio Buarque de Holanda e o homem cordial!

SÉRGIO Buarque

Sérgio Buarque de Holanda (fonte: Internet)

COSTUMO tirar o chapéu para os verdadeiros sábios. Homens há que, contrariamente ao senso comum, conseguem não apenas enxergar a árvore senão visualizar a floresta inteira. O homem inteligente não é aquele que apenas devora volumosos compêndios — como dizia Rolando Lero, fictício pupilo do alencarino Francisco Anysio. De que adianta o homem saber e não fazer uso da pretensa sabedoria? Para que serve uma lâmpada se é acomodada embaixo de uma mesa?

Pois bem!

Nas redes sociais encontrei o amigo Montiez Rodrigues, ex-colega de farda, componente da Tarjeta Verde que entrou na Escola de Especialistas em 1975 vindo a formar-se em dezembro de 1976. Montiez, de origem humilde, faz parte de um grupo que cumpriu apenas os seus cinco anos de serviços obrigatórios, conforme a legislação. Após esse período, sabiamente cascou fora da caserna, divorciando-se amigavelmente da Força Aérea. Fazendo uso do cérebro privilegiado que Deus lhe deu, toma, pois, destino em busca de horizontes mais abertos e menos — vamos pôr assim — limitadores. Uma vez no Banco do Brasil, não se acomoda no cargo — por sinal, segundo suas palavras, muito bem remunerado –, indo mais além até ser, não sem concorridíssimo certame, nomeado para o ambicionado cargo de analista previdenciário. Hoje, colhe os louros da polpuda aposentadoria que fez jus por quarenta anos de labor, fruto que, no Brasil, só uns poucos conseguem colher por seu próprio mérito. Parafraseando meu xará Valentim Magalhães, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Montiez recolhe mensalmente o suficiente não apenas para o pão, mas também para a manteiga.

MONTIEZ Rodrigues 1

Montiez Rodrigues (fonte: Facebook)

Tornou-se-me hábito diariamente deleitar-me nas redes sociais com suas postagens inteligentes e bem-humoradas. Entre um gole e outro de café com leite adoçado artificialmente, leio com olhos curiosos e prescrutadores seus comentários acerca da vida e dos acontecimentos sociais.

Eis que hoje me deparo com esta:

“O HOMEM CORDIAL

Sérgio Buarque de Holanda, antropólogo famoso, em sua obra-prima, o clássico Raízes do Brasil, propagou o mito do Homem Cordial, agora destronado e desmascarado com a ascensão do truculento capitão Jair Bolsonaro, candidato à presidente da república, líder nas pesquisas de intenção de voto e também líder disparado na rejeição dos eleitores, cujos seguidores expuseram toda a podridão de nossa sociedade embutida no mais recôndito da alma nacional. Chico Buarque, compositor, cantor e escritor, filho do Sérgio, viveu para constatar o ledo engano de seu pai e comprovar que o Brasil é o país da delicadeza perdida. Espero que este exacerbamento não vá além das eleições porque senão enfrentaremos uma guerra civil, uma luta de classes, um Norte contra Sul ou uma irmandade qualquer a lutar pela derrubada de algum Bashar al-Assad tupiniquim.”

Procurarei aqui resumir.

A Sociologia brasileira tem em Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala, 1933) e Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil, 1936) os seus primeiros mestres.

Freyre, num país cuja sociedade procura espelhar-se na imagem do homem europeu e em sua cultura, culpando assim o mulato, o negro e o índio pelo atraso do país, apresenta-nos a miscigenação como fator positivo, como a grande característica peculiar do povo brasileiro. Pela primeira vez a miscigenação, fruto geralmente do cruzamento do português com a negra e com a índia, é visto como um processo elogiável, contrariando o senso comum vigente até ainda hoje em nossa sociedade, como, por exemplo, a preocupação de Dom Pedro II em “embranquecer” a população brasileira, daí favorecendo e incentivando massivamente a imigração europeia.

Também procurando explicar o porquê de o Brasil ser um país atrasado em relação aos da América do Norte, colonizados pelos ingleses, Sérgio Buarque de Holanda, numa obra mais realista inspirada em Max Weber, define, entre tantos outros conceitos, o brasileiro como o “homem cordial“, num contraponto à sociedade canadense e estadunidense.

No entanto, diferentemente do que se pensa, a expressão cordial em sua obra não significa exatamente a pessoa de bom coração, pacífica, boa-gente, camarada.

Não foi exatamente isso que quis dizer Sérgio Buarque de Holanda. A expressão foi deturpada.

Eis uma das acepções para a cordialidade do homem brasileiro.

Cordial significa “o que vem do coração”. Desde o Brasil colônia, segundo as ideias de Holanda, a sociedade foi se estruturando em função do senhor de engenho. A partir dele há uma gama de outros elementos, como a própria família, a escravaria, os demais homens “livres”, membros do clero e servidores públicos. O poder e influência do senhor vai além, muito além, dos limites de sua extensa propriedade, prolongando-se por toda uma região. É ele quem manda em tudo, é ele quem indica o delegado, o juiz, os políticos, os funcionários públicos. Diferentemente do que ocorre na América do Norte, no Brasil a lei é apenas fachada, servindo apenas para limitar as ações de quem não seja amigo do senhor. Antes senhor, depois barão, mais tarde coronel. Hoje o vereador, prefeito, governador, deputado… Continue lendo

JOSÉ Augusto Moita!

O início de tudo

NO DIA 13 de julho do ano da Graça de 1975 , pelas nove horas da manhã, decolavam duas aeronaves da Base Aérea de Fortaleza com destino à Escola de Especialistas da Aeronáutica, em Guaratinguetá – SP. Nos bojos de um C130 Hércules e de um C115 Buffalo seguiam em busca de um sonho quase uma centena de jovens cearenses.

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Arquivo pessoal de J. A. Moita

Além do sonho, havia mais algo em comum àquele grupo de adolescentes, oriundos de famílias pobres, muitos deles passando a partir dali a arrimos de suas famílias. Pois vivíamos um Governo Militar e um emprego nas Forças Armadas fornecia uma boa remuneração, o que levava alguns a tentar a vida na caserna mesmo sem nenhuma aptidão para a carreira militar.

Fiz parte da equipe que embarcou no Buffalo, que, por sinal saiu mais do que lotado, tanto que os mais magrinhos —o meu caso, pois pesava quarenta e cinco quilos— tiveram que dividir o “confortável ” assento com um futuro colega. Já o Hércules decolou com assentos ociosos, pois que completaria sua capacidade máxima em Recife, com os candidatos pernambucanos.

Naquela época viajar de avião não era coisa que fizesse parte da vida dos pobres, tanto que o capitão-aviador que nos conduziu, em uma preleção antes do voo, ao perguntar quantos de nós já havia voado, não obteve nenhuma mão levantada em sinal afirmativo. Ele ainda nos fez uma pontinha de medo quando brincando, vislumbrou a possibilidade daquele estanha máquina, de formato completamente horripilante para um aeronauta de primeira viagem, não conseguir alçar voo.

Creio que todos vocês (referindo-se a militares da FAB) chegaram a voar no Buffalo, uma aeronave que bons serviços prestou ao Brasil através da Força Aérea, e devem saber que, devido não haver pressurização, o barulho e o frio foram nossos companheiros incômodos durante todo o trajeto. Agora, imaginem a quantidade de aratacas vomitando dentro daquela belonave! Mas, no cômputo geral, tive sorte, pois suportei o frio e não enjoei. A única inconveniência foi na hora de urinar, pois quando vi o bocal na ponta de uma mangueira por onde todos haveriam de se aliviar de suas necessidades líquidas, não me aventurei a utilizar tal recurso, preferi me aguentar até fazer escala em Salvador, além de dali até chegar em nosso destino não beber mais nada.

Chegamos na pista de Guará já no avançado da tarde e os que tiveram a sorte de ter levado algum agasalho conseguiram suportar bem, até que um ônibus nos viesse pegar para levar à Escola — mais tarde viemos saber que aquele outro horripilante meio de transporte era o famoso Papa-fila.

Não lembro a primeira vez que transpus o Portão da Guarda, como também não lembro as muitas vezes que por ali adentrei vindo da Japonesa completamente embriagado. Por falar em Japonesa, até hoje não descobri o mistério atrativo que exercia aquele estabelecimento nos que se entregavam aos porres, já que, após a quarentena, foi o primeiro local que conheci fora da Escola sem que ninguém me houvesse ensinado. Parece que uma mão maligna nos conduzia sonambulamente. Com o decorrer do tempo, mais aclimatados, o caminho da Porteira Preta nos surgia à frente. Aí, a perdição estava completa, que nem o capitão-capelão Sebastião daria mais jeito.

CAPELÃO Sebastião

Capitão Sebastião, o capelão da Escola (reprodução de O Especialista em Revista, ed. 12, julho de 1979)

Chegamos no pátio principal já à boquinha da noite, como se diz aqui no Ceará, e fomos colocados nos alojamentos aleatoriamente, já que a definição da esquadrilha a qual cada um faria parte só ocorreria depois do dia quinze, prazo máximo permitido para apresentação de todos os aprovados. E ali ficamos feitos pintinhos sem mãe, trêmulos de frio e de medo, agregados em um único grupo, desfalcado apenas de alguns mais audazes que se aventuraram em procura da cantina. Mas não ficamos sozinhos por muito tempo, mais que depressa apareceram alguns alunos que não tinham camburado de primeira a nos vender cadeados e outros penduricalhos necessários à nossa adaptação física. A espiritual levaria mais tempo, como nos veio mostrar o dolente toque de silêncio às dez da noite.

Não costumo mentir, confesso que chorei baixinho. E tenho certeza que aquela corneta, para os que a ouviram pela primeira vez, marcou indelevelmente a memória e o coração. Aquela triste melodia, que também é executada durante os funerais, exprimia todo medo do desconhecido a que nos submetíamos como também a profunda saudade do lar, deixado pra trás recentemente. Aquele instrumento encerrava de vez a infância de um menino pobre que deixou sua casa em busca de dias melhores não só pra ele, mas para todos os seus familiares. Mas esse menino não estava sozinho.

Nunca esteve.

EIS um documento humano.

José Augusto Moita, ex-aluno da Escola de Especialistas de Aeronáutica, conta nesta crônica um pouco do que ele e seus colegas, todos jovens oriundos das classes populares, sentiram quando, a bordo de uma aeronave da Força Aérea, chegaram a Guaratinguetá. Suas emoções particulares e seus costumes uma vez ambientado revelam em J. A . Moita uma espécie de anti-herói,com quem muitos de todos nós (este escriba inclusive) nos identificamos.

Em resumo é o que dizemos sobre o conteúdo.

Sobre a forma, trata-se de uma peça do gênero  narrativo em primeira pessoa. A certa altura da narração, Moita dá um salto no tempo e passa a falar sobre sua rotina além-muros, também comum a tantos — como eu — alunos da Escola de então. Depois retorna ao fio narrativo original.

Faz parte dos recursos de um bom cronista a divagação e a passagem de tempo, com o cuidado de retomar mais tarde o raciocínio inicial. Ao final da peça, lança recurso da expressão “Nunca esteve (só)”, uma espécie de aforismo filosófico, pois de fato nem ele, tampouco nenhum de nós, jamais esteve sozinho naquele mundo, para nós tão estranho, mas que, a despeito disso, representava ao jovem pobre uma oportunidade num país tão desigual. 

Enfim, são recursos literários próprios dos grandes cronistas.

L.s.N.S.J.C.!

 

L.s.N.S.J.C.!

REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

Essa sociedade hipócrita e vil!

…Continuação da postagem de 23ago2018

ERA o bilheteiro que, por meio da vidraça do guichê, antes me observava. “Esse cara vai perder a droga desse ônibus…”.

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Era uma vez

Nossa turma!

Notando que peguei no sono, o funcionário, preocupado, se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não posso esquecer jamais esse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesita em socorrê-lo. Já havia feito a sua obrigação que era me vender o bilhete de passagem. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, irmão.

ÔNIBUS Viaç Sampaio

Ônibus da Viação Sampaio (reprodução de O Especialista em Revista, ed. 12, julho de 1979)

À semelhança de um louco, sob os olhares espantados de todos que estavam próximos à minha trajetória, corri até a plataforma e, esbaforido, embarquei naquele Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá, Estado de São Paulo. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, dentro de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionou-se chamar de Estado. Continue lendo

REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

Teu ônibus sai em cinco minutos

… Continuação da postagem de 21ago2018

NUMA tarde calorosa, volto para casa remoendo o gosto amargo da derrota. Pela primeira vez tive consciência do que significa perder alguma coisa. Não que vislumbrasse a real importância do concurso, mas — verdade seja dita — já havia me acostumado com a ideia de ingressar na tal escola. Além do mais, jamais havia sido reprovado em nada, malgrado a fragilidade do ensino público e reconhecer minhas limitações intelectuais.  A aprovação inesperada na primeira fase dos exames me dera a vã esperança de que conseguiria também êxito nos eventos seguintes, que seriam o exame psicotécnico e a entrevista com o oficial.

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De outra parte, em nenhum um momento, porém, pensei no gostinho que essa derrota — que mais tarde se confirmaria provisória — causaria em meus colegas de estudos e de brincadeiras de rua. A inocência da vida, até poucos tempo antes, não havia me permitido enxergar da parte de Alcemir e Raimundo qualquer sentimento de hostilidade ante à perspectiva de que eu, e não eles, saísse vencedor do concurso. Mas ao final, até então, saíra conforme eles no íntimo desejavam. Se eu não venci, ele também não, era o que pensava cada um desses “amigos”.

A mesma inocência que mais adiante me atrasaria a vida, é a mesma que em certas ocasiões me livraria de alguns perigos. Paradoxo.

Paralelamente, havia, em relação a meus pais, a curiosidade dos vizinhos, pois, sem que eu tivesse consciência, o meu feito — a aprovação nos exames intelectuais — virara notícia na vizinhança. Nada notava de diferente quando, do nada, as pessoas me abordavam. Numa época em que era considerado bem de vida um chefe de família que trabalhasse de carteira assinada, o Garoto, com seus dezesseis anos, não tinha nenhuma ideia de que, diante daquela comunidade pobre e sem perspectivas maiores, ele passara, de uma hora pra outra, a ser visto como alguém prestes a galgar uma posição acima — bem acima, comparativamente — na escala social: um emprego público com garantia de um salário certo todo mês, com bônus de ostentar farda, traje que naquela época era razão de respeito e admiração por parte da população mais simples.

Das pessoas conhecidas da nossa família algumas pessoas torciam sinceramente a meu favor, enquanto outros se torciam de inveja, ainda que de maneira disfarçada. Meu pai, chamando-me a um canto, disse em voz baixa: “Antonio, não fiques chateado com isso. Estuda e enfrenta o próximo concurso. O segredo é a alma do negócio.” Somente essa última parte do conselho paterno foi me dar alguma noção — mínima, até —  dos sentimentos  nada nobres que de fato parte da vizinhança nutria em relação a um garoto que quase nada sabia da vida. Era a primeira vez que tinha conhecimento real da existência de sentimentos ruins como a inveja.

Nem todos.

Raimundo e Alcemir. Raimundo, que mais tarde ingressaria no Corpo de Bombeiros do Pará, era um cara dissimulado, daqueles que escondia suas derrotas e propagandeava vitória, por mínima que esta fosse; mentiroso também. Alcemir, por sua vez, era (ou é ainda) um sujeito presunçoso, gabola, vaidoso, o mais forte, o mais bonito e o mais inteligente. Ao menos se considerava.

Ainda hoje me recordo da fala do Alcemir: “Vai estudar, Gandola, que estás precisando!”. Meu apelido entre eles era Gandola por causa de um personagem do Jô Soares no humorístico televisivo Planeta dos Homens. Nesse quadro o homem chega para pedir emprego, mas com uma ressalva, pois “Quem me mandou aqui foi o Gandóoolaa!”. Não tínhamos a mínima ciência de que o humorista fazia a alusão a uma peça de uniforme militar. Numa associação de ideias, Gandola era um poderoso militar de alta patente do Exército, provavelmente um general. É claro que imediatamente o candidato ao emprego era admitido, tal era a influência, ou o medo que tinham do tal Gandola. Pois é. Eu gostava de falar Gandóoolaa!. De tanto repetir o bordão, passaram-me a chamar de Gandola. Por ironia, em pouco tempo iniciaria a vida militar fazendo uso rotineiro dessa peça de fardamento. E olha que eu nem sabia que a tal escola me formaria militar. Aliás, não só eu que não sabia, creio que 99 por cento dos brasileiros nem desconfiavam que Jô Soares tirava sarro dos militares por meio desse e de outros personagens televisivos.

O teatro da vida, no entanto, impõe seu próprio roteiro.

Rapidamente esqueci o trauma da reprovação e o sorriso de alívio da turma. Como era julho, mês de férias escolares, cumprindo minha obrigação filial de todos os anos, acompanhei meu pai ao interior do Estado para ajudá-lo nas tarefas da roça de mandioca, serviço que fazia todo julho e também nas férias de final e início de ano. Geralmente meu pai contava comigo e com meu irmão Walter como mais dois braços nas tarefas de colono pobre, mas desta vez, por alguma razão que não me recordo, meu irmão permaneceu na cidade em companhia de minha mãe e de meus outros irmãos.

Corria a última dezena do mês, quando certa noite fomos surpreendidos por alguém que batia à porta da humílima cabana que habitávamos. Uma sombra de apreensão percorreu ligeiramente o espírito de meu pai. Quem seria àquela hora da madrugada?  Aberta a porta e foi surpresa ainda maior ao depararmos com o Francisco, um vizinho nosso, irmão do Raimundo.

No dia anterior um rapaz trajando canícula azul claro, cinto de lona largo, calça azul escuro e borzeguim preto batia no número 352 da passagem Dionísio Bentes. Cumprindo ordens, o soldado deixava em casa a cópia de um documento que me convocava para a Escola com urgência.

JJ COMAR UNO SBBE

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REMINISCÊNCIAS de um velho escriba!

…Continuação da postagem de 19ago2018

INICIAVA bem cedo para mim aquela longa e agitada jornada. Às cinco e meia da matina, em companhia de minha mãe e meu tio Antônio Rodrigues, encontrava-me na estação de passageiros do aeroporto, que naquele tempo era destacada da estação de voos comerciais. O avião da FAB, um Bandeirante administrativo estava lá no pátio estacionado, onde havia pernoitado. O mecânico de voo já o inspecionava, checando tudo o que era necessário para dar a aeronave como pronta para longa viagem a que se destinava, conforme ordem de missão, em procedimentos que mais tarde eu conheceria como pré-voo. O Bandera cruzaria o Brasil de norte a sul, sobrevoando seis Estados brasileiros, destino Rio de Janeiro, em minha primeira viagem aérea. Faria escala técnica em dois aeródromos: Carolina e Brasília.

O Garoto, tímido, ingênuo e simplório, estava por entrar num mundo estranho, diverso, distinto do que havia experimentado até então. Estaria preparado? Não. Dona Maria, porém, ficaria rezando pelo êxito do primogênito nas mais desafiantes questões e problemas que enfrentaria naqueles dois anos vindouros e também nos subsequentes.

Principiava o primeiro grande acontecimento da minha vida. Além de nascer e sobreviver, posso dizer, que ingressar na Aeronáutica em 1977, aos dezesseis anos, foi um fato extremamente marcante, um divisor de águas, uma grande experiência que durou trinta anos e cujos frutos colho até hoje. Todos os fatos seguintes, direta ou indiretamente, viriam em decorrência dessa vivência significativa na história do Garoto ingênuo, simples e pouco preparado intelectualmente, inocente de quase tudo, desprovido de qualquer maldade.

É de se supor, ao lerem estas linhas, que nutro uma relação dúbia, por vezes romântica e carinhosa, outras conflituosa e amarga com a instituição que me abriu as portas do mercado de trabalho, não me deixando desempregado um dia sequer. Realmente foi, como antecipei, uma relação tempestuosa, revezando altos e baixos, fases empolgantes e vitoriosas mescladas com períodos de dissabores e indiferenças. Os espinhos e pedras que me esperavam, que, aos trancos e barrancos, fui superando.

Foi assim em toda a minha vida. Os acontecimentos foram me arrastando, de forma que o Garoto nada calculava ou planejava sobre o futuro, nem próximo nem distante. Até então nada me ocorrera um momento sequer sobre a vida futura, o trabalho, família, nada disso.

Ia ao sabor do vento e da vida.

Um dia minha mãe, a dona Maria, caminhava pelo centro de Belém quando recebeu da mão de alguém um panfleto. A propaganda dizia assim: Continue lendo