A LÂMPADA escondida!

UM DIA passava certa mulher e se deixou a observar um acidente de trânsito. Era um caminhão acidentado, que, ao tombar, veio a atingir outros carros. Havia muitas pessoas em volta, igualmente curiosas. Chegaram os bombeiros, ambulância e polícia. Minutos depois chegaram também equipes de reportagens: jornais, televisão e rádio, todos ávidos por notícia. Para os curiosos, um assunto para a semana inteira com os familiares, amigos, vizinhos, conhecidos. Apenas mais um acidente com vítimas, entre tantos e tantos na cidade grande. Mais uma notícia nas páginas policiais, mais uma matéria nos telejornais. Morte, coisa tão banal.

Os bombeiros foram retirando as vítimas, uma a uma. De repente, um semblante a modificar-se: a curiosidade se mudando em desespero, horror, pânico, lágrimas, um sentimento de impotência, enfim. Uma das vítimas era filho da dita senhora, filho único.

É muito comum agirmos como a aquela senhora. A vida e seus meandros – alegrias e tristezas – naturalmente seguindo seu curso inexorável. Se conosco, desnorteados, sem rumo ficamos, sem ideia de para onde seguir; nenhuma noção de que atitudes tomar, inseguros. Quantas vezes na vida nos sentimos assim? E ao menor contratempo.

Recentemente – escrevo o texto ainda em janeiro de 2010 – os meios de comunicação social deram conta de duas catástrofes naturais: no Brasil, pela passagem de ano, deslizamentos de terra no estado do Rio de Janeiro, enchentes em São Paulo e no Rio Grande do Sul; no Caribe, Haiti, uma de proporções gigantescas, um terremoto que destruiu todo um país, afligindo todo um povo, não deixando esperança, e que veio a desolar a todos nós. Haiti, um país pobre, o mais pobre das Américas, um povo sofrido, miserável, vítima há mais de dois séculos de toda a sorte de problemas: da natureza ou provocados pela mediocridade da alma humana.

Temos a sensação de que as tragédias, os infortúnios – qualquer que seja a natureza – acontecem apenas com os outros; fatos (muitas vezes novelescos), de tão distantes de nós, que são apenas notícias, avidamente buscadas pelos profissionais de imprensa, friamente digeridas por nós ao café da manhã na leitura do jornal, um programa rotineiro após o almoço, ou jantar, nos telejornais. Coisas distantes da nossa vida, do nosso dia a dia.

Fatos se sucedem nesse corre-corre, nessa vida louca e agitada deste século XXI da informação imediata dos meios eletrônicos, dos comportamentos celeremente mutáveis a cada nova tecnologia divulgada. A tragédia do ontem já foi esquecida, substituída pela do hoje, que, por sua vez, será também facilmente por nós esquecida quando se tornarem públicos outros fatos, preferencialmente trágicos, qualquer que seja a sua natureza: política, por ter sido descoberta outra pessoa pública desviando dinheiro público; policial, por ter saído na tevê algum confronto de polícia versus bandido; de catástrofe natural, por algum tsunami, terremoto ou enchente de grandes proporções, preferencialmente com muitas vítimas.

 

Daqui a poucos dias virá o carnaval, e poucos se lembrarão de Angra dos Reis, de São Luís do Paraitinga, de Agudos no Rio Grande ou até mesmo do Haiti – ainda porque esse país está distante geograficamente de nós, não é mesmo?! E depois do carnaval virão os campeonatos de futebol. Nada contra carnaval e futebol, questão apenas de escalonar valores.

A vida assim se sucede. A dor, porém, permanecerá nos corações desafortunados, para quem os fatos não se resumem meramente às manchetes, aos comentários e imagens, mas à realidade nua e crua, dolorida, sem fundo musical ou trilha sonora.

Há pouco foi Natal e virada de ano. Natal, e a grande mídia – e todos nós, porque não dizer – festejando a figura do papai Noel: comércio cheio, compras, presentes, ceia; fim de ano, fogos, festas, e a roupa da virada – preocupação fútil de tantos. Enquanto isso poucos, poucos mesmo, lembrando do verdadeiro aniversariante e grande dádiva de Deus à humanidade: O grande mistério da encarnação de Nosso Senhor, o Deus menino.

Voltemos ao assunto. Quantos não se lamentaram – e continuarão a se lamentar por muito tempo – da natureza e das perdas de seus amigos, filhos e filhas, a dor – indescritível para quem não a sente – a permanecer em seus corações, quem sabe, pelo resto de suas vidas. Mas nem todos, nem todos têm a consciência de que a vida é uma dádiva de Deus, cabendo a nós, seus filhos, conservá-la, fazendo bom uso dela. No entanto, o Criador é o Senhor de todos nós, e assim como nos deu a vida também pode tirá-la, e não cabe a nós saber quando. E nós? Estamos preparados para isso? Ouso responder que não estamos, exceto poucos. Não sabemos do nosso amanhã.

Uma jovem – dezessete anos, se me lembro bem – filha única, todo um futuro pela frente, e – de repente – sua vida se foi. Cheia de sonhos e planos, tudo natural. Seu ciclo, porém, se concluiu.

 

— Como se concluiu? Alguém poderia perguntar. É natural para todos nós entendermos um ciclo de vida como sendo nascer, crescer, constituir família (ou não), reproduzir, envelhecer e morrer aos oitenta, noventa, cem anos. A todos é lícito entender dessa forma e assim vivermos, tentando levar adiante nossos planos e sonhos, erros e acertos (muitas vezes mais erros que acertos).

Não nos iludamos: nós escondemos a lâmpada em baixo da mesa. Papai Noel é mais visível que o Jesus Menino – este nasceu pobre em um cocho, no frio e no odor forte dos animais, já aquele vende muito, aquece a economia; Momo, para muitos, é mais importante que o Jesus crucificado e ressuscitado, humildade, amor e paixão por todos nós, vis pecadores; aquele, porém, alegria – embora fugaz – e … lucros. Mas, afinal de contas, é quem traz turistas para o nosso país, promovendo a imagem do Brasil no exterior.

A lâmpada existe para iluminar a todos nós, e não para ser escondida. É lícito sabermos quando será o fim do nosso ciclo? Óbvio que não. Se um boi soubesse o fim que lhe reserva o destino, não se deixaria abater e virar bife na mesa do homem. Nós, se soubéssemos o nosso dia, frágeis como somos, cairíamos – salvo as pessoas dotadas de grande espiritualidade – em desespero total. Devemos ser fortes, conscientes de que não somos senhores da nossa vida. Ela é um empréstimo, um talento que recebemos e do qual devemos prestar contas ao Dono, não sabendo o dia em que Ele chegará. Para cada um de nós, individualmente, poderá ser hoje, amanhã ou daqui a trinta anos. Não sabemos.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

 

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SETE razões para ser professor!

Sete razões para ser professor

SER PROFESSOR é socializar o saber, é construir, juntamente com o discente, um conhecimento que valorize o meio em que atua. Por isso, destacar-se-ão 7 motivos para incentivar cada vez mais pessoas destemidas e comprometidas a ingressar nessa brilhante carreira.

Leia-os com atenção e anote todos os detalhes:

1. Estude muito e leia bastante, principalmente a vida de São Francisco de Assis;. Lembre-se de que você também terá que fazer um voto eterno de pobreza;

2. Prepare-se para manejar certos instrumentos, como o giz e o apagador. Para tal, orientamos o estilo pessoal de Michael Jackson, pois você precisará de luva e máscara durante as aulas;

3. Manter-se em forma não será problema para você, porque com o corre-corre de uma escola para outra você estará evitando o sedentarismo. E com o salário que receberá, não precisará fazer regime. Caso precise complementar a cesta básica do mês, você ainda pode ter o privilégio de usar o tíquete de 4 reais;

4. O educador é o único que pode acumular cargos: além de ministrar aulas em três ou quatro colégios/faculdades/universidades diferentes, ainda sobra tempo para ser sacoleiro, levando para as escolas os últimos lançamentos do Paraguai ou sendo importante representante de empresas como a Avon, Natura, a Hermes e Jequiti;

5. A formação continuada do professor é algo bastante importante e valorizada pelo governo. Com sorte, você será selecionado para ficar em um grande e luxuoso hotel como o Iat, bem como desfrutar de ótimas instalações e saborear um cardápio variado, tudo isso com uma localização privilegiada e com vista para o ma…to;

6. O local de trabalho deve ser evidenciado: o educador, quase sempre, trabalha em escolas-modelo, cujo slogan é a fartura: ‘farta’ limpeza, ‘farta’ funcionário, ‘farta’ material     didático, enfim, ‘farta’ tudo; e por incrível que pareça ‘farta’ educação.

7. Por fim, você desfrutará de um plano de saúde de ótima qualidade, cuja eficiência é demonstrada nos consultórios psiquiátricos repletos de professores,  que, ao completarem a idade e o tempo de serviço, já se encontram fatigados pelo trabalho, sugados pelo sistema e em pleno desmoronamento físico além do mental.


Assim, depois de ler essas sete dicas, não perca a oportunidade e não desista:

O nosso lema é: ‘Pague para entrar, reze para sair’. 

Aos que já se encontram desfrutando desse ‘néctar’, que é ser professor, nossos parabéns. Você é persistente e capaz. Possivelmente não terá recompensa aqui na terra, mas é certo que já tenha adquirido lugar privilegiado no céu. (recebido pela internet)

“AS MELHORES coisas na vida não são coisas.” Art Buchwald.

Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

(BLOGUE do Valentim em 02out.2011)

MALBA Tahan!

O depositário do rei

NA VELHA cidade Basra, no bairro denominado Haiessalã, vivia outrora um fabricante de móveis chamado Iussuf Abdallah Ben-Nahim.

Um dia, depois de ter ouvido na mesquita de El-Akbar uma prédica do imã sobre os deveres dos bons muçulmanos, resolveu Iussuf fazer, pela primeira vez, uma peregrinação a Meca — a cidade santa — a predileta de Allah. 

Sem perda de tempo preparou-se Iusuf para a fadigante jornada. Vendeu os móveis que possuía, pagou aos credores, arrendou a casa — tendo conseguido obter, com a liquidação completa de seus bens, dois mil dinares-ouro.

Que destino dar àquele dinheiro? Era bem certo que não poderia levar consigo, tais os perigos por que ia passar, aquele ouro precioso. De que recursos valer-se para deixar, em segurança, guardada até o seu regresso de Meca, a bela quantia em que se resumiam todos os seus haveres?

Procurou o imã, e este, com a prudência que a sabedoria e a experiência soem ditar, aconselhou-o a que deixasse o dinheiro guardado com o cádi, isto é, o juiz da cidade. 

Exercia este em Basra as funções de governador e era representante direto do sultão Harum-al-Rashid, califa de Bagdá. Homem poderoso, rico, cheio de prestígio, o cádi Mahomed El-Hadjazi estava naturalmente indicado para servir de depositário. O dinheiro de um peregrino estaria, por certo, bem guardado dentro dos pesados cofres do digno juiz de Basra.

Iussuf achou de bom alvitre o conselho do imã e seguiu sem perda de tempo para a casa de Mahomed El-Hadjazi, levando em um saco de couro os seus dois mil dinares.

A temida e respeitada autoridade muçulmana morava, por esse tempo, em um grande palácio na praça Sahat-Ali.

Ao atravessar essa praça, avistou Iussuf andrajoso mendigo, de rosto e aspecto de homem vencido pela doença e pela miséria. Era de causar dó a figura do ancião. O infeliz estendia a mão aos transeuntes, implorando humilde um óbulo e a todos os que o auxiliavam dizia, como se resumisse o seu mais sincero agradecimento:

— Alá vos livre de ser depositário do rei! 

Iussuf achou estranho aquele voto do pedinte, e não podendo dominar a curiosidade, chamou-o a um canto da praça e interrogou-o: 

— Pela glória de Mafoma, ó muçulmano! Por que dizes a todas as pessoas que te auxiliam:”Alá vos livre de ser o depositário do rei.”? Achas, então, indigno ou indesejável o ambicionado emprego de zelador dos tesouros de um soberano?

— Senhor — respondeu o mendigo — o voto que sempre formulo representa um desejo sincero. Não posso desejar que aconteça às pessoas dignas e piedosas a mesma infelicidade que assaltou.

— Como pode ser isso? — perguntou Iussuf. — Conta-me a tua história. Mui vivo é o meu desejo de conhecer a causa de tua desdita.

Atendendo ao pedido de Iussuf, o velho mendigo narrou o seguinte:

“Meu nome é Hussein Et-Tay. Sou filho do famoso Mahmud Et-Tay, o poeta nômade, a quem os árabes do deserto apelidaram “El-Arey” — o coxo. Muitos anos vivi em Kalaa-Abu, nas margens do Eufrates, onde possuía grande plantação de alhos, cebolas e lentilhas; quando chegava a época da colheita, os meus escravos carregavam os camelos e iam vender nas cidades próximas os belos produtos das minhas terras. Assim, graças à vontade Alá (exaltado seja o Altíssimo!), os meus negócios corriam bem e a minha prosperidade era notável. 

Certo dia, porém, um velho amigo da minha família, ao regressar de um passeio de Bagdá, disse-me: ‘Amigo Hussein, o grão-vizir Gafar pediu-me que lhe indicasse uma pessoa honesta, de inteira confiança, capaz de exercer o cargo de zelador do sultão. Lembrei o teu nome, citei as tuas qualidades, e o grão-vizir aceitou prontamente a minha indicação. Deixarás esta vida obscura e trabalhosa de agricultor, e irás servir no palácio do nosso grande califa. Passarás a ter uma existência brilhante, uma vida suave e grata aos olhos de Alá!’

E assim foi. Meses depois, recebi uma ordem em que o grão-vizir me chamava a Bagdá, para onde pressurosamente me transportei com a família, deixando as minhas propriedades entregues a um procurador. Na grande cidade do califa passei a executar as funções de zelador dos tesouros do sultão.

A princípio tudo correu bem. O meu cargo era realmente de grande responsabilidade, mas eu procurava desempenhá-lo a contento de todos. O generoso califa Harun-al-Rashid (que Alá sempre o conserve!) distinguia-me profundamente, honrando-me com sua amizade.

Um dia, porém, notei tomado de grande surpresa que havia desaparecido de um dos cofres do tesouro um saco cheio de moedas de ouro. O desespero, praga que até então minha alma não conhecera, invadiu-a toda, brutalmente. Era eu o único responsável! Tudo fiz para descobrir o paradeiro do roubo. Nada consegui. Como não quisesse confessar ao califa o ocorrido, vendi as minhas propriedades e com o dinheiro que obtive nessa venda coloquei no cofre outro saco igual ao que fora furtado. Inútil será dizer-lhe que, desse dia em diante, redobrei cuidados e vigilância. Mal podia dormir, tal a preocupação e o desassossego em que vivia. Uma angústia de todos os instantes me estiolava a saúde e me embranquecia os cabelos.

Para maior desgraça minha, decorrido algum tempo, novo roubo foi praticado no tesouro do sultão. Dessa vez desaparecera um saco cheio de ouro em pós. Desvairado, arranquei as barbas e chorei copiosamente. Não havia o menor vestígio do roubo, nem a mais leve indicação que me que me pudesse levar à descoberta do audacioso ladrão. Não querendo passar por desonesto, nem deslustrar a confiança ilimitada que o emir dos crentes depositava em mim, vendi todas as roupas, móveis, jóias e escravos que possuía, e conseguir adquirir outro saco igual ao desaparecido cheio do precioso metal.

Vi-me, porém, depois desse segundo roubo, reduzido ao extremo da miséria; não tinha mais nada de meu. Esmagado pelo infortúnio, mas acomodado à minha negra sorte, tomei uma resolução terrível. Dirigi-me ao califa, pedi-lhe licença por um ano, e afastei-me de Bagdá desaparecendo para sempre. Abandonei a família e os amigos. E agora, sem teto e sem rumo, vivo como um molambo humano a mendigar pelas ruas de Basra, à espera de que Alá, o Onipotente, escreva no livro do destino o termo dos meus dias infelizes.”

E o mendigo, depois de uma pausa, prosseguiu: 

“Eis porque, senhor, a ninguém desejo a desgraça que a mim me feriu.”

Sinceramente penalizado coma triste sorte do bom Hussein, disse-lhe Iussuf:

— Fizeste mal, meu amigo, em ocultar a verdade ao grande califa. Quando um homem está inocente, e não tem na consciência a mácula do pecado não deve recear a verdade, qualquer que seja ela. Acho que deves procurar o califa e contar-lhe o sucedido. Estou certo de que o emir dos crentes, generoso e justo, saberá corrigir o mal e punir os verdadeiros culpados.


Iussuf tirou de seu dinheiro cem dinares de ouro e entregou-os ao mendigo:

— Aqui está — disse — um pequeno auxílio para a tua viagem até Bagdá. Deves partir sem perda de tempo.

O velho Hussein, os olhos cheios de lágrimas, beijou as mãos do bondoso Iussuf, e, tomando o seu pesado bordão, partiu pelo caminho de Alá.

Depois de meditar algum tempo no estranho caso do velho Hussein, Iussuf dirigiu-se ao palácio do cádi.

O digno magistrado recebeu o peregrino imediatamente, fazendo-o entrar para um rico e luxuoso salão, cheio de alfaias e tapeçarias.

— Senhor! — exclamou o jovem, inclinando-se, respeitoso — meu nome é Iussuf Abdallah Ben-Nahim. Sou fabricante de móveis no bairro Haiessalã. Tenciono fazer, pela primeira vez, a peregrinação a Meca, e, antes de partir, venho pedir-vos que guardeis em vosso poder os mil e novecentos dinares que este saco encerra. Virei buscá-los quando regressar da cidade santa.


— Não vivo senão para bem servir os súdidos de meu país. — respondeu o cádi. — O dinheiro de um peregrino é sagrado. Saberei, meu bom Iussuf, guarda com religioso cuidado o teu precioso pecúlio.

E, recebendo do peregrino o saco cheio de ouro, foi depositá-lo em um grande cofre que ficava no fundo do salão.

Na madrugada seguinte, Iussuf partiu — com uma grand caravana — pela estrada de Hail, em demanda à cidade dos Sete Minaretes.

Três vezes as águas do Eufrates já haviam subido quando Iussuf regressou de sua piedosa peregrinação. O seu primeiro cuidado, ao chegar a Basra, foi procurar o cádi, a fim de reaver o seu precioso dinheiro.

Qual não foi, porém, a sua surpresa quando, ao chegar à presença do poderoso magistrado, tendo declarado o seu nome e o fim de sua visita, dele ouviu as seguintes palavras: 

— Devo dizer-te, ó peregrino, que seria incapaz de ficar com um dinar que não fosse meu. Alá me livre de praticar semelhante infâmia. Há, porém, meu amigo, um engano lamentável da tua parte. Não te conheço, e, posso jurar, é a primeira vez que ouço o teu nome! 

MALBA Tahan!

O Turbante Cinzento

MEU NOME é Sind Mathusa. Poucos homens têm havido na Índia mais ricos do que meu pai e não sei de um só que o excedesse em inteligência, bondade e prudência.

Sentindo-se, certa vez, assaltado de grave enfermidade, e na certeza de que os dias que lhe restavam na vida podiam ser contados pelos dedos da mão, meu pai chamou-me para junto de seu leito e disse-me:


— Escuta, ó jovem desmiolado! Atenta bem no que te vou dizer. És pela lei o herdeiro único de todos os bens que possuo. Com o ouro que te vou deixar poderias viver regaladamente, como um rajá, durante duzentos anos, se a tanto quisessem os deuses prolongar a tua louca e inútil existência. Como sei, porém, que és fraca para resistir aos vícios, e forte em seguir os maus exemplos, tenho a triste certeza de que muito mal empregarás a riqueza que vai em breve cair-te nas mãos.


Quero, assim, fazer-te agora um pedido: se for atendido, morrerei tranquilo e não levarei para a vida futura o tormento de uma angústia.


— Dize-me, meu pai, — respondi — qual é o teu desejo. Quero ser mais repelente que um chacal se deixar de cumprir a tua vontade!


— Meu filho, quero arrancar de ti um juramento. Vês aquele turbante cinzento que ali está? Vias jurar pela imaculada pureza dos ídolos e pelas asas de Vchnu que, se algum dia te sentires desonrado, procurarás imediatamente a reabilitação que a morte concede aos infelizes, enforcando-te naquele turbante!


Fiz, sem hesitar, a vontade do enfermo. Jurei pelos ídolos e pelos complicados deuses da Índia que, se me visse no futuro ferido pela mácula da desonra, procuraria a morte ao enforcar-me no turbante cor de cinza.


Passados dois ou três dias, meu pai, fechando os olhos para a vida, integrou-se no Nirvana. Vi-me, de um momento para o outro, senhor de inúmeras propriedades, das quais auferia uma renda que chegava a causar inveja e insônia ao orgulhoso xá da nossa província. Passei a ostentar uma vida de luxo e dissipações; rodeavam-me, dia e noite, falsos amigos e bajuladores da pior casta, que me induziam a praticar toda a sorte de leviandades e loucuras.


Uma noite, tendo reunido em minha casa, como habitualmente o fazia, em grande festa, vários e divertidos companheiros da nossa laia, um deles chamado Ishame, que adquiria considerável riqueza vendendo camelos e elevantes, convidou-me para uma partida de jogo de dados. A princípio a sorte me foi favorável; cheguei a ganhar num golpe o meu peso em marfim. Cedo, porém, perseguido por uma triste fatalidade, entrei a perder e os meus prejuízos excederam de mais de cem vezes o lucro inicial.  Com a esperança de recurar o dinheiro perdido, redobrei as paradas. Perdi novamente. Na progressiva loucura do jogo, já alucinado, arrisquei nos azares da sorte as minhas joias, escravos e propriedades. Mais uma vez perdi, e, ao nascer do sol sobre o Ganges, nada mais me restava da herança de meu pai. Na certeza de que poderia contar com a generosidade e auxílio daqueles que me rodeavam, fiz, com a garantia da minha palavra, uma grande dívida de honra ao perder a última partida. Procurei um jovem brâmane, filho de opulenta família e que sempre vivera ao meu lado no tempo da fartura, e pedi-lhe que me emprestasse algum dinheiro.


— Meu caro Sind — disse-me o brâmane conduzindo-se para o interior de sua rica vivenda — chegas em péssima ocasião. Fui obrigado a enviar ontem, para resgatar um dívida de meu pai, cerca de duas mil rúpias para Benares. Encontro-me inteiramente desprevenido. Lamento, portanto, não poder servir a um amigo tão querido.


Olhei para as pratarias que se amontoavam por todos os recantos de sua casa. Havia narguilés riquíssimos e bandejas com inscrições que deviam valer alguns milhares.


— Nada disso é nosso — acudiu logo o brâmane, apontando para os adornos e enfeites. — É desejo de meu pai casar minhas irmãs com homens de boa casta, e para atrair os pretendentes alugou toda essa prata e esses tapetes bordados a ouro. Todos acreditam, desse modo, que somos ricos e que vivemos na fartura e na opulência.


Irritado com o cinismo daquele falso amigo, disse-lhe com calculada frieza:


— Bem sabes que sou descendente de nobres e que meus avós pertenciam à mais alta linhagem da Índia. Declaro, pois, que para fugir da situação em que me encontro, estou disposto a casar com uma jovem fina e educada. Peço, pois, a tua irmã mais moça em casamento.


Sorriu o brâmane:


— Pedes em casamento uma jovem que não conheces e que talvez não te aceite para esposo. Em nossa família os casamentos não são ditados pelos interesses pessoais; a mulher deve ser ouvida e suas inclinações pessoais levadas em conta. Se desejas pagar dívidas de jogo com o dote de minha irmã mais moça, sinto dizer-te que estás equivocado, jamais aceitaria, como cunhado, um homem que se arruinou em consequência de uma vida desregrada e pecaminosa.


E, conduzindo-me até a porta de seu palácio, empurrou-me delicadamente para a rua.


Apesar desse péssimo acolhimento, não desanimei. Fui ter à casa em que morava m mercador chamado Meting, que era assíduo frequentador de minha mesa. De mim havia Meting recebido inúmeros obséquios e finezas, e muito dinheiro para ele eu perdera no jogo.


— Que desejas de mim? — perguntou-me. Disse-lhe que precisava de pequeno auxílio.


— Julgas que sou algum imbecil da tua espécie? — respondeu-me. — De mim não terás nem thalung de cobre!


Desesperado, vendo-me repudiado por todos, e sem recursos para pagar o imenso débito que contraíra, abandonei o palácio e fui ter a um grande bosque nas vizinhanças da cidade. Era meu intento cumprir o juramento que formulara junto ao leito de meu pai.


Escolhi, portanto, entre muitas, uma belíssima árvore. sub pelo nodoso tronco, sentei-me em um dos galhos mais altos, desenrolei o longo e belo turbante cor de cinza, amarrei uma das suas extremidades em outro galho que estava a meu alcance e fiz na outra extremidade um laço seguro em torno do pescoço. Todos esses preparativos trágicos executei-os com a maior calma, sentido, embora, o coração opresso pela mais imensa tristeza.


Já ia deixar cair o corpo no espaço, quando, ao reforçar o laço fatal que me estrangularia, notei que havia na ponta do turbante, por dentro, qualquer coisa de muito resistente. Que seria? Na esperança louca de encontrar ali qualquer coisa que me pudesse salvar, rasguei o turbante. Embora pareça incrível, senhor, devo contar: dentro dele retirei uma carta de meu pai redigida nos seguintes termos:


Estás desligado do teu juramento. Vai à casa de Kashiã, o tecelão, e pede-lhe a caixa de areia. Quem se salva por um milagre da desonra e da morte deve evitar o erro e procurar o caminho reto da vida.


Ébrio de alegria saltei da árvore e quase a correr fui ter à choupana onde morava o pobre Kashiã, apelidado “o tecelão”. Recebi das mãos desse pobre homem a lembrança que meu pai ali deixara para me ser entregue.


Ao abrir a misteriosa caixa quase desmaiei, tão grande foi o meu assombro. Estava repleta de brilhantes, pérolas e rubis — alguns dos quais valiam mais que as coroas dos príncipes hindus.


Possuidor de tão grande riqueza, não soube dominar a tensão de que meu fui preso e chorei. Lembrei-me de meu bom pai, sempre generoso e prudente, que, ao prever a minha desgraça, usara daquele artifício para salvar-me. Era evidente que eu só poderia obter a caixa com o auxílio da carta, e a existência desta só chegaria ao meu conhecimento se o turbante fosse por mim próprio desmanchado.


Como louco que se salva de um abismo ao fundo do qual se atirara, assim me vi naquele momento. Depois de lançar aos pés do velho Kashiã um punhado de preciosas gemas, tomei a caixa e encaminhei-me para a cidade. Era minha intenção pagar todas as minhas dívidas e readquirir as minhas antigas propriedades. Quis, porém, uma fatalidade que tal não acontecesse.


Ao atravessar um pequeno e sombrio bosque nas margens do Elir, encontrei sentada sob uma grande árvore uma jovem de deslumbrante formosura. Os seus olhos azuis tinham um pouco do céu da Índia com os reflexos mais verdes do mar de Omã; as faces eram como as da terceira deusa do templo de Yhamã; os lábios da linda criatura tinham um encanto a que talvez não pudesse resistir o faquir mais puro e mais santo da terra. Com essas comparações não exagero a beleza da desconhecida; ao contrário, fico muito aquém da verdade.


A jovem chorava. Os seus soluços vibravam em ondas de indizível angústia.


— Que tens, ó jovem? — perguntei-lhe carinhoso, aproximando-me dela. — Qual é o motivo do teu pranto? Se para o teu mal há remédio, dentro dos recursos humanos, certo estou de que saberei livrar-te de qualquer desgosto. 


Isso eu dizia tendo sob um dos braços a preciosa caixa, cheia de cintilantes pedras que me dariam ouro, fama e poderio.


Sem interromper o seu copioso pranto, a jovem olhou com surpresa para mim, segurou com os lábios o belo manto de seda que lhe caía sobre os ombros, e, puxando-o para o lado, deixou a descoberto o colo e os braços mais alvos, ambos, do que as penas das garças sagradas de Hamadã.


Recuei horrorizado. A infeliz tinha as duas mãos cortadas junto aos pulsos!


— Ó desditosa criatura! — exclamei, a alma oprimida pela maior angústia. — Qual foi o bárbaro autor de tamanha crueldade? Conta-me a causa de tua desgraça, e fica certa de que poderás armar o meu braço com o ódio que a vingança te souber inspirar.


A desditosa jovem, entre soluços, narrou-me o seguinte: 


(do livro Mil Histórias Sem Fim, vol. 1) 

MACHADO de Assis!

Suje-se gordo

UMA NOITE, há muitos anos, passeava eu com um amigo no terraço do Teatro de S. Pedro de Alcântara. Era entre o segundo e o terceiro ato da peça A Sentença ou o Tribunal do Júri. Só me ficou o título, e foi justamente o título que nos levou a falar da instituição e de um fato que nunca mais me esqueceu.

 

— Fui sempre contrário ao júri,– disse-me aquele amigo, não pela instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condenar alguém, e por aquele preceito do Evangelho; “Não queirais julgar para que não sejais julgados”. Não obstante, servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da Rua dos Ourives, princípio da Ladeira da Conceição. 

 

TAL era o meu escrúpulo que, salvo dous, absolvi todos os réus. Com efeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos eram mal feitos. O primeiro réu que condenei, era um moço limpo, acusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes pequena, com falsificação de um papel. Não negou o fato, nem podia fazê-lo, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do crime. Alguém, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem ênfase, triste, a palavra surda. os olhos mortos, com tal palidez que metia pena; o promotor público achou nessa mesma cor do gesto a confissão do crime. Ao contrário, o defensor mostrou que o abatimento e a palidez significavam a lástima da inocência caluniada. 

 

Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia ódio, e não era. A defesa, além do talento do advogado, tinha a circunstância de ser a estréia dele na tribuna. Parentes, colegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi admirável, e teria salvo o réu, se ele pudesse ser salvo, mas o crime metia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous anos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nele! Eu, acredite, quando vejo morrer um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho… Mas vamos ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do Conselho, que era eu. 

 

Um dos jurados do Conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que lá se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse também calado, confesso. Cantarei depressa; o terceiro ato não tarda. 

 

Um dos jurados do Conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ninguém convencido do delito e do delinqüente. O processo foi examinado, os quesitos lidos’ e as respostas dadas (onze votos contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim’ como os votos assegurassem a condenação, ficou satisfeito, disse que seria um ato de fraqueza, ou cousa pior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos jurados, certamente o que votara pela negativa,– proferiu algumas palavras de defesa do moço. O ruivo,– chamava-se Lopes,– replicou com aborrecimento: 

— Como, senhor? Mas o crime do réu está mais que provado.

— Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram comigo.

— Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto’ continuou Lopes. O crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réu nega, mas o certo é que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miséria’ duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!  

“Suje-se gordo!” Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a frase, ao contrário, nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati à porta, abriram-nos, fui à mesa do juiz, dei as respostas do Conselho e o réu saiu condenado. O advogado apelou; se a sentença foi confirmada ou a apelação aceita, não sei; perdi o negócio de vista. 

Quando saí do tribunal, vim pensando na frase do Lopes, e pareceu-me entendê-la. “Suje-se gordo!” era como se dissesse que o condenado era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei esta explicação na esquina da Rua de S. Pedro- vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornais os nossos nomes, dei com o nome todo dele, não valia a pena procurá-lo, nem me ficou de cor. Assim são as páginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e acrescentava que as páginas vão passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas não me lembra a forma dos versos. 

Em prosa disse-me ele, muito tempo depois, que eu não devia faltar ao júri, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não compareceria, e citei o preceito evangélico; ele teimou, dizendo ser um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguém que se prezasse podia negar ao seu país. Fui e julguei três processos. 

Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, acusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornais deram sem grande minúcia, e aliás eu lia pouco as notícias de crimes. O acusado apareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réus. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci, pareceu-me ver o meu colega daquele julgamento de anos antes. Não poderia reconhecê-lo logo por estar agora magro, mas era a mesma cor dos cabelos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.

— Como se chama? perguntou o presidente.

— Antônio do Carmo Ribeiro Lopes. 

Já me não lembravam os três primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros sinais vieram confirmando as reminiscências; não me tardou reconhecer a pessoa exata daquele dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circunstâncias me impediram de acompanhar atentamente o interrogatório, e muitas cousas me escaparam. Quando me dispus a ouvi-lo bem, estava quase no fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; não sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca. 

Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de réis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde; a orquestra está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou muito, o inquérito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma série de circunstancias agravantes, por fim o depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Também ele ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão o presidente. o tecto e as pessoas que o iam julgar; entre elas eu.

Quando olhou para mim não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.

Todos esses gestos do homem serviram à acusação e à defesa, tal como serviram, tempos antes, os gestos contrários do outro acusado. O promotor achou neles a revelação clara do cinismo, o advogado mostrou que só a inocência e a certeza da absolvição podiam trazer aquela paz de espírito. 

Enquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar ali, no mesmo banco do outro, este homem que votara a condenação dele, e naturalmente repeti comigo o texto evangélico: “Não queirais julgar, para que não sejais julgados”. Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a cometer algum desvio de dinheiro, mas podia, em ocasião de raiva, matar alguém ou ser caluniado de desfalque. Aquele que julgava outrora, era agora julgado também. 

Ao pé da palavra bíblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: “Suje-se gordo!” Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo o que contei

agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até àquelas

palavras: “Suje-se gordo!” Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação. “Suje-se gordo!” Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo! 

Idéias e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos à sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei afirmativamente, tão certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua. A diferença da votação era tamanha que cheguei a duvidar comigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora mesmo sinto uns repelões de consciência. Felizmente, se o Lopes não cometeu deveras o crime não recebeu a pena do meu voto, e esta consideração acaba por me consolar do erro, mas os repelões voltam. O melhor de tudo é não julgar ninguém para não vir a ser julgado. Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não julgar ninguém…

ACABOU a música, vamos para as nossas cadeiras.

 

QUANDO falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio. Provérbio indiano (BLOGUE do Valentim em 04fev.2011)

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

GARDEL era uruguaio!

DESDE hoy el público podrá contemplar la prueba documental de que Carlos Gardel nació en Tacuarembó. Se trata de su Cédula de Identidad argentina emitida en octubre de 1920. Allí el cantor se definió como “artista”, soltero y uruguayo.

 

Durante años la polémica sobre el lugar de nacimiento del mayor cantor de tangos de la historia dividió a los investigadores del mundo entero. Todo terminó cuando la investigadora argentina Martina Iñíguez presentó una prueba de difícil refutación: su cédula de identidad emitida en Argentina.

Ahora Iñíguez concedió al departamento de Tacuarembó una copia de la cédula de identidad Gardel donde consta su nacionalidad uruguaya. La copia pasará a ser exhibida en el museo que lleva su nombre en Valle Edén, departamento de Tacuarembó.

MALBA Tahan!

O mestre-escola


(Continuação da postagem de 28set2017)

 

 

 

EM SEUS olhos claros brilhava uma grande alegria.

— Não faltava mais nada! — discordei com veemência — Onde estaria eu no dia em que permitisse, em minha própria casa, o trabalho de um hóspede? Falemos linguagem singela e nua. Já não basta o que fizeste hoje? A jardinagem ficará para depois; dela encarregarei o meu ajudante. Vamos saborear, agora, qualquer gulodice, que já anda bem alto o sol e o Ramadã ainda não começou.


Convidei-o a voltar comigo à sala; abri a terceira janela e encostei a porta. No centro do tapete deixei o vistoso narguilé de prata, que refulgia como uma joia.


Voltando-me para o meu hóspede num tom não isento de cerimônia, disse-lhe:


— Tem paciência, meu amigo. Ficarás sozinho por algum tempo. Vou preparar nossos manjares.


E encaminhei-me para o compartimento, na ala esquerda da casa, onde se achavam o armário com os comestíveis, os cestos com frutas e as caixas de farinha e cebola. Retirei um prato com peixe frito, bolos de nozes, pão fresco, limões e tâmaras cristalizadas. Acendi o fogo e pus água para ferver. Nesses pequenos afazeres e indispensáveis arranjos, demorei-me algum tempo.


Quando cheguei de volta à sala, trazendo a bandeja com licor, tive a imensa surpresa de encontrar o meu hóspede em companhia de um desconhecido. Achavam-se ambos refestelados aconchegadamente, de pernas cruzadas, e conversavam como velhos amigos, gesticulando e bracejando com remetidas fantasiosas. O recém-chegado era magro, de cabelos grisalhos, olhos mortiços e fisionomia abatida.Trajava-se com extrema modéstia. Em sua túnica esfiapada multiplicavam remendos de vários feitios.


Vendo-o aparecer, Zualil, sempre atencioso, disse ao companheiro: 


— Eis aí, ó respeitável taleb, o nosso bom e generoso amigo, dono desta hospitaleira vivenda. 


E, a seguir, voltando-se para mim, acrescentou com meio sorriso, inculpando-se da presença do intruso:

— Espero que não te aborreças com este novo hóspede. Chamei-o para servir-nos de companhia na refeição. Ele ia passando e eu o convidei. Fiz mal?Aprovas o meu gesto?


E procurava ler no meu rosto a impressão de suas palavras.

Fiquei estarrecido na escada com a bandeja de licor na mão. O egípcio pusera para dentro de minha casa, sem me consultar, o primeiro beduíno que avistara da janela, cruzando a estrada. A continuar daquela maneira, dentro de poucas horas a minha casa estaria transformada numa turbulenta hospedaria ou num caravançará enxameado de forasteiros.

Entretanto, cumpria-me o dever de homologar o convite feito. Não vi, no momento, solução mais oportuna para o caso. Disse, pois, com urbanidade convencional, encarando-o com tênue sombra de dissabor: 


— O convidado de meu hóspede é sempre bem-vindo.


E, a seguir, com expressões corriqueiras, saudei o desconhecido a quem Zualil concedera o tratamento de “respeitável taleb”:

— A paz sobre ti, ó forasteiro. Aqui partilharás do sal de minha toalha.

Retribuindo a amistosa saudação que eu proferira meio constrangido, o recém-vindo respondeu (a sua voz era metálica mas não me pareceu desagradável):


— Queira Alá cobrir com suas inestimáveis bênçãos os dignos moradores desta casa. Que a misericórdia do Onipotente afaste deste lar acolhedor as tentações e erros.

E, à guisa de apresentação, ajuntou risonho e mesureiro:


— Chamo-me Iezid Chakalid e exerço a árdua proifissão de mestre-escola. Tenho por hábito não recusar os convites atenciosos e as ceias apetitosas.


— Pois confirmo e reitero o convite formulado pelo meu amigo Zualil. — declarei — Consentes, ó taleb, em tomar parte em nosso repasto?

— Com omaior prazer! — anuiu sem cerimônia o mestre-escola — sinto-me profundamente honrado com o vosso convite.


Momentos depois distribui sobre rica toalha os diversos pratos que havia cuidadosamente preparado, desde os bifes de carneiro com cebolada até as pastas açucaradas, feitas de amêndoas e canela. 


O mestre-escola não se fez de rogado. Devorou, com invejável apetite, todos os acepipes que lhe foram oferecidos e, durante o largo tempo que durou a refeição, não cessou um só instante de tagarelar, declamar e discutir.


Lamentou o destino do sobrinho mais velho que se casara com uma dançarina; arengou sobre as plantas que afirmara conhecer em seus menores segredos; discorreu por conceitos religiosos e remédios capazes de curar, em dois dias, a sarna de um camelo; dissertou sobre pedras preciosas e também sobre a maneira mais segura de se empregar a bússola no deserto. Falou, com extraordinária eloquência, do maravilhoso tanque existente no Paraíso, segundo a crença dos muçulmanos: 


— Afirmam os sábios — disse-nos o mestre-escola — que os justos, antes de entrarem no Paraíso, se desalteram no tanque do Profeta. Esse reservatório, segundo a descrição mais perfeita e verídica, é um quadrado tão extenso que a mais ativa caravana gastaria dois anos para contorná-lo andando dia e noite sem parar. A água, doce como o mel e fresca como a neve, exalando um perfume mais intenso do que o almíscar, é conduzida ao tanque por dois canais que parte do prodigioso Cawthar.  Aquele que se aproxima do tanque, cujas bordas são de âmbar, tropeça em finíssimas taças de ouro que ali estão atiradas aos milhares. Tendo, uma só vez, provado da água maravilhosa do Cawthar, o justo nunca mais sofrerá as torturas da sede, ou melhor, ficará para sempre saciado.


O egípcio, que meditava, coçando o queixo, perguntou ao mestre-escola se o Paraíso dos muçulmanos, tantas vezes mencionado no Alcorão, era o mesmo Éden do qual fora expulso Adão.


taleb inspirado, como se discursasse na mesquita, prosseguiu: 


— Pretendem os metazalitas e outros sectários que essa feliz morada, o jardim das eternas delícias, foi criado muito tempo depois da humanidade e, por conseguinte, não é o mesmo que serviu de morada a Adão e sua esposa Eva, a nossa mãe. Mas os ortodoxos contrariam essa doutrina e admitem que o verdadeiro Paraíso que serve de abrigo aos crentes foi criado antes do mundo, posto acima dos céus, logo abaixo do trono de Deus. Ensina porém o Alcorão (na sua eterna e incriada sabedoria) que o jardim celeste repousa na tranquila mansão do sétimo céu, entre flores inebriantes e sombras deliciosas.


A terra dessa região celestial é, segundo alguns, da mais fina flor de trigo ou do mais puro almíscar, ou, como asseguram certos comentadores, de açafrão: as pedras que rolam em suas ensombradas alamedas são pérolas e jacintos; as paredes dos palácios rebrilham marchetadas de oiro e prata; mais ricos e deslumbrantes, pelas pedrarias que encerram, são os troncos de todas as árvores dentre as quais se destaca a Tuba, ou Árvore da fortuna, eternamente carregada de frutos maduros e saborosos, e que estende seus ramos deliciosos até a morada dos muçulmanos. 


O Paraíso é todo entrecortado por inúmeros regatos. Nem todos são de água fresca e cristalina. Em muitos só corre leite, e que leite delicioso! Em outros circula vinho puro e gelado, que não embriaga. Os córregos de água cristalina deslizam marulhantes sobre um chão de rubis; os de leite serpenteiam por finíssimas esmeraldas e, finalmente, os de vinho têm seus leitos escavados no ouro maciço.


O ar que ali se respira é uma espécie de bálsamo formado com o aroma do arrayan, do jasmim, do azahar e de mil outras flores.



Seria longo e fastidioso repetir aqui as indicações que o mestre-escola nos forneceu quando descreveu, com todos os pormenores, o céu de Alá. Era tal o ímpeto de sua loquacidade que não nos oferecia brecha para interrompê-lo.


Finda a refeição, preparou-se Zualil para partir. Vestiu a túnica, ajeitou o turbante, prendeu ao ombro o albornoz e ocultou o punhal sob a faixa.


— Ainda é cedo — declarei medianamente cortês, vendo-o pronto para seguir viagem.


— A jornada que empreendo é longa — respondeu-me com certa melancolia. — Longa e fadigante. Preciso partir. Quero, porém, retribuir de qualquer forma a generosa hospitalidade que recebi nesta casa. Ofereço-te, meu amigo, três coisas igualmente preciosas. Mas, dessas três coisas, só poderás escolher uma. As três coisas que te ofereço são: um segredo, um conselho e uma lenda. Vamos! Dize-me: que preferes ouvir? 

LOID

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