HISTÓRIA de luta: missão cumprida

ÚLTIMO CAPÍTULO, continuação da postagem anterior.
UM DOS grandes perrengues por que passei naquele primeiro semestre de 1979, e último como aluno, foi exatamente o serviço de aluno de dia, para o qual fui escalado logo no início do semestre. Oh 24 horas custosas!Fui um dos primeiros a ser escalado para aquela difícil missão. A minha figura ficaria em evidência perante mais de duas mil almas, coisa que aquele guri não estava afeito. Os acertos seriam apenas detalhes, obrigação, ao passo que os erros seriam severamente criticados. Começou tudo errado. Pois, ao olhar a previsão de escala que ficava afixada no quadro de avisos da esquadrilha, dei um suspiro de alívio por não ver o meu nome para aluno de dia; fui escalado apenas de aluno auxiliar. Legal. O serviço de aluno auxiliar era mais discreto, menos visível à turma que não perdoava um deslize sequer.

Como tudo, no meu caso era muito bom para ser verdade. No outro dia o sargento alterou a escala em razão de uma gripe repentina que acometeu o aluno originalmente escalado. Sobrou pra quem? Adivinhou. Sobrou pra mim e o serviço já seria no dia seguinte. Não tive tempo para treinar, e – para dizer a verdade – nem isso me ocorreu. Não treinei nem ninguém se encarregou de treinar-me para a missão, principalmente para a solenidade de passagem de serviço, a qual contaria com a presença de todos os oficiais, suboficiais e sargentos do Ceá, incluindo o major, comandante do corpo de alunos.

Não é nem preciso dizer que foi um grande fiasco. As bandeiras foram hasteadas em dessonância com a marcha-batida tocada pelo corneteiro, sobrando acordes quando todas elas já estavam lá no topo dos respectivos mastros; gaguejei ao pronunciar as palavras de assunção do serviço; e no desfile, fiz as continências e o olhar-à-direita fora do tempo certo. O resultado é que levei uma sonora bronca do major Pacheco durante a solenidade, deixando-me mais nervoso ainda.

Aquelas 24 horas foram longas, de forma que senti grande alívio quando, finalmente, passei a bola ao companheiro que assumiria naquele dia seguinte.

Exceção disso, o semestre seguia com rapidez.  Outro episódio marcante foi que arranjei, durante as férias em Belém, uma namorada, que rapidamente fora promovida à categoria de noiva. Esse foi um dos maiores – senão o maior – erro da minha vida, sobre o qual não gostaria de me ocupar nestas linhas. Nem vale a pena insistir no assunto.

Terminou para nós o período letivo, a exceção de quem ficou em alguma matéria. Não foi o meu caso, pois, graças a Deus, não tive problema algum na parte intelectual naquele período. Era só esperar o dia 13 de julho.

Vieram os treinamentos, os testes de fardamento e todas as providências relativas à formatura em si.

NAQUELA sexta-feira meio nebulosa recebi, finalmente, as insígnias tão cobiçadas e pelas quais tanto sofri naqueles dois longos anos.  Nunca mais aquele boi-ralado, nunca mais o Caveirinha, nunca aquela ralação, nunca mais mosquetão, nunca mais ter apenas quinze minutos para tudo.

Por outro lado, a responsabilidade aumentaria. Na unidade para a qual viria a ser destacado haveria outras obrigações e cobranças. Não seria mais conduzido como na Escola em que para tudo havia um comandamento de alguém, mas sim exigido em iniciativas. Sobre esta nova fase a vida me exigiria também muito durante 28 anos. Muito mais que a vida profissional, a particular, para a qual não existe escola, sim me exigiria muito mais, levando-me a passar perrengues inimagináveis para aquele jovem de apenas 18 anos para 19.

Mas a Escola. Nunca mais veria a todos reunidos novamente e era para mim uma festa quando, mais tarde, em Anápolis, Boa Vista, Manaus, Belém, Brasília, Belo Horizonte, Belém novamente e finalmente Curitiba, revia a um ou a outro companheiro, um outrora jovem como eu daquela Guaratinguetá daquela época de agosto de 1977 a julho de 1979. Alguns faleceram; outros deram baixa da Aeronáutica por diversas razões; outros ainda são oficiais; e a maioria seguiu sua carreira na FAB.

Tempos de luta, tempos bons, tempos que não voltam jamais.

Sim, a Escola. Voltei lá por duas ocasiões: primeiro em 1997, para um curso de instrutor, permanecendo por um mês; na segunda vez, por ocasião da formatura de uma das minhas filhas, a Charlene (que hoje está no DTCEA-GL), em 2003. A emoção tomou conta de mim. Desta fez estava acompanhado da minha mãe e do meu saudoso pai, como uma espécie de paga pela ausência deles em 1979. Entrei no alojamento que naqueles dois anos ocupei, e foi tudo como um filme na minha cabeça ao rever mentalmente toda a turma de 25 anos antes. A revista de pernoite, o alvoroço do toque de alvorada, o tempo exíguo para tudo, o corre-corre diário, a calma dos finais de semana, tudo.

Em 2001, fui a outra escola, o Ciaar, em Belo Horizonte, onde passei três meses na condição de aluno, numa condição similar à vivida na Escola de Especialistas. Nesta, como desafio pessoal, propus-me a ser o primeiro colocado do curso, o Zero Um, condição invejável. E fui, cabendo-me a honra de receber a espada das mãos do ministro da Defesa. Parti para uma outra etapa da minha carreira, não mais como praça, carreira esta com iguais complicados desafios, que, graças ao bom Deus, foram sendo vencidos um a um. Paralelamente a vida pessoal, esta… Isto é assunto para uma outra novela, mais dramática que essa grande primeira experiência, a minha segunda grande viagem, que, querendo Deus, haverei de contar ainda.

Esta foi a história daquele menino que um dia, sem ter preparação escolar adequada, fez um concurso; foi aprovado no limite; foi buscado lá nas brenhas pelo Francisco – que Deus o tenha -; viajou de avião, pela primeira vez, sentado num assento que era na verdade o vaso sanitário adaptado; quase ficou perdido no Rio de Janeiro; chegou a Guaratinguetá em pleno inverno trajando uma camisa fina de verão; lutou; quase foi reprovado; marchou; correu; suou; superou adversidades. Mas, porque Deus quis, venceu.

Obrigado, Deus; obrigado, minha mãezinha, pelas suas orações; obrigado, querida Escola. Eu jamais te esquecerei, meu grande jardim da infância.

Tudo isso ocorreu há mais de 30 anos. Naquele tempo eu era jovem e bonito. Hoje sou só bonito.

AS IDEIAS são estratégias importantes, mas o verdadeiro desafio é a sua execução.” Percy Barnevick
LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 
(BLOGUE do Valentim em 22nov.2011)
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