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BENTINHO e Capitu!

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada. ” Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que… (Machado de Assis in Dom Casmurro, capítulo 32)

***

NA PRIMEIRA vez que li Dom Casmurro juro que pensei ser apenas um caso de adultério. Sim, pensei ser Capitu, de olhos de ressaca e de cigana oblíqua e dissimulada, a vilã da história. Com efeito, em busca pela internet, a maioria das capas das muitíssimas edições desse romance realista de Machado de Assis retratam a imagem de Capitu e não a de Bentinho. Talvez porque mulher na capa de livro vende mais que homem.

De tanto falarem nessa história e na polêmica se Capitu foi infiel ou não a Bentinho, de tanto dizerem que a história é subjetiva porque conta somente o ponto de vista do narrador-personagem e que esse modo de ver as coisas contém parcialidades, é que resolvi reler a obra. Diga-se: a obra merece ser relida muitas vezes. Machado de Assis, esse autodidata fantástico, não à toa, é considerado por muitos como o maior escritor brasileiro, pois soube, como ninguém, aí deixar a dúvida eterna nas mentes de seus leitores ainda que cento e tantos anos depois de publicado o romance.

Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

Vamos ao livro.

Dom Casmurro, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, forma a trilogia de romances realistas de Machado de Assis, que consagrou esse autodidata como o maior escritor brasileiro de todos os tempos.

Narrado em primeira pessoa e ambientado no Rio de Janeiro do Segundo Reinado, o romance conta a história de Bento Fernandes Santiago, o Dom Casmurro, que, na velhice escreve um livro contando a história de sua vida, focando a narrativa em seu romance com Capitolina, a Capitu, que, segundo conta ele, lhe teria sido infiel ao ter um caso extraconjugal com Escobar. Em segundo plano, Machado de Assis mostra com os olhos de Bento Santiago a sociedade brasileira de então, com seus costumes e indiferenças sociais, incluindo o clero na figura do vaidoso Padre Cabral, tudo com a ironia fina que era peculiar ao Bruxo do Cosme Velho.

Ao escrever o livro, Bento Santiago pretende atar as duas pontas da vida. O título do romance foi em homenagem a um jovem poeta de trem, que, ao recitar um de seus poemas, não obtendo a atenção que julgava merecer por parte de Santiago,  difunde, como retaliação, o apedido de Dom Casmurro. A vizinhança, por não gostar dos hábitos reclusos do narrador, dá curso à alcunha. Dom Casmurro pretende também, a fim de preencher o tempo ocioso, escrever a história dos subúrbios.

Fonte: Internet

Bentinho, filho único, fora objeto de uma promessa feita por sua mãe, dona Glória, que o destinaria ao seminário para fazê-lo padre, ainda que não tivesse vocação religiosa, como de fato não veio a ter.

A família de Capitu é vizinha à família de Bentinho. Naturalmente, os dois pequenos tornam-se amigos desde sempre, pois a diferença de idade é pequena, sendo Capitu um ano mais nova que Bentinho, enquanto a distância social é apenas coisa dos adultos. À medida que chega para ambos a adolescência, descobrem-se apaixonados, e isso vem a se tornar um empecilho para as pretensões de Dona Glória. Todavia, ela própria, ao ver o filho já adolescente, aos quinze anos, em idade de ser enviado ao seminário, intimamente reluta em cumprir a promessa, porém se dá por irremediavelmente presa ao compromisso espiritual.

Outros personagens fazem parte da trama.

Um deles é o agregado José Dias, que julgamos de altíssima importância para se compreender a débil formação psicológica do narrador-personagem.

Dias, charlatão de boa lábia, bajulador, mora de favor com a família de Bentinho. É, portanto, devedor de favores a Dona Glória. Na verdade, trata-se de um sujeito astuto e preconceituoso, uma vez que ele próprio se considera membro da família e não meramente um agregado. Por essa razão, julga-se pertencente às classes abastadas e influentes da sociedade carioca do segundo reinado, a que pertence sua protetora. A Dona Glória serve incondicionalmente, moldando seu discurso ao dela; tem ótimas relações com Cosme, tio de Bentinho, advogado criminalista, a quem trata de doutor. Só não é querido pela mal-humorada Prima Justina, que percebe o caráter enviesado de José Dias. Ela faz companhia a Dona Glória, a matriarca, senhora rica, escravocrata e religiosa, que abriga a todos. Ao total são cinco pessoas na casa, além da escravaria: Dona Glória, Cosme, Justina, José Dias e Bentinho. Na casa ao lado: Pádua, Fortunata e Capitu. Padre Cabral frequenta a casa de Dona Glória.

            “Era nosso agregado desde muitos anos; meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí eu acabava de nascer. Um dia apareceu ali, vendendo-se por médico homeopata; levava um manual e uma botica.

            Havia então um andaço de febres; José Dias curou o feitor e uma escrava e não quis receber nenhuma remuneração.”

Dias naturalmente centra suas atenções e gentilezas em Dona Glória, sua protetora, mãe viúva de Bentinho, riquíssima, a quem ele busca agradar a todo custo. Para apressar a decisão da mãe de Bentinho, conspira para mandar o quanto antes o rapaz ao seminário, denunciando que o adolescente andava aos namoricos com a filha do Tartaruga (Pádua, pai de Capitu), contra quem nutre aversão. Mais tarde, em passeio com Bentinho descreve Capitu como tendo “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, expressão que o adolescente, facilmente influenciável, leva para o restante de sua vida.

Fonte: Internet

O desinteresse de José Dias na aproximação sentimental de Bentinho de Capitu, nessa fase da história, reside em duas razões: Primeiramente, por preconceito de classe ao pai de Capitu, um simples funcionário público; e por segundo, para não contrariar as pretensões de Dona Glória, que prometera o pequeno ao seminário. No entanto, a essa altura, a própria mãe de Bentinho já não tem tanta convicção, haja vista que a promessa fará separar-se do único filho.

José Dias sabe se fazer influente e querido por quase todos da família.

“Tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família. Quando meu pai morreu, a dor que o pungiu foi enorme (disseram-me, não me lembra). Minha mãe ficou-lhe muito grata e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara…”

É elevada, portanto, a influência de José Dias sobre a família de Bentinho, que sempre o tem em alta conta. Oportunista, mais tarde, percebendo a mudança dos ventos, ajuda o rapaz a sair do seminário sob o interesse de fazer uma viagem para a Europa, pretensão dele de muitos anos. Nada de se estranhar, afinal o jovem é o herdeiro.

Antes disso, porém, em visita a Bentinho, no seminário, perguntado sobre Capitu, Dias responde em aparente casualidade:

“Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela…”

A informação, somada à descrição desfavorável anterior que o agregado fizera de Capitu, que ele, Bento Santiago, jamais esquece, produz um fortíssimo efeito no espírito do seminarista.

Outros episódios futuros igualmente vêm a contribuir para a formação de um quadro de ciúme doentio, que Bento Santiago faz questão de alimentar, e cuja gota d’água foi no velório de Escobar, quando percebe uma lágrima caindo dos olhos de Capitu. Pronto! Bento passa a ter, a partir do episódio, certeza absoluta de que foi traído pela esposa com seu colega de seminário e melhor amigo, em que pese não haver, em momento nenhum da própria narrativa, comprovação alguma do adultério. Sendo ele, de profissão, advogado, não dá em nenhum momento a Capitu o benefício da dúvida.

As brigas entre o casal tornam-se frequentes. Carregado por essa dura certeza, foca suas observações ao pequeno Ezequiel, que, a seu ver, vai, à medida que cresce, assemelhando-se cada vez mais ao falecido. Não por acaso há um capítulo em que Gurgel, pai de Sancha, esposa de Escobar, mostra um retrato da esposa em que ele comenta a semelhança com Capitu. Machado quis demonstrar que há semelhanças inexplicáveis entre pessoas sem relações de sangue.

Em atitude de evidente masoquismo, mantém o retrato de Escobar em sua mesa. O gesto tem o fim de comprovar as semelhanças entre o falecido e Ezequiel, com isso alimentando sua mágoa em relação à esposa, que ele estende para o pequeno a quem tentou matar por envenenamento. Em plena crise conjugal, certa noite, ao acaso, foi ao teatro e a peça que se encenava era a shakespiriana Otelo. Não deu importância ao fato de Otelo ter, por ciúme, matado Desdêmona, e mas tarde descoberto que ela era inocente. Afinal, com o ciúme turvando sua mente, Bento Santiago não tinha olhos para a neutralidade da vida, sendo incapaz de enxergar outra coisa a não ser a pretensa infidelidade da esposa com o falecido.

Para manter as aparências diante da sociedade, manda Capitu e Ezequiel para viverem na Suíça. Dando a impressão de que não abandonou a família, viaja para a Europa algumas vezes; no entanto, nem se aproxima dos dois.

Na velhice, Bento Santiago torna-se um homem amargurado, infeliz e solitário. Sempre foi, conforme se sabe pela sua narrativa, superprotegido, por isso tímido e inseguro. Primeiro protegido pela mãe, sendo ele filho único, depois pelo agregado José Dias, que habilmente o manipula, influenciando negativamente o rapaz quanto à imagem de Capitu, com cuja família ele tem aversão.

Há outra questão.

Bentinho descreve Capitu como uma mulher resolvida, de opiniões próprias, capaz de sair-se facilmente de dificuldades, ao contrário dele, que era tímido e inseguro.

“Capitu era Capitu, era ela mais mulher que eu homem”.

Fonte: Internet

Esses atributos psicológicos de Capitu – supomos – contribuem em parte para a formação negativa da imagem que ele, inseguro e ciumento, faz dela, considerando-se que tais comportamentos femininos não eram bem aceitos na sociedade patriarcal de então.

Também contribuem  as suspeitas (que ele toma por convicção) as condições sociais dela e de sua família, o que leva o leitor a imaginá-la como uma mulher interesseira. Nesse quadro de ciúmes, Bento é incapaz de sopesar os aspectos favoráveis à honestidade de Capitu, concentrando-se nas condições contrárias, que apontam para o adultério. Em certo capítulo, Capitu surpreende Bentinho apresentando-lhe uma economia de dez libras esterlinas, que reunira a partir do dinheiro que o marido lhe dava regularmente. Não era uma mulher perdulária, portanto, como geralmente são as pessoas frívolas. Mais natural seria ela ter consumido o dinheiro em jóias e vestidos finos e em outros supérfluos.

Por ser subjetiva, ou seja, narrada em primeira pessoa, o maior mérito da narrativa é deixar a dúvida no leitor se Capitu foi ou não foi infiel a Bentinho. Afinal de contas, temos só a versão de Bentinho, que é o narrador.

Sabe-se que Bentinho torna-se um adulto inseguro e, por conseguinte, ciumento. Logo, o assunto principal não é o possível adultério e sim o ciúme, este foi sendo aos formado aos poucos pelas condições materiais e psicológicas que cercaram o personagem de Bentinho, além da imagem – real e imaginária – que ele vai fazendo, também aos poucos, de Capitu.

Fonte: Internet

Dom Casmurro, um romance metalinguístico, é a obra-prima de Machado, esse genial autodidata. Construiu uma narrativa subjetiva, enquanto ponto de vista do narrador-personagem, que visa, com o livro, atar as duas pontas da vida

Fonte: Internet

Vamos à história dos subúrbios!

L.s.N.S.J.C.!

Por Valentim

Escritor paraense radicado no Paraná, Antonio Valentim é autor do livro "O País dos Militares e dos Bacharéis" e de "O Misterioso Crime do Sacopã", este ainda em projeto.
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L.s.N.S.J.C.!

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