A INVENÇÃO do camelo!

NO MOMENTO em que o comandante entra na sala de reunião, e, a oficialidade ali representada fica em pé, posição de sentido, o subcomandante faz a apresentação regulamentar.

Geralmente mais sisudo, nessa ocasião em particular era visível a figura do coronel um tanto mais bem-humorada, risonho até. Ao iniciar, porém, deixou claro a todos que a presença deles no recinto se estenderia um pouco além. “Já pedi ao chefe do Rancho que mande um taifeiro servir cafezinho e água. Deve trazer também bolachas”, disse, bonachão. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Era como quem diz: “não tenham pressa.”.

Começando os trabalhos, fazia um relato de tudo o quanto havia ocorrido de importante nos últimos dois ou três dias. Logo em seguida, o oficial mais moderno lia a ata da última reunião.

Como é natural, sua confortável poltrona fica à cabeceira da longa mesa. Na poltrona imediata à sua direita, se posiciona o subcomandante, tenente-coronel Dacildo, enquanto a da esquerda, vaga, era reservada ao próximo oficial a ser sabatinado e, que, eventualmente, também tenha assuntos imediatos a tratar com o comandante, desde que não fosse sigiloso.

Nesse dia, o próprio comandante, quebrando a rotina que ele mesmo havia definido, principiou-se a elogiar a postura do tenente Barreto. Esse oficial subalterno, quando de serviço de oficial-de-dia, comandou meia-volta volver na guarnição de serviço, que normalmente ficava formada no pátio da bandeira em frente ao prédio do comando. Com isso, os sargentos, cabos e soldados ali escalados ficaram de frente para a sombra, e não contra o sol, como usualmente se perfilavam. Nesse instante, coronel Horácio estava em seu gabinete, a observar a postura do oficial e da tropa pela janela principal. “O verdadeiro comandante é aquele que cuida do bem-estar da tropa. E essa qualidade eu constatei na atitude do tenente Barreto. Que o comandante dele, aqui presente, retransmita ao seu subordinado as minhas palavras”.

Todos aprovaram tanto a atitude do tenente quanto as palavras elogiosas, raras, por sinal, do comandante, o coronel Horácio. Louvado seja!

De fato, o comandante, excepcionalmente, estava de bom-humor. Haveria alguma explicação para isso? Alguma boa notícia, talvez?

Logo em seguida o primeiro oficial, o mais antigo após o subcomandante, tomou assento à cadeira à esquerda, junto ao comandante.

O primeiro a tratar foi o major Hipólito, do grupo de comando. Após os cumprimentos iniciais deste oficial, entrega a coronel Horácio um ofício para sua apreciação e chancela. O comandante, sem ao menos referir-se ao mérito, devolve-o, enfatizando sobre o uso correto da pontuação. “Não faça como aquele item de material, que me trouxeram para inclusão na carga da Unidade, que saiu assim: ‘Cadeira para datilógrafo sem braços’.  Ora, como o datilógrafo iria exercer seu ofício? Com os dedos dos pés? Cadê a vírgula, meu filho”.

Todos se olham discretamente. Ora, se era assim com o major Hipólito, um major antigo quase tenente-coronel, e – pior! – na presença de gente mais moderna, imagina com os demais, reles mortais! Esse era o Horácio de sempre.

De doze oficiais chefes de grupos e esquadrões, o capitão Arnaldo Pacobahyba seria o antepenúltimo a despachar, vez que a ordem de despachos seguia a sequência hierárquica. Havia apenas dois mais modernos que Arnaldo. O bloco de rascunho, que a secretária, a competente dona Sizenanda, havia posto em sua frente, assim como nos demais lugares destinados a todos os demais oficiais, teria boa utilidade.

Este oficial, o capitão Pacobahyba, quando obrigado a ouvir, se o assunto não lhe dizia muito, se pegava a rabiscar, desenhar alguma coisa, já que era dotado de dons artísticos, mas uma parte de seu cérebro continuava atenta ao que se passava. Assim, em caso de emergência, ou seja, uma pergunta ou questionamento, Pacobahyba imediatamente respondia ou comentava, mostrando que não estava desatento às palavras de seu comandante ou de seus colegas ali presentes. Os colegas de sua esquerda e da direita se acumpliciavam tacitamente do pequeno delito do colega.

Seguia a reunião. Geralmente, era permitido a cada um deles opinar sobre que se estava tratando no momento. Embora sabendo que o comandante previamente já tinha opinião formada sobre quase tudo, e que, dificilmente, acataria a quem pensasse diferente, sempre, ao menos um, pedindo permissão, dizia algo, que fosse complementando ou mesmo questionando o sabatinado da vez.

“Perda de tempo”, pensava de si para si o capitão Arnaldo Pacobahyba, “isso só prolonga mais o sofrimento”.

O que se discutia agora? Ah sim. Transferência interna do funcionário Calixto Wilson, depois de vinte anos lotado na seção de cópias. Abrira uma vaga na tesouraria, vez que um antigo sacador fora descoberto em uso de fraude, sendo, após inquérito administrativo, excluído a bem do serviço público. Na opinião do capitão Pacobahyba, esse assunto não era para ser discutido em reunião, bastando um simples despacho do chefe de Pessoal com o próprio comandante. Ocorre que, querendo parecer democrático, Horácio leva o assunto para discussão, pedindo o parecer a cada um dos participantes. Havia ali um propósito oculto, próprio dele, e era exatamente estudar a fala e o que pensa cada um de seus oficiais. Falavam até que, logo após a saída deles, o comandante pegava um caderninho da gaveta e fazia as suas anotações, em geral, registrando observações negativas.

Por unanimidade, a movimentação interna de Calixto Wilson foi aprovada. Ainda que houvesse opinião contrária, era preferível aprovar de pronto um assunto banal como esse somente para não prolongar o suplício de todos. Ele próprio, contrariando o seu pensamento de que time que está ganhando não se mexe, acabou por concordar. Seria o único voto vencido e ficaria exposto às anotações desfavoráveis do comandante, por essa razão o melhor mesmo era não contrariar o que – sabia – já estava decidido pela autoridade máxima ali presente.

O animal, que Arnaldo Pacobahyba rascunhava no caderno, ia tomando forma. Pensaria no que desenhar na folha seguinte do bloco depois de concluído o rascunho de que se ocupava.

Chegando a sua vez, apresentou um relatório com o movimento de saída e entrada de itens que haviam sido enviados a outras unidades, por transferência, ou recebidos dos órgãos técnicos centrais. Nenhum comentário adicional era necessário, julgava. Perguntado se tinha outro assunto a discutir, respondia simplesmente: “Nada mais, senhor”. Devia ter as suas razões para pouca conversa e nenhum sorriso.

Finalmente encerrada a tal reunião de máxima importância, mal aberta a porta e alguns se encaminham, quase correndo, à toalete. Alguns nem conseguiam chegar lá, eis que vinham se prendendo na sala. Outros, mais jovens, acendiam um cigarro. Lafaiete, um capitão bem humorado, aludiu a uma boa e gelada cerveja para alegrar o ambiente, depois daquela bela dose de tortura psicológica.

O capitão Pacobahyba, de volta, agora sobe a passos largos a escada que dá para a chefia da Seção de Suprimento Técnico.

O comandante, coronel Horácio, costumava reunir com seus principais oficiais duas vezes por semana. Para que tanta reunião, meu Deus? Deixou em cima de sua mesa o bloco, o tal bloco da reunião.  Não obstante o conteúdo do bloco, era um oficial cônscio de suas obrigações. No entanto, o tal bloco continha apenas rabiscos sem sentido e desenhos toscos, e no caso desse dia era justamente o camelo. Pacobahyba, para matar o tempo, fazia quando o desenrolar da reunião não lhe queria dizer coisa alguma. Fazer o quê? Não concordava com muita coisa do que era discutido e decidido, mas já estava na Força há tempo para saber que de nada adiantava suas ponderações quando, de fato, as decisões já estavam tomadas na cabeça do comandante. Conhecia o vaidoso comandante, e qualquer palavra a mais que não fosse um “sim, senhor” poderia ser considerada como indisciplina ou, pior, insubordinação. Ele, o comandante, trazia, desde que era tenente, o espírito envenenado pela carreira, que seguia de forma obstinada; primeiro queria ser capitão; uma vez nesse posto, almejava a promoção a major; quando acostumado ao tratamento diferenciado que a tropa dispensava a oficial superior, todos os seus movimentos foram em direção à patente de tenente-coronel; e uma vez coronel, ambicionava voltar à base aérea para comandá-la, sabendo ser esse cargo essencial para o prosseguimento da carreira. Assumindo como titular da base aérea, todas as suas ações, desde o primeiro dia no comando, voltam-se para o primeiro posto de oficial-general, as cobiçadas estrelas. As duas — e por vezes três reuniões semanais, incluindo até o sábado — faziam parte dessa estratégia, ainda que (todos sabiam disso) tinham também por fim mostrar toda a sua autoridade, ainda que tiranizando os oficiais, ao mesmo tempo em que afagava a tropa. Como acréscimo, determinou formatura geral diária, e não só uma por semana como antes. Essa solenidade iniciaria o expediente; depois, formaturas internas em cada grupo e esquadrão no início da parte vespertina e outra ao final do expediente, às cinco da tarde. “Sabem o camelo”, costuma dizer o velho capitão como anedota, “o camelo, todo feio,  é fruto de uma reunião, ao passo que o cavalo, todo certinho, todo bonito, foi feito por conta da espontaneidade”.  Pacobahyba contava essa anedota toda as vezes que a paciência já estava por um fio. E nesse dia, a anedota vinha acompanhada da respectiva ilustração material, que desenhara no bloco.

Queixava-se no íntimo também de seus colegas oficiais. São uns bajuladores, em sua maioria, isso é que são. E, em sua mente, passavam a desfilar um a um deles. Mas sua insatisfação era maior para consigo mesmo, porque, afinal de contas, tantas vezes dizia “sim” quando na verdade queria dizer “não”,  entrava no gabinete de comando com uma ideia e saia com as ideias e decisões do comandante. Era sempre assim. Por isso, insatisfeito com a vida que levava, até que a bendita promoção chegue. Teria ainda que realizar o curso de aperfeiçoamento, por essa razão pisava em ovos.

Toca o telefone e ele deixou que tocasse até que desistisse. Estava velho e cansado.

Considerava-se antigo, já tendo, na verdade atingido o tempo que lhe permitia pedir transferência para a reserva, a tão sonhada aposentadoria. No entanto, essa decisão pessoal, que lhe daria mais tempo para descansar, divertir-se ao lado da família e usufruir finalmente a vida, estava no momento fora de seus planos vindouros, ao menos nos próximos três, quatro anos. Um de seus erros era ter feito concurso para oficial muito tarde. Agora, tinha de agir com a razão e não com a emoção. Já que esperou até agora, teria que ir levando em banho-maria aquela pesada rotina até ser promovido ao posto de major e, uma vez major, sim, aí poria em prática a decisão de finalmente aposentar-se. E aí, adeus base aérea, adeus seção de suprimento e seus velhos problemas. Adeus, povo escamão e enrolão que mal se incumbia do básico, incluindo aí – e principalmente – seus próprios auxiliares, alguns dos responsáveis pelo seu problema de úlcera. Esse pessoal aí — e olhava para baixo pela vidraça — contribuía também para seus grandes aborrecimentos e frustrações. Mas, para não se aborrecer, o oficial é obrigado a fingir que não vê e ao final dá por tudo feito e satisfatório. Fazer vistas grossas, empurrar com a barriga e pisar em ovos passou a ser a sua rotina, e  isso tudo não lhe deixa satisfeito. Oh promoção que não chega!

Ignora, por instantes, o telefone que toca…

Olha novamente pela janela de vidro e vê lá embaixo alguns de seus auxiliares. Gentil, primeiro-sargento, metido a escritor, mas um escritor fracassado; Olegário Mariano, segundo-sargento, bajulador de primeira e malandro por excelência; Juvêncio Longo, suboficial, e seu eterno problema conjugal que finge desconhecer; Zuleiko…, bem Zuleiko até que não compromete, exceto pela sua condição toda especial, o seu jeito afetado… deixa pra lá; e João Pereira, terceiro-sargento já antigo, esse  — coitado! — muito trabalhador, é verdade, uma exceção à regra geral do setor, embora o excesso de trabalho tenha por fim esconder um grande drama familiar que o atormenta há alguns anos… Bem! Paciência, pelo menos esse trabalhava por si e pelos outros. Havia ainda mais dois cabos e um soldado. Essa era a sua equipe até um mês atrás.

E eis que lhe chega Florindo há quase trinta dias. Sangue novo, alguém disposto a arregaçar as mangas. Esperanças de melhoras, enfim. E é exatamente  ele agora que se aproxima da sala. Esse novinho, recém-formado, somando a João Pereira, é promessa de bom trabalho e mais empenho, garantindo a eficiência do setor, apesar dos outros.  Ele nem ao menos suspeita que virá a carregar, juntamente com o colega e os dois cabos e um soldado, nas costas o setor chefiado por Pacobahyba.

O subalterno bateu à porta e, sob uma palavra de autorização, entra no recinto. Perfila-se imediatamente com um bom-dia, posição de sentido e uma continência padronizada.

— Sargento Florindo apresenta-se, senhor capitão!

O telefone toca pela terceira vez. Deve ser importante.

O capitão, fazendo um sinal e apontando a cadeira à frente de sua mesa, pede a Florindo que sente, enquanto ele tira o fone do gancho.

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