POUCOS sabem, como muitos continuarão a não saber, que a história registra no Brasil o primeiro sequestro aéreo, se não da humanidade, mas seguramente das américas. Foram os militares da FAB os autores da proeza. Conto em meu livro “O País dos Militares e dos Bacharéis” como foi.
Isso ocorreu a 03 de dezembro de 1959.

Eis aqui algumas cenas:
Os comissários e comissárias de serviço no Constellation de nada suspeitaram quando Teixeira Pinto, fardado, levantava-se para visitar a cabine de comando. Ele e Charles Herba entrariam para a história da humanidade como os primeiros sequestradores de um avião comercial. Era o Brasil fazendo escola!
Os rebeldes passaram pelo radiotelegrafista Pedro de Azevedo e pelo
engenheiro de voo Jean-Louis Bourdon, parando atrás do assento do comandante Mário Borges. De soslaio, o copiloto Alberto Cavedagne espantou-se quando viu a pistola de calibre 45mm engatilhada na nuca do comandante. Nesse momento, o avião sobrevoava o município de Barreiras, Bahia, em direção ao Norte. Os sequestradores mandaram mudar a proa para o Oeste.
O comandante, porém, advertia sobre as precárias condições da pista de Aragarças, que não permitiam receber um avião de grande porte, com grande risco para o Constellation e à vida dos passageiros. “Não quero saber! Vamos pousar em Aragarças, custe o que custar!”, devolveu rispidamente o major. Em seguida, ordenou a Pedro de Azevedo,
o radiotelegrafista de voo, que continuasse enviando mensagens normalmente como se o avião permanecesse na proa de Belém.
Com o sequestro de um avião de passageiros como o Constellation,
além de manter o governo em permanente estado de tensão, os rebeldes possuíam um valioso apoio logístico. Com fabulosa autonomia, o quadrimotor era capaz de alcançar qualquer local do território brasileiro e até – em hipótese de fuga – países vizinhos.
Observando o solo, lá embaixo os passageiros vislumbravam apenas florestas, sem pontos de referência. O comissário aproximou-se para explicar aos preocupados passageiros: “O aeroporto de Belém está interditado e o avião está voltando para descer em Barreiras, em torno de trinta minutos”.

Campanella Netto não se dava por satisfeito. “Xii! Tem algo de podre no ar”. Passaram-se os longos trinta minutos e nada. Todos reclamavam explicações por parte do comandante, enquanto os comissários, sorrindo forçadamente, tentavam, em vão, acalmar os passageiros. Diziam a Leyla e a Maria Lúcia, que insistiam na visita à cabine: “Daqui a pouco vocês irão”. Sete horas, oito, e nem sinal de Belém ou de Barreiras. De repente, uma comissária aproximou-se e anunciou: “Vamos descer em Barreiras, na Bahia”. Às 8h15min, foram acesos os letreiros com recomendações de “não fumar” e de “apertar os cintos”, sinalizando que o avião estava em procedimento de pouso. Alguns minutos depois, o avião pousava numa pista de grama. Ninguém compreendeu quando o comissário Brazão informava:
“Senhoras e senhores, estamos em Aragarças, Goiás!”.
VALENTIM, Antonio. O País dos Militares e dos Bacharéis, pág. 300 e 301. Rio de Janeiro: Autografia, 2021.
L.s.N.S.J.C.!
Continua…
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