HENRIQUE Lott, um soldado da democracia!

JK ERA homem de estrela e contava com gente de bem entre os homens de farda. Graças a um deles, o também mineiro Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra, a posse de JK foi garantida. O general a 11 de novembro de 1955, ao depor o presidente interino Carlos Luz, abortou um golpe que estava em pleno curso. Luz era portador de uma conspiração que consistia simplesmente em não dar posse ao recém-eleito, tendo como alegação o fato de o candidato não ter conquistado a maioria dos votos válidos. Acontece que, pela legislação eleitoral da época, as eleições ocorriam em turno único.

Eis alguns lances do contragolpe de Lott:

O DIABO faz a panela, mas não faz a tampa – é um provérbio bem
conhecido na região Sul brasileira. Tudo corria em segredo até que um
episódio chamou a atenção do general Henrique Lott, ministro da Guerra, abrindo-lhe os olhos. Tendo falecido o general Canrobert Pereira da Costa, ministro da Guerra de Eurico Gaspar Dutra, o coronel Jurandir Bizarria Mamede, nas cerimônias fúnebres, pedindo a palavra, fez ronunciamento em que teceu duras críticas ao resultado eleitoral recente. Era uma tarde chuvosa de 1º de novembro de 1955:

[…] Não será por acaso indiscutível mentira democrática, um regime presidencial que, dada a enorme soma de poder que concentra em mãos do Executivo, possa vir a consagrar, para a investidura do mais alto mandatário na Nação, uma vitória da minoria?” […] (destacamos

As palavras de Mamede deixavam vermelho de raiva o general Henrique Teixeira Lott, que se encontrava presente nas exéquias. Lott teve ímpetos de interromper o discurso do coronel, não o fazendo para evitar
uma situação constrangedora. Não foi somente o discurso em si a provocar a ira do general. Logo em seguida, Carlos Luz, o segundo na linha de sucessão àquela altura, apressava-se a cumprimentar com gestos aprovadores o orador. Nesse mato tem coelho, mas isso não vai ficar assim – pensava consigo mesmo Lott.

Decidido a punir disciplinarmente Bizarria Mamede, Lott pediu audiência com o presidente, o potiguar João Fernandes Campos Café Filho.
Chegando ao Catete, davam-lhe a notícia de que Café Filho havia baixado
ao hospital por uma emergência cardíaca. Quem estava lá despachando
como presidente era exatamente o mineiro Carlos Luz. Por que Lott, ele próprio, ministro da Guerra, não punia o temerário Bizarria Mamede? Porque o coronel não servia ao ministério da Guerra e sim à Escola Superior de Guerra (ESG), órgão diretamente subordinado à Presidência da República. Luz deu-lhe um chá-de-cadeira de quase duas horas.

Dois dias depois, indignado diante da negativa do presidente interino
em punir o coronel, Lott pedia exoneração do cargo, no que foi prontamente atendido. Não seja por isso. A ideia era essa mesma e, se o ministro não pedia o boné, Carlos Luz o demitiria, porque para seu lugar já estava definido o nome de outro conspirador: Álvaro Fiúza de Castro, general inativo.

Mas a coisa não ficaria assim. Apoiado pelo general Odílio Denys, fluminense, Henrique Lott comandaria uma reação ao golpe então em curso, um contragolpe pela legalidade.

Nesse dia, 11 de novembro de 1955, tropas e blindados do Exército
amanheceram nas ruas do Rio de Janeiro. O principal alvo era a FAB, por
isso a área do Galeão foi cercada. Também foram cercados os prédios dos
ministérios da Marinha e da Aeronáutica.

A FAB, porém, não aceitou passivamente o movimento armado, pondo seus aviadores em condição de levantar voo a qualquer instante. 22
Douglas C-47, os aviões da FAB de maior autonomia (doze horas), passaram a sobrevoar o Rio. Na Base Aérea do Galeão, o comandante era o coronel-aviador Manoel Vinhaes, o “Encardido” – como era conhecido entre os oficiais seus colegas – o major-aviador João Paulo Moreira Burnier, era o oficial de segurança e defesa da Base. Ele instalou um fortíssimo esquema militar com homens e armamento de peso.

“No entanto, na Base Aérea do Galeão, eu e o Vinhaes – autorizado
por este – preparamos metralhadoras, abrimos trincheiras naquelas
colinazinhas atrás do ponto onde foi construída posteriormente a segunda pista e também minamos as pontes que dão para as ilhas
do Fundão e do Governador, de tal modo que poderíamos impedir
a progressão das tropas. Colocamos barris cheios de óleo e combustível sobre elas e instalamos cargas de dinamite em vários trechos. Além disso, dispusemos tropas de infantaria de guarda – unidades fracas em termos de capacidade de combate, mas suficientes para, com as .50, bloquearem as vias de acesso […]”

Umas escaramuças dos diabos.

Mas a FAB sozinha jamais chegaria a lugar algum; ao menos aos objetivos pouco nobres a que seus líderes se propunham na ocasião. A essa altura, o presidente deposto Carlos Luz, o brigadeiro Eduardo Gomes, Carlos Lacerda e outros conspiradores já estavam embarcados no cruzador Almirante Tamandaré, comandado pelo capitão-de-mar-e-guerra Sílvio Heck, tendo a bordo o almirante Pena Boto. O plano era partir para São Paulo fazendo daquele estado o foco da resistência às tropas do general Lott. Vale lembrar que São Paulo era governado pelo mato-grossense Jânio da Silva Quadros, em tese aliado da UDN e do governo ora
em fuga (Ops! Retirada estratégica).

A certa hora, deu-se ordem para que os aviões de caça, sediados na Base Aérea de Santa Cruz, alçassem voo com destino à capital de São Paulo. Outros aviões, incluindo os C-47 que já estavam sobrevoando o Rio, também seguiram para lá, onde pousariam às 16 horas desse 11 de novembro. As tropas do Exército, com ordens para evitar derramamento de sangue, não atiraram nas aeronaves que levantavam voo. Simultaneamente, a tropa de apoio, composta de suboficiais, sargentos, cabos e soldados, também seguia por terra, em caminhões, fora da rodovia principal Rio–São Paulo a fim de evitar o confronto. Os aviadores queriam reunir-se a Eduardo Gomes, que, segundo mensagens chegadas, no momento encontrava-se em Santos.

Ao finalmente se reunirem com Eduardo Gomes em Santos, o Brigadeiro, ciente de que não havia como enfrentar tropas profissionais do Exército, decidiu que nenhuma reação seria levada a efeito, deixando tudo como estava. Não adiantava dar murro em ponta de faca, e ademais haveria muito derramamento de sangue. Diante da decisão do seu líder, a esses
oficiais conspiradores não restava outra atitude senão, pondo o rabinho
entre as pernas, o regresso ao Rio e se apresentarem ao novo ministro da
Aeronáutica, brigadeiro Vasco Alves Secco, que os puniria com quinze
dias de prisão. Burnier, Haroldo Velloso, Paulo Victor, José Chaves Lameirão e mais oito oficiais rebeldes cumpriram punição de disciplinar no
Depósito de Aeronáutica, Avenida Brasil.
Ficaram com o nó preso na garganta.

Ao final, venceu o general Henrique Lott, que nessa operação teve total cooperação do general Odílio Denys, comandante da Zona Militar Leste. Venceram a legalidade e a democracia, garantindo a posse do presidente democraticamente eleito.

(VALENTIM, Antonio. O País dos Militares e dos Bacharéis, páginas 228 a 233)

L.s.N.S.J.C.!

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