A INESQUECÍVEL Tarjeta Branca!

JAMAIS se afastaram da nossa memória aqueles dois longos anos em que estivemos na Escola de Especialistas de Aeronáutica, respirando os mesmos ares, pisando o mesmo solo. Éramos 500 jovens, ou quase isso, dos quatro quadrantes brasileiros, como costumava dizer o colega Eugênio Pacelli, topógrafo. Parafraseando os Beatles, aqueles dois anos na Escola estão em nossos olhos e em nossos ouvidos. Perdemos a conta de quantas vezes desde então, viajando mentalmente no tempo e no espaço, voltamos à velha Escola daquele período entre agosto de 1977 e julho de 1979.

Foram dois longos anos. Éramos quinhentos ou quase isso.

Tempo longo e curto também que marcou a nossa juventude de forma indelével de maneira que tudo foi como se houvesse ocorrido ontem.

E quanto aos colegas, à turma 171 (que número!), guardamos ainda hoje o rosto juvenil de vocês, como em certa ocasião bem falou o colega Pinheiro, enfermeiro.

Eram outros tempos; tempos diferentes, tempos bons, tempos duros também. Era a época da discoteca, do óculos Ray-Ban, do toca-fitas Road-Star, da calça Lee… Foi um período em que, no futebol, o Peru amoleceu para a Argentina. Lembram disso?

Lá chegamos cada um de nós de seus respectivos estados e cidades, com um objetivo: sair depois de dois anos sargento-especialista da Aeronáutica. Por razões diversas, infelizmente alguns não conseguiram. Mas nem por isso esses amigos saíram de nosso coração; ao contrário, permaneceram igualmente membros da eterna Tarjeta Branca, a turma Augusto Severo, a de número 171.

Nós, que éramos jovens – muitos ainda imberbes – pouco ou nada sabíamos acerca do que iríamos encontrar; sobre os desafios a serem vencidos; das barreiras a serem ultrapassadas. Cada um de nós tem a sua história de como lá ingressou, desde a preparação, passando pelos exames intelectuais e demais fases, até a chegada e a adaptação ao militarismo, exceção dos colegas mais experientes, bem como da dura rotina escolar. Uma vez lá, vivemos aqueles dias como irmãos, mesclando as obrigações com o coleguismo, característica que jamais foi por nós esquecida.  

Férias em Recife.

Com o “Básico”, o medo, para muitos, do desligamento por insuficiência de nota, pois três respostas erradas anulavam uma certa. Mas não estávamos sozinhos, pois o colega mais adiantado nos instruía.

Semelhante coleguismo – essa amizade, melhor dizendo – hoje nós traduzimos nas lembranças das venturas e desventuras compartilhadas naqueles memoráveis quatro semestres, situações e anedotas que costumamos reproduzir com saudade.

Quantas histórias! Quantas lembranças!

Cremos que ninguém de nós jamais se esqueceu da RPM, que não é aquela conhecida teoria da Física; nem do Pássaro Marrom.  E o dia a dia da Escola? Como não se recordar do Caveirinha, do J. Carlos, do Egito, do Magalhães, do Bonin e do Arrais?! E o Tarcísio, cujo apelido é aqui impublicável?! 

E assim também o Romão e outros personagens marcantes.

E o Rancho? Falando em rancho não há como não falar no boi-ralado e no broxante, na Sandra Breia. Era no Rancho que também se ouvia “Tira o bibico, babaca!”.

Você também lembra do Café Cocaio, logo após a alvorada, que se ouvia no radinho de pilha de um colega. A rima por nós criada também não se deve publicar. E quem era laranjeira também não se esquecerá jamais do restaurante da Japonesa, com o tradicional PF e a cerveja gelada, itens em geral deixados para se pagar no “findu”. E o “corujão”, rotina das madrugadas de segunda-feira para os colegas cariocas e paulistas – muitos ainda se recordam.

Aquela perguntinha sacana do sargento: “O que você, aluno, faz da meia-noite às seis?”, certamente muitos também se lembram.

Mas todos, cariocas, paulistas, gaúchos e aratacas em geral, indistintamente, aprenderam que polegar também é dedo.

Ah! O aluno da Especialistas, esse grande inventor, esse extraordinário artista! Não só naqueles dias como hoje, em que encontramos humoristas, cantores e até poetas.

O aluno daquela época criou uma nova unidade de medida: o “pentelésimo”. Adicionou à gramática uma nova metonímia (o “indivíduo pela cidade de origem”), pois em nosso meio habitou colegas como o Macapá (quem não lembra?), o Manaus, o Franca, o Cascavel e o Vassoura. Lançou neologismos como “Muvuca” e “Findu”…

Logo passou-se o “Básico”. Mudamos de esquadrilha para formar as especialidades. Marchávamos para os galpões de instrução… Metade do tempo já se encerrara. Agora era o “Especializado”; faltavam só mais dois semestres – era só seguir em frente.

Logo chegaria o dia marcado para nós nos dispersarmos.

Na noite anterior, aquela quinta-feira 12 de julho foi de lascar. Rolou aguardente, manguaça, pinga, cachaça, a marvada. Deram um porre no sargento Tarcísio. Eu mesmo ainda lembro do pessoal da décima esquadrilha que erguia o sargento para cima, várias vezes, e cantando o “Melô da Pipa”, gritava: Bochechinha, Bochechinha… Não era bem esse nome, mas deixemos pra lá esse detalhe.

Alvoreceu o 13 de julho, um dia meio carrancudo. Movimento de familiares e convidados.

Era o final do curso; formatura – lançamento de quepes. Cada um seguiria agora seu destino em direção aos hangares, aos almoxarifados, aos serviços de enfermagem, às companhias de infantaria, às torres de controle, aos setores administrativos, aos esquadrões de aviação… Nunca mais o banho frio; adeus ao broxante; tchau “Corujão”, bye-bye Japonesa, RPM… Adeus, querida Escola!

E nós, entre a euforia pela missão cumprida e a incerteza do que nos esperava pelo Brasil afora, não tínhamos sequer noção de que a maioria de nós jamais se veria novamente. Mas, como disse o Pinheiro, ainda guardo o rosto juvenil de vocês.

Com o tempo, muitos da turma tomaram outros horizontes, mas a maioria continuou a carreira, em suas missões respectivas, suas vidas. Cada um tomou o seu destino, na farda ou sem ela. Hoje, outros – como eu – passam o tempo escrevinhando histórias; outros ainda fazendo arte, e até praticando a arte de não fazer nada.

Mas, como diziam os Beatles, não importando se se passaram trinta, quarenta ou 45 anos, a Tarjeta Branca está – e sempre estará – em meus olhos e em meus ouvidos.

Obrigado, meus amigos, por aqueles dois anos de convivência salutar.

Adeus, querida Escola! Adeus, amados colegas!

VEJA o vídeo seguinte:

L.s.N.S.J.C.!

MMXXII

Uma resposta para “A INESQUECÍVEL Tarjeta Branca!”.

  1. Parabéns! O texto retrata tão bem o período da escola militar que chegamos a visualizar! Parabéns ao escritor e à escola que deve ter contribuído muito com no desenvolvimento do potencial do jovem aluno.

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