O PADRE do Diabo!

[…] Tempos depois, foi a vez de Lagoa da Prata, no mesmo oeste mineiro. Antônio Luciano Pereira Filho era originário desse lugar e ali desenvolvia parte de suas inúmeras atividades. Com alguma riqueza herdada do pai, muito jovem ainda, se transplantara para Belo Horizonte, onde usando de todas as artimanhas, passou a ser o maior latifundiário urbano. Raro era o bairro que não ostentava áreas para lotear-se com os letreiros de suas empresas.

[…] Várias favelas eram também de sua propriedade. […] Foi a única vez que vi tamanha celebridade: um homem acabado, alto, magro, pálido, olhos grandes, barba malfeita, literalmente mastigando tranquilizantes que atulhava em todos os bolsos do colete e do paletó. Era então deputado federal, eleito na legenda do PSD. Curiosamente, a ditadura militar o cassou mais tarde, por corrupto.

Pois bem. Ciente o homem de que íamos fundar sindicado nos seus domínios, bateu para lá dias antes da data marcada, em fins de novembro de 1963. Acontece que a 22 desse mês mataram o presidente americano em Dallas, Texas. Luciano sobrevoou Lagoa da Prata, espalhando milhares de volantes que desta maneira alertavam a população: os homens que assassinaram Kennedy vão chegar tal dia a nossa cidade; vêm, a pretexto de fundar um sindicado, introduzir aqui o comunismo, para acabar com a religião, a família e a sociedade.

Ao entrarmos no perímetro urbano, estava a cidade em pé de guerra. […] Andávamos já pelos arredores, quando nosso jipe teve de atravessar um mata-burro. Ao descermos para verificar suas condições, surgiram como por encanto uns dez homens, fortemente armados, que foram logo metendo verticalmente troncos de árvores entre as varas do mata-burro e aí se postaram com arrogância. Aproximei-me do que tinha cara de chefe: “Tire essas coisa do mata-burro para a passagem do jipe. Representamos o governo federal”. Respondeu ele: “Não teima, padre. Não me obriga a liquidar o senhor.”

Claro que não queria obrigá-lo a tanto. Mas foi o bastante para verificar, uma vez mais, o quanto vale a organização dos roceiros para ser tão odiada, à custa de tamanhos perigos.

Fizemos a manobra difícil. Voltamos para Lagoa da Prata. Em torno da construção, se postava uma vala humana: eram centenas de pessoas, com o predomínio de mulheres da pequena classe média. Já em casa, saudamos os valoroso fundadores e primeiros dirigentes sindicais de Lagoa e Luciânia. Trazia cada um deles, meio escondido sob suas camisas, um cacete roliço e bem preparado. Pobre arma de pobres, nada parecida à metralhadora de mira telescópica que ultimara o presidente Kennedy.

Nos arranjos do papelório se passaram alguns minutos prenhes de tensão. Primeiro entra uma senhora triste e acabada, com ar de fazendeira ou sitiante, e se joga de joelhos a meus pés: “Padre, eu lhe peço pelo amor de Deus. Isto é obra do Diabo. Vai embora, não procura complicar as coisas”.

Levantei-a, sustentando com cuidado seus braços débeis. Procurei fazer-lhe ver, em palavras simples, que sindicato não tem nada com Deus nem com o Diabo: é a união de todos para a paz social verdadeira. Não se convenceu. Mas se foi. […] De novo o tumulto? Aí, subi a um pedestal da construção e caprichei numa espécie de sermão conciliatório. Ficassem tranquilos. Não éramos comunistas nem assassinos. Vínhamos com a autoridade do governo federal, mas completamente desarmados, como podem verificar, se formassem por ali uma comissão. Estávamos em Lagoa da Prata para fundar um sindicato, coisa perfeitamente legal, que não ameaça ninguém. Sindicado não é coisa de Deus nem do Diabo. É coisa de homens. Sindicato de gente da roça dentro de pouco será coisa comum por toda parte.

Estava nisso, quando se o inesperado. Uma moça loura e gordinha, que me disseram depois ser professora do grupo escolar local, berrou com todos os seus pulmões: “Padre filho da puta!”

E logo caiu desmaiada, assustando-se talvez pelo seu palavrão, tão impróprio para os ouvidos de tantos. Correu a voz: “Castigo de Deus… castigo de Deus”. E a multidão foi se dissipando pouco a pouco, dando-nos tranquilidade para terminar a votação e para a posse da primeira diretoria do sindicato.

De volta à pensão, tomávamos um lanche, quando o nosso amigo proprietário veio procurar-me: “Aí fora estão os capangas do homem, querendo falar com o senhor. Vou junto. Estou armado”. Recomendei-lhe que deixasse a arma no seu luar e fomos os dois. “O senhor tem meia hora para ficar na cidade”, avisou-me entre os dentes e de olhos baixos o mesmo tipo do mata-burro. “Não precisamos de meia hora, companheiro. Já estamos saindo para Brasília”.

Trepamos no jipe dentro de cinco minutos, agradecendo ao amigo da pensão. Tivemos a honra de ser escoltados pelos dez pistoleiros, amontoados no seu jipe, até os limites do município, de onde regressaram. Puxa vida.

Mas estava fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa da Prata.

PESSOA, Francisco Lage. O padre do Diabo: a igreja ausente na hora de mudar, pág.130/132.

L.s.N.S.J.C.!

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