O PADRE do Diabo!

O PRIMEIRO ano das missões foi 1953, seguido de um 54 ainda mais rico em problemas. Já não havia Fátima, o que nos trazia a necessidade de voltar à medula da tradição vicentina, encarnada na peregrina pessoa do padre Gaspar Cordeiro. Entre nós, não passava de um tipo excêntrico, que se obstinava em viver no seu próprio mundo, um mundo de ninguém, sem fazer mal a quem quer que fosse. Mas para a gente, ele era o depositário da verdade integral, que todos iam beber dos seus lábios. E com solenidade a difundia, apegado ao que há de mais superficial na pregação tradicional, chegando a ser incríveis alguns textos dos seus sermões. Tão estrambóticos, que guardo certos trechos de cor, sem nenhum esforço de memória, passados trinta anos. Um exemplo – que deve ser lido com a retórica de cascata dos grandes oradores de multidões:

“Meus irmãos – ao chegar o anúncio das santas missões – tanto na roça como na cidade – tanto nos campos como nas terras de plantação – por toda a parte – cada homem deve ir ao fundo do baú – para de lá tirar o paletó – o paletó do respeito – o paletó de nossos pais e de nossos avós – o paletó sem o qual não se pode aproximar dos sacramentos – nem mesmo entrar na igreja…”

E consequentemente com suas palavras, chamava a atenção daqueles que só tinham camisa, ameaçando negar-lhes a hóstia, ou ralhando com eles no momento mesmo da comunhão.

Encerradas as missões, estávamos um dia montando a cavalo, quando veio ao padre mestre um homem muito humilde, solicitando confissão e comunhão. Perguntou-se-lhe se havia escutado os sermões. Que sim, mas no terceiro dia ouviu aquela estória e saiu para casa, a fim de encomendar à costureira um paletó.

“A quantas léguas o senhora mora?” Perguntei. “Quatro pra lá e quatro pra cá”.

Enternecido, observei-o. Sem qualquer sapato, trazia calças azuis e um casaco novinho, feito de brim cáqui bem verde, exibindo grossas costuras de linha branca e enormes botões pardos, os debruns emborcados para cima, de tão novos. O pobre homem perdera a metade das santas missões para conseguir fabricar aquele paletó e arriscar-se a ser excomungado pelos santos missionários, devido ao atraso monumental da sua volta. Sem consultar ninguém, desci da montaria, reabri e atendi ao senhor, dando-lhes os sacramentos. Quando voltei, já haviam partido todos. Galopei na direção que me indicaram e meia hora mais tarde alcançava o padre Gaspar, com quem tinha contas a ajustar:

“O senhor reparou bem, padre mestre, no homem do paletó?”. “Como assim? Em que homem?”. “Naquele que perdeu as missões para fazer um paletó?”. “Pois é, meu irmão. De vez em quando alguém escuta, não vê? Mas é preciso falar, falar sempre, mesmo que ninguém escute.”

Que muro espesso e pesado nos separava. De vez em quando, ao vê-lo de excelente apetite na hora de comer e de sono infantil na hora de dormir, pensava que éramos feitos de carne e ossos diferentes. Seria um extraterrestre? Mas quantos desses invasores povoam o nosso planeta? Ou não seria eu o ET?

[…]

PESSOA, Francisco Lage. O Padre do Diabo: a igreja ausente na hora de mudar, pág. 84/86.

L.s.N.S.J.C.!

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