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MALBA Tahan!

O guardião cego

 (Continuação da postagem de 31out2017)

“A pior cegueira não é aquela que anuvia os olhos,
 mas sim a outra – a que obscurece a alma”.

QUANDO Zualil se aproximou do portão, onde eu me achava em companhia dos quatro homens, não pude dominar a minha exasperação. Exprobrei-lhe a forma incorreta e leviana com que procedera durante a minha ausência.

— Para atender à tua exigência descabida — disse-lhe com desagrado — fui com o mestre-escola em busca de três ouvintes para a tal lenda que pretendias narrar; trouxe comigo dois sábios famosos (e apontei para os auxiliares do corretor Bechara); assegurei-lhes que estavas a nossa espera. E qual não foi o meu espanto ao verificar que havias ido, como um cameleiro em dia de folga, vaguear pelos arredores. E o mais grave, ainda, é que esta casa, entregue aos teus cuidados, deixaste, inteiramente abandonada, ou melhor, sob a vigilância inútil de um cego. Não me parece que este homem (e apontei para o cego) que vive mergulhado nas trevas da cegueira, seja o vigia mais indicado para zelar pela moradia e pelos bens de um amigo. 


O egípcio ouviu impassível as acres invectivas que eu proferia com estouvado desabrimento. E disse, arrastando a voz com a serenidade de um derviche:

— Sinto discordar de ti mais uma vez. Não pratiquei leviandade alguma nem aceito a acusação de imprudência ou descaso. Increpas um amigo antes de ouvir as razões e os motivos que o levaram a proceder da forma que te parece errada ou censurável. Vou contar-te o que sucedeu e verás se devo ou não ser inteiramente absolvido da falta por que me condenas.

— Achava-me aqui, neste portão, a tua espera quando vi passar um velho marceneiro que eu conhecera. Era um homem bom e digno que me auxiliara em viagem. Pareceu-me aflito. Chamei-o e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Com voz angustiada, respondeu-e que saíra de casa em busca de remédios para o filho mais moço que adoecera de repente. Disse-lhe então: “Conheço a Medicina; tenho grande prática na cura de moléstias crônicas e agudas. Irei socorrer teu filho”. Alegrou-se o pobre pai. Havia, porém, uma dificuldade. Como deixar abandonada a casa de meu amigo? Nesse momento avistamos este cego que passava apalpando o chão com o seu pesado bordão: “Aquele homem – pensei – poderá substituir-me enquanto vou socorrer o enfermo.” Abordado por mim e informado de tudo, o cego prontificou-se a servir-me. “Podes partir tranquilo – disse-me – e não te preocupes com a casa que ficará sob meu cuidado”. Não tive, pois, dúvida alguma em deixar tua casa vigiada pelo cego. Era pessoa que me inspirava confiança. Ninguém desempenharia melhor tão delicado encargo. O cego, apesar das trevas que o rodeiam, percebe a vida, ouve o que se passa em redor. Faltando-lhes o sentido da vista, apura e desenvolve todos os outros. Reconhece as pessoas que dele se aproximam; os lugares ponde passa; as coisas mais simples que o rodeiam. Tem por norma a prudência, aliada à cordura e à moderação. É cauteloso no agir e no falar. Sabe como se defender; orienta-se com segurança, pois a sua bússola é a inteligência esclarecida pela luz do raciocínio. Na incerteza do terreno, evita pisar em falso. Há cegos mais cautelosos do que o vidente mais precavido.

E como eu o fitasse com obstinada desconfiança, ele prosseguiu:

— Queres a prova de que este cego merecia a confiança que nele depositei? Ele nos vai dizer quais foram as pessoas que, durante a nossa ausência, passaram por esta rua.

Respondeu o cego baixando o rosto e falando pausadamente:

— Notei que cruzaram esta rua um burriqueiro surdo, duas mulheres (uma delas conduzia uma criança), um pescador e dois músicos.

Acudiu Zualil com entusiasmo:

— Aí está a prova! Nada lhe passou despercebido! Estava sempre atento e vigilante. Quem melhor poderia zelar pela segurança de tua casa? Afastei-me daqui, é verdade, mas assim o fiz para socorrer uma criança em perigo de vida. Salvei-a. Estou satisfeito. Que juiz seria capaz de me condenar?

Nesse ponto Dorak, o matemático, observou, dirigindo-se ao egípcio:

— A tua forma nobre e correta de proceder só pode merecer elogios de nossa parte. Dirão os irrefletidos que confiaste num cego. A pior cegueira, a meu ver, não é aquela que anuvia os olhos, mas sim a outra – a que obscurece a alma.

E voltando-se para o mestre-escola (que se achava a seu lado) interpelou-o:

— Conhece a história do burro amarelo e os cegos de Bagdá?

E a seguir, numa consulta aos presentes, indagou:

— Querem ouvi-la?

— Sim, sim — respondemos em coro.

E, na verdade, quem não gostaria de ouvir a história do burro amarelo e os cegos de Bagdá?

— Entremos primeiro – disse eu logo – Nada de cerimônias.

Levei todos os amigos, inclusive o cego, para a minha sala. Convidei-os a se sentarem.

E bem acomodados em macios tapetes, puderam ouvir a narrativa do matemático.

O ilustre calculista assim começou:

Continua… 

Por Valentim

Escritor paraense radicado no Paraná, Antonio Valentim é autor do livro "O País dos Militares e dos Bacharéis" e de "O Misterioso Crime do Sacopã", este ainda em projeto.
Passeia também pelo canal BLOGUEdoValentim!, do YouTube,
L.s.N.S.J.C.!

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