A IMPORTÂNCIA da formação especializada

NUMA de nossas postagens (Facebook) foi largamente comentado sobre a extinção a EOEIG e o consequente prejuízo sofrido pelo graduado (suboficiais e sargentos) que nutria pretensões de galgar o oficialato. Não lembro bem quando formou a última turma, se 1982 ou 1983. Ora, antes com cinco anos de formado o sargento especialista – de qualquer especialidade – tinha a oportunidade de tentar a matrícula na antiga EOEIG. Uma vez matriculado, sairia de lá como aspirante, podendo chegar a tenente-coronel.
Esse direito nos foi tolhido com o fechamento da antiga Escola.
Ora, a Força se ressentiria largamente da ausência de oficiais especialistas, como os fatos vieram a provar. Como comentou um colega, pareceu produto de perseguição da parte do ministro da época. Se foi, não sabemos o porquê. Ele próprio foi comandante da Escola do Bacacheri.
O ato culminaria numa espécie de hiato, que logo o alto comando, pouco tempo após a passagem do bastão ministerial, se encarregaria de por fim com a criação do EAOf, aproveitando a experiência dos suboficiais, e com a reativação – depois de alguns anos – dos antigos oficiais especialistas em armamento, fotografia, comunicações, aviões, tráfego aéreo, meteorologia e suprimento técnico. Desta vez, porém, exigir-se-ia dos sargentos candidatos o diploma de curso superior, requisito que antes inexistia. Ao mesmo tempo a Academia recebia as primeiras turmas de cadetes de Infantaria, agora com nova designação: não era mais de Guarda mas sim de Aeronáutica.

Semelhante crise na área de pessoal especializado, ao que parece, se estenderia ao pessoal graduado. Nessa primeira metade dos anos 80, estudos detectaram a carência de sargentos especialistas em algumas áreas de interesse da Força Aérea. Assim o Comando-Geral de Pessoal decidiu suprir tais necessidades com a criação do quadro de voluntários especiais, os famosos VE, mão-de-obra que, recrutada entre concludentes do ensino médio, já viria especializada, necessitando apenas de alguns meses de adaptação, ao termo dos quais o estagiário receberia as insígnias de terceiro-sargento. Era uma solução barata que prometia solucionar os déficitsapresentados em várias áreas da Força e que ameaçavam reduzir os níveis de operacionalidade preconizados. Uma ideia brilhante.
Acaso houvesse uma enquete prévia, a minha resposta seria: “não vai dar certo”.
Dito e feito.
Algum tempo depois, chegavam às Unidades os primeiros estagiários para, passados três meses, debutarem como sargentos especialistas. Era um “especialista” forjado da noite para o dia. Um “especialista” com as mesmas prerrogativas e direitos do sargento formado pela Escola, o verdadeiro especialista.
Passou-se mais um tempo e um dia pude conhecer, primeiro um, um eletricista já antigo. Na parte técnica, de fato o graduado não deixava muito a desejar, porém na parte ética representava um grande perigo para o bom nome da instituição e ao bolso do colega que, desavisadamente, viesse a emprestar-lhe dinheiro ou mesmo o nome para, de boa-fé, suprir alguma pseudo necessidade material do ex-VE.
O outro, em Belém, um suboficial oriundo do antigo Parque de Belém, cujo efetivo, consumada a extinção da Unidade, foi transferido para as Unidades da área.
Esse malandro, dotado de grande simpatia pessoal, tecnicamente era dos mais fracos que eu já vi. Contou-me sua história pessoal de como conseguiu ser incluído na Fab, uma verdadeira “boca rica”.
O suboficial iniciou a carreira nos anos 80 quando a Força recrutou os tais “especialistas” no meio civil, a fim de comporem o quadro de voluntários especiais. A sua área – Metalurgia – na época não era contemplada por nenhum curso técnico regular, de forma que teriam que escolher o futuro VE entre os profissionais que já exerciam o ofício, desde que tivessem certificado de ensino médio.
Quando soube disso, ele, que por acaso trabalhava em oficinas de fundo de quintal na periferia da cidade, interessou-se vivamente e, inteirando-se dos pré-requisitos exigidos, acorreu ao Parque de Belém, candidatando-se ao certame. Procurou saber quem era o encarregado da oficina correspondente à especialidade, fazendo prontamente “desinteressada” amizade com o suboficial. Estabelecida a amizade, conseguiu fazer um “estágio” na mesma oficina, embora ainda não tivesse qualquer vínculo com a Aeronáutica. Nesse período foi pegando todos os macetes, de forma que, quando realizou a prova prática, já estava inteirado de tudo, pois sabia exatamente o que lhe iriam cobrar.
E foi assim  a sua admissão.
Passados os três meses de estágio, já estava ali no mesmo rancho dos sargentos antigos, a maioria formados pela Escola, tratando a todos de “você” ou “tu”. O malandro apresentava tamanha desenvoltura como se tivesse partilhado dos dois anos suados quando enfrentamos o Caveirinha e o boi-ralado.
O resultado é que em pouco tempo foi notado o terrível e irremediável engano cometido pela instituição. Se determinada chapa metálica não podia ser dobrada a mais que tantos graus de ângulo, ele, por falta de escola, não se conformava com tal propriedade científica e experimentava a peça, desperdiçando material. Se uma liga não devia sofrer calor maior de tantos graus, o 3S VE pagava para ver, desperdiçando material. E assim foi até que o retiraram da área de aviação, ficando ele autorizado a fazer suas cagadas na área administrativa.
Depois dessa, passei a acreditar que talvez algumas lendas fabianas, contadas à larga em forma de anedotas, poderiam ter alguma dose de realidade.
Uma delas é sobre um primeiro-sargento, grande artista na sua área, porém nem sabendo de onde fica a Academia do Pedregulho, que estava cumprindo serviço de Adjunto. Levaram à sua presença um soldado que havia feito uma merda para que o primeirão o lançasse no livro de partes.
— Qual o teu nome, soldado?
— Washington, sargento.
— O quê?
— Washington.
— Uóxin… Tá bom! Dessa vez vou te acochambrar, mas não me faça mais isso.
Outra anedota é sobre outro primeiro-sargento, também artista, que, certa vez estava de serviço de Adjunto. Nesse dia um soldado, que estava cumprindo punição de prisão, fugira do xadrez. O fato ocorreu justamente na hora em que o comandante da guarda havia ido ao sanitário, enquanto o cabo, diante da fome, havia ido ao rancho, não aguardando a volta do sargento.
Tascou lá no livro:
“Enquanto o comandante da guarda cagava e o cabo comia, o soldado Fulano fugiu da cadeia.”
Diante de tantas “peladas”, cheguei à conclusão de que bem poderiam ser verídicas as anedotas.  (BLOGUE do Valentim em 27ago2014) 
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