AS APARÊNCIAS enganam!

ERA hora do almoço. Nessa época o rancho de oficiais ficava apartado das demais instalações da Unidade, funcionando em anexo ao hotel de trânsito, também conhecido como T1.

As mesas estavam devidamente arrumadas, como era rotina, com toalhas, talheres, lenços e jarras de suco. As refeições ficavam nas devidas bandejas, onde cada um dos comensais retirava as poções que lhe convinham e as colocavam no prato. Os taifeiros -garçons serenamente aguardavam o início dos serviços.  Essa era a rotina para aspirantes, tenentes e capitães. Frequentavam esse refeitório também alguns servidores civis assemelhados a oficiais, que recebiam o mesmo tratamento dados a estes. Ao fundo do refeitório, que era uma espécie de quadrilongo, e de frente para a porta de entrada, ficava uma grande mesa, que informalmente era chamada por todos de “santa ceia”, que era destinada ao comandante, a seus convidados e aos demais oficiais superiores da Unidade: tenentes-coronéis e majores. Se estes recebiam tratamento digno de reis e altas autoridades, os outros, mais modernos, não seria exagero dizer que eram tratados como príncipes, guardadas as proporções.

Por enquanto nenhum deles se servia nem se alimentava enquanto o comandante não chegava ao local.

Havia vários grupos de oficiais, cada um com dois, três ou quatro, a conversarem entre si.

Num deles, Capitão Pacobahyba confabulava com o tenente Paolo, a combinar os detalhes e dados que comporiam o discurso de homenagem à autoridade visitante — “Deixaremos o rascunho para o nosso furioso João Pereira, meu sargento e exímio datilógrafo, bater à máquina”. Eis que se aproxima de ambos o  tenente Sobrinho. Era para esse oficial subalterno, um primeiro-tenente,  recém-transferido, a primeira oportunidade que tinha de frequentar o rancho. Não conhecia ainda ninguém, muito menos a sequência hierárquica dos oficiais superiores do efetivo, como era obrigado o oficial, e, vez por outra, observado em reuniões pelo próprio comandante. Vendo o capitão Pacobahyba, que se posicionava em pé quase na entrada do refeitório, de forma cortês Sobrinho indaga deste:

“Por gentileza, meu bom capitão, qual daqueles dois tenentes-coronéis, que estão lá no fundo, em pé, conversando, é o mais antigo? É que devo ir até o mais antigo para saudá-los, conforme manda o regulamento”.

Responde-lhe o oficial intermediário:

“Na verdade, não tenho certeza. Quando cheguei aqui o mais antigo era um major, a quem saudei”.

Perguntou a mais outro, que estava próximo, mas também este não deu certeza da antiguidade dos dois oficiais superiores. Sem saber a quem saudar por mais antigo presente no recinto, o tenente ia caminhando devagar na direção dos dois que conversavam ao fundo. Devia estar pensando a qual dos dois saudar primeiro sem perigo de ser repreendido pela omissão ou engano. Estavam lá certamente no aguardo do comandante, para, assim que ele se assentasse, estes também tomassem assento para a refeição, conforme manda o regulamento. Um deles, tenente-coronel Perdeneiras, era do tipo baixinho, franzino e mulato; já o outro, tenente-coronel Pardomo, tinha aparência bem diferente: alto, tipo atlético, olhos claros e cabelo aloirado.

Capitão Pacobahyba então, de volta a atenção ao tenente, lhe faz esta observação: “Sabe, meu jovem tenente, não é por falta de bondade da minha parte, mas é claro que na verdade sei quem é o mais antigo pois conheço de cor e salteado a relação hierárquica dos oficiais da unidade, e não poderia ser diferente porque esta é uma das obrigações do oficial — eu estou há dez anos aqui e acompanho atentamente as apresentações dos oficiais em boletim e também as que são feitas em público de forma oficial, nas nossas reuniões periódicas. Mas é perdoável ao seu colega de posto que agora me indagou pois ele é recém-chegado aqui.” E, diante da interrogação que espelhava no semblante do seu interlocutor, o velho oficial continua:

“Eu aproveitei o momento para uma fazer experiência. E eu sei qual dos dois coronéis o nosso amigo recém-transferido vai saudar. Olhe e veja”.

O tenente Sobrinho, ao cumprimentar com uma posição de sentido e um gesto de cabeça, o tenente-coronel Pardomo, este oficial superior indica com o olhar o colega ao lado, tenente-coronel Perdeneiras, por esse bem mais antigo, três turmas exatamente. Um ligeiro rubor surgiu na face de Sobrinho pela gafe cometida. Um major, que presenciava, o incidente fez um muxoxo de reprovação.

“Eu sabia que, em dúvida, ele erraria a antiguidade e saudaria o coronel Pardomo. As características físicas do oficial enganaram o amigo recém-chegado, pois, no entender da maioria, esses dotes de aparência, de que são dotados o dito coronel, atestam superioridade. E, e então, para Sobrinho, esse oficial superior certamente seria mais antigo que o outro, que é baixinho e mulato, e, além de tudo,  franzino”.

Fez esse comentário e assim e então se lembrou de um episódio ocorrido cinco anos antes, que envolveu um ex-comandante, coronel Juscelino Braziliense, o austero.

O caso foi quando ele ainda era major.

Braziliense, de raça negra, havia chegado nesses dias à localidade, transferido que fora da base aérea de Salvador. À tarde desse sábado, estava de macacão, botina e chapéu de palha, a capinar as áreas verdes, cujo mato estava por tomar conta do imóvel, dando um aspecto de abandono à casa. Fazia essa tarefa braçal há meia hora, mais ou menos, quando uma jovem senhora que andava pela calçada parou em frente à sua casa.

“Senhor, senhor!” Era para ele que a senhora se dirigia. Major Braziliense volta a atenção para ela: “Pois não, minha senhora”.

“Sabe, meu senhor, a frente da minha casa também está cheia de mato. Quanto o senhor cobra para fazer a limpeza?”

O oficial, mirando bem o rosto e as feições da senhora, ficou como a matutar por alguns segundos, como que a pensar bem no que dizer. E antes que a mulher aparentasse impaciência, finalmente responde: “Quarenta cruzeiros, dependendo da quantidade mato”.

“Então, apareça lá em casa, é na casa 22 da vila”.

“Aguarde só mais meia hora, que eu vou até lá. Já estou terminando aqui.”

Não deu vinte minutos, como o número 22 era perto, e o major lá estava, devidamente fardado e munido de uma enxada. Entrou e começou a capinar.

Não demoram alguns minutos e chega o esposo da mulher, o tenente Benício. Difícil descrever como ficou o jovem oficial ao ver aquela cena: Um oficial superior, que era o seu chefe de Operações, em atividade braçal. Não sabia onde pôr a cabeça de tanta vergonha.

O major Braziliense, com naturalidade, lhe diz o preço: “São quarenta cruzeiros,  meu bom tenente. Pague-me agora ou vai se ver comigo”.

Braziliense era de boa índole e nunca foi de guardar rancor. Mas a Benício dava a impressão de que o evitava no dia a dia da caserna, mau o encarando por quase dois anos, tempo em que Braziliense durou no cargo, tendo então sido promovido.

Chega ao recinto o comandante, coronel Horácio. Que comece o banquete!

 

 

 

 

 

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