O CASO do discurso!

“ALÔ!…

Dona Sizenanda!? Desculpe a demora em atender…

Em que tenho a honra de servi-la?…

Brigadeiro quem?!…

 Não, nunca ouvi falar…

Sei… Não entendi, dona Sizenanda, onde entro…

Ainda não entendi…

Se puder ajudar…

No rancho…

Compreendo. Vou procurar o tenente. Fico honrado com a lembrança do meu nome, dona Sizenanda. Mas veja que não sou nenhum Machado de Assis…

De nada.”

Sizenanda Tabosa de Oliveira, a secretária do comandante da base aérea, com seu metro e setenta de altura, embora já passada dos quarenta, ainda é o que se chama de “mulher bonita”. Aquele corpo esbelto, pernas torneadas, silhueta insinuante, cabelos soltos até à altura dos ombros ou mesmo presos davam a ela uma condição peculiar própria de mulheres cuja idade é muito difícil de ser definida. Completando seus encantos, os óculos de grau sobre os olhos esverdeados lhe dão um ar de mulher intelectual, quando em outras constituem desvantagem. Também, mas não só, por esses atributos era cobiçada pelos homens e invejada pelas mulheres.

Alguns poderiam lhe dar trinta e cinco, outros quarenta, quarenta e cinco ou até mais anos de idade. Sua idade real? Esse era um segredo muito bem guardado que ninguém se atrevia a perguntar, e o pessoal da seção de pessoal civil nada sabia de oficial sobre ela, pois pertencia ao quadro de pessoal do comando aéreo, que a movimentou de forma não oficial para a unidade em que se encontra há doze anos. Sua ficha de identificação, para os curiosos, bisbilhoteiros e fofoqueiros que existem em todo canto, não estava em arquivo.

Somente nos últimos cinco anos estava a serviço do comandante da unidade. Antes, emprestava seus serviços (e sua graça) ao esquadrão de pessoal. Por essa época, o capitão Pacobahyba, ainda como primeiro-tenente, era o chefe do setor, de forma que ambos já são velhos conhecidos.

Havia nesse tempo um datilógrafo, o cabo Carvalho. Ocorria que, por duas ou três vezes, Carvalho foi ao esquadrão de pessoal e entrou na sala do chefe para perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida ou deixar um recado. Sizenanda, que nessa época se ocupava de processos de medalha, também estava lá. Nessas raras ocasiões, a título de gozação, ele, gozador, vinha com esta:

“Você, Carvalho, por acaso não é compositor de samba?” Como o cabo Carvalho ficava sem resposta diante da inusitada pergunta, ele continuava: “Por que estão cantando teu samba, sem tua autorização”. E, batucando na mesa, cantava um samba de duplo sentido:

Esse samba é do Carvalho

Não se meta nesse embrulho

Tás cantando um samba de outro, dizendo que é teu

Tás querendo achar barulho

(Esse samba de quem é?)

Esse samba é do Carvalho…

De soslaio, notava o sorriso de Dona Sizenanda. Ficava satisfeito.

Agora, Pacobayba, quando chega para os despachos de rotina com o comandante, sempre lhe indaga com um sorriso cordial: “O mar está, ou não está, pra peixe, dona Sizenanda?”. Era uma forma sutil de ganhar um sorriso da bela secretária e antiga amiga., que o fazia de forma cordial — e não de maneira insinuante — à pergunta que o oficial lhe fazia e que não exigia resposta. Outra vez lhe disse o capitão, com o olhar na parede que ficava às costas da secretária: “Sabe, dona Sizenanda, esses dois quadros aí?” — e não esperava resposta. –“Um é uma paisagem noturna e outro retrata o dia, sol, um lindo campo, riacho, uma maravilha. Pois esta segunda paisagem bem  indica quando a gente entra na sala do homem, e o outro quadro representa a situação de quando a gente sai do recinto”. E dona Sizenanda sorria às anedotas do capitão. “Ganhei o dia”, pensava de si para si o oficial.

Mas essa concessão era para poucos, contados nos dedos de uma só mão.

A competente secretária era assim, um amor de pessoa e a eficiência em ação. As aparências, entretanto, enganavam os incautos e qualquer indício de gracejo masculino era reprimido com firmeza, deixando sem chão o galanteador temerário. Se o infeliz insistisse na graça, o caso poderia chegar aos ouvidos do zero-um, e o tal nunca mais se ajeitava, isso se não fosse severamente punido disciplinarmente. O fato é que nunca ninguém chegou a tal ponto.

Logo terminada a reunião, o comandante pede a dona Sizenanda que localize o tenente Paolo, que, por dar expediente no mesmo prédio, em cinco ou seis minutos estava lá. Que chamasse também o major Hipólito.

Que queria o coronel Horário com o tenente intendente mais moderno da unidade?

A um olhar de dona Sizenanda, o jovem oficial, saindo do gabinete do comandante, lhe satisfaz a curiosidade: “Brigadeiro Viana Calmon, a senhora já ouviu falar?”. A secretária diz que não com um movimento de cabeça. “Esse brigadeiro vem a Belém hoje. Pernoita e amanhã vai haver um almoço festivo em sua homenagem. Coronel Horário mandou que eu lhe faça um discurso”

Experiente, a secretária percebe que havia ali um pedido de ajuda. Dona Sizenanda, assim que o tenente sai, pega o aparelho telefônico e disca um número de três algarismos.

Finalmente alguém atende.

“Alô, capitão Pacobahyba, bom dia. É a dona Sizenanda…

Não, não há problema, capitão…

Capitão, vou direto ao assunto. O brigadeiro Viana Calmon está vindo amanhã de visita a esta base…

Viana Calmon!…

Esse brigadeiro, pelo que pude saber, serve num comando com sede no Rio. Apurei que sempre serviu na área do Rio e de São Paulo. Nunca esteve por aqui. Agora, está indo para a inatividade, e resolveu viajar pelo Nordeste e Norte para conhecer essas regiões…

Ocorre que o comandante escalou o oficial mais moderno da unidade, que é justamente o tenente Paolo, para fazer um discurso em homenagem a essa autoridade…

É que ele (coitado!) não acha palavras e – bem – eu pensei…, pensei que o senhor pudesse ajudar. O senhor escreve tão bem, capitão…

O senhor não espere que ele vá lhe procurar. É muito tímido. Peço que o senhor o procure. Pode ser no rancho, agora pelo horário de almoço…

Sim, no rancho. O homem chega hoje à noite e amanhã o comandante deve homenageá-lo com um almoço festivo no rancho, nessa ocasião o tenente Paolo vai fazer o discurso, o comandante do grupo de comando vai entregar uma placa e essas coisas, como é toda vez que vem alguma autoridade de lá…

Muito obrigada, capitão!”

E no horário de almoço, o capitão Pacobahyba combina as ações com o tenente Paolo. Este, em princípio sem entender como é que surge do nada essa ajuda. Sabia que fora escalado por ser o mais moderno, do mesmo quadro que o brigadeiro. Sim, era uma homenagem, mas não entendia se era, ou não era, merecida. Bem, o comandante devia ter lá suas razões. Na verdade, esse tal brigadeiro, Calmon Viana, nunca nem servira na localidade, sempre serviu no eixo Rio-São Paulo, mas agora, como despedida, resolve saber como é a Força no Nordeste e no Norte do país.

Por orientação de Pacobahyba, ele e a dona Sizenanda entram em contato com a secretária desse brigadeiro, procurando saber dados que embasem o discurso. Quando se formou, onde serviu, quais as funções mais relevantes…

 

 

 

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