TRIBUTO aos heróis anônimos da minha época de Escola

PEGO emprestada a fotografia do Cb Senna (nem sei se era este o seu nome de guerra do colega quando cabo, mas isso não vem ao caso agora) para, utilizando este espaço democrático de convivência virtual, render minha homenagem aos colegas que antes da Escola já eram cabos, os chamados cabos velhos.

Sempre admirei aqueles colegas que, antes da Escola, eram cabos ou até mesmo soldados. Não era somente pela experiência militar que já possuíam, porque isso a gente adquire com o tempo. Eu também seria experiente se já fora militar antes de ingressar na Academia do Pedregulho. O diferencial consistia na questão salarial. Todos sabemos que naquela época a legislação não contemplava a manutenção do mesmo salário de antes ao militar que ingressasse numa escola militar. Era aceitar o salário de aluno ou não ingressasse como aluno.

Ocorre que, diferente de alguns anos depois, estava em vigor a portaria 1.104 (não tenho certeza se era esse mesmo o número da legislação), baixada na época do brigadeiro Eduardo Gomes, que cortou a estabilidade dos cabos, de forma a não passarem dos oito anos. Deu oito anos e o cabo ia para o olho da rua, com uma mão na frente e outra atrás, ou seja, sem direito a qualquer compensação financeira. Muitos já possuíam família.

A única saída era prestar concurso para a Escola. Faziam concurso mas sabiam que tinham de aceitar a redução salarial, passando a viver naqueles dois anos com o mísero salário (ajuda de custo, talvez seja o termo mais apropriado) de aluno. Conheci um ou outro que, pelos comentários que ouvia, possuía esposa e filhos. Realmente não sei como viviam com aquele salário miserável de aluno. O certo é que, para mim, depois de formado e imaginar as condições de vida, e também – eu próprio – viver as dificuldades de salário baixo e tudo o mais, esses caras, que foram meus colegas nos dois anos de Escola, foram verdadeiros heróis. Heróis sem medalha, heróis da vida.

Depois de algum tempo o cabo passou a ter estabilidade, o que também veio lhes dar – além da tranquilidade – a acomodação, deixando de lado o fator positivo da ambição e objetivo. Vieram depois as diferenciações de concurso para a Escola, dando uma espécie de quota ao cabo, que ganhava alguma vantagem em relação ao candidato civil. Ainda assim, muitos se acomodaram com aquela estabilidade. É certo que muitos cabos eram realmente grandes profissionais, experientes, ‘safos’ na sua área de atuação, mas, justamente por essa razão, que mereciam seguir adiante na carreira, sendo sargentos e suboficiais formados pela Escola de Especialistas de Aeronáutica.

Mesmo que pela necessidade imposta pela legislação da época, então, diante disso, rendo tributo – mesmo que tardio – a esses colegas meus que, malgrado o reduzido salário, conseguiram lutar naqueles dois longos anos em busca do objetivo de seguirem na carreira.

Comentário do Senna:

“Valentim, esse era mesmo o meu nome de guerra, Senna. Quando nos formamos troquei, porque como já havia homenageado meu pai durante 6 anos de serviço, mudei então para Bittencourt, para fazer o mesmo pela minha mãe.

Agradeço por ver-nos como heróis, porque, realmente, para sair de uma zona de conforto que desfrutávamos, para ter que passar por toda aquela pressão, que, diga-se de passagem, era amenizada quando jovens como você, na época, eram acalmados por nós que já tínhamos certa experiência; era preciso muita coragem, coisa que muitos colegas da época de alistamento e curso de cabo não tiveram.

Se não estou enganado, o salário de um cabo naquele tempo era de Cr$ 4.750,00 , isso mesmo que estão lendo, quatro mil, setecentos e cinquenta cruzeiros. Para passar a receber: Cr$ 162,00. Esse era um dos principais motivos que muitos colegas deixaram de prestar concurso para a EEAer. Imagina casado, com um filho de 3 anos de idade. Mas quanto a isso, tenho uma dívida eterna para com meus pais, que acolheram minha mulher e filho durante os dois anos de Escola.

A cabeça ficava dividida entre estudar e a família que tinha ficado longe. Foi barra, viu…
Nesse tocante, sou grato até hoje ao Vargas, cearense que passei a ter como um irmão, como tantos outros; mas com relação ao que estou relatando ele foi peça fundamental às minhas idas ao Rio de Janeiro em todos os fins de semana, pois eu tirava dois serviços pretos para ele estudar, e ele tirava um vermelho para eu viajar.”

Outras histórias virão…

(BLOGUE do Valentim em 23fev2015 )

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