ARAGARÇAS, a rebelião fracassada!

(Continuação da postagem de 03jun2017)

Propaganda política do marechal
Teixeira Lott, que foi derrotado por Jânio
Quadros nas  eleições de 1960

DECOLAM imediatamente para Aragarças, então pequena cidade Goiás, onde há um posto avançado de sertanistas para atração de índios do rio Araguaia e uma estação de rádio da FAB, protetora das rotas aéreas na solidão do Brasil Central.

O plano inicial previa, no Rio de Janeiro, a tomada de um avião de combate da Base Aérea de Santa Cruz. Sabem com que objetivo? Para bombardear os palácios do Catete e das Laranjeiras!

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Bombardear o Catete, onde Juscelino despacha? E o Laranjeiras, onde reside com sua delicada mulher, dona Sarah, e suas duas lindas filhas, Márcia e Maristela?

Pois acreditem.

Quem faz esta espantosa revelação é o historiador Glauco Carneiro, no já citado História das Revoluções Brasileiras, ele próprio simpatizante do movimento rebelde.

Sabem para que o bombardeio?

Ele visaria, como se diz no jargão revolucionário, à eliminação física do presidente!

Na undécima hora, no entanto, uma alta patente da Marinha, o antijuscelinista almirante Sílvio Heck (rebelde do cruzador Tamandaré, em 1955), a quem foi dado conhecer o plano subversivo, tirou da beça do coronel Burnier a terrível intenção de matar Juscelino. Heck prometeu-lhe, em contrapartida, uma grande adesão das forças navais.

E, certamente (diz este redator), a certeza de que, vitoriosa a sedição, prenderiam o presidente da República e o entregariam às feras.

A promessa redundou num tremendo blefe: ninguém da Marinha aderiu.

Continuamos, porém, na trama da sedição. Eram três as ações, já vimos as do Galeão.

Enquanto isso acontecia, o major Éber Teixeira Pinto e o civil Charles Herba entram para a história da pirataria aérea internacional com os primeiros sequestradores de um avião comercial no mundo. É o Brasil fazendo escola!

O avião sequestrado é um quadrimotor Constellation, um dos maiores transportes da época. Faz um voo noturno do Rio para Belém. O major rebelde está fardado. Aeromoças e comissários não suspeitam de nada quando Éber se levanta da poltrona, alta madrugada, para ir à cabine de comando. ao oficial da FAB é permitida a entrada em cabine de quaisquer aviões comerciais. A do Constellation era grande, porque abrigava quatro tripulantes. O rebelde passa pelo radiotelegrafista Pedro de Azevedo e pelo engenheiro de voo Jean-Louis Bourdon. Pára atrás do assento do comandante Mário Borges. O piloto sente alguma coisa fria encostada em sua nuca, e o copiloto Alberto Alberto Covedagne, com o canto do olho, espanta-se com o 45 engatilhado.

Naquele momento, o Constellation sobrevoa a cidade baiana de Barreiras, em direção ao norte. O sequestrador ordena virar à esquerda, rumo a oeste.

– Vamos pousar em Aragarças, custe o que custar!

O comandante Mário Borges adverte para a precariedade dessa pista em receber aviões do porte do quadrimotor. Há risco para o Constellation e, portanto, para a vida dos passageiros.

Presidente JK, cujo governo sofreu por
parte da FAB duas revoltas, perdoando a ambas

Éber não admite conversa. Ordena ao radiotelegrafista que envie mensagens normalmente, como se estivesse sobrevoando as radiobases da rota Rio-Belém.

O que pretendiam os rebeldes com o sequestro de um avião comercial?

Além de manter o governo em permanente tensão, com a ameaça pairando sobre a vida dos 38 passageiros e oito tripulantes, os rebeldes teriam no Constellation uma valiosa ajuda logística. Seria destinado a buscar gasolina em outras bases para abastecer os três C-47 já pousados em Aragarças. E com seu longo raio de ação, o possante quadrimotor alcançaria, com facilidade, qualquer região do Brasil e países limítrofes, em caso de fuga dos rebeldes.

E o que pretendiam os rebeldes do ponto de vista político?

Acender um estopim, conturbar o ambiente nacional na tentativa de propiciar uma novembrada do lado deles.

A motivação havia sido oferecida pelo ex-governador oposicionista de São Paulo, Jânio Quadros. ele é o candidato dos rebeldes à sucessão de Juscelino, na eleição que acontecerá em outubro de 1960. O candidato do governo é o marechal Lott, todo-poderoso comandante do Exército, o homem que havia pego em armas, em novembro de 1955, para defender a posse de Juscelino, e, por isso mesmo, era odiado pelos oficiais rebeldes. Para estes, Jânio representa a única alternativa para varrer a corrupção e o descalabro administrativo que consideram o governo JK.

Ocorre que Jânio, dono de flagrante instabilidade emocional, renuncia à candidatura, numa prévia do que ele virá a fazer mais tarde, em 1961, quando renuncia à presidência da República, com apenas sete meses de mandato, e quase leva o Brasil à guerra civil.

Além do fator Jânio, conta-se (o historiador Glauco Carneiro registra, em outro contexto, no seu Castelo Branco – o Caminho para a Presidência, no Rio de Janeiro, José Olympio, 1979) que Burnier teria interceptado uma mensagem cifrada do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para alguém no Rio de Janeiro, com indicações de que estava em andamento o golpe esquerdista para eclodir no dia 15 de dezembro em cidades do Norte e Nordeste, entre elas Belém, onde haveria levantes de sindicatos.

Seja como for, Burnier e seus seguidores, sentindo-se frustrados com a retirada da candidatura  de Jânio, trabalham para a embaralhar o processo sucessório, oferecendo como alternativa a formação de uma Junta Militar de Governo.  Apostam que as Forças Armadas, em conjunto, tão logo exploda a sedição, vão decretar o estádio de sítio e apoiá-los.

Tenente-coronel Veloso ao lado de seu
correligionário de ideais, capitão Lameirão

Bobagem pura. Eles não sabiam com quem estavam lidando: com Jânio Quadros, um extravagante, e com o marechal Lott, em quem melhor se enquadra o bordão “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. E se sair da Constituição, o pau canta.

Resultado: o dispositivo militar do marechal Lott era uno e indivisível, não houve voz de comando dissonante. Jânio, doido varrido, voltou atrás na renúncia, na mesma manhã do dia 3, e pegou de surpresa os rebeldes recém-chegados a Aragarças. Cessou a motivação política da rebelião.

Se na primeira rebelião, a de Jacareacanga, a única vítima foi o coitadinho do Cazuza, na de Aragarças, segundo a história oficial, a única vítima já chegou morta.

O Constellation sequestrado levava em seu bagageiro o caixão com o corpo da senhora Regina Coeli Farry, falecida no Rio. Ia ser sepultado em Belém. O viúvo ficou uma fera com o transtorno causado pelo sequestro. Foi o primeiro a desmoralizar a rebelião, conforme contou outro passageiro, o repórter Campanela Neto, da revista O Mundo Ilustrado:

“O tenente-coronel Veloso reuniu os passageiros na estação de Aragarças e fez a comunicação:

– Estamos em revolução e os senhores estão presos! Devem se dirigir ao hotel local.

“Nesse instante, porém, algo muito grave estava ocorrendo. O viúvo dizia palavrões aos que dele se aproximavam. Estava incontrolável, mandando desaforos à revolução e aos revolucionários”, escreveu o repórter.

A justa revolta do viúvo diante do pouco-caso dos revolucionários com a falecida, cujo corpo merecedor de enterro cristão jazia esquecido no porão do Constellation sequestrado, não é todavia, o lance mais dramático da aventura de Aragarças.

O C-47, matrícula 2060, pilotado pelo tenente Leuzinger, decola com a missão de atacar as pontes sobre o rio das Garças, a fim de impedir a chegada de tropas legalistas.

Durante esse voo, os fatos em terra se precipitam: Jânio volta atrás na renúncia, cessando o motivo político imediato dos rebeldes; o major Éber foge no Constellation sequestrado; Burnier, a bordo do Beech roubado, está  voando para o Xingu; e os paraquedistas do xerife de Juscelino, marechal Teixeira Lott, ocupam Aragarças. Os dois outros C-47 voavam para Jacareacanga.

O tenente Leuzinger está nas nuvens, desconhece tais acontecimentos ao voar de volta a Aragarças. Bombardeando as pontes sobre o rio Itália: Senta a Pua! O piloto rebelde só vai perceber a presença das tropas legalistas, escondidas na floresta, quando já havia pousado. Essas tropas, com os rostos camuflados de graxa preta, como a gente vê nos filmes de comandos, estão ali para fazer cumprir o famoso emblema da Força Expedicionária do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial: uma cobra fumando. Por causa desse emblema muito difundido, era corrente na linguagem popular dos anos 1950 a expressão “a cobra vai fumar”, como sinônimo do moderno “sai de baixo que vem porrada”.

Aperte os cintos de novo, leitor.

Leuzinger acabou de pousar.

Está taxiando para a estação.

Presente o perigo.

Olha na direção da floresta.

Identifica uma boca de metralhadora.

Faz o avião girar 180 graus.

Aciona os motores, para a fuga cinematograficamente desesperada.

Se Pedrim estivesse lá, diria que o piloto do C-47 era o Burt Lancaster!

Começa a corrida de decolagem.

A ação inesperada surpreende as tropas governistas.

O avião avança.

Metralhadoras cospem fogo da mata.

O avião avança.

Paraquedistas rolam tambores de gasolina na pista.

E o avião avançando.

Mesmo sem ter vencido uma distância segura para a ascensão, Leuzinger vai tirar o 2060 do solo.

Empurra as manetes de potência para a frente.

E força o manche para trás.

Tibuuuummmmm!

Não deu.

Sem velocidade, o C-47 perde sustentação e cai na pista.

Tiros perfuram o tanque.

Fogo a bordo!

Leuzinger pula fora. É aprisionado.

O avião explode.

É o the end dramático co 2060.

A cobra fumou.

Desrespeitaram a ordem presidencial de não atirar contra os aviões rebeldes!

E mandaram para o beleléu um prestimoso patrimônio da República, um avião do Correio Aéreo Nacional, instituição, eu diria, sagrada, que tanto bem tem feito às populações do Brasil Central e da Amazônia.

Que prejuízo para a União!

O Tribunal de Contas deveria ter enviado a cobrança da fatura ao valoroso Núcleo de Divisão Aeroterrestre, também conhecido como Batalhão Santos Dumont, que era à época a unidade paraquedista do Exército Brasileiro.

Quando ocorre a explosão do C-47, os companheiros de Leuzinger já estão muito longe de Aragarças, com exceção de um.

O advogado Luís Mendes de Morais Neto, em crise de consciência, rende-se aos paraquedistas e voa, preso, para o Rio de Janeiro.

Burnier chega a Roboré, na Bolívia, onde é muito bem recebido em uma repartição governamental compartilhada pelos dois países:  a companhia que construía a ferrovia binacional Campo Grande-Santa Cruz de La Sierra.

Veloso e outros companheiros fogem para Assunción del Paraguay.

Éber voa no Constellation para mi Buenos Aires querido e ainda leva, como escudo, para afastar qualquer possibilidade de o avião ser molestado por forças legais, toda a tripulação da Panair e o mais ilustre dos passageiros: o presidente do Banco da Amazônia, Remy Archer, de tradicional família política do Maranhão, amigo de Juscelino.

Estava encerrada, assim, latino-americanamente, a revolta de Aragarças, 36 horas após haver eclodido.

Bem que dona Letícia, ao servir a gostosa lasanha, avisara ao marido: “Carlos, isso não vai dar certo!”.

(Pedro Rogério Moreira, no seu livro “Bela Noite para Voar”)  

(BLOGUE do Valentim em 11set2016)
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