ARAGARÇAS, a rebelião fracassada!

“VOTE no Brigadeiro: 

ele é bonito
e é solteiro!”
 
MILHARES de moças no Brasil inteiro cantavam o slogan romântico da campanha eleitoral de 1950.
Eduardo Gomes, rebelde da Revolta do Forte de Copacabana, em 1922; rebelde da Revolução de 1924; rebelde de 2930, quando ajudou a pôr Getúlio no poder; rebelde em 1945, quando ajudou a depor a ditadura de Getúlio; fundador do Correio Aéreo Nacional e da Força Aérea Brasileira; bonitão, católico praticante e solteiro a vida inteira, foi derrotado nas duas ocasiões em que disputou a presidência da República (a primeira em 1945, quando perdeu para o general Eurico Gaspar Dutra; a outra, em 1950, quando perdeu para Getúlio).
Mas a sua liderança, na Aeronáutica, permaneceu incontrastável. Dele pode-se dizer os chavões clássicos: varão de Plutarco, reserva moral, figura inatacável, homem impoluto, paradigma de honradez.
O partido de Eduardo Gomes era a União Democrática Nacional (UDN), que se opusera a Getúlio e agora combatia Juscelino. O Brigadeiro já não vestia farda; há tempos se retirara, mas continuava exercendo uma serena liderança na tropa e sendo consultado pelas forças políticas que atuavam contra o governo JK no Congresso e na imprensa.
O Brasil, de certa forma, estava dividido ao meio, e uma parte constituía-se de eduardistas.
O jornalista Carlos Lacerda era o mais atuante eduardista. Não largava o pé de Eduardo Gomes. Moravam até no mesmo prédio na Praia do Flamengo.
Na noite de 2 de dezembro de 1959, Lacerda recebe a visita de um conspirador, cujo nome ele jamais revelou, convidando-o a tomar parte em uma revolução na Aeronáutica. Mais uma revolução de que faria parte o rebelde major Haroldo Veloso.
Com o perdão presidencial, Veloso volta à ativa. Foi até promovido a tenente-coronel. Mas não virou a página, como fez Juscelino. Continuou a conspirar e acaba realizando a segunda sedição de aviadores, desta vez, sob o comando de que ele não gostava: o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier.
Guardem este nome: Burnier.
Tem a mesma sonoridade do sedicioso Burrotê do meu folhetim Bela Noite para Voar.
Ele vai ser o chefe da revolta de Aragarças.
Carlos Lacerda quase aderiu à revolução de Burnier, como revela no seu livro de memórias políticas.
Vamos gastar um pouco de tinta para saber a posição de Lacerda.
Logo após o contragolpe de 11 de novembro de 1955, quando o general Lott esmaga o movimento daqueles que conspiravam contra a posse de Juscelino, Lacerda viaja para os Estados Unidos. Ele dizia-se ameaçado de morte. É possível. Muitas viúvas de Getúlio Vargas nutriam verdadeiro ódio ao jornalista que escrevera o diabo contra o presidente que acabou se suicidando.
Quando eclode a rebelião de Jacareacanga, no carnaval de 1956, Lacerda se encontra em Nova York. Excelente tradutor de inglês, ganha a vida legendando filmes para o Brasil.
Bem que ele quis voltar, às escondidas, para aderir aos rebeldes na floresta amazônica, mas quando se decidiu, tudo já havia ido por água abaixo. Melhor assim.
Mais de três anos depois, naquela noite de 2 de dezembro de 1959, Lacerda, já há muito de volta ao Rio, plenamente integrado à vida democrática do governo JK, recebe o convite para participar de outra rebelião.
ao saber que Veloso estava metido no meio, sua posição inicial foi a de aderir. Tinha de decidir logo, porque o avião dos rebeldes partiria dali a pouco para um ponto ignorado do sertão brasileiro.

Lacerda não revela que o estava aliciando, só diz que, tão logo o emissário dos conspiradores acabou de lhe expor o plano, deixou-o na sala e conferenciar com a mulher, dona Letícia. Ela é uma criatura de reconhecidos predicados de caráter – da cozinha à política. O marido aprecia as boas mesas brasileiras, italiana e portuguesa, elegendo nesta a bacalhoada como prato preferencial, e dona Letícia corresponde plenamente, ou pilotando ela própria o fogão, ou gerenciando eficazmente, como boa dona-de-casa, a antiga cozinheira, joia da família.

Pois dona Letícia demoveu o marido da intenção sediciosa. Se o Carlos quisesse partir para a aventura, até procurar a morte, que o fizesse. Mas que saísse do conforto do seu lar com a consciência de que o fazia em nome de um movimento inócuo, que não levaria a lugar algum.

As palavras ponderadas da mulher convenceram o marido.

Lacerda relembra:

“Aí, voltei para esse amigo, que era um militar, e disse-lhe: eu não vou, e, mais ainda, acho uma provocação. Uma vez preservadas as condições mínimas de segurança para esses companheiros que vão voar, vou alerta o País contra isso.  O amigo ficou surpreso. Eu não sabia bem o que ia fazer, ele também não me perguntou e foi embora. E ele próprio também não foi no avião.”

Naquela noite, Carlos Lacerda, depois de jantar uma gostosa lasanha, deu um pulo ao apartamento do vizinho, o brigadeiro Eduardo Gomes.

O brigadeiro também achou um absurdo o plano rebelde.

Os dois líderes oposicionistas decidem dar ciência do que sabem ao governo. Mais precisamente, o arqui-inimigo deles, o ministro da Guerra, general Lott.

General, vírgula! Lott agora já é marechal, foi elevado ao posto máximo na hierarquia do Exército Brasileiro. Muito merecidamente.

Nem Eduardo Gomes, muito menos Carlos Lacerda, têm relações pessoais com Lott. Um telefonem direto seria descabido. Poderia parecer até adesismo. Ou capitulação.

Lacerda telefona para um adversário com quem tem boas relações na Câmara, o deputado mineiro Bento Gonçalves, que naquela época já trabalhava para lançar a candidatura de Lott à sucessão de Juscelino. Ele relata os acontecimentos e pede ao interlocutor que alerte o chefe do Exército. É o que Bento faz, quando o dia começa a clarear.

Naquela hora, entretanto, os rebeldes já estavam no ar, a bordo de cinco aviões – três da FAB e dois civis – rumando, como em 1956, para Brasil Central e a Amazônia.

Enquanto isso, em São Paulo, Jânio Quadros abre aquela garrava de Gran Macnish que ganhou de Juscelino, na escala em Viracopos.

As consequências desse gole de uísque nós veremos adiante.

Apertem os cintos: a cobra vai fumar!

PARA fazer a revolução de Aragarças, o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier espera contar com a adesão de 324 conspiradores em diversas cidades do Brasil.

O fiasco começa aí.

Bem que dona Letícia Lacerda avisou.

Apenas oito oficiais da FAB, dois oficiais do Exército e dois civis pegaram em armas contra o governo Juscelino na noite de 2 de dezembro de 1959.

E sabem que formava na linha de frente?

De novo, Haroldo Coimbra Veloso, o nosso Jim das Selvas!

Perdoado por Juscelino em 1956 e promovido de major a tenente-coronel, meteu-se em mais uma aventura.

Ao lado dele e de Burnier, estavam o tenente-coronel Geraldo Labarthe Lebre; o major-aviador Éber Teixeira; os capitães-aviadores Gerseh Nerval Barbosa, Próspero Punaro Barata Neto e Washington Amud Mascarenhas e o tenente-aviador Leuzinger Marques Lima. Do Exército, o coronel Luís Mendes da Silva e o capitão Tarcísio Nunes Ferreira. E os civis: o engenheiro Charles Herba e o comerciante Roberto Rocha Sayão.

Eles vão realizar três ações de guerra revolucionária, no Rio, em Belo Horizonte e nos céus da Bahia.

No Rio, as sentinelas da guarita da Base Aérea do Galeão não levantam qualquer suspeita na entrada de dois caminhões militares. Eram roubados. Em cada veículo havia três oficiais fardados. E com eles uma metralhadora INA, dez granadas de mão, uma bazuca, doze rojões e dinamite.

Na pista, os seis oficiais se dividem em três duplas e cada uma se apodera de um Douglas C-47. (BLOGUE do Valentim em 04set2016)

Continua…
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One response to this post.

  1. PARA o presidente Juscelino, a revolta de Aragarças foi outra página virada, como havia sido a de Jacareacanga.
    Para o rebelde Veloso, pode não ter sido outra bobagem, mas produziu em seu espírito irrequieto um dano ético do qual, anos mais tarde, ele vai se arrepender de modo sincero e em tom dramático.
    No seu livro de memórias, “Por que construí Brasília”, Juscelino Kubitschek evoca assim os primeiros dias de janeiro de 1960:
    “Ano findo. Página virada. Homens e aconecimentos começam a se esfumar, desfeitos pela nova realidade que iluminava o horizonte nacional. O episódio de Aragarças não teve a menor repercussão no cenário político. Mas em relação à opinião pública, não deixou de ser um fato negativo. Lembro-me de que, quando dei conhecimento à minha família do que havia ocorrido a 3 de dezembro, minha filha Márcia exclamou: ‘Mas outra vez, papai?’ A reação de Márcia refletiu o sentimento que era geral na Nação. O país estava em calma. O governo trabalhava. O povo cuidava de seus afazeres. Era justo, pois, que aquele ato de rebeldia fosse realmente reprovado.”
    E o presidente, mais uma vez, virou a página, perdoando. (Pedro Rogério Moreira)

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