AZAMBUJA, o primeirão!

A MENSAGEM-RÁDIO sobre o C130 vindo do Rio de Janeiro, prontamente repassada ao conhecimento do comandante, nos informava dos dados de voo da aeronave que chegaria três dias depois para fazer a Operação Cachimbo. Tal mensagem era a deixa para que a Seção de Operações fizesse a relação de passageiros, a ordem de serviço com a função que cada um exerceria no Campo, além de confeccionar o manifesto de carga. A Seção de Intendência, ao mesmo tempo, ultimava junto ao rancho do 6º Comando os víveres necessários para alimentar a tropa durante aqueles quinze ou mais dias em Cachimbo, além de mandar para a tesouraria a relação de etapas a serem sacadas de cada um. Também o almoxarifado organizava todo o material a ser despachado. As providências em Cachimbo, visando a passagem de funções, e o regresso da equipe lá destacada, paralelamente tinham andamento, de forma que naquela meia hora em que a aeronave estacionaria na pista todos deveriam colocar seus respectivos substitutos a par das questões específicas, conforme a função a ser exercida por cada um de nós.
Azambuja chegaria um dia antes da decolagem do C130. Antes disso, ou seja dois dias antes do previsto para o embarque, abrindo a cortina da janela, pude ver, por meio da vidraça, que o coronel Camboim,  no pátio em frente à Unidade, falava com três de nossos colegas, um sargento, um cabo e um soldado. Na verdade, o comandante mais os ouvia que falava pois eram eles, alternadamente, que lhe dirigiam a palavra, e – pude notar – a expressão facial do coronel não era boa, certamente não gostando muito do que escutava. Deixando para depois a feitura do relatório em que me ocupava no momento, aproximei-me deles a fim de participar da conversa, pois aprendi com o tempo que era salutar para a nossa sobrevivência o bom entrosamento com o comandante; além do mais, o avião sairia em dois dias, e era bem possível que ali eu pescasse alguma informação importante a respeito da missão. Ao aproximar-me, ouvi que falavam de futebol e o comandante dava subitamente uma boa risada.
— Mas aquele gol! Naquele último minuto…
— Pois sim, culpa toda do beque, que bobeou feio…
Fiquei em princípio sem entender nada. A conversa me parecia demasiado artificial, diferente de antes em que notei os semblantes carrancudos. Quando perguntei de que jogo estavam falando, nada me disseram e o comandante, alegando ter-se lembrado de um compromisso, caminhou de volta a seu gabinete, deixando-nos no pátio. Os outros também saíram, um a um, de fininho sem me darem muita atenção. Pareceu nítido para mim que haviam mudado deliberadamente de assunto, que confabulavam sobre algo que eu não deveria saber, e fiquei naturalmente ofendido por me fazerem de bobo. Esse incidente contribuiu para que me pusesse em guarda, e então tornou-se natural para lembrar mais tarde desse incidente. Guardei comigo aquele episódio, nada dizendo a ninguém.

Chegou o dia da viagem e todos chegaram ao local de embarque bem cedo. A ordem sempre era para chegar hora e meia mais cedo em relação ao programado para a decolagem. Os componentes da Seção de Operações chegava duas horas e meia mais cedo, tendo em vista todos os preparativos. Também chegavam antes os encarregados de Rancho e do Almoxarifado.

Feita a chamada e realizada a apresentação formal ao oficial mais antigo presente, todos embarcaram, incluindo Azambuja que, conforme combinado, chegara no dia anterior.

A agitação presenciada na pista de taxiamento era coisa que estávamos acostumados a observar. Parecia uma grande feira, tal era o movimento. As viaturas e seus motoristas a postos estavam ali para levar à sede do Campo todo o efetivo chegado, além das bagagens pessoais e de todo o material descarregado. Caminhão de bombeiros estavam também a postos, conforme as normas de segurança rigidamente preconizadas. Na equipe também médico e enfermeiro em substituição aos profissionais que lá estavam para seguir de volta a Brasília. O eletricista era residente no Campo, de modo que não havia um a bordo. Igualmente outros, de seis a oito, moravam no Campo em casas cedidas pela Aeronáutica, e estes estavam sempre em Cachimbo, só se ausentando em caso de férias. Chegamos e fomos direto ao Rancho, para depois ocuparmos os respectivos alojamentos conforme o mapa previamente preparado pelo Encarregado de Hospedagem.

No dia seguinte àquela chegada em Cachimbo, à tarde, o cabo Nogueira, Luiz Soares da Silva Nogueira, entrou naquela sala, onde dávamos expediente. Estava esbaforido pela distância que havia caminhado sob aquele sol das duas horas entre a Seção de Transportes e a Ajudância, que era o local onde estávamos.

– Acalme-se, Nogueira – disse-lhe Azambuja, indicando-lhe uma cadeira. – Sente-se aí e me diga o que houve. – Alcino…
– Já sei – disse o soldado Alcino, saindo da sala.
Nogueira fez uma pausa para descansar, enquanto, tirando um lenço do bolso, enxugava a testa.
– Vim, Sargento, pedi ajuda pra representar contra o sargento Pedreira.

Firgurinha carimbada esse Nogueira. Cabo velho, já com os seus vinte e poucos anos de caserna, não seria promovido a sargento, de acordo com a proposta de legislação que estava em gestação, por causa de sua vasta folha corrida. Sua ficha exigia complemento de mais duas folhas, tantas eram as punições disciplinares que lhe foram impostas ao longo do período. Parou ali em Cachimbo porque, malgrado o comportamento disciplinar, era trabalhador, desses capaz de puxar um trator se precisasse; além de trabalhador, possuía boa lábia. Nos últimos meses estava com a vida sossegada, passando a juntar os trapos com a dona Ermelinda, viúva que conhecera na cidade, passando a viver com ela e sua filha, a Carlinha, em uma casa da Aeronáutica que lhe fora cedida. Azambuja fez alguns segundos de reflexão para pensar como agir naquela situação nova. Ora, representar contra alguém não tendo certeza absoluta da injustiça cometida e, além, não tendo testemunhas ou provas, era certo perder a questão. Em geral as possíveis testemunhas negavam fogo, deixando o prejudicado sozinho com o problema. Era preciso tato. O comandante, coronel Camboim, resolvera viajar logo no início desse dia, não sabendo ao certo se regressara para Brasília ou tinha ido para outro lugar. Ficaram em Cachimbo apenas dois oficiais, o tenente Ezequias e o capitão Nishio. Depois de ouvir Nogueira, Azambuja pediu que eu acompanhasse o cabo até a sala do comandante, onde o tenente Ezequias fazia algumas ligações telefônicas. (BLOGUE do Valentim em 21jul2014)

Continua…
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