ZANONI, o legalista

DUAS semanas após o inicio da rebelião, vendo as seguidas dificuldades do ministro, o ajudante-de-ordens, capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen, se apresenta como voluntário para ir ao front. A primeira reação do chefe foi de recusa. Tarimbado nos embates políticos, o ministro queria proteger seu subordinado daquilo que sabia viria a acontecer fatalmente: a perseguição. No entanto, como se tratasse de voluntariado, Zanoni bateu o pé, para ir.
Postagens relacionadas:
 
 
A missão organizada pelo ministro previa o emprego de três bombardeiros North American B25J. Dois decolariam do Parque Aeronáutico de São Paulo (Campo de Marte) e o outro da Base Aérea de Fortaleza.
Na madrugada do dia 26 de fevereiro, no Campo de Marte, Zanoni está desconfiado. Os B25 se encontram em revisão. Por que não escalaram aviões em condições de voo? Essa dificuldade, entretanto, é café pequeno (para usar uma gíria da época); não é tão grave diante do que vem pela frente. Susto grande mesmo é quando o capitão Zanoni, descansando no alojamento da Base, atende um telefonema anônimo. Do outro lado vem a ameaça:
 “Te cuida, capitão. O B25 está sabotado!”
Era terrorismo puro. Só mesmo o ardor da juventude (ou a chama da legalidade) para fazer o voluntário Ivan Zanoni Hausen levantar voo naquela madrugada de densa neblina, portadora dos mais infaustos augúrios na mente de um capitão-aviador. Bastou, porém, o avião, subir menos de quinhentos metros e furar a camada tenebrosa, para Zanoni deslumbrar-se com um céu estreladíssimo, desses que o presidente Juscelino Kubitschek gosta de apreciar em suas constantes viagens pelo Brasil. A visão encantadora da noite espantou os maus pensamentos de Zanoni, mas ele não fez um voo confortável.
O B25 que lhe deram não tinha o acolchoado dos assentos. Foi retirado pelos simpatizantes dos rebeldes, de modo que ele e seu copiloto, o capitão José Carvalho Pereira (outro voluntário), para não machucarem o traseiro no ferro da cadeira, sentaram-se em cima de seus paraquedas. Os dois B25 fizeram escala em Barreiras, na Bahia, para reabastecimento. Oficiais simpatizantes dos rebeldes tentaram retê-los, sob pretextos diversos. Mas Zanoni estava decidido “a levar a mensagem a Garcia”, bordão muito usado na época que queria dizer “cumprir missões, custe o que custar”, como fez o tenente americano na guerra dos Estados Unidos contra Cuba, retratado no famoso folhetim “Mensagem a Garcia”.
Enquanto Zanoni enfrentava esses obstáculos, o B25 que decolou de Fortaleza fazia um pouso de emergência em São Luís do Maranhão. Pane? Não. Ah, para reabastecer? Nada disso. É que um dos pilotos, o tenente Adair Geraldo Ribeiro, precisava urgentemente… ser operado de apendicite!
Quando, finalmente, o B25 recebe novo tripulante e chega a Belém, os tenentes-aviadores Flávio Santos e Octávio Ramos de Figueiredo se recusam a cumprir missão contra os rebeldes e recebem voz de prisão. Também o segundo B25 enviado do Campo de Marte não chega a ser empregado contra os rebeldes, informa o citado autor de “A FAB e a política nacional na década de 50”, sem no entanto, explicar a causa.
Desse modo, apenas o bombardeiro pilotado por Zanoni, o de matrícula 5123, vai cumprir missões na área conflagrada. Ele fica baseado em Santarém, já então em poder do governo, e realiza três sobrevoos em Jacareacanga, um a cada dia, até 29 de fevereiro, quando Veloso é preso e Paulo Victor e Lameirão fogem para a Bolívia. Mas sua ação é um doce de coco. Nem de longe representa qualquer ameaça. Veja por quê: o B25 Mitchell é um avião de grande poder de fogo. Na Segunda Guerra Mundial o inimigo morria de medo ao vê-lo.
O B-25 de Zanoni estava equipado apenas com uma torre de artilharia, na bolha do nariz. Nem levava artilheiro. Além de dois pilotos, fazia parte da tripulação apenas o sargento-mecânico, o que demonstra a falta de ânimo bélico dos legalistas, seguindo, aliás, uma recomendação do próprio presidente da República: “nada de tiros contra pessoas, prédios ou aviões”.
Zanoni deu uns tirinhos, sim senhor, mas nas águas do Tapajós, para calibrar a mira. E nuns tambores de combustível, colocados pelos rebeldes na pista de Jacareacanga para impedir tentativas de desembarque de tropas legalistas. Num desses reides (incursões rápidas), suspendeu o fogo para não atingir uns jegues que invadiram a pista.
As outras missões foram para atirar mensagens manuscritas concitando os rebeldes a se entregarem, e de patrulhar o Tapajós, já que naquela altura subiam o rio as barcaças com tropas da Aeronáutica comandadas pelo coronel Delayte.
Zanoni faz parte de uma geração de oficiais-aviadores em cujas veias corre o sangue da guerra cavalheiresca, aquela que faz o major Celso Resende Neves fechar os olhos diante do gesto de solidariedade de seu subordinado, o capitão do Catalina legalista que ajudou o rebelde Paulo Victor a consertar seu avião.
O caçador Zanoni, se avistasse o desamparado C47 em fuga, vestiria a armadura do guerreiro da gesta medieval e talvez até balançasse as asas do seu B25, a dizer ao rebelde Paulo Victor: “livre para voar, major…” A derradeira missão do B25 legalista no Tapajós foi o voo da vitória sobre o campo antes espetado pelas estacas pontiagudas dos índios mundurucus, destinadas a empalar os paraquedistas que se aventurassem a saltar.
Os homens do destacamento da FAB, feitos prisioneiros pelo major Veloso, finalmente se veem livres dos rebeldes após a decolagem de Paulo Victor. Zanoni dá ordem pelo rádio para que o sargento e seus soldados se formem diante da estação. O aviador legalista pretende formalizar a reintegração do destacamento à Força Aérea. O B25 faz uma passagem lenta e a baixa altitude sobre a pista, os homens em terra prestam continência a Zanoni e ele retribui com um balançar de asa, significando que a vida daqueles homens voltava à normalidade. Missão cumprida. O jovem piloto legalista entregara a “Mensagem a Garcia”. Quando os paraquedistas do Exército chegam a Jacareacanga, a paz já vigorava.
E o Capitão-aviador Ivan Zanoni Hausen voa de regresso ao Rio, na direção das agruras da vida militar, num Brasil dividido entre os partidários do brigadeiro Eduardo Gomes, os “eduardistas”, e a turma do xerife Lott.
A audaz missão de Zanoni em Jacareacanga, em defesa da democracia, irá marcá-lo de modo negativo na FAB, onde os antijuscelinistas foram sempre a maioria. Ele fez todos os cursos a que são obrigados os oficiais que almejam atingir o generalato, mas só atingiu o posto de tenente-coronel. Nunca foi promovido por merecimento, sempre por antiguidade. Poucos meses depois de dar seu depoimento para este folhetim, o aviador Zanoni foi vencido por um câncer, aos 74 anos. (Pedro Rogério Moreira in JK, Bela Noite para Voar: um Folhetim Estrelado por JK) (BLOGUE do Valentim em 23fev2016)
Anúncios

DEIXE um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s