RISCO calculado

A ESSA altura o expediente já se encerrara havia meia-hora e os soldados de serviço no dia já se encaminhavam para a formatura de arriação do pavilhão nacional. Alguns, ao ouvirem a conversa, vieram se achegando e ali permaneceram, quietos, vivamente interessados no caso. Era um grupo bem maior que no dia anterior, quando Juvenal Flores iniciou a contar sua história. Ele, porém, parecia não se importar com a audiência, vez que o caso se tornara público e, pelo tempo decorrido, já havia prescrito. Com o objetivo de dar a versão real dos fatos, continua a narrar o caso.

“No dia marcado para início da punição, uma sexta-feira, nós, cerca de vinte e tantos sargentos, nos apresentamos ao hotel de trânsito para os dias de hospedagem forçada. O oficial-de-dia fez questão da nossa presença na revista de pernoite, o que nos deixava mais embaraçados ainda. Era um vexame maior estarmos ali junto com a equipe de serviço, cabos e soldados, todos sabendo da nossa situação humilhante. Tivemos que entrar em forma e o mais antigo nos apresentou ao oficial de serviço. Dia seguinte, eu estava de serviço ao prédio. O sargento-de-dia tinha acesso a quase todas as dependências, exceção feita ao gabinete do comandante e à seção de informações, cujo acesso era restrito. Fiquei sabendo  – procurei saber – antes que o chefe da seção de investigação, um major-aviador, tinha viajado a serviço em missão operacional, como era frequente, deixando sempre a seção aos cuidados de seu encarregado. Abri a seção, entrei e vi que os documentos relativos à punição ainda estavam sobre a mesa do chefe, para serem despachados com o comandante, portanto, sem assinaturas. O major deveria despachá-los com o coronel comandante tão logo voltasse, talvez na terça ou quarta. A via da grade de presos que foi para o oficial-de-dia controlar a nossa presença, esta sim, já estava assinada por ele, o major, pois não precisava submetê-la previamente à apreciação do comandante. Dei uma lida: meu nome e os dos outros estavam lá. Mas o item, a proposta que ia para o boletim, sem assinatura da autoridade, estava lá,  passível de ser modificada. Era um risco calculado…”

Relembrando os fatos e os procedimentos, Calixto, por dedução lógica,  já tinha certeza do que realmente ocorreu. Mas era deixar que Juvenal, por sua própria boca, desse a versão real do que houve.

“… Voltei à porta da seção, temendo que algum curioso estivesse por aí. Era sábado, não havia ninguém num raio de duzentos metros, dez e meia da manhã, e nem um movimento dos soldados que se revezavam nos quartos de hora; a próxima rendição de soldados só seria ao meio-dia. Trêmulo, com o coração alterado por saber que se me pegassem, seria o meu fim, e o que me restaria era voltar à região missioneira e empregar-me como peão de estância.”

Calixto, num exercício de imaginação, visualizava o amigo trajando bombacha, chapéu de aba larga, bota, espora, montado num cavalo encilhado a lidar com bois e vacas. Vencendo essa tentação, tornou sua atenção ao narrador.

“Voltei à mesa onde estava lá o papel com os nomes, o texto, nomes das autoridades e tudo. Carbono e duas vias. Depois de assinado, iria para a seção de pessoal para ser publicado em boletim reservado. Era meu interesse que isso não acontecesse, ou seja, que a punição disciplinar não se formalizasse. Me deu um estalo de pegar aquilo ali e rasgar, depois queimar. Mas isso seria uma grande estupidez, não daria certo; assim que chegasse o tal major, a primeira coisa que faria era pedir pelo tal item de boletim. Encontrando-no na mesa, como eram muitos nomes, muito provavelmente não desse pela falta um deles, julgando que teria sido conferido pelo sargento encarregado, em cujo trabalho tinha absoluta confiança. Decidi que o meu nome não estaria nessa relação. Voltei à porta, olhei para fora, tudo tranquilo, o prédio estava deserto. Fechei-a. Botei duas folhas de papel na máquina, papel carbono e comecei a copiar o item em tudo igual, exceção feita pela ausência do meu próprio nome. O tempo ia passando, e a essa altura o relógio de parede já dava onze horas. Quase completo, percebi que, por questão de hábito e instinto, corrigi uma palavra que estava errada no item original. Tive que rasgar aquele documento, guardando no bolso os papeis amassados, e também o carbono. Se jogasse na lixeira, poderia ser descoberto. Refiz o item com os erros de gramática do original. Mas…”

Calixto perguntou o quê.

“Por uma dose de boa sorte, levantei-me e fui à janela. Afastei algumas persianas. Caramba! Deve ser o oficial-de-dia xeretando. Não era. Era sim o próprio comandante em pessoa. Mais um pouquinho, dez segundos ou alguns passos, e ele estaria aí ouvindo a zoada de datilografia. E eu não teria como explicar nada, estaria simplesmente liquidado. Cessei tudo, quedando-me em completo silêncio e procurando controlar até a respiração. Ele passou e entrou em seu gabinete. Esperei. Saiu de lá depois de vinte minutos, acho que estava telefonando ou coisa assim. Depois de me assegurar que o comandante havia realmente ido embora, voltei à ativa, procurando finalizar a obra. Peguei também o original e pus em um outro bolso. Mais tarde deveria dar sumiço em toda aquela papelama, que então já estava amassada.”

Ao ser perguntado sobre o que veio depois, Juvenal continuou na narrativa que prendia a atenção de todos ali presentes, indiferentes ao fato de o expediente já ter se encerrado há tempo.

“Procurei cumprir toda a punição por duas razões: Primeiro, por ter realmente, na prática, cumprido a punição, ter sido visto, e para depois não ter remorso algum de tudo. Segundo, porque do contrário a coisa ficaria muito visível, e o meu tal plano “b” não teria chance de vingar. Para todos os efeitos, cumpri a punição, ao menos de fato. De direito não, porém. Fiquei observando os boletins que saíam, no próximo boletim reservado, vi que deu tudo certo. O meu nome não estava lá, tal qual o item que eu forjei. Nada falei sobre isso a ninguém, fiquei na moita, como se dizia na época. Um colega ainda me falou algo, mas eu fiz absoluto silêncio,  me fazendo de desentendido, dizendo que não sabia de nada e que eu cumpri a punição como todos. Como eles me viram lá hospedado, a punição foi dada como certa e nunca mais ninguém tocou no assunto.  A ficha, porém, ficou intacta.”

“E depois?”, alguém perguntou.

“Semanas depois, vi que alguns boletim da diretoria de pessoal haviam chegado na seção de protocolo. Estavam lá, recém-chegados pelo malote postal, e de lá seriam distribuídos para as providências de transcrição em boletim. Assim era a rotina. Parei e me detive a olhá-los, lendo num deles a parte em que falava sobre os nomes cogitados para a próxima promoção. Isso era uma prática habitual minha, procurava saber das promoções futuras com a expectativa de que a minha seria no ano seguinte. Identificava os colegas mais antigos que logo seriam agraciados com mais uma divisa. Nisso, tocou-me o ombro o encarregado da seção, o mesmo que nos recepcionara de forma desagradável na sala do comandante naquele dia fatídico. Assustei-me com a sua presença e meu espírito se agitou quando ele disse: ‘Não adianta, Juvenal, não adianta… Está difícil’. O que queria ele dizer? O que não adiantava? O que estava difícil? Fui tentado a lhe responder algo como: ‘Difícil é dar rasteira em cobra e cachuleta em jabuti’. Mas, por prudência, contive a tentação, e achei melhor ficar em silêncio, para não cutucar onça com vara curta. Fiz bem. Imaginei logo o pior, que ele teria descoberto o meu crime, e tudo estava acabado. Disse-lhe simplesmente que era meu hábito ler os boletins da diretoria de pessoal. O tempo passou e fui transferido sem que ninguém mais ventilasse qualquer suspeita ou insinuação. Ufa!”

Juvenal foi então transferido para o Rio Grande. E depois?

“Depois de um ano em que eu estava já na nova unidade, numa época em que gozava férias, viajei para Florianópolis para casa de conhecidos. Quedava-me lá no sofá, estirado após meia horinha de sesta, quando um telefonema me alcançou. Imediatamente, um sinal ocorreu em mim, temeroso de que não fosse boa notícia… A pessoa ligaria de novo às duas horas. Era um homem da cidade anterior, onde eu havia ‘comprado’ o apartamento. Implorava que eu lhe revendesse, assinando um papel que ele me enviaria pelo correio. Uma vez assinado, lhe devolveria via postal e apresentaria o documento na Caixa Econômica, tornando-se por direito o novo dono do imóvel. Fiquei surpreso com aquilo tudo, pois julgava já ter perdido, por inadimplência, o apê. Se eu aceitasse a transação, ele me daria como gratificação um milhão de cruzeiros.

“Um milhão de cruzeiros?”, indagaram estupefatos os presentes.

“Sim, um milhão de cruzeiros. E é claro que, dois anos e meio depois, aquele milhão de cruzeiros valia cinco vezes menos do que o que valia naquela tarde fatídica em que o recebi nos fundos da imobiliária. Assinei tudo, postei, e – ainda que eu duvidasse, pois não havia como obrigar o homem a se desfazer de um milhão de cruzeiros, mesmo que pouco valesse – dois dias depois a minha conta bancária era engordada com essa cifra. Acreditem se quiserem”.  (BLOGUE do Valentim em 06dez2016)  

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