AZAMBUJA, o primeirão!

(Continuação da postagem de 22maio2017)

UM DIA perguntei a Azambuja o porquê de tanta dedicação ao trabalho. Para mim — e essa era a ideia que eu tinha antes de conhecê-lo — bastava fazer o previsto, deixando o que fosse de extra para depois. Afinal, para que se matar trabalhando se o salário ao final do mês não vai se alterar. Minha teoria era guerra, sombra e água fresca.

— Meu jovem amigo — respondeu-me ele –, eu não trabalho assim somente por causa do salário extra no final do mês, até porque, como bem diz você ele não vai sofrer aumento por causa do meu trabalho extra. Nem porque serei bem avaliado ao final do ano – e isso também vai depender da visão que têm de mim meus superiores. Também não me esforço apenas para ser promovido ao cabo de alguns anos; a promoção poderá vir ou não, de nada adiantando meu empenho. Faço assim para satisfazer meu chefe. Ele é um sujeito rigoroso e muito exigente. Esse meu chefe não vai me deixar dormir tranquilo se, ao final da jornada, revendo o filme do dia, descobrir alguma falha, alguma omissão; se verificar que, com a minha indolência, incompetência ou falta de tato, prejudiquei  alguém em algo, ainda que seja algo aparentemente insignificante – pode até ser insignificante para mim, não para o outro. Ele vai me cobrar se, existindo um trabalho que deveria ser feito hoje, eu, por falta de esforço ou negligência, acabei deixando-o para o dia de amanhã. Aí ocorre que no dia seguinte, no calor da peleja diária, surgirão outras questões a serem resolvidas naquela mesma jornada, exigindo ação urgente e inadiável e, então, dando um sorriso sem graça vou dizer a mim mesmo: não deu tempo de fazer aquele trabalho, e aquela pessoa, que tanto contava com o meu esforço, ficará prejudicada. Será então razão de vergonha para mim se assim proceder. Meu chefe é alguém que está em todo lugar. 

— ? 

Por causa dessa última frase já estava sem compreender o que dizia o Primeirão. Devia estar usando uma espécie de metáfora ou coisa assim,  e meu semblante denunciava essa interrogação, que ele com certeza percebeu.

— Meu chefe — completou antes que eu pronunciasse a pergunta que estava para formular  — é a minha consciência.

Deu ênfase às duas últimas palavras. Como me demorei a falar, ele continuou.

— Além do mais, já estou um pouco velhinho para ser repreendido por homem barbado.  Por outro lado, sejamos práticos: a dedicação ao trabalho nos dá a sensação de que o tempo corre mais célere, e rapidamente o expediente chega ao seu final; quando nos damos conta, já é sexta-feira, e a quinzena está por terminar, com a mensagem-rádio informando do C130, seus horários e tudo o mais. Não é mesmo? 

Fiquei a recordar dessas palavras marcantes anos depois, quando a memória me trazia de regresso a imagem daquele militar veterano, muitas vezes incompreendido, e que mais de duas décadas atrás rumara à capital do Estado para completar a relação de documentos, sem os quais ficava difícil conseguir um emprego decente.

Quando lhe disseram que faltava um, o certificado de alistamento, o posto de alistamento mais próximo que encontrou foi justamente o da Força Aérea, e então, quando deu por si, nos primeiros meses do ano seguinte se via incorporado como soldado recruta. Foi grande o seu contentamento quando, ao receber seu primeiro soldo, enviou a metade daqueles cruzeiros a seus pais, agricultores pobres que, a muito custo, mandaram o pequeno Juvenal, o primeiro de seis, à escola primária na vila, onde foi apresentado às primeiras letras. Nesses meses de recrutamento, comia e dormia no quartel, permitindo-se a no máximo duas saídas mensais à cidade, não sem regressar ao quartel invariavelmente próximo ao meio-dia, pois o rancho não esperava. Não considerava isto uma privação, tampouco reclamava da rotina espartana que ele próprio se impunha naqueles meses iniciais de milico. E foi observando as patentes, que ele em breve aprenderia a distinguir o que era cabo, sargento, tenente…, decidindo enfim renovar tempo de serviço. Aquele rapaz pobre do interior imaginava romanticamente que se entrava como soldado e se acabava na patente de coronel e, num belo dia ficou sabendo que não seria por tempo e mérito promovido de soldado a cabo e, desta graduação, a sargento, como pretendia ele ingenuamente. Foi quando procurou saber de que jeito poderia seguir carreira. Não, disseram-lhe, na Aeronáutica não se poderia ser promovido sem que prestasse concurso intelectual, pelo menos como acesso às primeiras graduações de cada ciclo. Azambuja então passou obstinadamente a preparar-se com tal objetivo e, tão logo a legislação lhe permitiu, mediante os exames exigidos, acabou na Escola, não sem antes ter sido S1 e cabo. Depois disso serviu em três ou quatro Unidades antes de chegar até aqui.

Lembrei também daquele dia em que chegaram à nossa Unidade quatro soldados novos. Azambuja os reuniu a uma sombra de mangueira e pôs a dar-lhes orientações. Procurem estudar pois o tempo passa ligeiro. Ao mesmo tempo procurem aprender ao máximo do que for ensinado aqui. Se forem espertos, sairão da caserna com uma profissão. E assim por diante, ia aconselhando aquela turma, fazendo o mesmo com as turmas seguintes.

Esse era Azambuja, um sujeito que, no íntimo, divertia-se com a imagem tão pesada que muitos  injustamente lhe atribuíam.

Era costume na Força Aérea, o terceiro sargento tratar o segundo e o primeiro sargento de “você”, isto é, sem formalidades, mas lá, exceção feita a mim, a grande maioria dos terceiros e segundos chamavam-no de “senhor”. Não obstante a proximidade de que gozava desse meu grande amigo, nunca tive coragem de lhe observar que aquele bigode extravagante não o ajudava – aliás, ele nem precisava desse adorno – a ser mais respeitado, mais do que já era, como ele almejava; ao contrário, lhe dava um aspecto engraçado, o que não era de seu agrado.

Certa vez, o tenente Cajazeiras, André de Araújo Lima Cajazeiras, recém-chegado à Unidade, lhe apresentou um documento e pediu a Azambuja que o publicasse com outra data, uns dois dias retroativos, pois isto lhe daria uma vantagem financeira significativa. Azambuja se negou a fazer isso.


— Sei que o senhor é meu superior e lhe devo obediência, mas o que me pede que faça não está correto.


Inconformado, Cajazeiras dirigiu-se à sala do coronel Bieniak, que se encontrava nesses dias em Cachimbo.

— Comandante, não venho gostando das atitudes desse sargento da Ajudância.  


Embora eu não estivesse na sala do comandante, esta passagem foi-me contada mais tarde pelo próprio tenente Cajazeiras, quando este servia em outra Unidade de Brasília.


— E você acha que ele está errado? — Redarguiu o comandante, depois que o oficial subalterno contou-lhe o que se passava.

– … 


Silenciou Cajazeiras, ao perceber de que lado estava o coronel Bieniak. Percebeu que seus argumentos não prosperariam. Envergonhado, pedindo permissão regulamentar, retirou-se da sala.Era certo então que Azambuja gozava de elevada consideração por parte do comandante, que apoiava suas ações à frente da Ajudância. Fui também testemunha do quanto era desorganizado o setor antes de sua chegada, vez que muita coisa era empurrada com a barriga, tendo muitas vezes de recorrermos às unidades da área quando deparávamos com um assunto destoante da rotina.  Se estivesse então próximo ao embarque para Cachimbo, então era só enrolar um pouco e deixar tudo para a outra equipe. Simples assim.

Passou-se o tempo e o coronel Bieniak em breve encerraria a sua administração, passando o comando da nossa Unidade ao coronel Camboim. 

Continua…

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