MEU amigo, Brito!

NO NOSSO tempo de Escola de Especialistas existia um professor de Português. Ele, cujo nome não me sobreviveu na memória, era uma figura. Tinha para cada assunto a ser ensinado um exemplo engraçado ou curioso. No caso da pontuação, uma vez nos ensinou sua importância para que um texto não produza ambiguidade e assim deixe de cumprir a sua finalidade: estabelecer uma comunicação.
Era o caso da pitonisa, que, consultada pelos membros da corte de Alexandre, o Grande, sobre uma grande viagem do imperador para umas terras distantes em missão de interesse de seu país: conquista, guerra. Queriam saber da pitonisa se Alexandre e seu exército sairiam vitoriosos. Ela escreveu assim: “Irás voltarás não morrerás lá”. Alexandre morreu nessa guerra. Inconformados com esse resultado, os mesmos assessores voltaram à pitonisa e ela, defendendo-se, disse que eles não haviam esperado a pontuação. O pequeno texto, pontuado, ficaria assim: “Irás. Voltarás? Não. Morrerás lá.”
Ainda sobre a vírgula o professor costumava contar um causo. Dois homens conversando e um deles se chamava Parente. Apontando para um cachorro, o outro costumava falar ao primeiro: “Aquele cachorro é seu Parente?”. Dizia assim sem enfatizar a pausa, a vírgula se fosse numa comunicação escrita. Dessa forma ele tanto poderia estar mencionado o nome “Parente” do amigo, o vocativo, e perguntando se o Parente era dono do cachorro, ou também, não usando a vírgula entre o pronome possessivo (“seu”) e o nome próprio “Parente’, indagando se o animal era parente desse amigo seu.
Uso esses exemplos para chegar ao amigo Alexandre Soares de Brito, o poeta. Certa tarde, não lembro se na primeira, segunda, terceira ou quarta série, estávamos correndo curto na estrada que vai da Vila dos Sargentos à outra estrada que dá entre a Escola e o hospital. De longe ao nosso lado direito ia uma jovem, que a julgar pelos atributos corporais, prometia ser uma beldade. Diante desse fato relevante, a tropa – naquele tempo exclusivamente masculina – dirigia os olhares para ela, olhando à direita, ainda que o guia ou o comandante da tropa não tivesse comandado ordem alguma nesse sentido. Não precisava. Ao passar pela moça, todos se decepcionaram pois seu rosto não correspondia ao que mostrava o restante do corpo. O Brito, que naquele tempo já era um poeta, veio com esta: “Última forma nos olhares lânguidos.” Demos uma boa risada.
Mais tarde, talvez vinte e um anos depois, estávamos nós novamente como colegas. Desta vez em Belo Horizonte, realizando um estágio que nos garantiria seguir a carreira até a patente de capitão. Estava lá o mesmo poeta Brito, com a diferença de mais experiente, mais sábio, mais amigo.
Este escriba, para incomodá-lo e imitando o causo do professor de Português da Escola, brincava com o seu nome: “Vem cá, Brito.” Dava pouca ênfase à vírgula de propósito para ficar assim como “Vem, cabrito”, numa ambiguidade pensada.
Brito sempre foi um grande amigo nosso, e, sendo essa sua natureza, certamente que sempre o será.  (BLOGUE do Valentim em 17ago2015)
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