JACAREACANGA: guerra, sombra e água fresca!

Major Veloso

 Em 1956 a Rebelião de Jacareacanga, uma das duas revoltas que tiveram por objetivo derrubar o governo de Juscelino Kubitschek, foi protagonizada pelo major-aviador Haroldo Coimbra Veloso e pelo capitão-aviador José Chaves Lameirão. Os dois militares contaram também com a participação do major-aviador Paulo Vítor da Silva. Foi deflagrada num sábado de carnaval, 11 de fevereiro, onze dias depois da posse de JK. Veloso acabou sendo preso pelas tropas legalistas em 29 de fevereiro, enquanto Lameirão e P. Vítor fugiram para a Bolívia, onde pediram asilo político. Todos foram anistiados por JK.

Mais tarde, já na reserva remunerada da Aeronáutica, no posto de brigadeiro, Veloso ver-se-ia envolvido noutro episódio conflituoso, quando, tentando reempossar o prefeito de Santarém Elias Pinto, do MDB, acabou sendo ferido por tropas da Polícia Militar do Pará, a mando do governador Alacid Nunes. Nessa ocasião, cumpria o mandato de deputado federal pela Arena. 

O MAJOR-AVIADOR Haroldo Coimbra Veloso era carioca, magro e aloirado, característica física que o tornava parecido aos galãs do cinema americano, embora do tipo caladão. Com dezoito anos de idade, ingressou no Exército Brasileiro, matriculando-se na Escola Militar do Realengo. Recém-criado o Ministério da Aeronáutica, ele, já com dois anos de Realengo, requereu transferência para a Escola de Aeronáutica, formando-se em Engenharia Aérea e declarado aspirante em setembro de 1942. Seguindo a carreira de oficial, em 1953, já no posto de major, por ser engenheiro, foi escolhido pelo ministro Nero Moura para coordenar a construção da pista de aviação de Aragarças, Jacareacanga e  Cachimbo,cer esta última inaugurada em janeiro de 1954. Esses trabalhos lhe permitiram conhecer bem a região central brasileira e a Amazônia, além de, por ser um sujeito carismático, granjear rapidamente a simpatia dos civis e indígenas que trabalharam com ele na construção dessas pistas de pouso e estradas, o que mais tarde lhe foi bastante útil em seus objetivos políticos. Os campos de aviação por ele construídos passaram a garantir o apoio e a infraestrutura necessários à aviação comercial na rota Brasil – Estados Unidos, bem como, no âmbito do Correio Aéreo Nacional, a rota Rio de Janeiro – Manaus.

Major Veloso e capitão Lameirão

    

Aquele carnaval de 1956, em que a marchinha “Quem sabe, sabe”, de Joel de Almeida, fazia bastante sucesso nas rádios cariocas, foi marcante na vida do major Veloso e seu correligionário de ideais, o capitão-aviador José Chaves Lameirão. Tanto poderiam tornar-se heróis, como poderiam acabar como vilões, presos ou mesmo mortos, dependendo do êxito ou do fracasso da empreitada em que estavam prestes a se meter até o pescoço. Era matar ou morrer.

Mas por que agora, sábado em pleno carnaval, chefe?”.Você sabe de outra data melhor, amigo Lameirão, quando as sentinelas estão distraídas?” E, como Lameirão demorasse na resposta, Veloso responde o óbvio: “A outra data será somente no ano que vem, mas até lá Juscelino já terá mostrado a que veio, e nós teremos perdido a oportunidade de livrar o país desses caras.” .

“É agora ou nunca”, teria completado.

Chega o sábado gordo, que por iniciar um feriadão era o dia mais indicado para se executar uma missão daquela monta. As características daquela semana tipicamente carioca facilitaria o plano que vinha de há algum tempo amadurecendo na cabeça de Haroldo Coimbra Veloso e na de seu fiel escudeiro José Chaves Lameirão. Pela cultura carioca do carnaval, a guarda, em sua maioria, não se concentrava plenamente em seu serviço de guarnecer o quartel, e o próximo expediente só se daria na tarde da próxima quarta-feira, sendo, pelas dificuldades de logística da época, muito complicado mobilizar a tropa naqueles dias. Somando-se a essas peculiaridades, o capitão Lameirão, que pertencia ao efetivo do Parque, tinha acesso facilitado ao quartel, pois a guarda tinha por doutrina o reconhecimento fisionômico de todos os oficiais da Unidade, franqueando-lhe prontamente o acesso ao quartel.

Pois bem. Na madrugada daquele sábado de carnaval, onze dias da posse de JK e sua equipe de governo, o major-aviador Veloso e o capitão-aviador Lameirão deram início à execução do plano, uma tarefa ousada que já vinha em sua mente durante semanas ou mesmo meses. Os oficiais ingressaram no então Parque de Aeronáutica dos Afonsos, subúrbio do Rio de Janeiro, dirigindo-se ao hangar, onde se apoderaram de um avião de combate: um Beechcraft AT11, matrícula 1523, aeronave orgânica daquela unidade especializada em manutenção de aeronaves da FAB. Proveram a equipagem aérea com o embarque de armamento e munição, além de preparar o avião para o voo. Mas sobreveio um contratempo: a porta do hangar estava trancada, em vez de semiaberta como Lameirão a deixou na véspera, já de noitinha. Provavelmente o oficial-de-dia, que era um daqueles tenentes caxias, por zelo, em suas rondas noturnas, tenha observado o desleixo, a tenha mandado fechar. Foi então necessário arrombá-la, e o barulho acabou por chamar a atenção do mesmo oficial-de-dia, que, em ronda de rotina, se aproximava do local. Antes que este começasse por fazer perguntas, tiveram que prendê-lo, trancando-o numa das seções do hangar, impedindo que ele desse o alerta. Além disso, a movimentação da aeronave ao taxiar levou à desconfiança da torre de controle que não autorizou a decolagem.

Não deram bola pra isso. Sem autorização da torre, a aeronave decolou rumo a Cachimbo, deixando atônitos os controladores de voo.

Veloso era por natureza um homem discreto e, como era de se esperar, a missão fora planejada em segredo, pois, além dos dois oficiais executores, apenas duas outras pessoas sabiam; elas estavam incumbidas de fazer os necessários contatos com as unidades aéreas, que dariam todo o suporte material e bélico ao movimento, desencadeando a insurreição por todo o território brasileiro. As demais unidades aéreas da FAB, com grande poder de fogo, sediadas em Fortaleza, Recife e Salvador, de imediato tomariam parte da missão, rumando para Jacareacanga, região remota do país, onde, devido às dificuldades de logística da época, não seriam alcançadas com facilidade. Os revoltosos passariam a ditar as regras. Em seguida, os colegas da Marinha também entrariam em cena, manobrando os navios de modo a não permitir embarque das tropas mobilizadas para combater os revolucionários. Dar-se-ia um efeito dominó. Não tinha como falhar.

O sábado se constituiu numa dura jornada para os dois intrépidos oficiais, porque o AT11 era uma aeronave que não possuía grande autonomia. Assim tiveram que fazer pousos intermediários em Uberlândia, Aragarças, Xavantina e Cachimbo, sendo esta última pista de aviação – deram a entender – o destino da dupla, onde se refugiariam. Mas, chegando a Cachimbo, voaram para Jacareacanga, estado do Pará, margem oeste do rio Tapajós, onde efetivamente os dois oficiais montariam seu quartel-general.

Cachimbo, destino bastante óbvio pela ligação de Veloso com a pista de aviação, era apenas um despiste. Seu plano real era fazerem sua base de operações em local mais remoto, mais isolado, um lugar onde não pudessem ser alcançados por terra e o acesso fluvial bastante difícil. Dessa maneira ganhariam tempo, enquanto seus companheiros dos demais esquadrões de combate da FAB se preparavam para juntar-se a Veloso e Lameirão, precursores do movimento. Chegaram exaustos ao destino dez horas mais tarde, por volta das dezesseis horas.  Em cada um dos aeródromos por que passaram, mal pisaram o solo e trataram de inutilizar o equipamento de rádio, retirando o cristal, de modo a não serem denunciados, atrasando a perseguição aérea por parte das forças legalistas.

Em Jacareacanga, assim que pousaram, Veloso deu voz de prisão ao efetivo destacado, um sargento e cinco ou seis cabos e soldados, além de alguns civis, que foram obrigados a imediatamente obstruíram a pista de pouso com a colocação de troncos de árvores, tambores de gasolina vazios e outros objetos em toda a sua extensão. Os oficiais rebeldes passaram então a comandar aquele pequeno destacamento militar, que distava seis quilômetros do rio Tapajós, estruturando-o para a resistência. Aguardavam então o efeito dominó nas bases aéreas.

Embora cansados, dirigiram-se logo ao vilarejo, a fim de localizar Cazuza, como era conhecido o caboclo José Barbosa Filho, que foi por Veloso promovido simbolicamente à graduação de “cabo”. Para o cabo Cazuza, era “Deus no céu e o major Veloso na terra”; estava disposto a tudo pelo seu comandante, até mesmo arriscar a própria vida. Logo populares se acercaram de seu amigo Veloso, prontos a lhe servir.

No meio do povo simples, Veloso se sentia lisonjeado com o tratamento que aqueles caboclos e suas famílias lhe dispensavam. Ele, sisudo por natureza, mas sua fisionomia denunciava a alegria ao revê-los. Conhecia a quase todos pelo nome e a vários deles cuidou com remédios, a outros lhes forneceu roupas, e a um ou outro até mesmo lhe dera dinheiro para suprir eventuais necessidades básicas. Tudo durante o tempo em que trabalhavam na construção da pista e das outras construções do campo. Era um povo pobre, quase miserável, que lhe viam como um pai. Havia um respeito recíproco.

Major Paulo Vítor, um índio Kaiapó e major Veloso 

A missão agora se apresentava mais complexa que apenas construir pistas. Bem mais complexa.

Reuniram e armaram a todos, que agora se constituíam em soldados fiéis ao comandante Veloso e ao subcomandante Lameirão. O contingente disponível e voluntário não era suficiente, de forma que foi preciso também contar com a ajuda dos índios mundurucus.

A partir de então, passariam longas e entediantes horas a monitorar as comunicações da 1ª Zona Aérea, procurando saber do movimento de tropas que certamente seriam mobilizadas para lhes dar combate.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, ao ser comunicado da rebelião, o presidente Juscelino Kubistchek assim declarou:

“Trata-se de uma incontida explosão de ódio acumulado, pois nem tive ainda tempo de errar. Usarei de energia e severidade contra aqueles que falharem nos deveres da Pátria, ameaçando o regime”.

Tais palavras diziam com todas as letras que o governo federal não estava disposto a dar vida fácil aos revoltosos. No Ministério da Aeronáutica, o brigadeiro Vasco Alves Seco reunia-se com seu estado-maior para estudar como dar combate e sufocar a insurreição.

Com o país já em estado de sítio, situação que já vinha de três meses, desde 11 de novembro de 1955, o ambiente nos quartéis das três forças, agravado pela rebelião promovida por Veloso, se apresentava como o mais tenso possível. Os comandantes determinaram caça às bruxas, e muitos deles criaram nos diversos quartéis a figura do superior-de-dia, um major ou capitão que dava serviço diário na Unidade, com a missão de controlar o seu próprio efetivo, com poderes de recolher ao xadrez a qualquer suspeito de qualquer infração disciplinar.  Decretou-se nas unidades militares a “prontidão total”, sendo que qualquer fato anormal verificado no seio da tropa tinha que ser levado de imediato ao comandante, de modo a situação ser avaliada e, se fosse o caso, reprimida. O ambiente de cizânia, que já existia antes, chega ao seu ápice, com os militares, por exemplo, sendo proibidos de se reunirem grupos de dois ou mais, para não ser confundido com motim. Na mesa de rancho, o mais antigo presente era responsabilizado por qualquer comentário de teor político-partidário, tendo a obrigação de levar o fato ao conhecimento de seu superior ao menor tempo possível, sob pena de ele próprio sofrer severa punição. Na Aeronáutica, em particular, principalmente na Base Aérea de Belém, significativo número de oficiais-aviadores foram presos de forma incomunicável por se negarem a dar combate aos revoltosos.

Além disso, os hangares e demais locais onde aviões estivessem estacionados, sofriam severa vigilância, pois postos de sentinela foram especialmente criados.

No sítio da rebelião, Veloso contava com uma tropa fiel, disposta a qualquer coisa. “Chefe –  disse Lameirão a Veloso – o senhor é muito querido nessas bandas. Podia até se candidatar a deputado”. Mas, devido a seriedade do problema em que esses dois oficiais estavam metidos, Veloso não esboçou o menor sorriso à brincadeira de seu colega, ainda que em seu íntimo se regozijasse com a constatação do amigo.

Os indígenas, amigos leais a Veloso de longa data, mostravam-se ansiosos pela luta. Porém, não compreenderam, por exemplo, que Veloso aprisionasse os adversários – esse era o caso do sargento e dos cabos e soldados do destacamento de Jacareacanga – e não os matasse. Ao contrário, dava-lhes alimentação e remédios, tratando-os com urbanidade. A impressão que deixou Veloso entre os índios foi de que estava se tornando um fraco.

Além da interdição da pista, providenciaram a camuflaram o AT11, que ficou estacionado numa das margens da pista junto às árvores e coberto com folhagens.

O plano inicial era somente esse: estruturar a resistência nesse local ermo, esperando que demais focos de rebelião naturalmente se estabelecessem em todo o território nacional.

A essa altura a Aeronáutica decide ocupar preventivamente os outros aeródromos da região para que eles não caiam nas mãos dos revoltosos. Para isso, um contingente de paraquedistas do Exército é deslocado pela Força Aérea Brasileira do Rio de Janeiro para Belém.

 Com tais objetivos imediatos, em Belém, já no dia seguinte ao roubo do avião, domingo, o oficial-de-operações traz a notícia ao brigadeiro Cabral de uma aeronave que está a caminho, vinda de Caiena, a serviço do Correio Aéreo Nacional (CAN). Era um Douglas C47, pertencente ao 1º Grupo de Transportes, sediado na Base Aérea dos Afonsos. A aeronave era comandada pelo major-aviador Paulo Vitor da Silva, tendo como copiloto o tenente-aviador Carlos César Petit de Araújo. Ficou decidido então que a aeronave seria aproveitada com missão de conduzir as tropas para dar combate aos revoltosos. Viria bem a calhar, em vez de esperar socorro do Rio de Janeiro, que demandaria mais alguns dias.

Por estar em missão em país estrangeiro, era de se esperar que o comandante da aeronave C47 2059, major Paulo Vítor, se encontrasse totalmente alheio aos tumultuosos acontecimentos recentes, até ser notificado da nova que missão que lhe fora atribuída, que era a de transportar um contingente de soldados aos aeródromos próximos da região da rebelião. Existem, porém, versões outras que asseguram que não era bem assim; que Paulo Vítor já estava premeditando algo que não fosse o cumprimento das ordens legais que seriam confiadas, não fosse naquela ocasião, seria noutra, simpático que sempre foi aos ideais agora personificados por Veloso e Lameirão.

E eis que a ocasião surgiu bem antes do que ele esperava. Mesmo sob desconfiança de alguns dos militares que embarcariam no 2059 com a missão de combater os rebeldes, a aeronave foi abastecida com armamento suficiente para um grande combate, como fuzis, metralhadores e munições, além de mantimentos básicos.

 As autoridades legalistas até então desconheciam a amizade de longa data que unia Paulo Vítor a Veloso. O primeiro não tinha a menor intenção de cumprir ordens que implicasse em combate ao velho amigo. Entretanto sabia que, se recusasse, acabaria sendo preso como sucedeu a outros oficiais de Belém e de outras Unidades, que mais tarde viriam a ser indiciados em inquérito policial-militar por insubordinação. Por essa razão, simulou estar do lado da legalidade. Além do mais, um avião da categoria de um C47, capaz de conduzir significativa fração de tropa armada, somando a isso armamento e munição, não seria reforço nada desprezível às pretensões do amigo Veloso.

 A primeira escala era Porto de Moz. Paulo Vítor deixou aí uma fração da tropa, composta de um sargento, um cabo e cinco soldados. Até então simulava estreito cumprimento da missão que lhe haviam ordenado seus superiores em Belém; iludia, portanto, a tropa. Idêntico procedimento fez nas escalas em Santarém e Itaituba, deixando aí uma tropa comandada pelo tenente Glozner. Seguiu depois para Jacareacanga, em vez de retornar à Belém, como era previsto em ordem de missão.

Quando Paulo Vítor cortou os motores do 2059, Veloso, Lameirão, Cazuza e mais dez homens armados cercaram a aeronave, dando voz de prisão à tripulação assim que esta desembarcou. A farsa ia até aí. Paulo Vítor declara-se logo a favor dos insurgentes, porém, o copiloto, tenente Petit, os sargentos Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço se negam a participar do movimento. Solidário ao comandante da aeronave e ao movimento, declara-se o primeiro-sargento Jorge João Günther Pfiffer.

Ainda nessa mesma data, Paulo Vítor envia mensagem-radio ao ministro da Aeronáutica declarando seu apoio aos revolucionários:

JJ GABAER SBRJ 

COMUNICO VOSSENCIA MINHA TOTAL SOLIDARIEDADE MOVIMENTO LIDERADO MAJOR VELOSO PT MAJ AV PAULO VICTOR DA SILVA”

Veloso determina a Cazuza forte esquema de segurança, visando que os legalistas não fugissem. O dia seguinte prometia ser intenso.

 Com a adesão de um aviador e a conquista de um avião de porte, como era o C47, o panorama tático da rebelião muda de figura, possibilitando a Veloso controlar os outros campos de aviação da região, Tapajós acima: Itaituba, Belterra e Santarém.

 Os sentimentos de Veloso foram de grande ânimo e esperança com a adesão inesperada – ou talvez não tão inesperada – de Paulo Vítor. Logo viriam os outros. Entretanto, logo que este lhe relatou a circunstância de mera casualidade em que se viu, seu espírito volta à realidade.

Sem tempo a perder, nessa mesma tarde, pilotado por Lameirão, o 2059 retornou a Itaituba, agora já do outro lado do combate, levando forte contingente armado para render as tropas ali desembarcadas no dia anterior. Dominam facilmente o aeródromo e, no fim desse dia, retornam à Jacareacanga, conduzindo preso do tenente Glozner, alguns graduados e soldados.

Com Belterra também sob controle, agora é a vez de Santarém.

Era uma quarta-feira, 15 de fevereiro. Decolam o At11 1523, com Lameirão pilotando e Cazuza como artilheiro, e o C47 2059, conduzido por Veloso e Paulo Vítor, transportando 25 homens fortemente armados. Os aviões chegam a Santarém, e ao se abrir a porta do 2059, Veloso dá voz de prisão ao efetivo do aeródromo e à guarnição armada que no dia anterior desembarcara lá. Dessa forma o destacamento de Santarém foi ocupado sem a menor resistência. Lameirão mandou interditar a pista. Enquanto isso, Veloso assume, em nome da Força Aérea, o comando da força policial santarena, interdita o telégrafo e ainda neutraliza as comunicações de rádio e das companhias de aviação civil, confiscando os cristais dos equipamentos. Mandou também montar um posto de vigilância no trapiche do Instituto Agronômico do Norte, bairro da Prainha, com a missão de revistar as embarcações.

Concluídas essas primeiras providências, Veloso, fazendo uso do sistema de alto-falantes do diretório local do Partido Social Democrático, comunicou à população que a cidade estava sob controle da Força Aérea, mas era um controle pacífico e que todos podiam continuar com seus afazeres de rotina, sem, porém, entrar em detalhes sobre os reais objetivos do movimento.

Os sargentos tripulantes do 2059, Arnaldo de Oliveira, Wilson Rocha e Brasil Lourenço ficaram presos. Quanto ao tenente Petit, circulava sob cerrada vigilância. Fugiram dois dias depois, 17, a bordo de um barco com destino a Belém.

Nessa mesma data acontecimentos fervilhavam na capital do Estado. Uma verdadeira operação de guerra estava sendo montada pelo comandante da 1ª Zona Aérea, brigadeiro Cabral. Um navio fluvial, o “Presidente Vargas”, estava em preparo para transportar elevado contingente de militares da Aeronáutica e do Exército (algumas fontes falam em 600, outras em 400 e uma última, em 300 soldados). O tenente-coronel Hugo Delayte foi designado como o comandante da operação orquestrada para prender Veloso e acabar com a rebelião. O navio seria escoltado pelas corvetas “Cananéia” e “Cabedelo”, e apoiado por aviões Catalina, que são aeronaves do tipo anfíbio, ou seja, preparadas também para pousar na água. Essas aeronaves transportariam paraquedistas do Exército que tinham a missão de desembarcarem nas margens do rio Tapajós. O navio também seria apoiado por outros aviões, que fariam reconhecimento e apoio de fogo.

Enquanto isso, em 18 de fevereiro, sábado, um avião dos “Diários Associados” pousa em Santarém. Veloso mandou desinterditar a pista, pois era seu desejo dar plena publicidade ao movimento, buscando com isso que a oficialidade insatisfeita com os rumos do país aderisse à rebelião, gerando o tal “efeito dominó’.

Consta que nessa mesma data teria chegado a Belém um coronel com a incumbência de “assumir” o comando da Base Aérea de Belém e assim deflagrar de vez todo o movimento rebelde, pois, como se sabia, bastava um comando de um oficial de alta patente para que os militares aderissem em definitivo ao movimento. Entretanto, uma denúncia velada veio a frustrar tais propósitos. O oficial foi detido e preso de forma incomunicável, assim que pisou o solo de Belém.

Continua

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: