BARRÃO, o enfermeiro

EM TODO lugar, trabalho, escola, clube, há sempre um sujeito divertido, engraçado, quase sempre falastrão, que, mal o vemos e já, quase sem querer, abrimos um largo sorriso. Suas histórias – ou estórias – são sempre aumentadas, enfeitadas, espichadas e enriquecidas com detalhes burlescos, que, acompanhados de trejeitos exagerados e caretas, conduzem os ouvintes ao inevitável riso, e do riso se vai à estrepitosa gargalhada, deixando mais amenos os rigores do dia a dia. E isso só ele sabe fazer. Sujeitos assim, embora não sejam unanimidades, são úteis e necessários a um ambiente saudável e alegre, desde que suas piadas não tenham o fito de humilhar ou diminuir seu semelhante.

Durante o espaço de tempo em que passei pela Aeronáutica, esses trinta anos que se foram tão céleres que – como dizia Oscar Niemeyer – pareceram um sopro, testemunhei muitos fatos, histórias interessantes e insólitas. Episódios que aconteceram de fato, embora inverossímeis pareçam. Há outros que parecem enterro de anão: existem mas ninguém vê. 

Outros há que, até podem realmente serem fatos, mas cada um que os conta, acrescenta um ponto, e o que era originalmente verdadeiro vira causo, folclore, anedota, estória de trancoso, ou qualquer outro nome que se dê.

Barrão, o primeiro logo após os dois meninos na primeira fila

O escriba já viu muita coisa, mas claro que não viu tudo. Eu já vi ficha disciplinar de coronel de, com tantas punições disciplinares registradas, fazer inveja ao soldado mais alterado do quartel. Eu já vi coronel mandar pôr major, como castigo, na relação de pernoite. Eu já vi capitão sair às vias de fato com major. Meninos, eu vi! 

Também vi e conheci pessoas as mais diferenciadas possíveis. E até aí nenhuma novidade porque as pessoas são mesmo diferentes entre si. O que quero dizer é que há pessoas reais que parecem ter saído de um filme ou da página de um livro, de tão pitorescas ou engraçadas que são. “Fulano é uma figura”, costuma-se dizer. Era o caso desse sujeito bonachão e divertido, de que me ocupo nestas linhas.

Voltemos à figura, tema do primeiro parágrafo.

Havia na minha Unidade um primeiro-sargento gordo muito popular. Popular no sentido de que era alguém muito conhecido, e popular no melhor sentido do vocábulo, isto é, o colega era gente-boa, um boa-praça, um amigão. De formação da Escola era enfermeiro, especialidade que exercia desde 1975, quando chegou à capital paraense. Na época em que aconteceu o caso ora narrado, Barrão trabalhava na Esquadrilha de Saúde como fisioterapeuta, ele formado nessa área. Quem serviu em Belém entre aquele ano e 2000 deve ter travado conhecimento com o enfermeiro, ao menos dele tenha ouvido falar.


Além de seu trabalho na Base Aérea, também era fisioterapeuta do Clube do Remo, um dos clubes de futebol da cidade. Parece que ainda ouço o apresentador do programa matutino de rádio anunciar: “Um grande abraço ao fisioterapeuta azulino Mendes Porto, o popular Barrão”.

Sua fama, portanto, superava o numeroso efetivo aeronáutico regional, transpondo os muros dos quartéis de Belém e estendia-se ao campo esportivo, tendo em seu rol de amigos profissionais da bola, jornalistas e cronistas esportivos e dirigentes do Remo e da Federação Paraense de Futebol. Barrão fazia-se presente em todas as fotografias do time azulino, não raro sua figura estampada nos principais jornais da cidade a cada vez que o Remo se sagrava campeão estadual.

Seu nome, Carlos Mendes do Porto, poucos conheciam. Bastava, porém, ser pronunciado o vulgo de “Barrão”, para que imediatamente todos, do comandante ao soldado, soubessem dizer de quem se tratava.

Outra figura bastante conhecida – mas por outras razões – era a do subcomandante. Sua alcunha – Mão-de-ferro – devia-se à sua fama de oficial durão, temido, exigente, voz forte como a de um tenor.  A ele estavam subordinados os esquadrões de Pessoal, de Intendência, de Infraestrutura e de Saúde. Todos os oficiais desses setores despachavam primeiramente com o Mão-de-ferro, para, somente após autorizado por este, seguir à sala do coronel comandante. Geralmente o oficial superior em causa avocava para si as soluções dos problemas que lhe levavam, deixando-os para o comandante somente em último caso.

Voltando ao amigo Barrão.

Certa vez, em papo de cantina, soube-se que um terceiro-sargento fora aprovado em exame para Academia da Força Aérea, a AFA. Na época os critérios de admissão diferenciavam-se dos de hoje, em que o candidato, ao inscrever-se, previamente opta pelo quadro a seguir, se para aviador, intendente ou infante. Naquele tempo não, somente depois de chegado à AFA, o cadete escolheria o curso que seguiria por aqueles quatro anos de formação.

Piu-piu, um terceiro-sargento mecânico de aviação, baixinho, cabeçudo, orelhas de abano e óculos fundo-de-garrafa, naquela manhã era só sorrisos, não se contendo em si de tanta alegria. Acabara de receber uma mensagem-rádio dando a feliz notícia. No dia seguinte deveria apresentar-se à Junta Especial de Saúde do HABE para a realização de inspeção de saúde. No momento, era ruidosamente festejado e recebia numerosos tapinhas nas costas. Já se imaginava, depois daqueles quatro anos, aspirante-aviador; passados alguns meses, tenente-aviador…

Dia seguinte, de volta do HABE, onde concluíra a rigorosa inspeção, de cabeça baixa e semblante pesado, passava em frente à esquadrilha de Saúde. A razão: um dos médicos deixara escapar que o sargento seria julgado incapaz. Barrão estava lá na frente cercado por dois ou três colegas. Contava, como era seu costume, um de seus divertidos causos. Os presentes riam-se a valer. Piu-piu decidiu aproximar-se do grupo.

“Ora, ora. Até ontem você era só sorrisos, mas hoje essa cara de velório. Que houve, Piu-piu? Diz aqui ao papai Barrão, meu filho”. “Acabo de voltar do Hospital…”. “Não precisa me dizer nada. Está na cara o que houve. Vou pensar numa solução. Não se desespere, amigo. Confie no amigo Barrão”.


Até agora três personagens. O que há entre eles? Vamos lá.

A um telefonema, Piu-piu foi chamado ao gabinete do subcomandante. Barrão já estava lá na antessala à sua espera, conforme haviam combinado previamente.  “Com licença, coronel!”. “Pode entrar, Barrão” – era o coronel Mão-de-ferro que autorizava em voz alta, dando acesso ao Barrão a seu gabinete de trabalho. A um sinal de Barrão, Piu-piu entrava na sala, apresentando-se ao subcomandante.

“Coronel, aqui está o Piu-piu, que foi aprovado pra AFA, conforme eu já adiantei ao senhor – prosseguiu Barrão, que havia antecipado ao coronel o resultado provável da inspeção de saúde, que tolhia os anseios do jovem sargento. “Mas não é à toa que o senhor é conhecido como o Mão-de-ferro, e se o senhor não der boa solução a esse caso, ninguém pode dar”. 

Barrão bem sabia como trabalhar a vaidade do oficial superior ali à sua frente, cuja alcunha, longe de quedar-se melindrado, ele, ao contrário, deixava o efetivo dar livre curso ao apelido, divertindo-se com isso ao mesmo tempo que ficava envaidecido.

“E você, meu jovem, chegando a Pirassununga, vai escolher que quadro? Aviador ou intendente?”

Era porque na época em que Mão-de-ferro fora cadete não havia o quadro de Infantaria na AFA, ou talvez porque não levasse em consideração o quadro de infantes.O fato é que o oficial nem levou em conta o quadro recém-implantado como uma possível escolha futura do candidato a cadete ali presente na sala. “Aviador, é claro, senhor” – respondeu o jovem sargento, sem qualquer hesitação. “Você é um tolo – falou com rispidez o oficial, e, levantando-se da cadeira, dirigiu-se à janela que estava aberta. “Venha cá, sargento! Veja lá embaixo. Aquele carro, de quem você acha que é?” 

Piu-piu, surpreendido pela pergunta, balançou negativamente a cabeça. “É do chefe do Rancho, o Sobrinho. Já aquele outro é meu. Então, meu caro, você tem que ser intendente. Compreendeu?” Sim, Piu-piu compreendia a insinuação implícita naquela comparação feita por Mão-de-Ferro. Diante daquela imposição, não restava a ele outra alternativa que não concordar com o subcomandante. Contra as razões de um superior hierárquico, um militar mais moderno não encontra argumentos.

“Pois, deixa comigo. Hoje mesmo darei um jeito de falar com o médico para que ele mude o parecer. Vou dizer a ele que deixe para a AFA dar o laudo definitivo. Fique tranquilo, sargento Piu-piu. Afinal, esses caras são uns merdas mesmo”. 

 

E assim foi feito.

 

Essa versão do diálogo foi largamente difundida pelo Barrão. O Piu-piu já estava em Pirassununga, e o Mão-de-ferro já havia passado o cargo havia alguns meses. Dificilmente um oficial naquele cargo admitiria semelhante situação, ainda mais na presença de um praça. Uma das razões seria a de que ele era o chefe imediato da Intendência, logo, existindo algum desmando, ele próprio seria conivente com a possível falcatrua. Na verdade, o oficial usou de algum argumento insólito – que Barrão levou para o campo do folclore – com o objetivo de dissuadir o jovem de seu projeto original, passando a considerar a carreira de intendente como a mais viável, tendo em vista o sua deficiência ocular, problema incompatível com o exercício da aviação militar. O fim era uma boa ação, afinal.

Hoje Piu-piu, cujo nome este escriba jamais soube, deve, pelo longo tempo decorrido, ser um coronel inativo.

Logo depois, Mão-de-ferro anunciava a todos que ele e um grupo de oficiais havia abocanhado um grande prêmio em dinheiro. Fora premiado na Sena. Mas corria o bizu na Unidade de que não houvera ganhador algum na região de Belém naquelas últimas semanas. Mais uma para o folclore da caserna.   (BLOGUE do Valentim em 24set2016)

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