ÀS MARGENS do rio Xié

DURANTE minha carreira de três décadas na Força Aérea Brasileira tive pouquíssimas oportunidades de viajar a serviço. Minha experiência maior é pelo fato de ter sido movimentado por seis vezes. Primeiro Anápolis, depois Boa Vista, Manaus, Belém, Brasília e, por último, Belém de novo.

Por sinal,  boa experiência. Assim conheci grande parte do território auriverde, que chamamos de Brasil.

Além disso, posso considerar a experiência na localidade de Cachimbo, para onde íamos em missão a cada quinzena, em revezamento. Isso ocorreu durante dois anos. Uma equipe ficava na sede da Unidade, em Brasília, enquanto a outra permanecia em Cachimbo. Creio que essa foi a minha grande experiência em viagens. Uma grande exceção na carreira.

Por ser de uma especialidade de apoio e não das que lidam diretamente com a aviação, quase não saí de sede. Uma vez, quando estava em Manaus, tive oportunidade de viajar por duas vezes. Isso foi na década de 1980. Uma viagem para a rota do rio Solimões, chegando a Tabatinga, fronteira com a Colômbia.

Noutra vez, fiz a rota do rio Negro, chegando a Yauaretê, lá na “Cabeça do Cachorro”.

Embarquei naquele C115 Búfalo. Minha missão era fazer pagamento para alguns funcionários da COMARA, talvez cinco ou seis, que permaneciam nessas localidades longínquas e isoladas do Brasil. Nelas não havia, a não ser a pista de pouso precária, missões religiosas e um pelotão de fronteira do Exército Brasileiro, nada de organizado, nem banco nem correios. Tudo dependia do avião.
Em Cucuí, por exemplo, além de víveres e outros objetos, foram entregues cartas aos militares do Exército e suas famílias. Fazia três meses que não mantinham contato com o restante do país. Esses são verdadeiros heróis.

Região conhecida nos meios fabianos como “Cabeça do Cachorro” 
por lembrar no mapa a cabeça do animal

Numa determinada localidade, fiz uma missão especial que muito me marcou. Depois de fazer o pagamento ao guarda-campo local, recebi deste um documento para ser entregue na  Seção de Pessoal Civil do Sétimo Comando Aéreo Regional, Unidade em que servia escriba.
Era uma certidão de nascimento de seu filho mais novo. Ele deve ter viajado muito até o cartório mais próximo para conseguir tal registro civil. Provavelmente em São Gabriel da Cachoeira.
Pude ler então, por mera curiosidade, o local de nascimento do garoto: “às margens do rio Xié”. Nada lembro sobre o nome do pai, o tal funcionário, mãe, tampouco do nome do garoto.
Nunca até então soubera da existência de tal lugar. Jamais em minha vida tinha me deslocado a lugar tão remoto. Foi lá que eu vi os índios fazerem farinha de mandioca, tal qual o meu povo ainda o faz lá no Pará.
Há quanto tempo se produz farinha de mandioca assim? Essa pergunta me veio à cabeça de imediato. Talvez há milênios.
Sim, eu estive lá. Nas margens do rio Xié, e as águas negras daquela região são testemunhas desse fato.
Até que parei em Dois Vizinhos, sudoeste do Paraná. E aqui fiquei.
(BLOGUE do Valentim em 7ago2016)
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

LOID

Livre Opinião - Ideias em Debate

blogdogersonnogueira.wordpress.com/

Futebol - jornalismo - música - política - livros - cotidiano

%d blogueiros gostam disto: