SANTELMO, o sincero

HAVIA numa unidade em que servi um primeiro-sargento que atendia pelo nome de Benito Fernandes. Já ia pelos seus cinquenta anos.

Havia chegado de Belém, transferido uns dois anos antes, muito provavelmente como uma espécie de punição, que naquela época era muito comum. Era muito conhecido por tirar mais serviços que os outros: “Seu bolso é meu guia”, era o seu lema.

Além dessa característica — não rara, por sinal, em unidades da Força –, era um homem sarcástico, irônico, que vivia a fazer brincadeiras com quase todos, dizendo piadas e espalhando conversas de duplo sentido, que tinha o propósito — era o que parecia — de fazer a gente dar gargalhadas. Fazia assim de si mesmo o centro das atenções.

Por essa razão, sua ficha continha muitas punições disciplinares e sua carreira não ultrapassou a graduação de primeiro-sargento. Sua carreira estancada fez de si um homem frustrado. Muitas de suas brincadeiras, talvez por essa dor íntima, traziam um viés de vingança e sutil revolta. Esse problema, porém, só era visualizado por poucos, os mais experientes da vida; para a grande maioria de nós, jovens, a questão toda se resumia a dar risadas, ainda que às custas do sentimento alheio. Apenas isso.

Um de seus alvos prediletos era a família alheia, fazendo graça de situações delicadas no campo conjugal, no comportamento inadequado das moças e em casos de pederastia. “Acordei às duas da manhã e, pela janela, vi que a mulher de um vizinho chegava àquela hora” – era um desses comentários. “Não, não estou dizendo nada. Longe de mim insinuar alguma coisa…”, completava em seguida de modo a apenas deixar no ar a insinuação maldosa.

Entre os novinhos da unidade corria a alcunha de Santelmo, que diziam dele na ausência. Santelmo era um personagem do célebre humorista Chico Anysio, cuja característica principal era dizer verdades, sendo essa espécie de sinceridade causadora de mal-estar e situações delicadas ao seu colega ou mesmo patrão. Então, para muitos Benito passou a ser conhecido por Santelmo: “Eu não sei mentir!”. Chico sabia explorar como ninguém a franqueza humana de modo a deixar as pessoas envolvidas em situações risíveis e delicadas.

Benito certa vez, segundo ele próprio, foi à Ajudância para falar com o tenente Wanderlan, que era falado por sua suposta homossexualidade: “Tenente, com a sua licença (fez continência)! Gostaria de falar com o capitão Lopes, o comandante do esquadrão de pessoal.”. Teria lhe respondido o tenente: “Ele está ali no banheiro, urinando. Queres ver, queres ver, queres ver?!”. “Eu não!”, respondeu-lhe o sargento, e pensava: “Só se eu fosse da tua marca”.

Outra vez, ladeado pelo major comandante do seu esquadrão, visitava os diversos setores do hangar de manutenção: “Major, me transfira para essa seção.”. Depois de ser indagado sobre o porquê, ele respondia: “Veja o cabelo daquele novinho, tão grande, que faz muito tempo não visita o barbeiro… Que cabeleira linda!”.

Doutra vez chegou ao chefe e veio com esta: “Major, estou seriamente preocupado com o tenente Lourenço. Não seria melhor mandar uma ambulância à casa dele. Deve estar doente, pois faz três dias que não vem ao quartel.”

Quantos Santelmos existem por aí?

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