SARGENTO Caveirinha

EM MINHA época de Escola de Especialistas, final da década de 1970, havia um primeiro-sargento cuja figura me ficou indelevelmente marcada na mente. Aliás, todos os alunos daquela época jamais esquecerão do sargento Rodrigues, o Caveirinha, apelido ganho graças à sua aparência incomum,  à fama de sargento mau e ao rigor em que agia como instrutor de Ordem Unida para todo o Corpo de Alunos, constituindo-se o terror daqueles alunos de primeira série. Feio (feio não: horrível, simplesmente), hoje seria comparado ao “Seu Madruga”, do seriado mexicano Chaves.
A maioria de nós, aquele meio milhar de jovens oriundos de todas as partes do Brasil, era egresso da vida civil, nada entendendo de militarismo. Não sabíamos discernir nada, e devíamos aprender tudo num curto período de dois ou três meses a fim de prestarmos o compromisso de juramento à Bandeira, uma obrigação regulamentar imposta a todo brasileiro que ingressa nas forças armadas brasileiras. Exceção era feita aos jovens que antes eram soldados ou cabos, que já vinham escolados, porém tinham que passar igualmente por todas as instruções, quer fossem teóricas (regulamentos) ou práticas (ordem unida, prática de tiro e manuseio de armamento).
Caveirinha, sujeito magro, cara chupada e espesso bigode, era o sargento mais afamado e mais temido entre a alunada. Pegava no pé especialmente daqueles que tinham dificuldade motora, e que, muitas vezes pelo nervosismo natural, não discerniam entre “direita volver” ou “esquerda volver”, nem acertavam o passo ao marchar, e muito menos tinham habilidade com o manuseio do armamento, que naquela época era o velho e pesado mosquetão usado na primeira guerra. Caveirinha não deixava passar qualquer deslize, e com isso a turma ficava mais nervosa e trêmula. Para nós, a impressão que ficava era que ele se comprazia com o nosso sofrimento.
A respeito de sua figura, as anedotas e situações folclóricas também eram recorrentes. Consta que certa noite, os grupos de alunos estavam no pátio do rancho para a ceia, que, pelo boato que corria sobre adicionarem algum remédio no chá para aliviar os hormônios, era também conhecida pelo singular nome de “brochante”. Em geral, os grupos formavam por turmas ou séries, da 4ª série, aqueles que estavam no último semestre do curso, à primeira série, os “bicharais”, como eram jocosamente chamados por todas as outras turmas. O aluno mais antigo de cada série se encarregava de por em forma a todos de sua turma e os apresentava ao sargento-de-dia, que estava lá para supervisionar a disciplina. Justamente naquela noite o sargento-de-dia era o Caveirinha.
Ocorreu de o mais antigo da primeira série presente ser o Orival, popularmente conhecido por “Catarina”, em parte pelo seu sotaque inconfundível de catarinense. Um aluno de quarta série orientou que o Catarina pusesse o grupo em forma, o que ele fez dando uma sequência de “sentido, cobrir, firme!”, e apresentasse a turma ao sargento Caveirinha.
Foi então ele:
– Com licença, sargento Caveirinha!
– Aluno Orival apresenta a primeira série pronta para o brochante.
O caveirinha, impassível, e olhando firme para a cara do bicharal, saiu-se assim:
“Aluno, em primeiro lugar o nome da refeição não é “brochante” e sim “ceia”. E em segundo lugar…

          …CAVEIRINHA É A PUTA QUE TE PARIU”.

No entanto, tudo ficou por isso mesmo. O sargento não levou adiante o fato – transgressão disciplinar -, sabendo que se tratava apenas de bisonhice do Catarina, que caiu na armadilha do quarta-série. Era um cara bom, um grande profissional que fazia bem o seu trabalho.

Jamais te esqueceremos, sargento Rodrigues. (BLOGUE do Valentim em 15ago2015) 

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2 responses to this post.

  1. Posted by Evandro Cordeiro on 9 de abril de 2017 at 0:27

    Fica a pergunta que não quer calar, meu caro: o Sargento Rodrigues ainda é vivo ? Abraço.

    Responder

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