HISTÓRIA de luta: fui à cidade passear

Capítulo 7, continuação da postagem anterior.

NÃO havia muitas opções de diversões numa cidade do porte de Guará naqueles anos, essa foi a minha primeira impressão; e ainda que houvesse, os poucas cédulas de cruzeiro no bolso não me davam como usufruí-las. Ainda assim era melhor que ficar na Escola, e a simples visão de gente diferente, sem uniformes, já era por si só compensadora.

Existia uma praça, a principal da cidade, de formato circular, acho que o nome é praça Rodrigues Alves, que os alunos, com irreverência, chamava de errepeeme (rotações por minuto). Fixei minha atenção a um grupo, em particular; alguns rapazes em conversa animada com uma jovem, que, desinibidamente, correspondia distribuindo sorrisos e simpatia – belo sorriso, sorriso que nunca vira antes, um charme. Se não chegava a ser muito bonita, também não era feia; exibia um quê de diferente.

Na padaria, outros alunos bebendo cerveja ou mesmo fazendo um lanche; um e outro ainda na fila do cinema. Dei três ou quatro voltas pela errepeeme.

Ao passar pela segunda vez, notei o Almeida numa elegância de fazer inveja a artista de tevê; alinhado, bastante alinhado. O Almeida Silva era meu conterrâneo, paraense,  e só podia ser filho de pai rico, pois, não obstante o pagamento não tivesse saído, trajava roupas muito elegantes e caras, adequadas ao o inverno reinante naquele período do ano. Um homem engraxava seu sapato marrom de couro legítimo, que recebeu em paga uma uma cédula de cem cruzeiros, valor bem acima do normal, dispensando o troco.

Na terceira ou quarta volta, verifiquei que um homem de meia idade, também elegantemente trajado, fitava os alunos que passavam, se demorando um pouco mais nos mais altos e fortes. Duas vezes, pelo menos, ouvi dizendo que ‘Aluno só é pobre porque quer’. Falava em tom suficiente para que ouvissem, não se importando em ser discreto, os demais circunstantes já acostumados àquelas insinuações. Não entendi bem o que o velho queria dizer com aquelas palavras; só mais tarde fui saber que se tratava de alguém bastante endinheirado; ele era fornecedor exclusivo de fardamentos para todo o Corpo de Alunos, também explorava o aluguel de armários, onde os alunos faziam parada obrigatória para trocar do uniforme de passeio para os trajes civis, quando vinham à cidade (naquele tempo era proibido sair da Escola em trajes civis). Chamava-se Romeiro Dias. Um ou outro aluno virava motivo de piada entre os demais, com ou sem razão; mas a verdade mesmo é que tinha aluno sempre esbanjando, nem se importando para a crise.

Antes, na mesma roda em que a mocinha divertia os alunos, notei que estava entre eles o Formoso. ‘Este é o meu amigo Formoso’, disse à moça um outro cujo nome agora não lembro, fazendo a apresentação do Formoso. ‘Formoso, não; Ricardo.’, respondeu o amigo Ricardo Formoso de Sá, com vergonha do nome.

De fato, ‘Ricardo’, aos ouvidos de uma jovem, ficaria bem melhor que o sisudo e incomum ‘Formoso’, como era conhecido entre nós. Formoso era na verdade uma figura, uma grande figura. À medida que os jovens, um a um, iam saindo da conversa, Ricardo ou Formoso arranjava um jeito de insinuar-se à jovem. Ficou ao final ele somente e ela, e eu na distância em que me encontrava ainda pude ouvi-lo falar assim:

– Menina, quer namorar comigo?!
– Ah…
– Sou aluno da Escola… olha o meu relógio de pulso.

Formoso era assim mesmo, direto, chegando a ser grosseiro ou mal educado, de maneira que, sem que o quisesse, gerava espécie de repulsa. Foi o efeito causado naquele momento. A moça, meio que sem jeito, permaneceu ali por alguns minutos ainda, olhando em volta, com vergonha, até que, pedindo mil desculpas inventou algum assunto que justificasse a sua saída, dizendo que tinha um compromisso e que já estava atrasada, ou coisa assim, deixando nosso amigo ali, falando sozinho e com um sorriso pálido. Entendi, mais tarde, que embora a moça se insinuasse, não queria ali, diante do inesperado, deixar evidente que era do tipo fácil. Se fazia de gostosa, daquele tipo que toma a iniciativa, mas que recua quando esta mesma iniciativa parte do sexo oposto. Os psicólogos e outros especialistas da área têm para isso certamente um explicação. Era apenas ser mais sutil, menos incisivo, e com o primeiro rapaz, de preferência aluno da Escola, estaria ali de agarra-agarra. Pelo menos foi a impressão que me causou, a primeira impressão, que nem sempre é a que fica. Era por essas e outras razões que existia uma espécie de rixa, uma rivalidade tácita, entre os rapazes da cidade e a alunada, coisa que era ignorada pela maioria de nós.

Ouvia falar muitas vezes numa tal Maria do Ceá, a quem nunca fui apresentado, mas cuja imagem ficou para sempre na minha cabeça como sendo a da tal moça da errepeeme daquela noite de sexta. Outros dias, nos outros finais de semana que se seguiram, passava pela mesma praça, indo em direção a outros pontos, que não eram muitos, na vã esperança de revê-la.

Algum tempo depois descobri uma certa palavra, o ‘findu’, palavra esta que abria as portas de tudo o que era boteco e loja. O bar da portuguesa, onde éramos bastante assíduos, passara a ser parada quase obrigatória nos sábados, em razão da facilidade de crédito (e também das meninas de lá, verdade seja dita). ‘Fica para o findu?‘, essa era a senha mágica, que abria tantas outras portas. Na verdade o que abria as portas mesmo era a nossa condição de alunos da Escola de Especialistas, cujo salário no findu era garantido, e nossa inadimplência era severamente punida.

Quatro voltas na RPM e uma sessão de cinema. Encerrada a saga de Rock, o Lutador, voltei à Escola. Felicitei-me quando o coletivo da Pássaro Marrom cruzou o portão das armas. Como a gente é estranho! Na Escola, era muito normal ficar incomodado com a agitação, as cobranças, o estresse, o compromisso, o corre-corre, as formaturas, o Caveirinha, o boi-ralado… Fora dela, sentia falta. Vai entender o ser humano! Ainda mais se este foi um dia aluno da Escola de Especialistas, e ainda por cima um arataca como eu. Ademais, uma porrada de apostilas estavam à minha espera, prontas para serem devoradas. A responsabilidade me chamava ao berço, e eu não podia dar mole.

Continua… 

UMA VELA nada perde quando, com sua chama, acende outra que está apagada.” Orison S. Marden
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”
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