HISTÓRIA de luta: a vida real imita a arte

Capítulo 21, continuação da postagem anterior.

Dina Sfat em “O Astro”
O CASO da moça assassinada era o assunto da moda, pelo menos naquela semana, lá no Ceá. Cá e acolá se falava no problema, que, por ter ocorrido em área militar, era objeto de inquérito policial militar, mandado abrir por ordem do comandante da Escola. Um fato trágico como aqueles era até motivo de brincadeiras entre os alunos, já que não envolvia ninguém conhecido nem amigo de ninguém. E o assassino, quem seria? Quais seriam as razões?
– Acho até que essas novelas de tevê interferem na vida real.Fiz essa observação ao Brito Dias, depois de ceparmos mais um capítulo daquela apostila. Faltavam, pelo meu relógio de pulso, de vinte a trinta minutos para começar a novela da Globo que paralisava o Brasil. Há muito que a Tupi não era páreo para a Globo. Já enfarados daquele xarope de matéria, fazíamos hora, então; eu, esperando dar a hora do brochante; ele, a hora da novela, que passou a acompanhar a despeito das inúmeras atividades que de nós eram exigidas. Afinal, ninguém é de ferro.

– Eu acho que não, Quinze. Ao contrário, alguns casos das novelas sim, vêm da realidade. Ou você acha que tudo vem somente da imaginação do autor?
– Veja “O Astro”. Janete Clair tem realmente muita imaginação, é muito inteligente para bolar essa estória da morte de Salomão Hayalla, um caso paralelo à saga do Herculano Quintanilha. E veja só, só se fala nisso: “Quem matou Salomão Hayalla?”. Depois de “Irmãos Coragem”, acho que essa é a novela de maior audiência do Brasil. Essas histórias mexem com a cabeça das pessoas. Uma pessoa de cabeça  fraca…
– “Quem matou Salomão Hayalla?”. Essa pergunta, meu caro Quinze, é o Brasil que está fazendo agora. Mas essa imaginação toda da autora não vem do nada, não vem de Marte, vem da convivência, da vida, daqui do mundo real. É uma leitura aqui, outra observação ali, experiências acumuladas… Tudo sai da vida real, e não o contrário.
– Sim, acho que talvez você tenha razão.
– Claro que tenho, Quinze. Qual é a razão maior dessas novelas? Não é só divertir o povo, mas sim fazer a Globo, Janete, Francisco Cuoco e tanta gente  ganhar muito dinheiro também.
– Brito…
– Fala.
– Então: “Quem matou a sei lá como se chamava, quem matou a mulher?”
– Sei lá. Você tá vendo uma bola de cristal aqui na mesa? Vamos chamar a Janete Clair para ver se ela descobre, Quinze. Se não descobrir, guardará na memória pra fazer uma outra novela. Afinal, todas elas são muito parecidas. Terminando essa novela, virá outra que também, igualmente a esta, prenderá o público diante da tevê.
– Mas… sobre quem fez essa barbaridade? E por quê?
– Ah, ah! Não queria te dizer não, mas acho que foi você.
– Eu??? Brincadeira sem graça. Logo eu, que sou até religioso, acredito em Deus. Jamais faria mal a um gato.
– Brincadeira minha, Quinze. Mas, veja bem que a tese não é absurda. Eu sei que há muitos homicídios assim, em que o verdadeiro assassino é uma pessoa acima de qualquer suspeita, pacato, simpático, e…, na minha opinião, até as pessoas religiosas podem revelar em si mesmas verdadeiros psicopatas, assassinos frios, sanguinários,assim igual ao bandido da luz vermelha … Nenhum de nós conhece de verdade a si próprio.
“Quem matou Salomão Hayalla?”
Você tem muita imaginação. Ou andou lendo muito Agatha Christie ou vendo filmes de suspense, Brito. Essas coisas só ocorrem na ficção. Vai ver que a moça foi vítima de um reles ladrãozinho, que a a matou só pra não ser reconhecido.Veja que agora sou em quem está achando que a novela não tem nada a ver com essas coisas.
– Pode ser. Mas, na verdade, eu também não descarto a sua tese de que tem gente, alguns, que se deixa inspirar pelos jornais de sangue, pelas novelas de tevê ou coisa assim.Mas não é só isso.
– Mas, Brito,  eu estava esquecendo  que foi um crime sexual.
– Sim, meu caro Quinze, ele só juntou a fome com a vontade de comer. Mas para chegar a esse ponto, com certeza a pessoa assim já traz consigo algum problema anterior, um trauma de infância talvez. Dizer que o cara viu algum outro caso no jornal, ou então leu um livro, e saiu por aí e pegou a primeira mulher num local escuro e deu fim dela é uma coisa muito simplista. Mas acontece também.
– Você, que é um cara mais experiente que eu, por que você acha que essas novelas fazem tanto sucesso?
–A minha teoria é de que a vida real é muito monótona, sem graça. Então as pessoas se teletransportam para os personagens, vivendo a vida deles, sofrendo com eles, torcendo a favor de um, vibrando com a desgraça de outro… é assim. Na novela pobre fica rico, rico vai pra cadeia. Mas a verdade é que só vão descobrir quem matou Salomão Hayalla lá pelo fim da novela.Olhei de novo no relógio, que havia comprado naquele final de semana em Aparecida, e me levantei. Em cinco minutos o sargento abria a porta do rancho para o brochante. Brito Dias também levantou-se porque a tevê anunciava mais um capítulo de “O Astro”.


Aqueles murmúrios e sons de passos no meio da noite não me eram estranhos. Já os tinha ouvido noutra vez, não sabendo identificar agora se eram reais ou meramente sonhos. Entre o abrir e fechar de armários, também me veio, mais uma vez, ao insondável mundo dos sonhos, onde já me encontrava profundamente mergulhado, o diálogo entre três pessoas sobre a culpa do aluno. Ou não tinha culpa. Não sabia mais se afirmavam que a culpa era do aluno ou se era uma pergunta. A culpa era do aluno… A culpa era do aluno?… Era só culpar o aluno?…
Aliviado fiquei quando acordei com o toque da alvorada, agradecendo no meu íntimo ao corneteiro por me dar fim àquele pesadelo. Foi quando um colega apontou com o dedo na direção do armário do Pontes.  Estava lacrado. Seu Padre fora, durante a madruga, acordado bruscamente e conduzido à companhia de polícia. Estava detido. Detido para averiguações. Qual a razão?Então os sons de abrir e fechar armários, aqueles passos não eram simplesmente sonhos. Eram demais reais para serem sonhos. Não, não eram sonhos. Aquelas coisas aconteceram de verdade. O comandante da esquadrilha lacrou o armário do Pontes, ele mais um sargento e dois soldados levaram o seu Padre durante a madruga. Qual a razão? Por quê? Era o que perguntávamos entre nós. Logo o seu Padre, um cara que não fazia mal a uma mosca?!

Continua… 

UMA NAÇÃO que valoriza seus privilégios acima de seus princípios, logo perde ambos”  Dwight D. Eisenhower
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

(BLOGUE do Valentim em 07out.2011)

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