HISTÓRIA de luta: começa pra valer o segundo semestre

Capítulo 20, continuação da postagem anterior.

À MEDIDA que se aproximava o dia da reapresentação, mais alunos iam chegando de volta à Escola. No dia seguinte à minha chegada mais dois guerreiros estavam lá, de regresso; no outro dia mais cinco ou seis, era assim, uns gatos pingados, de forma que na véspera, um domingo, conforme o dia avançava em horas, o grosso da turma reassumia seus lugares, desfazendo as malas, ocupando os armários, buscando roupa de cama na sargenteação, arrumando as respectivas camas… O pessoal de São Paulo e do Rio de Janeiro só chegou lá pela meia noite, já adentrando a madruga. Pense no barulho, no auê, no rebu que faziam, dificultando o descanso da maioria já instalada.

O corneteiro do Ceá às cinco da matina em ponto tocou a alvorada anunciando a todos à inauguração de mais um longo semestre. As mesmas sacanagens com a propaganda do café Cocaio na jovem Li, aquele fala-fala habitual, enfim aquela zorra de sempre, da qual todos já sentíamos falta. Todos nós, incluindo os mais lerdos e enrolados, já estávamos adestrados para aqueles quinze minutinhos, o tempo gentilmente disponibilizado pela Escola para que o aluno fizesse tudo o que era preciso, ao cabo dos quais nenhum de nós, nenhum aluno mesmo, deveria estar ainda no interior dos respectivos alojamentos na tentativa de prolongar o sono, ou por causa dele. O aluno de dia não esperava ninguém, o sargento de dia, muito menos, e ninguém estava disposto a inaugurar o semestre com o seu nome na lista do sargento, que, após fazer o primeiro filtro nas razões – se houvesse uma, claro –, a levaria diretamente à mesa do comandante da esquadrilha. Daí para ficar famoso com aquele sermão interminável da sexta, que costuma dar o Sapão, numa espécie de exibição, não era coisa difícil.

Começava pra valer mais um semestre no Ceá

Entre nós já havia, não se sabendo por quem e de que forma, chegado a notícia da morte da moça. Boa parte dos rapazes tinha lá sua versão para o crime, sendo que a especulação da maioria tendia para crime sexual, desses que somente a gente vê na tevê e nos jornais sanguinários. Chegava a ser inimaginável que uma tragédia dessas viesse a acontecer tão perto da gente, ali na zona de lançamento de paraquedistas. Já no rancho, alguém chegou com um bizu de um briga no bar da Portuguesa, sem maiores consequências a não ser o prejuízo material pois a proprietária havia se queixado à polícia de algumas cadeiras quebradas pelos desordeiros. A vida seguia o seu curso indiferente aos dramas de cada um.

Logo identifiquei as matérias em que duas ou três leituras seriam suficientes para deixar um aluno mediano preparado para as provas, as em que havia necessidade de um esforço mais prolongado, e aquelas em que, além disso tudo, era também obrigatória atenção redobrada às explicações do instrutor. Eletricidade Básica, por exemplo, era uma que se enquadrava nesta última classificação. A dificuldade aumentava no caso em razão da qualidade do instrutor, um segundo sargento gordo e baixote. O homem devia saber bastante da área, porém a sua qualidade em transmitir conhecimentos não era das melhores, e até aos alunos de mais luzes era, por vezes, incompreensível de início este ou aquele conceito ou princípio.
– Sargento, eu não entendi esse item. O senhor poderia repetir? – indaguei, levantando o braço direito, da forma como fora instruído.
– O que, exatamente, você não entendeu, aluno?
Disse-lho.
– Então, presta atenção, que é só dessa vez.
Dá pra acreditar que simplesmente o sargento gordo apagou o escrito no quadro verde e, em seguida, reescreveu tudo, não complementando com uma só palavra explicativa? Assim ficava difícil.

– Valeu, meu bom sargento! Muito, muitíssimo agradecido. – não resisti à ironia.
Numa tarde dessa mesma semana tínhamos uma aula prática de instrução militar a cargo do Caveirinha. Chegando ele em sua bicicleta velha, deixou-a, como de costume, atrás do prédio. Seguiu-se uma longa instrução com armamento de instrução, o velho e surrado mosquetão da primeira guerra, finda a tortura os alunos subiram a fim de trocar de uniforme para a próxima instrução, que seria de educação física.
Não demorou dois minutos, e o velho sargento entrava no alojamento. O bigode parecia mais volumoso que antes, pelo movimento da respiração – o homem bufava como um touro na arena –, acentuado por aquela velha cara chupada e vermelha, um vermelho assim de quem tomou todas no final de semana. Caveirinha bufava de raiva, suando mais que tampa de chaleira velha e tremendo mais que vara verde.
– Quero saber quem foi o responsável?!
– O que aconteceu, sargento? – era o aluno xerife quem perguntava.
– Ainda tem coragem de perguntar, aluno?! Com essa cara cínica, você sabe bem o que houve. Vocês todos sabem bem o que aconteceu.
Dizendo assim, saiu ao saguão e trouxe a bicicleta, que estava simplesmente retorcida, irreconhecível, quebrada, amassada, chutada… O sargento continuou a xingação.
– Isso é coisa de quem não tem caráter, mais que isso, coisa de quem é bandido, bandido mesmo, desses com foto nos jornais e tudo. Quero saber quem foi o corno que fez isso!
– …
A turma fazia um silêncio sepulcral, e a maioria, desconhecendo o autor da façanha, se olhava com cara de interrogação, já até se sentido mal com aquela cena. O sargento falou por mais cinco minutos, pelo menos. Era em vão ninguém diria, mesmo se soubéssemos quem houvera feito aquela arte, que até a nós mesmos deixara sensibilizados. Quando ele saía, pronto para levar o caso ao comandante do Ceá, se preciso fosse até mesmo ao próprio comandante da Escola, como ele apregoava com sua voz estridente, o aluno xerife manifestou-se. Afinal, não era essa a ideia.
– Sargento, não precisa nada disso.
– …?
– O senhor já vai entender tudo. Rochinha, é hora de trazer aqui o objeto combinado. – falou ao colega que estava a seu lado.
Rochinha trouxe apresentou, para espanto da maioria, que ignorava totalmente o pacto, e também do próprio Cunha Pinto, um bicicleta novinha, zerada, lustrada, aquele cheirinho de nova, e que até em plástico da loja ainda estava. O que se viu foi um homem desmanchado em lágrimas, totalmente desarmado da cólera que amedrontava apenas um minuto antes, sem graça e sorrisos amarelos. Foi só abraço e pedido de mil perdões, dizendo que não era preciso nada daquilo, mas ao mesmo tempo estimando aquele regalo inesperado. O episódio serviu para mostrar a todos a outra face, oculta para boa parte da turma, de um homem, que, antes do excelente profissional que era, detinha por trás daqueles feições severas um grande coração.

A surpresa havia sido ideia do sargenteante, ainda no final do semestre anterior, em colaboração com cinco dos alunos da nosso prédio, nem um a mais que isso. De forma que tudo ficou em segredo durante as férias escolares, vindo a cabo justamente nesse dia, que era dia de aniversário do Caveirinha.

Assim ia, de sangue, suor e lágrimas, vivendo aquele Corpo de Alunos, tornando aqueles dois anos menos duros. A vida seria muito chata sem as peças que ela nos prega.
O início da semana seguinte surpreendeu-nos com um fato que chocou a todos.
Continua… 

COMO não podemos mudar a realidade, deixe-nos mudar os olhos com os quais a vemos”  Nikos Kazantzakis
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 07out.2011)
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