HISTÓRIA de luta: o que era um peido pra quem já estava cagado?

Capítulo 18, continuação da postagem anterior.

FIZ a meia-volta regulamentar e rompi marcha, como um bom soldado. Estava na verdade quase um, literalmente. Dei dois passos e, levantando a cabeça vi um oficial, que acompanhava o comandante da Escola. Chamou-me:
– Ei, você, aluno!
– Sim, capitão – corri a até dois passos dele, conforme era o previsto.
– Começa a empurrar o planeta!
– … (??)
– Não entendeu, né, aluno. Raciocínio lento, hein!?
– Sim, entendi. Claro.
Pus as mãos no solo e paguei as flexões contando em voz alta.
– Um, dois, três… dez…
– De pé! Um, dois!!
– Três, quatro!
– Vou anotar teu nome e número. Agora, vou quebrar teu galho. Deixarei que descanse os braços, então paga pulinhos de galo porque essa tua águia tá mais parecendo um urubu.
– Sim, senhor.
– De pé. Se a tua vida já tava complicada, agora que vai complicar de vez. E agora, some da minha frente, sai conforme o regulamento para se retirar da presença de um superior hierárquico. Vá até o Ceá correndo. Correndo sem olhar para trás.
Ele não precisa dizer nada, eu entendia o porquê. Tinha ferido uma grave regra que era a de não falar ao comandante sem que fosse autorizado, além do mais tinha esquecido de polir a fivela que estava já negra.
O comandante da Escola
FUI DO hospital até o Ceá correndo, sem parar nem olhar para trás, cumprindo à risca o que o oficial mandara. Que merda eu fiz, e agora? E se o brigadeiro mandar me prender e me expulsar? Já era o meu plano B, que é o de ficar na Escola como soldado. Cheguei quase morto na esquadrilha. Mas se fosse só o castigo físico, tudo bem, fichinha mesmo no sol inclemente de verão às 11 da manhã . As instruções do Caveirinha já haviam me calejado. O que era um peido pra quem já tava cagado?! O pior viria a ser se, além de nada conseguir da autoridade, ainda por cima fosse punido por ter ido falar com o comandante sem a devida autorização. Aí tava tudo perdido realmente, e nem o plano B me restaria.  Era pegar as malas e voltar para Belém amargando a derrota.
Na estrada, o oficial passou de automóvel por mim, certificando-se de que realmente eu cumpria suas ordens.
Cheguei, tomei banho e mudei de farda. Acabei de fazer as malas, tirando os últimos objetos que ainda restavam no armário, e colocando-os num saco plástico. À tarde mudaria para meu novo alojamento, apresentando-me ao comandante da companhia.
– Aluno Quinze Setequatro!
Era o sargento quem chamava. Ou era para cobrar o atraso na minha mudança ou, pior, seria para ouvir-me quanto à audiência sem ordem com sua excelência.
Não era nem uma coisa nem outra.
– Desfaz essa mala!
– Como disse, sargento?
-Você é surdo? Desfaz a mala – e abrindo um sorriso largo – o comandante reconsiderou o seu desligamento, achando justa a sua reivindicação. Você não será desligado do curso.
Fiquei por um instante sem palavras. Só esperava a decisão no dia seguinte, além de imaginar que a decisão seria a pior possível. Corri e dei-lhe um abraço. Tinha vencido afinal. Continuaria no Ceá, e me formaria sargento.
Rumei até o Rio de Janeiro, onde tentaria apanhar uma carona numa aeronave da Força Aérea. Sem dinheiro para deslocar-me até Belém para as férias, essa era a solução encontrada. Foi o que eu fiz.
Em casa foi só alegria e muitas novidades pra contar à família, aos amigos, aos vizinhos e todos quantos perguntassem. Tudo novidade, tudo empolgação.

Acontecimento mesmo era quando tinha de ir ao quegê da primeira zona para fazer a apresentação regulamentar. Ia de quinto, e não tinha quem não olhasse.

Pena que aquelas férias tão boas logo terminaram.
Voltei à Guará mais cedo, uma semana antes, pois era a data do avião para o Rio de Janeiro. O Ceá e a Escola me esperavam para um segundo semestre. Desta vez, porém, eu estava pronto para eles.
Continua… 

AQUELES que se aplicam muito minuciosamente a coisas pequenas, frequentemente são incapazes de coisas grandes.”  François de La Rochefoucauld
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!
(BLOGUE do Valentim em 01out.2011)
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