HISTÓRIA de luta: fui reprovado

 Capítulo 17, continuação da postagem anterior.
OS ALUNOS, em sua maioria absoluta, já tinham viajado de férias para suas cidades de origem, curtindo merecido descanso e lazer no aconchego de seus lares, junto a seus familiares, amigos, namorada. Entretanto, nós, que ficamos de prova final e de segunda época, ainda povoávamos, contra a nossa vontade, o outrora movimentado e fervilhante Ceá. Era um clima melancólico aquele mundão de Escola sem a presença em peso da alunada. Nas feições dos que ficaram se notava nitidamente a preocupação com a própria sorte. Voltariam à Escola no semestre seguinte? Embora esperançados, ninguém de nós tinha certeza absoluta disso.
Na sexta anterior foi a formatura do pessoal da quarta série. Foi bonito ver o aluno zero, já como sargento, passando o estandarte para o aluno zero um da turma anterior. No final, o fora-de-forma e todos jogavam o quepe para o alto, festejando a vitória suada. Apesar das motivações do professor, eu, pelo meu drama particular, ainda não conseguia me visualizar ali, de branco, formando-me terceiro-sargento da Força Aérea.
Ao final todos jogavam o quepe para o alto
Veio a notícia por alguém de que a próxima turma, que iniciaria no primeiro semestre de 1978, inauguraria um novo sistema, pois a Aeronáutica resolvera mudar muita coisa no ensino que preparava o futuro sargento especialista. Já não seriam mais dois semestres de ensino básico, e no segundo o aluno já entraria na parte especializada. Melhor para eles, com mais tempo de aprendizagem no que interessaria de fato. Com essa mudança algumas matérias foram abolidas, e outras inseridas no currículo. Quebrava-se assim um paradigma do modelo adotado pela Aeronáutica desde a sua fundação, em que copiou as nomenclaturas da Marinha. Nossa turma, a turma número 171, seria a última desse velho modelo.
Em Matemática consegui aprovação, arrastado mas consegui. O que eu não contava era que a aparentemente tranquila Tebê me levaria à segunda época, a última, a derradeira oportunidade. Não logrando aprovação, seria o pé na bunda, e a companhia igê aguardava-me sem ao menos o direito às férias escolares. Tal situação deixou-me profundamente inseguro, estava pela bola sete. Preocupei-me com a tal Matemática e dei mole para a Tebê, matéria em que dava por certa a aprovação.
A tal tebê era uma matéria atípica, composta de duas partes, uma teórica e outra prática. A parte prática compunha-se de trabalhar na oficina uma peça de metal, deixando-a nas medidas pré-estabelecidas de um desenho. Não tinha a mínima habilidade com aqueles materiais, e isso, somado à parte teórica, me levou àquele estado nada animador.
Fui chamado ao comando da esquadrilha. O sargento, acompanhado de um psicólogo, me dera a má notícia, notícia esta que já aguardava resignado. Se não tivesse levado uma punição de repreensão quando da minha baixa ao hospital pela bebedeira, tinha ainda uma pequena esperança que seria o abono do comandante da Escola. Mas, como a ficha já não era mais virgem, nada feito.
 Procurei naquela noite dormir mais cedo para não pensar muito naquela situação. Ademais, nada mais tinha a estudar. Tudo estava consumado. Na manhã seguinte desocuparia o armário e migraria para juntar-me aos meus novos companheiros de farda. Durante a noite tive vários sonhos, dos quais nem lembrava nitidamente, porém um deles lembrava perfeitamente: eu entrava novamente no Ceá na próxima turma. O comentário mais frequente entre os novos alunos era justamente sobre o período mais curto do ensino básico, aumentando os semestres destinados à parte especializada. Todo mundo estava feliz com isso, pois o ensino básico era o grande terror.
Acordei com esse sonho na cabeça, e cheguei a comentar a um colega próximo, que ali estava ainda por ser nesse dia a sua prova de segunda chance.  Perguntou-me o que me abatia.
– Que ironia, né Quinze! O pessoal da próxima turma não vai encarar essa matéria chata, que não serve pra nada.
– Pra mim, ela serviu. Serviu pra me transferir para a companhia igê.
– Mas… peraí.
– Que houve?
– Raciocina comigo. Se essa matéria não vai ter na próxima turma, então por que você tá sendo reprovado?
– É o regulamento, vão dizer.
– Quinze, veja bem. E se você for ao comandante da Escola?
– Duvido que deixem.
– O que é que você tem a perder? Reprovado você já foi. No que pode piorar?
– Pensando assim, você tem razão. Mas, …
– Mas o quê?
– Tímido como eu sou. Desajeitado…
– Você não tem mais nada a perder, repito. Ache coragem, vença tudo.
Deitei um pouco naquela cama de campanha e quedei-me em mil pensamentos e conjecturas. O colega tinha razão. Se a matéria não iria ajudar os sargentos que formassem nas próximas turmas, como seria fundamental para a minha turma? Era uma incoerência do sistema. Mas como chegar ao chefão? E se ele nem me recebesse? E se da minha boca nenhuma palavra saísse? E se não me deixassem chegar a ele? Ele, do alto de seu cargo, pelo menos me ouviria?
Resolvi que tinha de fazer algo concreto em vez de apenas ficar conjecturando inutilmente. Fui à luta.
Cheguei próximo ao prédio do comando onde sua excelência dava expediente e parei. Não tinha pedido autorização a ninguém. E nem adiantava, pois não iam me dar mesmo. Resolvi seguir; era a última cartada. Na ante-sala, conversei com a secretária, resumindo-lhe o meu drama. Ela ficou com dó de mim e decidiu me ajudar. O chefe, que recebia visita de uma autoridade, dera ordens expressas de não ser interrompido. Diante disso ela mesma não podia deixar-me falar com ele, porque era necessário estar agendado. Ora, se nem autorizado estava, quanto mais agendado. Já ia saindo, quando ela chamou-me assim numa atitude de conspiração, no corredor, olhando para um lado e outro, e, após certificar-se de que ninguém nos escutava, disse-me em voz baixa, quase sussurrada e ao pé do ouvido, que o brigadeiro tinha, em meia hora, um compromisso na Divisão de Saúde, setor da Escola que ele costumava inspecionar naquele dia da semana. Esse era o dia. Tudo o que eu tinha a fazer era ficar lá aguardando o momento oportuno.
O prédio ficava dali a quase dois mil metros. Rumei para lá, chegando todo molhado de suor. A minha coragem foi aparecendo enquanto caminhava, de modo que ao chegar não tinha como deixar a oportunidade passar. Ele me ouviria, ainda que eu saísse de lá numa viatura, algemado e fosse direto a uma cela. Ia calculando as palavras que diria à autoridade. Ensaiava uma frase, depois a corrigia. Assim não, assim ele não vai compreender; tenho de ser mais direto, tenho de usar outro verbo. Sim, era assim mesmo, seriam essas as palavras que eu iria dizer ao comandante. O máximo que ele poderia me dizer era ‘não’. Mas se ele dissesse ‘sim’, tudo estaria resolvido e o arataca continuaria no Ceá, e o grande sonho continuava. Era a grande a minha esperança de ele relevar a minha reprovação, abonando a minha permanência no curso. Ele passava nessa hora, e esperei que  se afastasse um pouco dos presentes. Sim, afastou-se um pouco. Era a minha hora.
– Excelência!
A autoridade máxima olhou-me da cabeça aos pés, fazendo questão de mostrar sua superioridade ante aquele aluno baixinho, mirrado e ainda por cima todo desalinhado pela ação do suor da longa caminhada, que eu intercalara com alguns trotes.
– O que deseja, aluno?
– Sou o aluno Quinze Setequatro, excelência!
– Vá adiante. Eu não tenho o dia todo.
– Fui reprovado em Tebê, brigadeiro.
– Como?
– Tebê, Tecnologia Básica, senhor.
– E eu com isso? Azar o seu.
– É que essa matéria foi abolida, senhor. Não vai fazer parte do currículo das próximas turmas.
– Aluno, lei é lei. A lei deve ser cumprida. Nunca ouviu falar? Vá embora e não me incomode mais.
– Sim, senhor, mas, veja bem, excelência, se o sargento que vai se formar na turma posterior à minha não precisa dela para exercer a sua atividade, como exigir que essa matéria, que não existirá mais, seja o fator preponderante para a reprovação ou aprovação de um aluno da minha turma?  Os sargentos das próximas turmas serão menos qualificados que os de antes?
Nunca, na minha vida, fui tão prolixo. Por uma fração de segundo, notei algo diferente no semblante daquele homem, algo como uma interrogação, dúvida…
– Vá, aluno.
– Permissão para me retirar, excelência!
– Concedida.
Continua… 

APRECIE as pequenas coisas, pois um dia você pode olhar para trás e perceber que elas eram grandes coisas”.  Robert Brault
LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo! (BLOGUE do Valentim em 30set.2011)
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