HISTÓRIA de luta: nada pode ser tão ruim que não possa piorar

Capítulo 15, continuação da postagem anterior
VOCÊ aí,  de cabeça baixa, venha aqui na frente!
Olhei rapidamente para o colega de trás.
– É você mesmo, que olhou pra trás agora!
Era comigo.  Fiquei surpreso e um pouco nervoso com a exposição repentina. Logo eu, um cara tão tímido.
– Pois não, professor.
– Fique aqui, de frente para a turma. Você será o meu exemplo de hoje. – e dirigindo-se à turma – Vejam só há pouco mais de dois meses este rapaz chegou aqui. Era bem magrinho, e vejam como está agora!
Os rapazes me olhavam. Uns com cara de riso; outros com jeito de admiração; a maioria, porém, quedava-se indiferente, já farta daquele discurso. Na minha cabeça os que tinham cara de riso é porque já sabiam da minha agonia, pois, como é do conhecimento da alunada, no Ceá o bizu corria solto.
– É assim que vocês devem ser. – continuou. – Não devem se conformar. O jovem aqui é um desses guerreiros, vitoriosos. Ele não estava conformado com o seu corpo franzino de antes, e assim decidiu que deveria ganhar mais massa muscular, como aumento da auto-estima, valorizando-se. Eu mesmo o vejo quase todos os dias  em direção à sala de musculação.
À medida que falava o mestre, eu instintivamente ia prendendo o ar de forma que a caixa toráxica se acentuava. Tinha gente lá atrás sorrindo daquela presepada, mas o fazia inconscientemente; era um gesto automático à proporção de que o professor falava; o ego inflado literalmente.  De fato, a minha chegada à Escola coincidira com a inauguração daquela sala que o mestre citava, dotada de novos e modernos equipamentos.
– Observem-no. É visível o progresso muscular deste aluno. Que ele sirva de modelo para a maioria de vocês.
Em seguida, ele mandou liberar a turma e todos foram aos seus destinos, conforme a prioridade que cada um tinha em mente.
Vejam como é irônica a vida. O mestre me apanhou num momento em que eu me achava o pior dos viventes, ali ufruindo dum ambiente do qual não me considerava merecedor, pois não me considerava à altura da grande maioria. Suas palavras me deram um ânimo suplementar, uma espécie de sobrevida, uma reserva extra de oxigênio, deixando-me ali naqueles minutos como um vitorioso, um bom exemplo a todos, de forma que as angústias ficavam de lado por algum tempo.  É verdade, quanto ao meu progresso físico, isto era notório e até, a bem da verdade, vaidosamente, olhava-me no espelho quase todos os dias admirado com os bíceps, os tríceps e outros músculos refletidos, cujos nomes eu desconhecia, e que se destacavam na minha figura. Quem te viu, quem te vê! Aquela boas-vindas do Martins, chamando-me de raquítico, mexeu com os meus brios e, para suprir tal deficiência, passei a frequentar a sala de musculação recém-inaugurada. O boi-ralado, o feijão e o brochante também ajudavam muito. Às vezes é necessário mexerem com os nossos brios, pensei depois. O fato é que aquelas palavras me alimentaram até o dia seguinte, fazendo-me esquecer um pouco do fiasco na Matemática. Desconfio até que ele fez aquilo de caso pensado, já informado do ocorrido comigo. Quem sabe alguma alma boa não lhe teria dado notícia sobre o meu problema?
Naquela mesma tarde, entre o final da instrução e o horário do jantar, estava lá na sala de musculação novamente o Quinze Setequatro em companhia de outros alunos e mesmo de alguns sargentos que eram assíduos no manejo daqueles ferros e aparelhos.
– Aí, hem Quinze?! Ganhou o dia, né?
Era o Almeida Silva, também ele um assíduo fisiculturista, que me falava. Se ele soubesse das condições deploráveis em que estava a minha cabeça minutos antes de o professor me chamar ali na frente de todos, certamente evitaria o comentário irônico.
– Sabe, Almeida. Na verdade estou passando por um problema sério. Hoje… (contei-lhe do meu drama na prova de Matemática, e depois a conversa com o sargento J. Silva e tudo o mais).
– Seja forte, Quinze. Eu, na verdade, já sabia disso. Sabe como o bizu corre rápido aqui pelo Ceá, né. Falei assim pra te levantar um pouquinho o astral.
– Obrigado.
Indíviduo enigmático esse Almeida, ambíguo seria a palavra mais adequada para defini-lo. Um cara de um físico invejável, praticava musculação durante a semana, mas fumava e nos finais de semana bebia bastante. Não levava uma vida coerente com a atividade física que praticava da segunda à quinta. No entanto, ali se mostrava um grande ser humano. Outra vez, logo que cheguei, ele me ajudou quando da minha primeira vez de aluno plantão. Quinze, quando o aluno rondante chegar, você se apresenta a ele. Diz assim: ‘aluno quinze sete quatro se apresenta, serviço sem alteração’. Diz assim e leva a mão à pala, fazendo a continência. Até hoje lembro disso. Pobre Almeida! Não há neste mundo alguém totalmente ruim que não tenha alguma virtude, tampouco um bom que não tenha defeitos e fraquezas. Não conseguiu se formar. Mas essa é outra história a ser contada em algum capítulo futuro.
Saiu o resultado. Minha nota: 3,33, uma dízima periódica simples.
– Aluno Quinze Setequatro!
– Quinze Setequatro em forma!
– O comandante da esquadrilha quer falar com você.
Era o xerife quem me informava. Corri até lá. Quando cheguei também já estavam lá mais dois companheiros.
– Tenho aqui o resultado da prova de Matemática. A nota de vocês foi simplesmente péssima. Quero dizer uma coisa a vocês: continuando assim vocês certamente serão desligados. Não é que eu queira, é porque é assim mesmo. Vocês são um zero-a-esquerda, uns Zé Ninguém. Como pode? Não estão fazendo por onde justificar o esforço que nós, que  o Governo do Brasil, a Aeronáutica, a Escola estão fazendo por vocês. Vocês sabem quanto custa a manutenção de um aluno nesta Escola?
– …
Mesmo que quiséssemos, nada conseguiríamos dizer naquele momento. O homem elevava o tom de voz a cada palavra. O pessoal do lado de fora, mesmo que não quisesse, ouvia toda a bronca, todo aquele sermão que ele nos passava.
– Vocês custam uma fortuna para a Nação. Imagine a comida, as peças de uniforme, as viaturas, a manutenção dos prédios, os professores e funcionários, os militares, o salário de toda essa gente, as apostilas, toda essa estrutura…
Senti uma lágrima descer. Olhei de soslaio para os dois meus companheiros e um deles estava vermelho e o outro suava frio.
– Agora me façam um favor: saiam da minha frente, seus inúteis!
Embora cabisbaixos, sentimo-nos aliviados por ele nos ter liberado, tamanha a tortura psicológica e moral a que nos submetera o comandante. Era como o escravo que levava cem chicotadas e agradecia ao feitor por ter dado somente oitenta.
Enquanto ele falava, pensava de mim para mim: ‘… pois bem, ele pensa que eu tô derrotado. Não tô não, vou me esforçar e vencer tudo isso, a Matemática, o Caveirinha, o boi-ralado, tudo… vou provar pra mim mesmo que não sou tão ruim assim…’
Tão logo saí, o Martinelli chamava à parte. Ofereceu-se para me orientar nos assuntos de Álgebra, pois essa na realidade era a minha maior dificuldade.
Nenhuma derrota é definitiva. É vida que segue.
Continua… 

A VIDA tem sido comparada a uma corrida, mas esta alusão se aperfeiçoa se observarmos que os mais rápidos normalmente são os menos obedientes e os mais prováveis de perderem a direção”.  Oliver Goldsmith
AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado. (BLOGUE do Valentim, Dois Vizinhos – PR, em 27set.2011)

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