HISTÓRIA de luta: o pesadelo continua

 Capítulo 14, continuação da postagem anterior.

COMO acontecia sempre quando eu não fazia boa prova, evitei a rodinha que a turma sempre fazia ao término dos testes. Dessa vez foi por outra razão. É que eu saí com a ilusão de ter feito a nota mínima de seis. Todavia, é claro, não estava com plena convicção disso, daí não ter parado para discutir as questões pelo medo de desiludir-me, e assim baixar a minha auto-estima.
Passei por um grupo de sargentos que conversavam.
É fácil. Bastava culpar algum aluno – dizia um deles. Coisa sórdida isso – indignava-se um outro.  Mas é o que vem ocorrendo – confirmava um terceiro.
Foi somente o que pude ouvir, sem saber do que se tratava. Dois deles sabia que eram do Ceá; e um outro, para mim um desconhecido. Paciência, nenhuma importância a dar, cada um com seus próprios problemas. O aluno da conversa com o seu; eu, que nada tinha a ver com essa história, com a tal da prova de Matemática. Fui adiante, numa mistura de alivio e preocupação com o resultado da prova. Quando era assim evitava naturalmente falar com qualquer que fosse, só o fazendo depois de algum tempo decorrido, meia hora pelo menos. Era o tempo dos nervos se acalmarem e da cabeça esfriar.
No entanto foi inevitável uma conversa que tive com o sargento J. Silva, um de nossos instrutores. Ele me parou quando chegava próximo à cantina do portuga, chamando-me à parte.
– Como foi de prova, Quinze Setequatro?
– Mais ou menos.
– Mais para mais… ou mais para menos?
Não tive outro jeito senão contar-lhe toda aquela estratégia que tracei na elaboração da prova, inclusive sobre a dedução que tive sobre a distribuição das respostas, e assim pude constatar que faltavam letras ‘D’ nas minhas respostas, completando com essa alternativa as questões em branco.  Falava com a empolgação de quem tinha descoberto a pólvora, louvando meu talento em burlar a equipe de avaliação. No íntimo, não tinha a mínima convicção de acerto, mas era importante para mim manter aquele ar de vitória.
– Santa ingenuidade, Quinze! – deixou escapar em voz alta o sargento, não se importando com o efeito psicológico que essa expressão poderia causar  em mim.
– Mas…
Fiquei com vergonha dos outros alunos que estavam próximos, alguns que até pararam para escutar somente por mera curiosidade, e dos outros circunstantes, que eventualmente ouviam o desabafo do sargento J. Silva. Naturalmente alguns ficaram com pena de mim, e outros seguiam seu caminho pensando nos próprios problemas.
– Mas, mas… não tem mais nenhum, Quinze. Eu conheço a equipe de avaliação. Eles também conhecem o aluno, são muito experientes. Então você acha que eles iriam distribuir assim, matematicamente, as respostas da prova?
– …
Estava aturdido demais com a reação dele para responder. Ele mostrava-me que o rei estava nu, abrindo-me os olhos para o quanto eu fora simplista, o quanto fora inocente, supondo que teria de ser assim da forma como ‘inteligentemente’ imaginava.
– E depois, Quinze, – continuou ele um pouco mais calmo – mesmo que fosse assim como você, ‘brilhantemente’, pensou. Você disse que deixou de resolver quinze questões…
– Isso mesmo – respondi já resignado.
– Quem lhe garante a sequência certa das questões com as respostas ‘D’? Quem garante que a próxima que você marcou ‘D’ não era mais uma ‘C’, ‘B’ ou ‘A’? E a outra questão seguinte? E todas as outras?
– É, sargento, o senhor tem razão. Pisei na bola.
– E pisou feio, meu jovem. A menos que você seja um cara muito sortudo, e se for assim, marque um volante da loteria esportiva pra mim, que a gente racha o prêmio.  Rodrigues! Rodrigues! Ouça isto.
Agravando a minha situação já bastante desconfortável, e não ligando a mínima para o politicamente correto (essa expressão nem existia na época), acenou para um suboficial que saía do banco no momento.
– É, filho, você bancou o tolo – disse-me o suboficial em meio a sorriso como forma de aliviar o tom de censura das palavras.
Seguiram em direção ao prédio do comando, deixando-me ali sozinho com o meu problema. Fiquei arrasado, bem mais arrasado que antes da prova, pois, bem ou mal, tinha a esperança de conseguir vencer aquele terrível obstáculo. Ao concluí-la, estava já quase que totalmente convencido do êxito; agora, toda a fantasia estava revelada. Vieram-me à mente a cervejada da sexta, o pesadelo, a chacota da turma, o hospital, e agora, por último, a fatídica prova com aquela ideia genial. Como fui tonto! Teria sido melhor deixado aquelas questões sem resposta. Cintinuei o caminho de cabeça baixa, sem coragem de enfrentar os colegas, ou quando, levado a responder a alguma saudação de um ou de outro, o fazia sem encará-los, no temor de que minhas feições me revelassem o fracasso.
Na educação física da tarde corria sem ânimo, de forma que somente o corpo estava ali, a mente distante. Era o fantasma do desligamento que insistia em atormentar-me. Passamos em frente à companhia igê e vi alguns soldados conversando, alguns outros com uniforme de serviço, e um deles que fazia faxina, limpando o hall do alojamento. Seriam meus futuros companheiros? Talvez, mas assim ainda seria melhor do que voltar para casa. Não, isso não; voltar para casa é que não iria. Se fosse necessário, ficaria na Escola na condição de soldado, com a esperança de retornar ao Ceá.  Pensava assim e já me imaginava ali na companhia igê, de essedois, a abreviatura de soldado de segunda classe.
Dessa vez o guia não era o Brito Souza e sim um estagiário peruano, que puxava em seu idioma um grito de guerra.
Ja ja ja ja! 
Me muero de risa! 
Con ese trotezito tan tranquilo.
Señor comandante, 
Vamos a la guerra…
A educação física me fazia bem
Normalmente faziam-me bem as cantarolas e os gritos de guerra, aos quais eu respondia a plenos pulmões, dando-me mais moral à corrida. Naquela, porém, nenhum efeito benéfico me causava ao espírito. A cabeça, me pesando uns duzentos quilos, estava lá ainda naquela bendita prova de matemática e, principalmente, nas consequências vindouras decorrente dessa derrota. Chegamos ao ponto final da corrida, que era o estádio, onde o professor voltaria, antes de nos liberar, ao discurso costumeiro, o tal discurso motivador.
Escutem, alunos! Vocês não devem entregar os pontos. Têm de ser otimistas… fortes. Pode aquele que pensa que pode. Se você já entrar em campo pensando que vai perder, certamente vai perder…
Isso era comigo, pensava com meus botões. Será que ele já sabe?
Continua… 

A MAIORIA  das pessoas está ligada a um tempo anterior, mas você deve estar vivo em nosso próprio tempo.” Marshall McLuhan
AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado. (BLOGUE do Valentim em 24set.2011)
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