HISTÓRIA de luta: o Caveirinha

 Capítulo 10, continuação da postagem anterior.
Parte da minha turma antes de uma formatura geral

 

ESSA primeira avaliação, a prova de Cegeá, deu-me ânimo novo, fazendo-me mais animado para as batalhas vindouras. A da terça era a de Português, matéria em que não sentia grandes dificuldades; ao contrário, sem falsa modéstia, me julgava acima da média. Já estava me achando, como se diz hoje, o tal. Diante disso, não me empenhei tanto, limitando-me a rever alguns pontos, com ênfase para ortografia, item em que ainda me sentia fraco aqui e ali. Das sete às dez, fiquei no cassino, e depois de algumas cepadas leves, fui ver televisão. Como de hábito, ausentei-me de lá somente para ir ao brochante, depois retornando. Não precisei da meia-noite às cinco da manhã, período que dediquei ao merecido repouso.

Quatro grupos formavam em frente ao rancho. O sargento que estava lá, na hora, era o Caveirinha, também conhecido por Cunha Pinto. O Catarina, aluno mais antigo, pôs o pessoal da primeira série em formação, apresentando-a pronta a um aluno de quarta série, que estava encarregado de manter a moçada em ordem. Como sempre, primeiro a quarta série, depois a terceira, a segunda, e, por último, a primeira série; ou seja a primeira por último, e a última por primeiro. Antiguidade é posto e não se discute.

– Aluno, vai lá e apresenta a primeira série ao sargento Caveirinha. – Era o quarta-série ordenado ao primeira.
– Sim, senhor aluno. – falou o Catarina com seu sotaque forte de gaúcho.

Com a turma em posição de sentido, lá vai o nosso colega Dorival, um catarinense de origem italiana, mas que na verdade era gaúcho. Uma figuraça, a quem os mais irreverentes não davam trégua, fazendo a rapaziada morrer de rir quando imitavam com algum exagero o modo peculiar de falar do sulista.

– Com licença, sargento Caveirinha! – era o nosso amigo, enfrentando a fera, num tom de voz que dava para toda a turma escutar sem dificuldades, dando ênfase para o sotaque inconfundível. – Aluno 77 1351 Dorival apresenta a primeira série em forma, pronta para o brochante! – concluiu a apresentação reforçando bem os erres na pronúncia agauchada.

E o Caveirinha, sério, com aquela cara de poucos amigos, magra, de genipapo velho, com realce para o enorme bigode, como que pensando no que responderia ao bicharal, ainda se demorou por uns segundos para a resposta.

– Aluno! Em primeiro lugar, esta refeição não se chama ‘brochante’, e sim ‘ceia’! Em segundo lugar, seu mucuim do cocô do cavalo do bandido,… CAVEIRINHA É A PUTA QUE TE PARIU!!!

Creio que, não só o Ceá, mas toda a Escola ouviu o berro do sargento Cunha Pinto. Pobre Catarina! Quase desmaiou, não sabendo onde enfiava a cara. A turma, como era de se esperar, foi às gargalhadas. Esse inusitado episódio foi assunto para quase uma semana, e até hoje é lembrado quando a turma se reúne. Trote daquele quarta-série, que eu, até hoje, penso que foi tudo combinado previamente com o temível sargento Cunha Pinto, a quem ninguém em sã consciência teria a coragem de desacatar, a não ser por absoluta inocência, como foi o caso do amigo Dorival.

Com efeito, inocentemente, também eu e uma grande parcela dos primeira-série pensávamos que o nome da quarta refeição do dia, aquele lanche das oito e meia da noite, era assim mesmo: brochante. A ceia, normalmente composta por um pão de cachorro-quente e mate gelado, ganhou esse apelido em razão do boato de que misturavam algum remédio para deixar os alunos – a maioria entre os 16 e 20 anos – menos agitados, com os hormônios sob controle. Se era verídico ou boataria, disso até hoje eu não sei. Mas, indiferente a esse pormenor, eu mesmo não perdia um brochante, e ainda voltava à fila, repetindo mais de uma vez.

Quanto ao apelido do velho Cunha Pinto, não haveria outra  mais apropriada ao seu perfil. Devia-se, claro, à sua figura de homem magro, cabeça desproporcional ao corpo, rosto chupado; tudo isso, somado àquele bigodão,  bem lembrava uma caveira dos filmes de humor negro ou de piratas do século 17. Chegando ao pátio do Ceá montado numa bicicleta velha, que deixava sempre atrás do nosso prédio, era ele quem dava instrução de ordem unida à nossa turma, fazendo-nos inpiedosamente marchar sob sol, chuva ou vento frio, por aquele pátio, tendo ao braço direito um mosquetão pesado. Sem dó nem piedade. Pobre de nós! De início, o braço sustentava tranquilamente aqueles três quilos de mosquetão antigo, que a Escola conservava apenas para essa finalidade;  mas que, à medida que os minutos corriam, passavam dos três para os dez, quinze…  Ao cabo de 20 minutos, aquela geringonça dava ao aluno mais franzino (que era o meu caso) a sensação de uns trinta quilos ou mais. Caveirinha adorava quando, destoando do grupo, notava alguém assim, como eu, tímido, enrolado, desajeitado, e, ainda por cima, com dificuldade de coordenar os passos e movimentos. Era o pato da vez. Coitado de mim! Quantas vezes me mandou marchar em direção ao infinito, ao ponto de quase invadir as águas sujas da lagoa do brigadeiro, que ficava na parte de trás do pátio do Ceá. Dizem até que era chegado a uma pinga, como deixava antever seu rosto avermelhado. Todavia, no íntimo, no íntimo, era um bom sujeito, de sorte que uma parte daquela judiação toda contra o aluno poderia ser creditada ao senso profissional daquele sargento já quase cinquentão; e a outra, bem que poderia ser atribuída àquela espécie de humor negro, que tinha a intenção nítida de fazer todos rirem da desgraça de um ou de dois desavisados, que a nenhum de nós é lícito condenar. Fazia parte do escripte.

Dessa vez foi o Catarina que entrou de gaiato no trote do quarta-série, certamente em conluio com o velho Caveirinha. Para mim, não seria surpresa se essa anedota já viesse se repetindo no Ceá havia alguns anos. Sempre pegam um para bobo a fim de divertir os demais, e dessa vez pegaram o Catarina, assim como poderia ser eu ou outro qualquer. Paciência! Era assim mesmo, de modo a tornar aqueles dois anos um pouco mais suaves.

No dia seguinte, a prova de Português decorreu na mais absoluta normalidade. Pelo menos para mim, que me julgava mais bem preparado. Interessante é que para uns e outros, como o Martinelli e o Martins, para os quais matemática e outras ciências exatas não significavam problema, a língua portuguesa, ao contrário, lhes causava algum atrapalho. Martins, por exemplo, queixava-se muito, a ponto de ter, sob risco calculado, dado suas olhadelas à prova de um e de outro, que ele acreditava mais preparados na matéria.

À tarde saiu o gabarito da prova de segunda. Corri ao mural do Ceá onde normalmente o pessoal da Deí divulgava os assuntos relacionados às avaliações. Das 22 respondidas acertei 21.

– Quinze Setequatro, como foi? Era o Martinelli quem me perguntava.
– Bem, graças a Deus. Mas poderia ser melhor pois errei uma, justamente a questão 16.
– Eu, apesar de não gostar muito de matéria teórica, me dei bem.
– Quanto tirou, Martinelli?
– Nove e sessenta. Deixei uma em branco, e as demais acertei todas.
– Imagina se você gostasse de matéria teórica. Parabéns, tô vendo que você é fera mesmo. – disse, esquecendo-me da prova de português, em que talvez o colega não tivesse se saído tão bem.

Mais um compromisso riscado. Até agora tudo corria bem, e na quarta-feira seria a vez de Tebê.

Continua… 

AS PESSOAS que vencem neste mundo são as que procuram as circunstâncias de que precisam e, quando não as encontram, as criamGeorge Bernard Shaw
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.” (blogue do valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)
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