HISTÓRIA de luta: nova semana se inicia

Capítulo 8, continuação da postagem anterior.
NO SEU íntimo o arataca aqui bem sabia que o sábado e uma parte do domingo eram tempo precioso na lida com aquela dúzia de enormes apostilas que esperavam por mim, guardadas lá no meu armário.

E o domingo, em especial, prometia ser curto para aquela porrada de apostilas, tarefa maçante porém necessária nos testes que se aproximavam. Era impossível assimilar tudo por osmose, sob pena de depois vir a chorar o leite derramado, dizendo que não tive tempo suficiente para estudar. Essa explicação, no Ceá, em geral era respondida com uma pergunta bem sacaninha: ‘E o que você fazia da meia-noite às seis da manhã?’

Cuidaria com um pouco mais de profundidade o apostilão de Cegeá, procurando fixar na caixola as teorias sobre a dinâmica de vôo e tantas outras sobre os princípios elementares do avião; também mergulharia nas teorias da tecnologia básica, lendo, relendo, anotando, rabiscando os primeiros assuntos constantes da apostila de Tebê; não deixaria de fora a Língua Portuguesa, embora não me não tivesse tanta dificuldade nessa área, algo raro; passaria certamente pelos volumosos compêndios que versavam sobre os diversos regulamentos e leis, que nossos superiores julgavam imprescindível conhecermos. Ainda bem que o grande terror, o bicho-de-sete-cabeças fora deixado para a semana subsequente – a matemática, assunto que sempre me causou aversão, medo, dificuldade, cujo trato fui empurrando com a barriga por quase toda a minha vida escolar anterior. Os números, na vida, realmente nunca foram meus amigos, como o futuro veio a provar. Agora não, não tinha como evitá-la, o confronto era inevitável; era saber, nem que fosse o mínimo suficiente para camburar o ensino básico, ou fracassar no objetivo.

No momento deixaria de pensar na tal matemática, pois essa preocupação de nada me adiantava agora. Tinha de dedicar-me às disciplinas mais urgentes e teóricas, cujos testes estavam marcados para a próxima quinta e sexta-feira. Uma batalha de cada vez. Então, mergulhei nas teorias, disposto a não dar chance ao azar.

Um lugar tranquilo para os estudos se fazia necessário. Um dos meus preferidos era a capela, e quando esta fechava, dirigia-me ao campo de futebol, na arquibancada à sombra de uma árvore. ‘Filhos, a capela é o único lugar da Escola que não tem chamada’, dizia-nos sempre o capelão, o bom padre Sebastião. Essas palavras eu guardava a sério, e, além das orações, incluia as horas de estudos. Um lugar tranquilo, silêncio, paz.

Uma piscina caía bem!
Duas horas e alguns minutos, e a mente não absorvia mais nada que fosse, sendo inútil insistir, mais inútil que peito de homem. Era tempo de parar, ouvir uma música, ver televisão, quem sabe mais tarde correr ou, se permanecesse ensolarado o dia, dar uns mergulhos na piscina. À noite, voltaria aos estudos, mas desta vez não mais na capela nem no estádio. O próprio cassino dos alunos era meu lugar de estudos preferido para quando caía a noitinha.

Dois meses passados, e àquela altura já estava afeito à alimentação fornecida pela Escola, ficando mais atento aos horários das quatro refeições do dia, o café, almoço, a janta e o ‘brochante’; mesmo nos finais de semana, quando o nível da comida decaía bastante, não deixava por menos e não tinha para mim comida ruim. O boi-ralado era bastante assíduo na mesa do aluno, mas assim mesmo o bandeijão do arataca sempre ao final ficava limpo, limpinho da silva. De início, na primeira semana, não acostumado àquele boião, sofri bastante com o gosto daquela comida que era feita para mais de dois mil homens. Com a batida do dia a dia, vi que não tinha para onde correr; ainda mais sendo eu tão esmirrado; um raquítico, como disse o Martins.

Com a rotina dura do cotidiano da alunada, estudos, práticas de instrução militar, atividade física, e o famoso boi-ralado, à medida que os dias, semanas e meses se passavam, era visível o progresso da minha compleição física. Aliás, o professor de Educação Física, que nos incentivava muito, percebeu a diferença e proferiu alguns elogios à minha pessoa, até como forma de incentivo aos demais alunos da mesma condição. De fato, aquelas palavras do Martins daquele início de agosto mexeram com os meus brios, e a minha presença na sala de musculação passou a ser mais frequente; claro, tudo dentro do pouco tempo disponível para isso. De sorte que ficou, para mim, quase impossível recusar o feijão, o arroz e o boi-ralado costumeiro; do contrário, o Portuga da cantina agradecia. Ao mesmo tempo elevava-se a minha auto-estima, tornando-me mais confiante na vitória distante, galgando degrau a degrau.

Não dispensava o boi-ralado!
O professor de Educação Física, cujo nome nunca soube, além de mestre nessa arte, também revelou-se um grande motivador da galera, um grande incentivador. ‘Vocês têm de ter mais confiança em vocês mesmos, fé em Deus, fé no próprio taco’, dizia ele à turma. ‘Devem já se imaginar em julho de 79 todos de branco, na formatura de vocês, recebendo dos padrinhos o distintivo de formatura’, costumava completar o mestre. De fato, se a grande maioria conseguia formar-se, porque não nós? Seríamos assim tão incapazes? Ainda assim a formatura era para nós um sonho distante, pois muitos obstáculos se nos a serem ultrapassados. Além do mais, eram para a maioria absoluta, desconhecidos, o que aumentava o desafio. Era necessário matar um tigre por dia, com vistas à vitória final.

O domingo estava a findar-se e uma nova e dura semana batia à nossa porta. Muito boi-ralado ainda tinha eu para comer naquela Escola.

Continua… 

A VIDA era bem mais simples quando o que honrávamos era pai e mãe, e não os principais cartões de crédito.” Autor desconhecido
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.” (BLOGUE do Valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)
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