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HISTÓRIA de luta: coisa boa o que é?!

 Capítulo 6, continuação da postagem anterior.

O MAIOR pesadelo para alunos despreparados, como eu, era, sem dúvida, a possibilidade de não concluirmos o curso, fracassando pelo caminho. Não importava a razão do insucesso, fosse ela insuficiência intelectual, doença ou questão disciplinar. Havia um letreiro que, mais ou menos, dizia assim: ‘Os covardes nem tentaram, os fracos ficam pelo caminho; só os fortes vencerão‘.

O medo, no Corpo de Alunos, era uma coisa intencionalmente disseminada, creio eu. Tinham lá as suas razões, a que atinei somente algum tempo depois (como era lento!), que eram as de fazer o aluno esforçar-se, levando a sério as suas atividades e os estudos. Responsabilidade é uma condição sine qua non para um bom sargento especialista.  Naqueles primeiros dias nós não tínhamos tal visão, e para mim aqueles caras estavam ali somente para tornar a nossa vida bem mais difícil. Míope!

No primeiro semestre, para aqueles jovens que nunca tinham servido as Forças Armadas como soldado, obrigatoriamente, em caso de desligamento por deficiência intelectual, destinava-se a permanência, uma sobrevida na Escola, como recruta, com vistas a completar o ano obrigatório preconizado em lei. Findo o ano compulsório, ser-lhe-ia dada a opção de pedir renovação de tempo, como a qualquer outro soldado da Aeronáutica em serviço militar obrigatório, podendo até, se quisesse, candidatar-se ao Curso de Formação de Cabos, CFC, ou até mesmo matricular-se no concurso para voltar ao CA. Diariamente se ouvia a notícia sobre um ou outro aluno, desligado do curso, cujo rumo tinha sido o da Companhia de infantaria, aquele mesmo local onde dormi na primeira noite de Escola. Várias vezes mesmo eu vi o Armindo circulando pelas dependências da Escola, nas lides de soldado, depois cabo, e mais tarde de volta como aluno. Era um exemplo de persistência, de força de vontade, alguém que não se deixou abater pelo insucesso momentâneo. Esse exemplo fortaleceu em mim a ideia de que Deus não permite a nós que uma derrota seja definitiva; só depende de nós.

Para mim, em caso de insucesso, que na minha cabeça era de grande probabilidade, essa seria uma saída, o meu plano B. Ficar na Escola na condição de soldado, com um salário garantido por algum tempo, era para mim uma saída honrosa. Desonra mesmo seria voltar para a minha Belém do Pará com uma mão na frente e a outra atrás, um derrotado a submeter-se ao riso sarcástico do Palheta e do Gonzaga, antigos colegas de preparatório, que antes desdenhavam da minha pretensão. Daria um tempo na companhia IG, como soldado, enquanto me preparava para a volta ao CA numa condição intelectual mais favorável. Todavia, enquanto houvesse vida e esperança, e eu não estava disposto a entregar-me ao fracasso, existia chance, ainda que não muito grande, havia a mínima chance de aprovação nos bancos escolares, ainda que ficasse na última colocação. Qual a diferença entre o primeiro colocado do curso, o aluno zero um – como se dizia -, e o zero último? Ambos sairiam sargentos, ambos formados, ainda que este fosse mandado a servir em qualquer localidade indesejada. O importante era sair sargento.

Esses pensamentos nada otimistas insistiam em passear com relativa frequência pela minha mente, ciente das dificuldades que eram naqueles primeiros dias maiores do que imaginara.

O tempo passava e os quarenta dias de internato a nós impostos estavam quase a seu termo. O primeiro pagamento, que é bom, nada. Nas longas corridas após o aquecimento da instrução de educação física, entre as tantas musiquinhas cantadas para motivar a alunada, uma delas dizia assim no refrão: ‘Coisa boa o que é? Sexta-feira e mulher!’. O tempo passava célere,  estávamos a um dia do licenciamento.

Enquanto a tão sonhada sexta-feira não vinha, o humor, a descontração e a irreverência eram as maneiras que encontrávamos para espantar a tristeza e o cansaço. Nas corridas, era comum alguns alunos motivarem o grupo com cantigas, rimas ou mesmo palavras soltas e frases engraçadas.

– De que vale o céu e o mar
– Se está cheio de preá
– De que vale o céu azul
– Se está cheio de urubu

O Brito era um dos que agitavam. Estávamos uma vez correndo pela estrada que dá da vila dos sargentos ao hospital, passando por uma escola. Nosso grupo corria forte, e uma jovem – dezoito, vinte ou pouco mais – caminhava um pouco adiante, de forma que seria alcançada pela tropa em instantes. O Brito mandou um engraçado ‘olhar à direita’. As formas da moça enganaram nossos olhos, frustrando nossa expectativa, pois ao ultrapassá-la notamos que o seu rosto não correspondia às belas formas do corpo. Que pena! Brito não perdeu o senso de humor:

– Cessar os olhares lânguidos!

Risos. A quarentena estava a um dia e a turma, com os hormônios à flor da pele, não via a hora de, pelo menos ver, conversar, relacionar-se com uma pessoa jovem do sexo feminino (era outra tirada do Brito), pois àquele tempo estávamos fartos de ver somente as senhoras lavadeiras e suas filhas que as acompanhavam eventualmente.

Chegou ela. Adivinha quem? Ela, a sexta-feira. Coisa boa! Às cinco da tarde, a moçada em forma ali no enorme pátio, de uniforme de passeio, o quinto uniforme, imóveis ouvindo as últimas instruções, recomendações, leituras e, simultaneamente, a obrigatória revista de uniforme. Quedavam-se ansiosos pela primeira liberação.

O sargentos da esquadrilha e o próprio comandante passavam de fila em fila, aluno por aluno, olho de cima a baixo, da cabeça aos pés, em busca de algum desalinho. De vez em quando algum se detinha por mais tempo, para, em seguida, anotar alguma coisa na caderneta. Na minha vez, o próprio comandante da esquadrilha deteve-se por mais tempo. O suor escorria-me da face, as pernas principiavam a tremer e o coração acelerava. Meu Deus, ficarei preso ou coisa assim! Fiquei naqueles quatro ou cinco segundos, que para mim pareciam longos minutos, a imaginar em que estava errado em mim. Seria a barba mal feita, o sapato mal engraxado? O que tinha feito de errado nos dias anteriores, a ponto de chamar a atenção mais delongada da autoridade que se ocupava da minha desajeitada figura? Ou será que ele nunca vira alguém tão desajeitado como eu? Finalmente resolveu falar:

– Aluno! Essa sua calça, assim com a bainha mal costurada está um lixo, um cocô. Se passar um caminhão de lixo, você vai ter de fazer um grande esforço para não ser levado junto.

A casa caiu! Pensei comigo. A calça que o alfaiate me pagou ficava bem mais longa, por isso foi necessário encurtá-la, ficaram à mostra os vincos antigos (ou seriam os pontos de linha mal feitos?). E agora? O meu final de semana estava comprometido. Terminou sua fala e seguiu adiante para vistoriar o próximo aluno da fila.

Terminada a formatura de revista foi dado o fora-de-forma. A alunada naquela alegria, e todos do Rio de Janeiro seguiam para seus ônibus com destino à cidade maravilhosa e cidades próximas; o mesmo faziam os de São Paulo, capital e interior. Os de mais distante, Ceará, Bahia, Rio Grande e demais estados, tinham de se contentar em ficar ali mesmo em Guaratinguetá, quando muito arriscavam-se por Lorena, Aparecida e região. Nessas ocasiões, os cariocas costumavam zombar da gente, denominados de forma pejorativa como ‘paraíbas’. Qualquer um nortista ou nordestino era chamado de paraíba pelo carioca; de baiano pelo paulista:

– Chora paraíba, paraíba chora. Chora paraíba, carioca vai embora!

Isso agravava mais a saudade da terrinha, da mãe, do pai, dos irmãos, da namorada (no caso dos que ainda tinham uma).

Assim, todos tomavam o seu destino. Menos eu e mais dois ou três colegas, que, por algum desalinho de uniforme, barba mal feita ou outro problema qualquer, foram também apanhados naquela malha fina da sexta-feira. Apresentando-nos ao sargento, este portou-se com fidalguia, tratando de nos acalmar; disse que daquela vez, por ser a primeira vez, o comandante nos anistiava, mas que não voltássemos a reincidir em erro. Ufa! O final de semana estava salvo; nem atinei para o excessivo rigor, que para mim também era novidade.

O dinheiro de que dispunha mal dava para um cinema, nem sei se dava para a pipoca. Mas não importava. Rumo ao ponto de ônibus, direção à cidade! (Blogue do Valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)

Continua… 

SEMEIE um ato, e você colhe um hábito; semeie um hábito, e você colhe um caráter; semeie um caráter, e você colhe um destino.” Charles Reade
Acompanhe os capítulos anteriores:
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”

Por Valentim

Escritor paraense radicado no Paraná, Antonio Valentim é autor do livro "O País dos Militares e dos Bacharéis" e de "O Misterioso Crime do Sacopã", este ainda em projeto.
Passeia também pelo canal BLOGUEdoValentim!, do YouTube,
L.s.N.S.J.C.!

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