HISTÓRIA de luta: a dura rotina dos primeiros dias

 Capítulo 5, continuação da postagem anterior.
QUINZE MINUTOS era todo o tempo de que cada um de nós dispunha para acordar, levantar, arrumar a cama, vestir-se, urinar, lavar o rosto, escovar os dentes, fazer a barba, e correr para o pátio a fim de, em turma, seguir para o refeitório. O aluno de serviço estava lá no pátio, doido para anotar os atrasados, sem lhes dar a mínima chance de justificação. Os mais molengas ficavam para trás, formando um grupo separado, e já com a preocupação extra de encarar o sargento ou o comandante mais tarde. Teriam sorte se, como castigo, levassem apenas um serviço extra. Número dois nem pensar, ou ficaria sem o café. Aliás, para alguns era mais negócio perder o café, e gastar algum na cantina do portuga, que sofrer alguma punição. Para mim não; os cobrinhos já estavam escasseando, e com fome não conseguiria cumprir toda a dura rotina do turno matutino, agravando mais ainda as minhas dificuldades.Após o café, tempo suficiente para subir as escadarias a fim de buscar o material escolar, e posicionar-se para a formatura, respectivas apresentações aos mais antigos, além de outras formalidades, para em seguida desfilar rumo à sala de aula. O dia começava duro no Corpo de Alunos, ou C.A., como falávamos.

Chegando à DI (Divisão de Instrução), saíamos da formação, e, em fila, adentrávamos às salas de instrução. Feita a devida apresentação da turma ao instrutor, que tanto poderia ser um professor como um sargento designado (variava conforme o tipo de instrução que seria ministrado), era mergulhar nos livros, apostilas, cadernos, lousas e exposições orais que, a mim, me pareciam maçantes em sua maioria. Desde o começo ficou bem claro para meus colegas o critério de notas de testes e médias finais, sendo todas as provas com respostas objetivas, com quatro alternativas para a escolha de uma certa. A média de corte era 6,00, com direito a uma final e uma segunda época, como última chance para o aluno de poucas luzes, categoria em que este aqui se enquadrava. Detalhe: sem direito a chute; ou o aluno sabe ou deixa a questão sem resposta. O chutador era severamente punido com a anulação de uma resposta certa a cada três que errasse. Dura lex, sed lex. Estas regras me foram passadas posteriormente, já com o jogo em andamento; era mais uma penalização por ser retardatário no curso.

Os dois primeiros semestres (primeira e segunda séries) correspondiam ao chamado ‘ensino básico’, onde todos estudavam tudo. Português, Inglês, Desenho técnico, Eletricidade básica, Conhecimentos de Aviação, Matemática, Regulamentos, Instrução militar, Tecnologia básica e Armamento e Tiro, era o menu, não importando se a especialidade a ser exercida futuramente dispensasse o conhecimento de uma ou de mais áreas. Vencido o ‘básico’, os terceiro e quarto semestre seriam dedicados ao ‘ensino especializado’, conforme a aptidão do aluno ou mesmo a sua escolha. Assim, então somente a partir da terceira série, os alunos iriam estudar Controle de Vôo, Eletrônica, Fotografia, Armamento, Mecânica de Aeronaves, Eletricidade de Aeroportos, Metalurgia, Meteorologia, Viaturas, Enfermagem, Infantaria, Almoxarifado, Administração e outras especialidades.

Intervalo para o almoço e a tarde era geralmente preenchida com atividades mais práticas, em contraposição ao período matutino em que se estudava mais as disciplinas teóricas. Desta maneira, o aluno entrava em contato com instrução militar, aperfeiçoando os movimentos de desfile, gestos de continência e outros sinais de respeito, prática de tiro, instrução de educação física que terminavam em  geral com longas corridas.

Com o tempo, o período de ensino básico, para as turmas ingressantes nos anos posteriores, foi pouco a pouco dando lugar ao ensino especializado, de forma que o aluno, conforme a especialidade escolhida já no concurso, ao chegar na Escola já entrasse em contato direto com a especialidade que viria a exercer quando formado. Naquele tempo, não, e tinha a sua razão de ser, pois era o período em que o aluno, até mesmo desde o seu primeiro dia, nos seus exames preliminares de saúde, psicológico e intelectual, era já observado com vistas à escolha futura de uma das especialidades de interesse do Ministério da Aeronáutica. Com efeito, nem todos tinham aptdião para a especialidade desejada, e então era preciso seriedade. Aqueles caras, nossos superiores, eram profissionais, tínhamos de admitir.

Toda essa carga me esperava, isso e mais umas duas dezenas de encargos e obrigações, incluindo o plantão, a faxina, o boi-ralado e o caveirinha, e tudo com seus horários preestabelecidos, rigorosamente cobrados. A mim e a meus outros quinhentos e poucos colegas. Nossa missão era superar a todos os desafios que se interpunham entre nós e o objetivo final: formar-se sargento da Aeronáutica, cumpridos esses dois anos de ralação. Mas, quanto a este em particular, devo admitir que me recusava a pensar no futuro. Mirava tão somente o imediato, o hoje, e, quando muito, cuidava com um olhar meio de soslaio, assim de rabo de olho, o amanhã; o depois de amanhã ainda estava, para mim, muito distante.

Foi-se o primeiro dia, que encerrei com a visita obrigatória ao barbeiro à noite. Lembro-me de uma das primeiras perguntas do taifeiro que se encarregava de livrar-me daquela cabeleira, que nunca mais a veria na vida.

– Você é bicho?
– Como?! Na minha família não existe isso!
– Não é isso, aluno, ‘bicho’ é como se chama o aluno de primeira série. ‘Bicharal’ também é outra maneira, a mais comum até.
– Sim.

Nem precisava responder, pois estava na cara. A pergunta do barbeiro foi somente para tirar um sarro do caboclo aqui, que estava ali mais desorientado que cego em tiroteio, mais desaprumado que cachorro caído de mudança. O alfaiate, a quem visitei em um dos intervalos de dez minutos, encarregou-se de me deixar a caráter: premiou-me com uma túnica do uniforme de passeio, usada, que havia pertencido a outro aluno, desistente ou desligado do curso. O aluno, antigo dono da túnica, com certeza era bem mais alto e mais forte que eu, tão esmirrado naquela peça de uniforme, com a aparência mais aproximada de um Carlitos, o vagabundo, personagem de Chaplin, que de um garboso militar. Que fazer? Apenas agradecer e aceitar a oferta – eu tinha outra saída? – , como tributo pelo fato de estar ali naquele mundo como retardatário, um intruso que penetrou no salão de baile como que de favor, depois da festa iniciada. Nada a objetar, só dizer ‘sim, senhor’ e ‘não, senhor’ ou ‘quero ir embora’.

Mas o grande bicho-papão, o desligamento do curso, estava por vir à minha cabeça. Camburar o básico era então o primeiro objetivo, para mais tarde encarar o especializado.  (BLOGUE do Valentim, Dois Vizinhos – PR, Brasil)

Continua… 

A GRANDEZA não consiste em receber honras, mas em merecê-las.” Aristóteles
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”
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  1. […] 2011 by ANTONIO Valentim in Uncategorized. Deixe um comentário  Capítulo 6, continuação da postagem anterior. O MAIOR pesadelo para alunos despreparados, como eu, era, sem dúvida, a possibilidade de não […]

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