HISTÓRIA de luta: os dois mais longos anos

Capítulo 4, continuação da postagem anterior

O CORNETEIRO tocou a alvorada às cinco da matina e o alojamento acordava. Era o meu primeiro dia amanhecido na Escola.

Depois do café, fizeram-me apresentar oficialmente ao Corpo de Alunos, roupa de cama e algumas peças de uniforme. Um grande pátio onde toda a alunada se reunia, formava e desfilava. No prédio em frente um grande letreiro azul: “À Pátria tudo se deve dar, à Pátria nada se deve pedir. Nem mesmo compreensão.”, palavras incompreensíveis para mim que, naquela década, era ignorante de tudo, ainda assim somente mais um pouco que hoje.

Mil informações tinha a assimilar quase ao mesmo tempo. Ao me reunir junto a um grupo menor já formado, um outro aluno, mais alto, mais forte, e que aparentava 23 a 24 anos, disse assim: “Mais um raquítico chegando”. Era o Martins, também conhecido por Manaus devido à sua origem amazonense. Indivíduo falante esse Martins, gabola e arrogante, a cuja figura de imediato antipatizei, que me dera ali as boas-vindas àquele mundo desconhecido.

Caí naquele solo de paraquedas. Tal qual uma criança, que vai descobrindo o mundo à medida que decorrem os dias e as horas, para mim até o menor detalhe significava uma grande novidade. Nem mesmo eu sabia que estava ali para ser milico! Pensava em me formar técnico da Aeronáutica, jamais associando antes essa formação a uma graduação militar. Não me censure a ignorância, é que a informação não era generosa como hoje. Desconhecia a diferença de sargento e de tenente, de cabo e de capitão. Ali estava como um burro olhando para um palácio, incapaz de compreender como tudo acontecia na minha vida tão rapidamente. Era um sujeito simplório e rude, quase um garoto, que era em tudo conduzido, a mente ali bombardeada, e que pacientemente aguardava o momento em que a cabeça e o corpo acostumar-se-iam de uma vez por todas com o novo mundo que iniciara.

Muita gente. Gente de todos os cantos do país. Do Rio Grande ao Amapá; do Rio de Janeiro ao Ceará, rapazes de todos os sotaques. Uns mais jovens, como eu, de 16 ou 17 anos; outros nem tão jovens, de 20 a 23 anos. Mundo heterogêneo: brancos, pardos, pretos, japoneses e índios; altos, medianos e baixinhos. As diferenças não se resumiam à aparência ou à origem, mas também – e esse era um aspecto interessante que somente viria a perceber ao longo dos dois anos letivos – quanto ao intelecto e à escolaridade. Alguns, principalmente do Rio de Janeiro, experimentaram excelente preparação técnica, e por isso obtiveram nos exames média alta; outros, nem tanto; outros ainda, como eu, lutaram com bastante dificuldade e precisaram tentar duas, três ou mais vezes. Não foi o meu caso quanto às repetições de exames, como já relatei, mas quanto à dificuldade encontrada, e – pior – quanto às dificuldades que viriam, que eu, naquele momento solene da vida, ignorava totalmente. Uns poucos já estavam no seu segundo ou terceiro semestre de Engenharia, Arquitetura ou Odontologia, decidindo adiar seu sonho por dois anos de estudos técnicos remunerados, ainda que o salário inicial representasse apenas alguns cifrões.

Quinhentos e poucos jovens na turma. Quatro turmas, sendo que o total de alunos beirava os dois milheiros de homens, cada turma um semestre adiantada em relação à outra. Desta forma, a turma mais adiantada, a quarta série, estava por menos seis meses de sua formatura. Em torno de quinhentos – um pouco menos por conta das inevitáveis reprovações ocorridas no período –  jovens em dezembro de 1977 galgariam o degrau tão sonhado: a formatura e com ela o título de terceiro sargento especialista da Aeronáutica, salário equivalente, e transferência para qualquer parte do Brasil, onde a Nação os designasse. No próximo semestre, a turma seguinte assumiria o posto desta última, fazendo a roda girar, de forma que a nossa vez só viria ao final do primeiro semestre de 1979.

Diferenças de origem, de raças, sotaques, costumes, temperamentos, credos e, por que não dizer, até de opção sexual.  Em público, esse assunto era um tabu naquela época. Mas, convenhamos em um grupo expressivo, de meio milheiro de pessoas, era quase impossível a inexistência de alguém, digamos, diferente da grande maioria. E entre nós não era difícil perceber quem desviava do habitual, uns três ou quatro talvez, exceção dos mais discretos. Cuidado, muito cuidado com isso que, uma vez descoberto o problema, significava rua, desligamento do curso. Outro tabu, sobre o qual nada se falava, pouco se via, mas que existia era o problema das drogas, a maconha; a cocaína e outros era coisa só de bacana, de cinema, mundo distante do nosso mundo real. Eu, ignorante de quase tudo, disso também passava ao largo, não suspeitando jamais de nada nem de ninguém. Como já mencionei, era apenas um Forrest Gump, integralmente despido de maldade, ingênuo mesmo, simplório, que vagueava no tempo e no espaço, imune a mazelas e problemas que a mim não diziam respeito. Minha única preocupação era sobreviver, superar as minhas próprias dificuldades, a timidez, a precária formação escolar, bem como vencer as adversidades que então se me apresentavam, mercê do total desconhecimento daquele mundo novo.

Em contato com as primeiras atividades, a par das minhas dificuldades, procurava esforçar-me para não fazer feio nem levar bronca ou sofrer algum tipo de castigo, do tipo ‘ficar na Escola no final de semana, impedido de sair para a cidade’. É bom lembrar que todos os meus colegas já estavam adiantados, quase que plenamente adaptados – menos eu. (BLOGUE do Valentim, Dois Vizinhos, PR, Brasil)

  Continua… 

NÃO podemos escolher como e quando vamos morrer. Podemos somente decidir como vamos viver.” Joan Baez

“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”

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  1. […] Posted 20 20America/Belem novembro 20America/Belem 2011 by ANTONIO Valentim in Uncategorized. Deixe um comentário  Capítulo 5, continuação da postagem anterior. […]

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