HISTÓRIA de luta: chegada a Guaratinguetá

 Capítulo 3, continuação da postagem anterior

Chegava a Guará

 

DIRIGI-ME ao guichê da Viação Sampaio e comprei o bilhete para o ônibus das 18, destino a Guaratinguetá, voltando em seguida ao banco de espera a fim de descansar do longo dia. Ainda faltavam 50 ou 40 minutos para a hora do embarque. As incertezas perseguiam-me a mente; no bolso, pouquíssimo, quase nenhum dinheiro.

Não demorou muito e despertei daquele cochilo, que já virava um sono pesado, com a mão do bilheteiro em meu ombro:

– o seu ônibus tá saindo em 5 minutos, rapaz.

Não havia conseguido controlar o sono, resultado daquele dia comprido. Nem lembro se agradeci a gentileza daquele senhor, cuja feição a memória não guardou e cujo nome nunca soube. Foi um gesto muito bonito da parte dele, uma caridade que jamais terei como pagar: abandonar seu posto de trabalho para me alertar do horário. Por cinco minutos e certamente nunca mais Guaratinguetá, nunca mais Escola de Especialistas, nunca mais Força Aérea Brasileira. O que seria da minha vida? Sozinho no Rio de Janeiro, sem rumo, sem destino, algumas cédulas de cruzeiro no bolso, suficientes talvez para mais apenas uma refeição. Convenci-me com o tempo da bondade de Deus, que usou o coração daquele homem como instrumento de seu amor, levando-o a acordar-me daquele sono que me vencia. O que seria de mim ali, sem parente nem derente? Um pedinte, um mendigo, um indigente. Obrigado, meu Deus; obrigado, meu anônimo amigo bilheteiro, meu herói.

Todavia, malgrado as minhas apreensões, felizmente tudo conspirava a meu favor, e mais uma vez alguém se dispunha a ajudar-me, ainda que nada tivesse ganho com isso a não ser a alegria de fazer o bem a seu semelhante, aquela sensação de bem-estar que só os bons o sabem. Estava o feioso lá naquele ônibus da Viação Sampaio, cujo destino final era a cidade de Aparecida. Era eu e eu, ou melhor, era eu e Deus, que jamais me abandonou mesmo nos caminhos mais lúgubres da minha existência. A mente me ia povoada de interrogações, imaginações, dúvidas… Como seria a Escola? Como seria recebido? Havia ainda tempo suficiente para a matrícula? E os desafios, quais eram? Teria eu capacidade para superá-los?

Indiferente às minhas preocupações, o ônibus corria célere no sentido São Paulo, passando por cidades que eu desconhecia (ainda porque somente luzes era possível enxergar), e por campos escuros que nada me diziam. Aos meus olhos só as estrelas, na minha mente somente a Escola.

Finalmente chegou em Guará, e ali desembarco com minha malinha, algumas esperanças e milhões de incertezas.

Já deviam ser mais de 22, talvez 23 horas. Fazia frio, e eu só de manga-de-camisa, totalmente desprevenido para o clima severo da região, bem diferente do calor escaldante da minha Belém do Pará, que deixei pela manhã do dia que se findava. Perguntei para um e para outro. O ônibus urbano ‘Escola’ seria aquele me levaria à tão sonhada Escola, meu destino final. Esperava, esperava e nada. O frio aumentava conforme os ponteiros do relógio iam correndo. Nada do ‘escola’. Próximo a mim, naquela parada de ônibus que ficava na própria estação rodoviária, alguns militares – soldados, a maioria -, alguns estudantes e outros que aguardavam seu ônibus. Já estava nervoso com a demora. E se o último ônibus já tivesse passado? E se, num segundo de distração, eu tivesse deixado passar o ‘escola’? Não, não era possível isso porque aqueles soldados, com certeza, iam também para a Escola; pude até ouvir da conversa deles. Decidi que o ônibus que eles tomassem, eu também tomaria. Fui o que fiz.

Chegou um, da Pássaro Marrom, cujo letreiro dizia ‘Vila dos sangrentos’, todos eles entraram. Após uns segundos de hesitação, entrei também porque certamente aquele ônibus me levaria à Escola. Ademais, eu ficaria sozinho no ponto, não tendo a menor vontade de pernoitar na rua, ainda mais naquele frio terrível. Percebi depois que minha mente cansada leu errado, não era esse título e sim ‘Vila dos Sargentos’. No portão da Escola, o militar encarregado da revista nada me orientou. Desci junto com os soldados que rumaram para o prédio da companhia de Infantaria, local onde pernoitariam. Ao sentinela do prédio questionei, dizendo da minha condição de candidato à matrícula e pedindo o que fazer. Disse-me que fosse a um lugar chamado ‘Corpo de Alunos’.

Depois de bater na porta errada por dois ou três minutos, finalmente o sentinela do local indicou-me a porta certa, que ficava na outra rua.Estava lá. Mostrei-lhes a mensagem-rádio de convocação, e agora o trabalho era deles em me dar pouso naquela noite, para no dia seguinte ver o que ia ser feito. Pernoitei na própria companhia de Infantaria, único alojamento disponível então. Terminava para mim aquele longo dia.

Mas aquela viagem apenas começara. Começara ali, mas não pude, na realidade, definir o seu término, se seria em dois anos ou… trinta anos.

Continua…

O RIO corta a rocha não por causa da sua força, mas devido à sua persistência.” Jin Walkins
“AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.”
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  1. […] Capítulo 4, continuação da postagem anterior […]

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