A SAGA de Danilo (final)

…continuação da postagem do dia 03mar.2011.
Amanheceu. Estremunhado com a noite mal-dormida, com forme, tomou seu rumo, que até aquele momento ignorava qual seria. Alcançou uma aldeia. Nela esperou, vagando quase todo o dia, e não foi “encontrado”. Achou os métodos ingleses bem falhos. Não eram tão bons assim. Se ele tivesse ao menos os endereços dos “homens”, ser “encontrado” seria muito mais fácil… O “abacaxi” era que “eles” não diziam e nem mesmo se conheciam. Ele tinha que esperar ser “encontrado”. Não o foi naquele dia, e nem muito menos no outro. Decididamente, ele tinha que resolver, por si, o problema. Deixou aquela estrada principal e derivou rumo à frente de combate, ao encontro dos Apeninos. Chegou à tardinha a uma pequena cidade que não conhecia e nem tinha tempo para ver qual seria nos seus mapas de fuga. Com o estômago muito vazio, deu diversas voltas pela cidadezinha, e nada conseguiu. Ninguém o achava. Estava ficando desanimado, e com muita vontade de desistir, mas, ao mesmo tempo, sem coragem bastante para tal. Seria submetido a um interrogatório tremendo por parte do serviço de inteligência alemão e, se falasse, muita gente seria envolvida. Seria um desastre completo. Sua fome aumentava muito. Já não sabia ao certo o que fazer. Nessa condição de quase desespero, avistou uma senhora num segundo andar de um daqueles sobrados altos, muito comuns na Itália. A senhora fazia tricô tranquilamente na sacada do sobrado. Nada indicava que ela o ajudaria.
A casa era “tecnicamente” muito “grã-fina” para partisanos. O “inglês” frisara bem que era muito mais provável encontrar quem o ajudasse entre as pessoas mais simples, que, regra geral, constituía a maior parte dos partisanos ou da resistência. Mesmo que não o fossem, eram “fascistas” por necessidade, para se manterem nos seus empregos de acordo com a política da terra, e, muitas vezes, eram pessoas contrárias ao regime que vigorava na época. Pela “pinta”, aquela senhora nada tinha de partisan, muito pelo contrário, sua casa era das melhores da cidade, tudo indicando que era do outro “lado”. Mas a fome do gaúcho era maior do que a lógica e do que as razões do “inglês”. O esfomeado olhou longamente para aquela senhora que, domesticamente, fazia o seu trabalho de agulhas. Talvez uma dor mais aguda no seu estômago vazio tenha feito com que decidisse pedir-lhe o que comer. Levantou a pesada bicicleta ao ombro e subiu os dois compridos lances de escada que o levariam ao segundo andar. A porta da moradia na qual pretendia bater já estava aberta, e nela a senhora, numa expectativa que ele não podia compreender, como que a sua espera. Desconfiado, no seu trôpego italiano um tanto brasileiro, parte “GI” (pouco instruído), e ainda conseguido com as primeiras “vassouradas” em Roma, dirigiu-se a ela com o mesmo refrão das vezes anteriores. Bem ou mal, ela conseguiu compreendê-lo, confessando-lhe mais tarde, que o italiano dele tinha sido o melhor que ouvira até então, da parte de “quem” a procurava. Ouviu toda a sua história cortesmente. Deu-lhe para comer o macarrão habitual e um colchão de palha que era tudo o podia oferecer, mas que era muito mais do que o gaúcho esperava. Disse-lhe a senhora que poderia ficar ali até o dia seguinte, e que à noite seu sobrinho chegaria do “trabalho”, não devendo se preocupar, mas não entrou em detalhes. Enfim, o “Índio” nada mais esperava do que comida e dormida, em segundo plano. Sentia-se capaz de passar mais outras noites ao relento frio do inverno. Sua “caveira”, mesmo não sendo do tipo muito recente, ainda satisfazia amplamente. No seu colchão de palha dormiu profundamente. Estava muito cansado para pensar, até mesmo para desconfiar daquela acolhida inesperada.
Na manhã seguinte foi acordado pelos seus novos protetores: a senhora e seu sobrinho. O rapaz queria ouvir sua história mais outra vez. Repetiu toda a sua “lenga-lenga”, agora muito melhor ensaiada que a ele já parecia muito boa e que a sua lingual mal cicatrizada muito cooperava. O sobrinho da boa senhora que o acolhera não interrompeu a narração. Ofereceu-lhe até mesmo um cigarro, daqueles lambidos, com uma dose de fumo suficiente para matar um cavalo, mas que o jovem italiano tirava enormes tragadas sem esforço, com prazer, e que ele, o gaúcho, apesar de não ver um cigarro há muito, não conseguia aspirar nem um pouquinho. Fumou como lhe foi possível. Ao terminar a sua “conversa”, o seu novo amigo, polidamente, vagarosamente, para que melhor o entendesse, disse-lhe que esquecesse tudo aquilo. De agora em diante, não precisaria contar mais aquela história. Uma vez mais, aquelas excelentes botinas americanas o traíram, para sorte sua. Finalmente tinha sido encontrado. “Encontrado!” Mesmo sem o admitirem, aqueles dois italianos “o encontraram”. Ficou decidido que ele permaneceria com os dois até o dia seguinte, quando o levariam à casa de uns outros “primos”, que eram partisanos. Ali sempre o próximo é que era partisan.
Na sua segunda e última noite na companhia daqueles “parentes” italianos, para encobrir e explicar a sua presença naquela casa, houve uma reunião a que compareceram os vizinhos para festejarem a chegada e a passagem do sobrinho que tivera a casa destruída por bombardeio em Ferrara, e que, em conseqüência ficara “mudo”. Comeu-se muita castanha assada e bebeu-se muito vinho tinto na festa em sua honra. Ficou bêbado, recolhendo-se ao seu colchão. Sua retirada foi desculpada e compreendida pelos presentes, que concordavam penalizados com o que lhe acontecera. Ao amanhecer, estava ainda azedo de tanto vinho, mas mesmo assim seguiram de bicicletas ao encontro dos “primos”, que eram partisans. Assim, o nosso colega foi entregue aos cuidados da organização que tanto ouvira falar, e que estava ficando descrente que existisse. O italiano deixou-o nas mãos daquela gente especializada, voltando ao seu ponto de atividade, onde sua tia voltara a fazer o tricô que, pela sua função, devia ter sido o mais comprido da guerra. A “organização”, como todos já devem ter compreendido, compunha-se de pessoal altamente especializado, que conversava  estritamente o essencial e fazia muitas perguntas, e, para segurança de seu trabalho, não devia cometer enganos. Tomaram todas as informações necessárias, confirmaram as datas, ouviram toda a história, desde a sua queda, quiseram saber os mínimos detalhes, o que contrariava muito o nosso herói, que na ânsia de atravessar a linha de combate julgava os “homens” exageradamente “enrolados”. Já lhes mostrara a sua chapa de identificação que consigo conservara, já lhes dissera quem era, de onde viera, o que voara, qual o objetivo naquela manhã em que fora abatido, enfim tudo o que realmente acontecera. Ingenuamente, sem avaliar o que conseguira realizar, não podia entender o porquê de tantas perguntas e confirmações. Para ele a sua aventura tinha sido perfeitamente realizável, mas os homens da “organização” estavam meio descrentes, naturalmente por ele ter contrariado basicamente, nos mínimos detalhes, tudo que a boa técnica aconselhava em matéria de fuga.
Os seus interrogadores estavam admirados com os processos utilizados pelo gaúcho. Para os “ingleses”, nada daquilo poderia ter acontecido. O “manual” dizia justamente o contrário… Após muitas consultas e investigações pelos “canais” competentes, que não sabemos quais poderiam ser, o gaúcho foi dado como “legítimo”, dissipando-se as dúvidas. Nessa mesma noite foi transportado para outra estação de espera, bem mais avançada para o front, onde outros em igual situação já o aguardavam. Havia americanos, ingleses, italianos e agora um brasileiro. O único que a organização conhecera até então. Eram oito ao todo. Aguardavam refazerem-se fisicamente para a próxima mudança de estação, que seria gradativamente mais avançada.
Em deslocamentos sucessivos, feitos à noite, moveram-se para a última estação, na fralda da cordilheira. Por alguns dias, aí permaneceram esperando uma ocasião propícia, que ignoravam qual seria. Eles nunca lhes diziam coisa alguma, para fins de segurança. A ocasião esperada, propícia, chegou numa noite de violenta nevasca e frio cortante. Era a neve que aqueles homens incompreensíveis esperavam. Os guias italianos chegaram, formaram o grupo, misturando-os com algumas famílias italianas, que, tudo indicava, se prestavam àquelas aventuras em troca de remuneração, não sendo a primeira vez que o faziam, pois não demonstravam preocupação alguma.
Com duas pílulas contra cansaço – em outras palavras, “dopados” – iniciaram a caminhada sem paradas. Em ritmo contínuo, galgaram os Apeninos por trilhas de cabras, íngremes, sempre em fila indiana. As quedas e escorregões eram freqüentes, mas não poderiam parar. Assim, no rigor de uma nevasca intensa, quando as sentinelas, premidas pelo frio, relaxaram a vigilância, conseguiram cruzar aqueles picos escorregadios, gastando 14 horas de caminhada sem descanso. Ao romper do dia seguinte, seus esforços foram coroados de êxito. Na mesma manhã, descansavam na frente aliada, entregues ao serviço de inteligência inglês, agora em uniforme. Foram separados, então. Não mais encontrou os americanos, nem os ingleses que, com ele, atravessaram as montanhas. Descansado, lavado, barbeado, bem alimentado, foi interrogado longamente pelos oficiais ingleses, que anotaram todas as informações fornecidas pelo nosso herói, posteriormente consideradas como as mais completas trazidas por um fugitivo naquela frente. Quanto à sua história, foi ouvida com muito interesse por ser ímpar naquele departamento, mas nunca poderia ser utilizada, para fins de ensinamentos futuros por outros, por constituir uma quebra geral, quase absurda, de tudo aquilo que eles ministravam, baseados em estudos e estatística.
Acabado o longo interrogatório, o gaúcho, muito aborrecido com os dois dias que passara em companhia dos interrogadores ingleses, foi devolvido ao nosso convívio em Pisa, numa tarde fria, como qualquer outra naquele hotel esburacado em que vivíamos. Celebrou-se a sua volta, esvaziando-se o que restava de nossas rações de uísque, logo substituídas pelo horrível conhaque italiano, que fez o mesmo efeito. Em meio a forte “ressaca”, encerrou-se o capítulo mais heróico do 1º Grupo de Caça, realizado por aquele gaúcho simples, que, sem pretensões, tornou-se merecedor de toda a admiração dos comandantes aliados que o conheceram, de seus colegas e de seus poetas e fazedores de anedotas: o Tenente Danilo Marques Moura!COMENTÁRIO deste blogueiro:

E ESTE é um de nossos muitos heróis. Herói anônimo, um dos muitos heróis esquecidos nas páginas do tempo de nossa história do Brasil. Claro, se fosse norte-americano, isto daria um belo filme, sucesso de bilheteria. Nós, brasileiros, precisamos valorizar mais a nossa gente, as nossas coisas, a nossa história.

(Extraído da Revista Força Aérea, ano 8, edição nº 30 – mar/abr/maio 2003, páginas 52/59. O Autor do texto é Armando de Souza Coelho, que atuou no Teatro de Operações da Itália durante a segunda Guerra Mundial, como 2º Tenente-aviador da Reserva Convocada e foi membro da Esquadrilha Vermelha, com a qual realizou 62 missões de combate).

 

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10 responses to this post.

  1. Posted by João Batista Marques Moura on 28 de maio de 2011 at 20:45

    Oi sou um parente distante do Danilo os Marques Moura se dividiram pelos estados eu sou professor de historia e moro em Bauru São Paulo o que falta para mim terminar minha arvore genealogica é parente que os Marques Moura de São Paulo tem em comum com os do Danilo.
    Lembro que meu avô falava muito dele mas como ele já faleceu fica dificil ir mais profundo gostaria se vc pudesse me informar dos avôs e bisavõs do Danilo para eu ver o ponto de ligação correto.
    desde já obrigado

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    • INFELIZMENTE, amigo João, nada sei, exceto o texto a respeito desse nosso herói brasileiro, que a mídia, o cinema e a história ignoram.

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      • 2012junho – só agora tomei conhecimento deste blog. Tenho encontrado mtos documentos referente a esta fuga.Sou uma das filhas do Danilo e estou pesquisando e reunindo documentação sobre a vida dele. É meu interesse em saber quem é este Marques Moura que vive em Bauru.

  2. Oi, Regina Maria!
    Fiquei feliz com a sua visita e muito mais pelo seu comentário. Tomei a iniciativa de transcrever neste blogue a saga de Danilo Marques Moura, por considerá-lo um dos nossos heróis. Infelizmente pouca gente valoriza os nossos próprios heróis, preferindo os norte-americanos dos filmes.
    Se você me permite, farei contato através de e-mail.
    Fique com Deus.

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  3. Oi regina prazer meu nome é joão sou professor de Historia, a familia Marques Moura em Bauru é bem grande. Sou neto do João Marques Moura e meu bisavo morreu de malaria na revolução de 1932. O que quero saber é nosso grau de parentesco, parente somos distantes pq o que que faz o nosso nome é a junção de Marques e Moura

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    • Posted by Regina Maria Moura on 23 de outubro de 2013 at 20:52

      Já respondi que não temos parentesco, pois os Marques são da família da minha avó paterna e o Moura é do meu avô paterno. Só os filhos deles são de origem Marques Moura. As pesquisas de árvore genealógicas são bem complicadas e difíceis. abrs.

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  4. Posted by Jonathan Costa on 21 de outubro de 2013 at 18:44

    Olá, acho realmente a história deste aviador super interessante, sou cineasta e pretendo um dia realizar um filme sobre esse grande herói que temos que não é ainda reconhecido pelo público e pela mídia, mas futuramente pretendo escrever um roteiro cinematográfico sobre essa aventura dramática que Danilo compôs na Itália.

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  5. Posted by Regina Maria Moura on 23 de outubro de 2013 at 20:54

    Sou filha dele e estou pesquisando a vida dele para escrever e documentar um livro sobre ele. Querendo entrar em contato é só acionar o http://www.sentandoapua.com.br ou meu e.mail.

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  6. gostaria de saber mais sobre o danilo marques moura (pra mim um heroi esquecido)grato atenciosamnte vitorino cardamone

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