A SAGA de Danilo (parte 5)

…continuação da postagem do dia 24fev.2011.

Danilo e um dos italianos que tanto o ajudaram

… Ainda não tinha achado um meio de atravessar o Pó. Conta ele, muito ingenuamente, que te4ve o seguinte raciocínio, que mais parece anedota, mas que é fato. Resolveu seguir aquela margem do rio, sempre pelo lado norte e sempre para oeste, rumo à nascente do rio, onde naturalmente ele seria muito mais estreito, e então atravessá-lo seria facílimo. Talvez com um pulinho… E o Pó nascia quase na França… Para ele isso tudo eram “pequenos detalhes técnicos”… Com este propósito, foi caminhando para a “nascente”… Caminhou um bom pedaço naquela direção. Os seus joelhos doíam. A distância começou a parecer maior. Sentiu-se cansado e a “nascente” não aparecia… O dia terminava. O almoço não tinha sido grande coisa, o estômago reclamava, o frio parecia aumentar. No dia seguinte começaria mais cedo. Havia uma aldeia próxima, e ele seguiu naquela direção. Na terceira casa à beira da estrada, estava um italiano, igual a milhares de outros, rachando lenha. Achava a sua lenha e ato contínuo empilhava-a ao seu lado. O “Índio”, cansadíssimo, caminhara todo o dia, com a moral abatida, desanimado, sentou-se ao lado do monte de lenha rachada, a observar o italiano por longo tempo. O machado subia e descia compassadamente e  os pedaços de lenha iam sendo jogados para a pilha ao lado. Aquele mister doméstico fê-lo recordar os seus, lá no Rio Grande do Sul, que cada vez mais tinha dúvida se iria revê-los, mas que ao mesmo tempo davam-lhe forças para lutar contra aqueles obstáculos. Além disso, o dia do pagamento aproximava-se… Tinha de chegar a tempo.

Os minutos se passaram. Nenhum dos dois disse uma palavra. O machado subia e descia sobre a lenha e as achas aumentavam o monte. Por fim, o italiano perguntou-lhe o que queria. Entrou com a velha história de bombardeado, arruinado etc. e terminou pedindo-lhe um copo d’água, comida e pousada. O lenhador ouviu tudo com a máxima atenção, deu-lhe vinho, comida e água e agasalhou-o em sua casa. O nosso homem procurava responder o menos possível e o “paisá” não insistia cordatamente. À noite brilharam as estrelas no belo céu de uma noite de inverno italiano, e com muito mais intensidade brilhou a grande estrela do nosso rio-grandense, na pessoa daquele camponês acolhedor. Chamando-o, o italiano disse-lhe simplesmente que acreditaria na sua história, se não fossem as suas botinas… O gaúcho sentiu-se perdido: fora descoberto! Breve seria entregue aos alemães, foi o que pensou naquele instante desanimador. O italiano então desfez-lhe as dúvidas. Estava em boas mãos. Nada tinha a temer. Abriu o jogo – disse o gaúcho. Naquele homem ignorado, com sua função de pedreiro de aldeia pobre, residia mais um dos muitos heróis anônimos daquela guerra.
Contou-lhe então o “Índio” toda a sua história desde a sua queda. O pedreiro tranqüilizou-o, dizendo-lhe que fosse dormir. Pela primeira vez, em muitos dias, teve uma cama com lençóis e colchão macio e reconfortador. Na manhã seguinte tratariam do seu caso.
Acordou já bastante tarde naquela manhã. O corpo doído e cansado bem que merecia um “abuso” daquela cama confortável, depois de tantos dias dormindo na palha fria das cocheiras. A cama era até melhor do que as que usava em Pisa. Ainda “cansado” de dormir bem, levantou-se desacostumado e tonto. Desceu, encontrando-se pela primeira vez com a família do italiano, que não o vira chegar. Nada lhe disseram, parecendo que a sua presença ali era a coisa mais natural do mundo. Fora promovido a fratello que chegara do norte. O seu protetor saíra para o trabalho cedo. Deram-lhe de comer e não permitiram que os ajudasse em coisa alguma. À noite o italiano voltou do trabalho, dizendo-lhe que estava cuidando do seu problema, que tivesse paciência que tudo sairia bem. Andara sondando a melhor maneira de conseguir a sua travessia, confiando-lhe ainda, à guisa de consolo, que não era a primeira vez que fazia aquela “mágica”. Naquela casa já haviam estado outros em situações idênticas à sua. Mesmo muito depois de acabada a guerra, o gaúcho não conseguira compreender bem o italiano. O camponês nunca deixou transparecer se fazia aquilo por parte de alguma organização especializada, ou se fazia tudo por simples altruísmo. O homenzinho não parecia de modo algum agente na retaguarda alemã, dada a sua simplicidade natural de agir, lutando com todas as dificuldades comuns aos italianos, vivendo do produto de sua horta no campo de sua casa, comendo o macarrão que sua mulher fazia com a escassa farinha que conseguia. Ou o homem era um agente, um perfeito artista na sua perigosa missão, ou então um abnegado samaritano que enfrentava o risco com toda a família com uma coragem indescritível. Em resumo, de maneira ou de outra, o pedreiro era um homem de grande valor na sua existência heróica e ignorada.
O nosso colega ficou com este herói durante uma semana, recuperando-se para enfrentar o resto da jornada. Finalmente foi informado de que atravessaria o rio naquela tarde, na hora em que os trabalhadores que voltavam às suas casas na outra margem do Pó costumavam fazer a travessia. Era a ocasião mais propícia. Vestiu a sua roupa velha, muniu-se de uma nova broa debaixo do braço, despediu-se de todos e foi com o italiano até o ponto de embarque. O italiano dera-lhe uma bicicleta velha e enferrujada, que necessitava urgentemente de lubrificação. Uma máquina bem antiga. Chegaram à prancha de embarque e sem dificuldade tomaram lugar na balsa. O pessoal da fiscalização já estava industriado pelo italiano. Com umas garrafas de grappa ou conhaque tudo se conseguia daqueles alemães já cansados de tanta guerra. Por precaução, durante a travessia, o italiano fez com que as botinas do nosso patrício ficassem escondidas debaixo da bicicleta e do seu casaco, para não despertar a atenção dos outros italianos. Em pouco tempo estavam na outra margem. Caminharam juntos até o primeiro povoado. Ali tiveram que se separar e cada qual seguiria o seu caminho. O incompreensível italiano fizera o que estivera ao seu alcance, ou quem sabe cumprira a sua missão, e eu não ficaria admirado se algum dia viesse a saber que aquele rústico pedreiro era um coronel ou outra patente qualquer do serviço secreto. Nunca chegamos a saber ao certo. Deixou o gaúcho. Ele nada mais poderia fazer.
Dali em diante o nosso patrício estava entregue novamente à sua sorte, que não era pequena. Estava só outra vez. Montou na bicicleta e começou a pedalar na estrada principal para Ferrara. O rio ficou para trás. Menos um obstáculo. Pedalou algumas horas, e em breve seus músculos se ressentiram com o exercício, entrando em “pane” novamente. Parou para descansar à beira da estrada. Sentindo-se melhor, voltou ao caminho. Pedalando e empurrando a velha máquina foi em direção a Ferrara. Estava bem mais próximo do front e o movimento de soldados-sentinelas alemães era bem mais intenso. Dispôs-se a redobrar o seu esforço, descansando o mínimo possível. Cada quilômetro que andava custava-lhe enorme sacrifício e sustos maiores. A cada momento esperava ser descoberto, mas conservando a sua velha maneira de pensar, ia descendo para o sul enquanto não o prendiam. Se o prendessem e nada acontecesse, provavelmente seria transportado para um campo de concentração muito ao norte, e a priori já pensava em escapar, mas a possibilidade de ser preso o desgostava profundamente, porque teria de voltar a fazer o mesmo “passeio”. Ora, um homem com este espírito merecia o êxito que obteve. Foi caminhando com sua bicicleta, e contra todas as expectativas, que conseguiu novamente atravessar uma cidade, Ferrara, quartel-general alemão, sem que nada lhe acontecesse. Uma vez achou-se  na estrada principal rumo a Bolonha, que na época ainda se encontrava relativamente afastada do front, porém não muito longe. Bolonha era a última cidade importante e grande do seu itinerário de fuga.
Começava a perder as esperanças de encontrar os “homens” da organização de fuga que o “inglês” mencionava nas aulas. Até então, tudo o que conseguira fora com o seu próprio esforço excepcional. Adotando os mesmos processos truncados que usara desde a sua queda, alcançou aquela cidade. Mas nada de ser encontrado, quer pelos alemães, quer pelos tais da “organização”. Vagou pela cidade uns dias e, nada conseguindo, resolveu que ali nada arranjaria, e que o melhor seria seguir o seu caminho. Deixou Bolonha, então. Não era mais possível continuar andando para a frente de combate, pois as estradas eram intensamente vigiadas e havia fiscalização constante de documentos das pessoas que transitavam nas proximidades. Sua única alternativa, então, era derivar para Oeste. Foi o que fez. Com sua bicicleta, tomou aquela direção. Na estrada, cansado, ia pedalando a pesada máquina quando por ele passou uma carroça muito bem tirada por dois animais. Recordando dos seus tempos de garoto, e, também porque o cansaço era grande, conseguiu, pedalando com mais vigor, alcançar a carroça e deixar-se rebocar, a ela agarrado pelo braço esquerdo. A coisa assim era muito mais fácil e a bicicleta já não era tão pesada. O dono da viatura não se opôs, absolutamente, à sua presença de “carona”. Tudo ia às mil maravilhas, e se continuasse assim alcançaria o dia de pagamento que já estava próximo. Ao trote dos cavalos, aconteceu de a carroça ultrapassar um soldado alemão, que também de bicicleta seguia para a mesma direção. O soldado, ao ver o gaúcho pendurado do lado oposto da carroça, achou que a idéia não era má. Pisou com mais força a sua máquina, alcançou-os, e também tomou a sua “carona” do outro lado. O alemão, do lado direito, e o brasileiro, do esquerdo. Não trocaram nenhuma palavra e continuaram agarrados ao reboque por muito tempo. O nosso homem admite não ter gostado muito da companhia inesperada, e ter ficado um pouco sobressaltado com o fuzil que o soldado usava à bandoleira. A companhia era desagradável, mas nada podia fazer. Não se dando por achado, não largou do reboque. Já se conformara com a presença indesejável do novo “carona”, e de vez em quando arriscava olhar para ele. Numa dessas vezes, na última, viu uma coisa que constituiu razão essencial para que deixasse imediatamente de gozar as vantagens do reboque. A manga do seu casaco subira com a posição do seu braço que agarrava a carroça, deixando a descoberto o seu relógio, que, pela primeira vez notava que o conservava no pulso. Sentiu-se gelado. Se o alemão o visse, estaria perdido. Também não poderia abandonar de repente o seu lugar no meio de uma estrada em campo aberto. A sua sorte era mesmo muito grande. Naquele impasse, eis que surge um cruzamento providencial. Seria ali que abandonaria a carroça.

Placa em homenagem a seu irmão Nero Moura na BASC

Chegados ao cruzamento, largou do reboque dobrando à sua direita, da maneira mais natural possível, como se ali fosse realmente o lugar a que se destinava. Ousadamente ainda se deu ao “exagero” de gritar um “grazzie” ao carroceiro que lhe respondeu com um “prego” (não há de que). Por algum tempo pedalou pela estrada secundária, que desconhecia, e quando achou que era suficiente, e fora de vista da carroça, voltou à estrada anterior, que era a principal, sua velha conhecida dos ares.
Naquela noite dormiu ao relento, não conseguindo alimento algum, porque a noite o alcançou no descampado. Não conseguira chegar a nenhum povoado nem casa de campo. Mesmo que tivesse conseguido encontrar alguma casa isolada por aquelas paragens, confessa que não se sentia muito animado a cruzar aqueles campos que, por estarem próximos à frente de combate, poderiam já estar minados. Ficou mesmo à margem da estrada, onde pretendia dormir sossegado. Tudo ilusão. Aproveitando o escuro da noite, os alemães enchiam a estrada com suas viaturas em comboios barulhentos, que, com as luzes apagadas, movimentavam-se vagarosamente. Pela primeira vez, o gaúcho testemunhou o valor da camuflagem dos inimigos. Assim que a luz do dia começava a apontar, todos aqueles caminhões desapareciam como que por encanto, nas cocheiras das fazendas ou debaixo de redes de camuflagem muito bem dispostas. Rezou para que aparecesse um “Beaufort” inglês para fazer uma “faxina” naquela estrada. Nada aconteceu, e passou a noite sobressaltado com o movimento dos barulhentos caminhões “diesel” alemães.
Continua…
PENSAMENTO do dia:
‘SEMPRE há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura.’ F. Nietzshe
ESTEJAM sempre com Deus e…

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!!!

Anúncios

DEIXE um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s