A SAGA de Danilo (Parte 4)

…continuação da postagem do dia 21fev.2011

Um desses Thunderboldt era pilotado por Danilo

Continuou caminhando para o Sul. Sempre na estrada principal. Chegou a Padova. Cidade importante, entroncamento ferroviário e de estradas de rodagem que derivam para Vicenza, Mestre e Veneza. Devia evitá-la, contornando-a. O “inglês” dizia que era assim. Mas ele não era da mesma opinião. Atravessou-a de ponta a ponta sem conhecer as ruas, na direção que julgou (e acertou) que o conduziria à saída da cidade, com destino ao Pó. Encontrou muitos alemães em seu caminho pela cidade. Não se preocupou com eles e eles tampouco com a sua figura. Havia muita gente esquisita vagando pelas estradas e cidades italianas. Considerou-se um destes. Já estava mais seguro de seu papel de italiano “sbagliato, ruvinato, destruto, mallato” e muitos outros adjetivos italianos que ele enrolava na sua história, mais enrolada ainda por sua língua ferida, mas que sempre lhe conseguia comida e lugar para dormir. Parece que sem atropelos atravessou Padova. Veio descendo rumo ao Sul, sempre pela estrada principal. Sujo, mal alimentado, barbado, com a língua inchada na boca, sua aparência era mesmo de um pobre italiano abandonando a cidade natal, em busca de outra em melhores condições, ou a procura de parentes que sempre dizia possuir. As estradas enchiam-se desses pobres coitados que, não mais podendo servir aos alemães em suas fábricas, ou outros trabalhos, procuravam suas casas, encontrando-as às vezes, quando ainda não haviam sido bombardeadas ou ocupadas. O êxodo era constante em todas as direções. Entre eles ia o nosso gaúcho caminhando para sua base. O dia do pagamento se aproximava e, assim, tinha que andar mais depressa.
Caminhando sempre, enfrentando situações delicadíssimas, privando com os estropiados das estradas, dormindo em estábulos mal cheirosos, mas que não o aborreciam muito, pois o máximo que poderia acontecer era ficar um pouco mais sujo, e o seu cheiro, também, há muito que não era o de rosas. Sempre pela estrada principal, deixou para trás Monsélice, Stanghella, Rovigo (cidade fortemente defendida e vigiada, em virtude de ali existir uma fábrica de um gás qualquer, que era usado como combustível em motores a explosão), Arqua e Polesella, até que finalmente encontrou o rio Pó.
De acordo com as declarações do próprio “Índio”, o Pó constituiu para ele o primeiro problema real, que, em princípio, lhe pareceu insolúvel. Com o inverno, o rio, ainda que não congelado, mantinha nas margens uma crosta fina de gelo, que era indício seguro da baixa temperatura das águas. As pontes há muito tinham sido bombardeadas ou danificadas, a ponto de não poderem ser utilizadas. Mesmo que existissem, de nada adiantariam ao nosso homem, pois estariam controladas por sentinelas, que em suas cabeças verificaram a documentação de identidade, o que o nosso gaúcho não possuía. Assim, alemães e italianos atravessavam o rio em balsas, identificando-se ao embarcarem. O problema pareceu-lhe sem solução. É, não havia mais jeito. Ali parecia ter sido inútil toda a caminhada do nosso companheiro. Grande parte da distância já havia sido vencida, e no raciocínio fácil do fugitivo só existia o rio, mais uns muitos quilômetros e uns montes, os Apeninos. Naquela situação, o gaúcho sentiu-se praticamente perdido, porém não se desesperou, confiando sempre na sua estrela, que não era pequena. Chegou até a margem do rio, avaliou a embrulhada em que se metera e resolveu não se precipitar. Subiu no barranco que marginava o Pó, observou o movimento, inteirou-se das balsas que cruzavam o rio e das sentinelas nos pontos de embarque. Ficou meio confuso. Sentou-se para melhor decidir o que fazer e para descansar, pois já caminhava com grande sacrifício havia alguns dias, em virtude de estar com os dois joelhos inchados pelo esforço de suas marchas. Um dos sentinelas, vendo-o ali sentado, disse-lhe alguma coisa em alemão. Não respondeu, não só por não haver entendido, como também por precaução. O soldado não deu importância ao fato. Considerou-o mais um italiano sem ocupação, um dos muitos que percorriam as estradas. Vendo-se notado, o nosso gaúcho achou melhor descer o barranco e voltar à estrada que marginava o rio. Uma vez na estrada, procurou um lugar afastado no campo, para poder melhor descansar e tomar uma iniciativa. Encontrou. Deitou-se no capim entregando-se à resolução do problema. Contrariando os seus hábitos, pensou longamente. Era isso mesmo: compraria um cavalo e como bom gaúcho atravessaria o rio agarrado ao animal. Animou-se um pouco. Teria que tentar o golpe à noite. Mas e depois? A água estava fria. Se tivesse êxito e se não congelasse na água, teria que esperar sua roupa secar, pois do contrário notariam que estava molhado, acarretando suspeitas. E explicações não poderia dar… Não. Não poderia cruzar o Pó daquela maneira gaúcha. A primeira solução era inviável. Tinha que achar outro modo para resolver a questão. O diaq já ia a meio e sentiu fome. Levantou-se e começou a seguir a estrada marginal em direção a Oeste. Na primeira casa de camponeses que encontrou, pediu água e comida, contando a história de sempre, em mal italiano, atrapalhado por sua língua ferida. Com muito boa vontade, eles procuravam entendê-lo, considerando a infinidade de dialetos existentes, muitos dos quais grande parte dos nativos desconheciam. Talvez por esta razão, ou comovidos pelo estado lastimável do nosso patrício, aceitavam a história sem restrições. O nosso homem seguia mais ou menos a mesma seqüência na sua aproximação: primeiro escolhia pela “pinta” o “paisá” com menos aparência de fascista ou germânico,  e então entrava com o “enredo”.
– Buona sera, paisá.
Aguardava a resposta do italiano. Se era bem acolhido, o que geralmente acontecia, pois aquela boa gente raramente negava um cumprimento, continuava com a conversa. Se não, prosseguia o seu caminho. Na primeira hipótese entrava com a história.
Por favor, um copo d’água.
Aquela gente raramente usava este líquido, a menos que fosse para tomar banho. Davam-lhe sempre um copo de vinho, que algumas vezes (quando o estômago estava muito vazio) fazia com que exagerasse no seu papel de italiano, com em uma das vezes em que, depois de beber o vinho, resolveu fazer a barba em uma barbearia da vila. Entrou. Encontrou alguns oficiais subalternos alemães, que também aguardavam a vez de serem barbeados. Esperou a sua, fez a barba, assustando-se muito mais tarde com o que fizera. Depois, naturalmente, que o efeito do vinho passou… Voltando à história da “aproximação”: o gaúcho pedia a seguir um pouco de pão. Contava que a sua casa havia sido bombardeada pelos ingleses – para aqueles camponeses todos os aviões ou outra coisa que bombardeasse era inglesa. Ignoravam, na maioria das vezes, a existência de outras forças aliadas na Itália, o que a propaganda inglesa em muito contribuía, sem considerar o formidável serviço “subterrâneo” inglês por trás das linhas alemães – que ele era um pobre diabo, arruinado, perdido naquele caos de guerra, mostrava a língua machucada, o que muito comovia aqueles bons camponeses. Os seus documentos haviam sido perdidos no incêndio de sua casa, e agora ia para Bolonha onde tinha parentes (a cidade onde tinha parentes movia-se constantemente para o Sul). Ao terminar a sua história, geralmente já tinha pousada para a noite quase garantida. Mais uma vez nesse manhã, às margens do Pó, conseguiu o almoço, tomou uns copos de vinho de fabricação doméstica, fruto da tradicional hospitalidade campesina, e, confortado com a refeição, prosseguiu o seu caminho.
Continua…

PENSAMENTO do dia:
‘QUANDO a gente pensa que sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.’ Autor desconhecido
LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!!!
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